Estilhaços de Amor


- Helô, respire. - Disse, enquanto sentia meu corpo tremer. - Não precisa fazer isso. Nós estamos aqui, não precisa fazer isso.

Heloise fungou o nariz, as lágrimas que escorriam por seu rosto caindo na grama e em seus pés descalços.

- Você.... vo.. - a ruiva lutava contra as lágrimas, elas entrepassavam sua garganta causando uma enorme dor ao pronunciar palavra por palavra - você não entende.

- Então - eu pensei rapidamente e completei: - me ajude a entender.

Heloise, que há segundos atrás estivera com os olhos apertados tentando controlar as lágrimas, arregalou os olhos brilhosos e disse:

- Ele está aqui. 

Minhas feições congelaram e eu comecei a pensar sobre quem ela estava falando, obviamente pensei que era Marco, mas preferi dizer:

- Hugo? Sim, nós sabemos que ele está aqui, ele está nos ajudando.

A garota adquiriu uma expressão de raiva.

- Mas ele deveria afastá-los! Vocês não deveriam estar aqui, não onde ele está.

- Mas Hugo está nos ajudando - começou Emily, seu peito arfando mais do que o normal - ele...

- Não estou falando dele! - Heloise interrompeu Lily com um grito agudo. - Ele está aqui. - Ela finalmente disse. - Eu o trouxe aqui.

Eu fiquei ao mesmo tempo indignado e com pena.

- Como assim? - Indaguei.

A garota voltou a chorar.

- Heloise - Emily se aproximou um pouco, ainda que estivesse relutante - você tem que nos ajudar, você está se referindo à Marco, meu pai?

Heloise olhou para Emily.

- Você é tão linda. - Ela direcionou seu olhar para mim. - Vocês ficam tão bem juntos.

Ela começou a mudar de assunto, começou a falar coisas sem nexo, ela não estava bem, e eu estava disposto a ajuda-la.

- Heloise - insistiu Emily - é sobre Marco que você está falando?

Heloise parou, a arma não fraquejava em sua mão, parecia que ela estava acostumada a segurar uma arma.

- Sim. - A ruiva fungou e enxugou um dos olhos com as costas da mão. - Eu o trouxe até aqui! Eu o trouxe até vocês!

Eu andei até ficar frente a frente com Heloise.

- Helô?- Comecei, usando meu tom de voz na forma mais gentil possível ( algo que não estava lá tão habituado). - Isso não é possível, você esteve comigo o tempo todo, você não o trouxe aqui.

Eu sentia a respiração dela acelerada. Ela estava com medo.

- Exatamente. Eu te trouxe até Campos do Jordão, onde Emily estava. Eu os juntei aqui, e depois trouxe Marco até vocês para destruí-los! - A voz dela começou a falhar no final.

Eu agarrei os braços dela.

- Escuta! Você não fez isso! Você não o trouxe aqui, você esteve conosco, você nos ajudou.

Heloise voltou a chorar de desespero.

- Você não entendeu. - Ela respirou fundo, tentando retomar a voz e a postura que sempre estiveram-lhe presentes. - Na noite em que Emily fugiu, eu me escondi no quarto de Marco e encontrei a caixa do restaurante do tio dela - ela apontou para Emily com a outra mão - ele deve ter visto e agora, ele está vindo para cá.

Eu fui atingido por uma dor no peito, algo talvez relacionado com uma decepção. Não estava decepcionado comigo ou com Heloise, estava decepcionado com a vida. Eu soltei Heloise do aperto de minhas mãos.

- Como você tem certeza? - Emily perguntou.

- Como vocês mesmos disseram. Hugo está aqui. Eu liguei para ele e descobri que ele fugiu. Eu o trouxe aqui também e foi ele quem me disse sobre Marco.

Todas as peças se encaixaram como um quebra-cabeça gigante.

- Temos de ir. - Eu disse e olhei para Emily, que concordou comigo no mesmo instante. - Vamos! - Eu segurei o braço de Heloise e a puxei, a fim de faze-la andar conosco e fugir dali.

- Não! - Ela direcionou, agora, a arma para mim. - Você não entendeu. - Ela começou a andar para trás, afastando-se de nós. - Foi minha culpa, minha! - Ela dizia todas as palavras com uma dor suprema. - É por isso que não queria que vocês me encontrassem. - Ela apontou a arma para a própria cabeça. - Porque tudo isso foi minha culpa.

A ruiva colocou o dedo no gatilho, encaixando-o como se fosse uma acessório de uma boneca de porcelana.

- Heloise, não! - Berrei e acelerei meus passos na direção dela.

- Para que viver, se não se pode ser amada? - Ela estava em prantos, a dor da garota aumentava à cada lágrima que escorria por seu rosto.

- Mas... - eu cheguei novamente na frente dela. - Mas eu te amo.

Ela olhou para mim com pena.

- Não, Fred, não se engane. Você já sabe quem é o seu verdadeiro amor.

Eu olhei para trás e encontrei Emily, preparada para me ajudar à qualquer instante.

- Existem diferentes formas de amor.

Heloise abaixou a cabeça e continuou a soluçar com o choro.

- Hey, olha pra mim - eu segurei o queixo dela delicadamente e levantei-lhe o rosto. - É exatamente como o que você me ensinou. O amor são as estrelas, existem de diferentes formas e maneiras. 

