Garoa


Sabe, hospitais são um saco, sério, você fica lá, deitado e monitorado 24 horas por dia tendo total imobilidade a respeito de sua independência. Eu havia acordado algumas horas depois, suando, numa cama do hospital, os fios de meus cabelos grudados um no outro com o suor que escorria de minha testa. O sonho com Emily realmente havia sido perturbador.

- Pai, sério, eu to bem. Você pode ir para a sua viajem, eu sei me cuidar. - Eu dizia isso ao homem que vestia um terno preto ao meu lado, o meu pai, o homem que me salvara na noite passada.

- Sabe, sabe sim. - Disse ele num tom irônico. - Por isso que te encontrei sangrando ontem, não é mesmo?

Eu virei o rosto, deitando-o sobre o travesseiro branco.

- Filho, você não pode negar que coisas vêm acontecendo desde que você começou a namorar essa garota.

- Não fale sobre ela com tamanho desdém, pai.

- Eu sei, eu sei, você a ama, mas não pode dizer que estou errado.

Que droga, odeio quando ele tem razão.

- E o que você quer que eu faça, pai? Desista de tudo? Essa é a única escolha que eu tenho?

- Eu só quero o seu bem.

- Não, pai, você só quer que sua consciência fique tranquila enquanto viaja. Você nem ao menso leva em consideração o que eu sinto por ela! - Senti meu coração pulsar mais forte.

- Não trate-me nesse tom, Freduardo.

- Então realmente se importe comigo.

- Eu me importo! - Ele socou o sofá atrás dele.

Naquele instante, no vasto quarto branco do hospital, minha mãe entrou, empurrando a porta que rangeu levemente.

- Ah, meu filho! - Ela correu e me abraçou com tanta ternura que eu parecia sentir todos os sentimentos dela a meu respeito, algo que dificilmente meu pai conseguia fazer.

- Tchau, filho. - Ele disse, arrumando seu terno e começando a sair pela porta que minha mãe entrara.

- Tchau, pai. - Eu respondi no exato instante que ele bateu a porta.

Minha mãe ajeitou suas roupas - um casaquinho salmão com uma blusa branca e uma calça marrom - e sentou-se na mesinha de metal no lado direito da minha cama.

- O que está havendo, filho?

- Não prefere sentar no sofá? - Apontei com a cabeça, fazendo o maior esforço que eu conseguia para tentar mudar de assunto.

- Acha que eu não sei quando você está tentando mudar de assunto?

Eu bufei, por que as mães são tão detalhistas e conhecem tanto as coisas ao seu redor? Elas as vezes até me assustavam.

- Não sei, mãe. - Eu me acomodei na cama. - Parece que o pai nem liga para a minha opinião, ao que eu sinto e ao o que eu quero fazer.

Minha mãe sorriu e pegou minha mão.

- Ele se importa sim.

- Isso não me confortou nada. - Respondi. - Desculpe, mãe.

- Não tem problema, eu também nunca tive lá uma reação muito boa com meu pai.

- Acha que isso é genético então? - Tentei aliviar o clima.

- Não, querido, acho que depende de cada um nós. Seu pai está com muita coisa na cabeça e, além disso, ele nunca foi muito crente ao amor.

- Mas, veja, vocês já estão casados a tanto tempo.

- Sim, meu filho, há sete anos nós nos amamos, mostrando assim, que até na rocha mais dura, a água escorre.

- Ah, mãe, você e suas metáforas.

- Elas sempre te ajudaram em alguma coisa, não diga que não pois eu não tolero mentiras. - Então ela deu uma risadinha, seguida pela a minha.

- Eu te amo, filho.

- Também, mãe.

Quando menos esperava, ouço um baque da porta e uma voz inesquecível.

- Fred! - Vejo Emily entrar, praticamente correndo, no quarto branco. Ela se abaixou e me abraçou.

- Bom, eu vou deixar vocês sozinhos por um tempo. - Minha mãe disse, mostrando à Emily que ela estava ali.

- Oh, me perdoe Sra Chase.

- Não se preocupe, querida. - Então ela saiu e deixou-nos sozinhos.

Eu olhei para ela, totalmente ofegante, vestida com um shorts preto com sandálias beges e uma regata roxa, seus óculos de sol sobre a cabeça.

- Emily. - Eu disse com certa melancolia na voz.

Ela começou a chorar.

- Ei, ei, ei, não precisa chorar.

- Foi ele não foi? - Ela disse por entre o choro.

