Dor
Dor, uma palavra tão simples, não é? Quando fazemos um corte na palma de nossa mão com a tesoura, ou quando estamos correndo pela rua e caímos no asfalto, esfolando nossa pele. Nós chamamos esses momentos de dolorosos. Mas, como você pode chamar o momento em que seu coração é partido em minúsculos fragmentos? Como descrever a sensação de perder toda a esperança? De ser esfaqueado continuamente enquanto seu subconsciente parece querer negar a existência da dor? Como é viver sem amor?
Emily estava ali, tentando me consolar, seu vestido preto poderia ter sido muito bonito em alguma outra ocasião, mas um velório não é um momento para ficar reparando na roupa das pessoas. Um velório não é um momento para ficar apontando os defeitos do outro. Naquele momento, todos compartilham da mesma perda, da mesma "dor".
- Eu..... eu sinto muito, Fred. - Disse Sidney.
O corpo de Heloise fora transferido para São Paulo, mas isso não foi uma surpresa. A verdadeira surpresa, foi eu ter descoberto naquele dia depressivo que Heloise foi adotada, acolhida pela família de Hugo. Minha cabeça parecia não assimilar as coisas rapidamente, eu parecia estar no modo automático, apenas estava ali, sentado no banco de uma igreja, vendo os pais de Hugo lamentando pela perda de Heloise e o desaparecimento de Hugo. Eles achavam que o filho havia fugido, mas eu sabia o que aconteceu. Hugo foi sequestrado.
- Eu sei, Sid - consegui finalmente dizer.
- Filho. - Ouvi uma voz doce e calma chamar por meu nome.
- Mãe! - Eu me levantei do banco não muito novo e corri até minha mãe, jogando-me em seus braços.
- Oh, meu filho, eu sinto tanto. - Ela passou a mão por minha nuca.
- Me desculpe, mãe. - Eu deixei algumas lágrimas fluírem, mas logo me recompus.
- Não tem problema em chorar, meu filho.
Eu funguei o nariz e endireitei minha coluna.
- Eu não choro, mãe. - Disse. O que era uma grande mentira considerando as últimas situações em que estive nos últimos meses.
A doce mulher sorriu.
- Eu sei querido. - Ela abaixou a mão e sua feição adquiriu uma expressão severa. - Por que não me ligou?
Eu pisquei várias vezes, como se minha visão tivesse embaçado.
- Como?
- Você não me ligou! Você não me contou que bateu o carro! O que eu faria se você morresse? O que eu faria se te perdesse? - Ela começou a fraquejar a voz. - Eu te amo, meu filho, não posso te perder.
Eu fechei os olhos e a abracei novamente.
- Eu sei, mãe, eu também te amo.
Ela me olhou logo depois que soltamo-nos do abraço.
- Vamos, vamos para casa. - Ela se virou, ainda segurando minha mão direita. - Você tem que falar com seu pai.
Eu travei meus pés no chão da igreja.
- Não.
Ela revirou os olhos e me olhou.
- Freduardo, você vai falar com o seu pai.
- Não, mãe! - Me soltei da mão dela. - Não. - Eu olhei para trás e vi Emily e Sidney me observando, sentados no mesmo banco em que eu estava antes. - Eu estou exatamente onde tenho que estar.
- Fred, meu filho, não faça isso. Você precisa saber de algumas coisas. Aqui não é seguro!
Meus olhos brilharam, enfraquecidos pelos sentimentos de perda.
- Eu já perdi a Heloise, mãe, deixe-me pelo menos ficar aqui aproveitando os últimos instantes que ainda posso vê-la.
Minha mãe respirou fundo.
- Você vai comigo para casa, Fred. Seu pai voltou mais cedo da viajem para falar com você.
Eu coloquei a mão na testa, eu tentava entender o ponto que minha mãe queria chegar, eu queria ir para casa e apenas deitar no sofá da sala com minha mãe, meu pai e meu cachorro, mas a minha vontade de estar ali, com Heloise, no seu enterro, eu valorizava mais. Eu não perderia um segundo de ver Heloise pela última vez.