- Não - ela lambeu os lábios - existem apenas estilhaços, Fred, apenas isso.

Eu coloquei a mão no pescoço de Heloise, a arma dela começando a afastar-se de meu rosto. As sobrancelhas da garota tremiam.

- Não quando se ama. - Eu abaixei meu rosto o suficiente para ficar perto dos lábios dela e causar-lhe arrepios. - Eu te amo, Heloise, com todos os seus estilhaços. - Então a beijei, delicadamente. Inúmeras pessoas acham que beijar é apenas um desejo sexual, que não envolve sentimentos, mas naquele momento eu os mostrei o quanto estavam redondamente enganados, naquele momento eu mostrava a minha compreensão com Heloise, eu mostrava-lhe que ela não estava sozinha. Não mais.

Eu me afastei dela.

- Você não está sozinha. - Eu a abracei.

Quando me virei, pude ver Emily com os olhos cheios de lágrimas, ela sacudiu a cabeça, demonstrando compreensão, mas, de supetão, sua expressão foi de compreensão para desespero.

- Fred! - Ela berrou meu nome e começou a correr em minha direção. - Corre! - A voz dela estava entrecortada de terror, causando-me um desespero crescente no peito. - Vem pra cá! Corre! 

Eu olhei para ela e meus pés começaram a obedecer a voz dela.

- Vem, Heloise! - Eu olhei para trás e vi a garota tentando segurar a minha mão para começar a correr, mas antes dela conseguir sentir o meu toque, o som de um tiro dominou a noite. Todos nós paramos.

- O que foi isso? - Indaguei, confuso.

Emily parou de correr na minha direção e pôs a mão na boca, enquanto caia de joelhos na grama. Eu olhei para trás e Heloise, que antes estivera tão perto de meu corpo, estava caída no chão, uma mancha de sangue começando a surgir em seu peito através do decote.

- Não! - Berrei. - Não! - Meu peito parecia ter sido estraçalhado, pisoteado, desmontado e remontado para que depois pudesse ser destruído mais uma vez. - Não! - Eu cai ao lado dela, a garota estava tossindo enquanto seu pescoço borrava-se de um vermelho vívido que vinha de dentro do seu vestido. - Helô, fica comigo. - Eu segurei-a nos braços. - Por favor, não me deixa!

Emily gritou novamente:

- Fred!

Eu olhei para frente e lá estava ele, o homem mais odioso, o mais ardiloso e repulsivo.

- Boa noite, Sr Chase. - Ele berrou enquanto andava calmamente pelo campo, como se aquela fosse apenas mais uma noite comum.

- Você não tinha esse direito! - Berrei.

Marco deu um leve sorriso com seus lábios secos.

- Não vai machucar mais ninguém, Marco. Não esta noite.

Emily correu e pegou a arma de Heloise e apontou para Marco. 

- Há, parece que temos uma reviravolta na nossa história. - Marco conseguia nos tirar dos nervos, seu tom cínico, seu sarcasmos ridiculamente cruel, tudo nele era repugnante.

- Eu disse que não vai mais machucar ninguém. Eu não deixarei.

Emily deu um tiro de aviso.

- Acho que você errou.

Emily rangeu os dentes. Minhas mãos procuravam por mais sinais de vida no corpo de Heloise, algum movimento ou qualquer sinal, ma até agora ela apenas tossia.

- Não, pai - ouvimos uma quarta voz dizer. - Você é que está errado.

Nós olhamos para o dono daquela voz.

- Mas não é possível.

Pietro estava ali, um de seus braços enfaixados e com vários hematomas, além de alguns pontos no nariz e no antebraço.

- Há - Marco começou a fazer seu show - mais uma reviravolta. - Ele rodopiou e depois fez um gesto de reverencia. - Realmente eu só sei ter filhos bastardos. - Ele direcionou a arma para o filho. - Odeio coisas inacabadas.

Marco conseguia esconder as emoções, mesmo que antes ele tivesse chorado e sentido muito pela morte de Pietro, ele não deixaria nada nem ninguém atrapalhar o seu domínio sob todas as coisas das quais ele se considerava superior.

Pietro sacou uma arma com sua mão boa.

- Heloise - eu comecei a sussurrar - nós vamos conseguir. - Eu a agarrei no colo e a ouvi gemer. Bom, aquele gemido significava que ela estava sentindo muita dor e isso me mostrava que ela estava viva.

- Aonde pensa que vai, Fredinho? - Marco voltou a arma para nós dois.

- Realmente acha que pode nos vencer, Marco? - Começou Pietro. - Você está em desvantagem.

Marco estufou o peito e bufou as palavras:

- Por hora.

Então o mafioso rancoroso e cheio de raiva e ódio começou a entrar no meio das árvores novamente, começando a esconder-se sobre suas sombras falhas.

- Pietro - Emily correu e abraçou o irmão.

- Isso fica pra depois - Pietro afastou a irmã. - Primeiro vamos ajudá-la.

Eu comecei a andar com Heloise em meus braços.

- Não se preocupe, Helô, nós vamos conseguir. Você ficará bem.

A ruiva, que matinha seus olhos abertos, começou a fechá-los.

- Sabe por que? - Continuei a dizer.

Enquanto ela quase fechava os olhos por completo eu finalize:

- Porque eu te amo, Heloise. Eu te amo.

E essas foram as últimas palavras que a ruiva pode ouvir antes de entrar num sono profundo.






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