Eu abaixei a cabeça e não respondi.

- Fred! Foi, Hugo, não foi? - Ela se exaltou a ponto de eu sentir a raiva transpassando a garganta dela.

- Sim. - Disse sem saber o porque de estar me sentindo envergonhado naquela hora.

- Aquela vaca estava certa!

Emily pegou uma garrafa de água de cima da mesinha e bebeu-a inteira.

- Quem?

Então, mais uma vez a porta se abriu, revelando Heloise, parada ao lado do armário na parede.

- Caramba, esse quarto está movimentado hoje.

Heloise andou até nós, cabisbaixa.

- Diga a ele o que me contou, Heloise.

Ela olhou para mim, seus grandes olhos reluzentes cheios de magoa e arrependimento. Ela usava uma blusa de manga curta vermelha e uma saia florida, além de rasteirinhas também vermelhas e pequenos brincos dourados.

- Ma....Marco mudou Hugo.

- Fala direito. - Disse Emily, impaciente.

- Amor, calma.

- Você está defendendo ela?

- E se eu estiver, Emily, qual o problema?

- Qual o problema?! - Emily disse como se aquilo fosse um absurdo. - O único problema foi que essa.....coisa - ela apontou para Heloise - ajudou a destruir nossas vidas.

- Mas se ela está aqui, por que não ouvi-la com respeito? Se ela está aqui, é por uma razão.

Emily calou-se, brava de certa forma.

- Heloise, tente falar mais claramente, por favor. - Voltei minha atenção a ela.

Emily ficava incomodada com a gentileza que eu estava assumindo com Heloise.

- Marco,, mudou Hugo, Fred. Ele.... fez um tipo de ritual...

- Passagem. - Interrompeu Emily, corrigindo-a.

- Isso. - Ela retomou da onde havia parado. - Ele declarou que Hugo é o seu sucessor ao cargo de chefe da máfia.

Aquilo atingiu-me de certa forma, as peças iam se encaixando aos poucos.

- Por isso ele veio até mim ontem a noite.

- Obviamente. Disse Emily. - Não sei se poderemos continuar com isso, Fred.

- Se formos deixar todo os imprevistos impedirem nosso amor, não teremos nada.

- Imprevistos, Fred? Você chama esse ataque de imprevisto? - Ela lacrimejava. - Você poderia ter sido morto, como eu ficaria, Fred? Eu poderia ter perdido o maior amor que eu já senti na vida. - Ela sentou-se na beirada de minha cama e apoiou a mão em minha perna. - Eu não aguentaria ser destruída.

- O amor nos deixa mais egoístas, - respondi - e cegos muitas vezes.

- Fred , eu..... - Heloise tentou falar algo, mas não lhe ocorriam palavras. - Eu sinto muito. - Ela disse, virando-se e, antes de sair do quarto, completou: - Mas eu ainda tenho de manter meu papel, Marco não poderá descobrir que eu estou tentando proteger vocês agora de um erro que eu cometi muito antes. - Ela fungou. - Sinto muito. - Então ela fechou a porta e saiu.

- Hey, você sabe se eles já estão acabando? - Minha mãe perguntou à Heloise, do lado de fora do quarto, num dos corredores principais.

- Ah, provavelmente. - Disse Helô, da forma mais carinhosa possível e, depois, continuou seu caminho, indo para a casa de Marco, onde Hugo estava àquela hora, ela deveria esconder todos os seus sentimentos e repúdios e continuar a fingir ser a boa e ingênua namorada.

Minha mãe voltou sua atenção para a porta e, na hora, se assuntou. Emily saiu do quarto, chorando, enxugando as lágrimas que borravam suas bochechas rosadas.

- O que houve, minha querida? - Perguntou minha mãe surpreendida.

- Foi um prazer conhecer a senhora. - Disse Emily, de forma acanhada.

Minha mãe se assustou, o primeiro pensamento que lhe ocorrera foi o de ter acontecido algo comigo e, assim,, correu para dentro do quarto gritando:

- Fred, filho, está tudo bem?

Ela chegou até minha cama, vendo-me chorar.

- Filho, há anos que não te vejo chorar, diga-me, o que foi?

Eu afastei minhas mãos dos olhos vermelhos devido ao choro e respondi:

- Ela não me ama mais. - Eu cai no choro novamente. - Ela me deixou. - E, naquele monótono quarto de hospital, um choro quase inaudível quebrava um coração antes esperançoso.