- Eu vou mãe, mas não agora. Não estou pronto para deixá-la.
Minha mãe relaxou, sua blusa marrom um pouco desleixada.
- Pelo menos, me ligue a hora que estiver indo para caso, okay?
Eu assenti e, depois de um tempo, vi minha mãe começando a andar até o caixão em que Heloise repousava. Eu a acompanhei.
- Essa é a Helô? - Minha mãe indagou.
- Sim - minha voz entorpeceu-se de dor e comoção - ela me ajudou tanto, mãe, me ensinou tanto, e agora ela se foi.
- Ela é tão linda. - Ela concluiu vendo o rosto sereno de Heloise, vestida com um vestido salmão em degradê.
- Sim, ela é. - Comecei a dizer novamente, tomando cuidado com cada palavra para que as lágrimas não pudessem retornar. - Foi minha culpa, mãe. - Eu rangi os dentes. - Por minha culpa ela morreu.
Minha mãe voltou-se para mim e fitou-me os olhos.
- Pelo amor de deus, filho, não diga isso. Não foi sua culpa.
- Sim, mamãe, eu acho que foi. Eu não consegui protege-la.
Ela sorriu.
- Nós não precisamos nos sentir culpados pelos planos de deus, a vida de todos nós já está determinada, é assim que acontece. Ele sabe o que está fazendo.
Eu não gostava de questionar Deus, mas naquele momento eu pensei: será mesmo que ele sabe?
- Não esqueça de me liga, está bem? - Minha mão passou a mão em meu ombro e deixou a igreja, deixando-me junto ao corpo pálido de Heloise.
- Você está tão linda, Helô - comecei a dizer, emocionando-me logo no início - você é tão linda, não sei se tive a oportunidade de lhe dizer isso. Na verdade, há muitas coisas que nunca lhe disse. Parece que, tudo isso que está acontecendo, é só um belo pesadelo, e que quando eu acordar, você estará lá, na minha frente, me esperando de braços abertos junto com Emily. - Coloquei minha mão no bolso interno de meu terno. - Há algo que eu comprei pra você em Campos do Jordão, mas não pude lhe dar. - Do meu pequeno bolso do terno retirei um delicado colar de prata, uma fina corrente com um pingente de uma estrela.
Deitei-me sobre o corpo dela e coloquei o colar em volto ao seu pescoço.
- Você é a mais bela das estrelas, Heloise. Eu nunca vou te esquecer. - Eu me abaixei lentamente e disse: - Eu te amo, ruivinha. - Então dei um pequeno beijo em sua bochecha.
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- Onde vocês vão? - Perguntou Sidney apertando o passo para acompanhar-me junto à Emily.
- Não sei. - Disse.
- Vocês querem conversar ou algo assim? - Indagou ele novamente. - Eu e Melissa podemos ajudar. Se quiserem conversar nós.....
- Sinceramente, Sidney, não quero. - Dei um corte um tanto quanto grosso nele. - Vá para casa, passe o maior tempo que puder com sua namorada. Faça os seus dias valerem à pena e não coloque sua vida em risco.
- Então, é isso?
Eu parei e Emily parou junto, seus dedos finos envoltos ao meu braço.
- O que?
- Vai simplesmente se distanciar das pessoas?
Adquiri um olhar cínico, nunca achei que precisaria de alguém, além disso, Sidney não estava me ajudando em nada naquele momento.
- Você só usa as pessoas, não é? - Ele atirou isso contra a minha cara. - Você se finge de amigo e depois a abandona. Isso é o que você é, um traíra!
Eu larguei Emily e andei até Sidney.
- Fred, não! - A loira gritou e correu até mim.
- Cala a boca! - Dei um soco na cara de Sidney. - Você vem falar de mim de traição?! Quanta hipocrisia! Você foi o primeiro a esconder as coisas de mim! Você foi quem me traiu! - Ele caiu no chão e eu subi em cima dele, socando seu nariz mais uma vez.
- Certeza disso, Fred? - Sidney viu Emily se esgueirar por trás de mim e me jogar para trás. Nós dois caímos na grama ao redor da igreja, dando a oportunidade de Sidney se levantar.