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Quando Emily chegou em casa, ela não tinha mais nada, não havia mais esperança, sua alma havia sido arrancada de seu peito e agora só lhe sobrava tristeza. Ela bateu a porta de seu apartamento e caiu sentada no chão, com as pernas encolhidas e o rosto todo borrado.

- Nossa, voltou cedo. - Disse Marco, cinicamente, olhando para ela de cima para baixo.

- Vá embora.

- Olhe como fala comigo, garota.

Ele andou até parar na frente dela com um copo de conhaque em sua mão.

- Você ganhou, pai, eu não tenho mais nada, não me resta mais amor.

- Awn, que dó. - Exclamou ele, sarcasticamente.

Ela levantou e gritou para Marco:

- Eu tenho uma vida, pai, eu sei quem eu sou, eu sei o que eu quero e você não vai me impedir de conseguir. - Então ela derramou o copo das mãos de Marco, que apenas a fuzilou com o olhar.

- Ui, bravinha né?

- O que você quer, Marco? - Ela começou a assumir um tom de fraqueza na voz.

- Um show, Emily, um show que até a sua mãe iria gostar.

- Não fale dela.

- Por que não? Aquela vadia era minha, igual você é a do Freduardo.

Emily enrubesceu e tentou virar um tapa na cara de Marco, porém o mafioso já esperava por isso, era aquilo que ele queria, ele apenas segurou o pulso dela e apertou.

- Já passou da hora de alguém perceber quem é que manda nessa casa! - Ele berrou as últimas palavras, jogando Emily para o lado fazendo-a cair ao lado da mesa de centro da sala.

Ela tentou se levantar e ele chutou-a para trás, fazendo-a cair de costas na mesa de centro, que se estilhaçou ao entrar em choque com o corpo dela.

Ela abriu os olhos momentaneamente, sua visão estava turva e seus ouvidos parcialmente entupidos, seus cabelos loiros dourados cheios de pequenas partículas de vidro.

- Você...... não tirará, a minha vida, o meu amor. - Ela disse, sua voz embriagada pela dor que abrangia suas costas.

- Isso! É isso que eu quero! - Ele começou a dizer insanamente. - Eu quero ver toda essa sua ira esvair de seu corpo e você se tornar apenas mais uma cadelinha. - Ele agarrou o pescoço dela. - Ouse me desafiar novamente, ouse...

Então tudo aconteceu drasticamente. Emily assistiu Marco ser golpeado na cabeça por Hugo, que segurava um vaso verde nas mãos, provavelmente o que ele usara para atingir Marco e, de repente, seu irmão, Pietro, e Heloise, a ajudavam a se levantar.

- Você tem que sair daqui! - Gritava o irmão mais novo de Emily, que vestia uma blusa azul com detalhes em preto e um shorts de sarja. - Vá para a casa do nosso tio.

Emily ainda estava meio tonta.

- Sai daqui!

Então Pietro sentiu a mão pesada de Marco segurar seu ombro e virar-lhe um soco.

- Essa desgraça de família, não tem um que preste! - Então Marco direcionou um soco na direção de Emily.

- Não! - Gritou Hugo e se colocou na frente das garotas, levando o soco diretamente no rosto, deixando-o zonzo, porém ele era ágil e se recompôs rapidamente. - Marco, as coisas só irão piorar.

Marco voltou sua atenção a Hugo, o qual possuía a sobrancelha cheia de sangue devido o machucado no supercílio.

- Heloise, você tem que se esconder, vá para algum lugar, não deixe que ele te veja me protegendo. - Sussurrou Emily parecendo esquecer toda a raiva que sentia por aquela garota.

Heloise virou-se e saiu correndo, a saia batendo em suas cochas a cada passada que dava, ela entrou nos corredor dos quarto e viu uma porta mais afastada da briga, e foi nessa que ela se escondeu.

- Ah meu deus. - Ela exclamou, vendo em qual quarto havia ido parar.

Enquanto isso, Emily ainda estava paralisada, não conseguia sair do lugar, ela agora assistia Hugo pular em Marco e derrubá-lo no chão, como alguém tão pequeno poderia ser tão forte?

Pietro se levantou, seu lábio mais vermelho do que nunca devido um corte, e entregou um papel na mão dela dizendo:

- Talvez seja mais seguro do que qualquer lugar.

Ela olhou para o papel e leu o endereço mentalmente.

- Vá! - Ele disse.

Ela abraçou o irmão e sussurrou em seu ouvido:

- Eu te amo.

Ela olhou com certa superioridade e desespero para Marco e, então, bateu a porta de sua casa.

- Não! - Ela ouviu ele gritar enquanto esperava o elevador.

- Anda! - E, como se fosse mágica, a porta do elevador se abriu. Ela entrou no mesmo e tentou desacelerar sua mente, seu coração e sua aflição.

Ela chegou até o sub-solo e pegou o carro azul-petróleo de Pietro, já que as chaves sempre estavam guardas no porta luvas. Ela saiu da garagem e começou a dirigir, as veias em seus braços quase pulando e seu coração completamente arrasado.

A garoa que caia na rua só servia para atrapalhar ainda mais os pensamentos da garota, confusos entre a realidade e a fantasia, entre a paixão e a perda e, naquele momento, o amor nunca havia sido tão frio.

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- Droga, droga, droga! - Sussurrava Heloise dentro do quarto de Marco.

O quarto de Marco possuía as paredes de um verniz forte, possibilitando ainda a sensação de sentir o cheiro de tinta fresca, havia um quadro em cima da cama dele, no qual estava pintado à tinta a óleo, um corvo com asas tão negras quanto a morte, não importava para onde você andasse, os olhos do pássaro lhe seguiam, isso deixava qualquer um completamente desconfortável.

"Quem deixaria um quadro desses aqui?" Pensou a garota curiosa.

Ela andou até o outro lado da cama e olhou o quadro atentamente, percebendo que ele estava mais afastado da parede do que deveria. Ela segurou o quadro e jogou-o sobre a cama, achando um pequeno quadrado na parede, no qual havia uma caixa de madeira e uma arma, o que fez Heloise temer ainda mais Marco.

Ela pegou a caixinha de madeira, na parte superior estava escrito:

Farinazzo's

A melhor comida italiana.

Ela achou isso muito estranho e resolveu tirar uma foto. Ela guardou a caixinha novamente no quadrado escondido da parede e colocou o quadro na mesma posição, arrumou suas roupas e, neste instante, ela percebeu que tudo havia ficado silencioso, não ouvia-se mais a voz de ninguém nem barulhos de briga.

Heloise correu até a porta e a abriu, dando de cara com Marco, fumando um charuto entre os grossos lábios.

- Posso saber que momento oportuno lhe fez entrar aqui?

- Eu.... - Heloise travou, sua expressão não transmitia nada mas, por dentro, ela estava implorando por perdão. - Eu confundi os quartos. Hugo havia me dito para buscar as roupas que ele esquecera no quarto, mas ele não me disse qual deles,então resolvi começar do último para checar todos. - Ela realmente sabia mentir muito bem, depois que ela começou a contar a história ela parecia ter certeza de que aquilo realmente havia acontecido.

- Vá embora, Heloise.

Marco estava com o olho começando a ficar roxo.

- Tente controlar suas emoções, senhorita - Ele começou a entrar em seu quarto disse: - Ah, e se você achar que tem algum direito nesta casa, ou qualquer direito na vida de poder falar o que acontece ou aconteceu aqui dentro dessas paredes, saiba das consequências que estarão por vir.

Então ele bateu a porta atrás dela e entrou de uma vez em seu quarto.

- No que será que ela mexeu? - Marco começou a inspecionar seu quarto minuciosamente.

Ele andou até o lado da sua cama e checou se o que estava atrás do quadro havia permanecido intocado. Ele pegou a caixa-convite de seu irmão para visitar seu restaurante e a abriu, revelando inúmeras cartas comprometedoras sobre todos os casos que Marco havia manipulado.

- Ahhh. - Ele gemeu e sentou-se na cama, cansado e aliviado por assim dizer. Quando ele fora ajeitar-se na cama instantaneamente sentiu algo pinicar em suas costas. Marco desencostou-se e achou um pequeno brinco dourado que Heloise usava naquele dia.

Ele soltou uma risada sarcástica e com certa raiva.

- Então a cretina realmente sabe jogar. - disse Marco, a raiva estridente passando por entre seus dentes.

...................

Na rua, Heloise sentia os pingos da garoa molharem seus braços, deixando-os mais gelados do que o normal, ela chegou até uma cafeteria e ficou de baixo do toldo, evitando os pingos que engrossavam-se.

- Ah, Fred, me desculpe. - Disse ela, abraçando os próprios braços, numa tentativa de ter algum conforto num dia chuvoso.








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