- Você pode estar atuando muito bem até agora! Mas você sabe mais do que ninguém que eu só te ajudei! Eu te mostrei como Emily realmente era, eu fiz com que os dois ficassem juntos, eu te falei de Hugo e Marco! - Sidney passou as costas da mão na narina direita, tentando limpar o sangue que escorria. - Se esse é o seu jeito de lidar com a dor da perda, Fred, tudo bem, eu não julgo. Mas lembre-se, os amigos são as coisas mais importantes para se ter ao lado numa luta.
Eu respirei fundo.
- Adeus, Fred.
Emily se colocou na minha frente.
- Adeus, Sidney. - Pronunciou a garota, os cabelos levemente bagunçados pelo vento.
O garoto arrumou suas vestes, penteou os cabelos com a mão e depois virou-se, partindo da li.
- Por que você fez isso? - Emily perguntou de prontidão.
- Você sabia algum outro jeito de afastá-lo? - Disse secamente.
- Amor - ela passou a mão pelo meu pescoço, alguns pelos se eriçaram - você não deve afastar as pessoas. Nós precisamos delas agora mais do que nunca. Nós temos que salvar Hugo antes....
- Antes que o que, Emily? Antes que ele morra? - Eu gesticulava bravamente, meus braços talvez ficassem cansados no dia seguinte. - Por que você acha que afastei Sidney? Você acha que foi porque eu quis? Óbvio que não! Eu o afastei porque não quero que ele também morra! Não quero que mais ninguém morra!
A garota fuzilou-me com seus olhos glaucos penetrantes.
- Não precisa ser estúpido, Fred. Sei que está sofrendo - ela secou uma lágrima que se formou no canto de seu olho esquerdo - mas nós temos de ser fortes.
- Eu..... - respirei fundo e cai de joelhos na grama - eu sinto muito, Emily.
A garota se abaixou, não se importando se seu vestido ficaria amassado, e me abraçou.
- Todos nós sentimos, Fred. - Ela colocou seu rosto na frente do meu, novamente. - Mas nós precisamos ser fortes, entendeu?
Eu assenti e, logo, senti o delicado toque dos lábios dela contra os meus.
- Obrigado por tudo, Lily.
Ela sorriu.
- Acho que você tem que ir para casa, não? - Ela disse.
- Você também precisa.
Emily abaixou os olhos, um peso recaiu sobre seus ombros.
- Venha comigo. - Disse.
- Claro, aquele típico sonho de adolescente, né? - Disse ela tentando não ser grossa. - Não é assim que funciona, Fred, infelizmente.
- E para onde você vai?
- Um hotel novamente.
- Você não tem mais um emprego, Emily.
- Fred, vamos focar no que importa. Temos de ajudar Hugo.
- Claro, mas eu tenho que ir para casa, assim como você disse.
- Sim. - Ela concordou e se levantou, depois, me deu a mão para me ajudar a levantar.
- Vou ligar para minha mãe, pelo menos posso ver se tem alguma possibilidade de você passar a noite conosco hoje.
- Não precisa. - Ela protestou.
- Já disse que vou.
Coloquei minha mão no bolso à procura do celular. Nada.
- Emily, você lembra de ter visto o meu celular?
Ela fez que não com a cabeça.
- Você deve te-lo deixado em casa.
- Impossível, eu estava com ele assim que sai para ir para Campos te procurar.
- Não se preocupa, usa o meu então.
Eu recusei dizendo:
- Você não entendeu, eu acho que deixei meu celular em Campos do Jordão.
- E?
Eu comecei a me desesperar.
- E se foi assim que seu pai nos achou? E se Geovane só lhe deu uma falsa pista? Seu tio disse para Marco que nós estávamos no restaurante, mas nós corremos dali, e se seu tio só tentou realmente nos ajudar? Então eu estraguei tudo.
- Fred, calma, não estou entendendo nada.
- E se o meu celular estivesse grampeado ou estivesse sendo rastreado? E se Marco soubesse exatamente onde iríamos naquela noite seguindo o meu telefone?
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