Capítulo 7
Point of view— Any Gabrielly
Respiro fundo olhando a multidão de alunos entrando e saindo da faculdade. Faz exatamente vinte minutos que estou no estacionamento, dentro do meu carro, sem ter coragem de sair de dentro do mesmo.
Eu consegui transformar meu ano em uma loucura.
Era para eu estar agora com meu namorado dentro do prédio de pequenos tijolos amarelos, conhecendo os novos calouros e dando boas vindas. Era para eu estar feliz por ser uma veterana e olhando minha nova grade de aulas para o primeiro semestre, enquanto todos especulam qual será o tema da minha festa esse ano, torcendo para que eu os convide ao evento mais esperado do ano. No entanto, estou com medo de sair do carro e ter que encarar Benjamin e meus amigos.
Noah e eu mal conversamos, ele apenas disse que estava vindo para a faculdade. Entrou no minúsculo banheiro sem me dizer mais nada e deixou-me perdida dentro do pequeno trailer, sem saber o que fazer.
Olho para o espelho central do meu carro, fazendo uma careta ao ver minha aparência. Eu deveria estar deslumbrante hoje, não com um simples rabo de cavalo, usando a camiseta da faculdade, um jeans simples e a merda de um tênis. Desde quando eu, Any Gabrielly, uso tênis? Nunca. Eu considero saltos a oitava maravilha do mundo, eles deixam as mulheres mais elegantes.
Não me considero uma patricinha mimada como aquele caipira vive me denominando; eu apenas gosto de me arrumar e me sentir bonita, isso por acaso é errado?
Eu começo a me bater mentalmente por estar me importando com a opinião daquele ser repugnante, mas acontece que estou cansada, triste, sensível e tudo está me magoando.
Eu sei que, às vezes, sou mimada e quero tudo à minha maneira. Porém, nunca desfiz de ninguém ou humilhei. Tenho gostos e hobbies que poucos conhecem, contudo, ele não precisa saber disso, eu não devo satisfação alguma a ele.
Abro o porta luvas e pego o pequeno calendário fazendo um X na data de hoje. Eu vou marcar cada maldito dia, durante os longos seis meses, tendo em mente que logo todo esse pesadelo acaba.
Tiro a chave da ignição do meu Kia Sorento e saio do mesmo, acionando o alarme. Conforme meus passos se tornam mais pesados me aproximo cada vez mais do prédio B, sinto-me demasiadamente nervosa. Ao longe posso ver Brandon, Ricardo e Blair conversando animados, meus olhos varrem os locais mais próximos e não avisto o Benjamin.
Onde ele se meteu?
— Olha a nossa recém-casada — Brandon abre os braços, me recebendo naquele peitoral cheiroso que sempre me acalenta, apesar de odiar a brincadeira, me aninho em seu físico magro. Brandon é meu melhor amigo homem e dono dos melhores conselhos do mundo — Tudo vai se resolver minha princesinha — ele sussurra em meu ouvido, e eu escondo meu rosto em seu peito.
Ricardo e Blair estão em uma conversa fervorosa sobre as novas calouras e fico contente por isso, odiaria ser o centro das atenções e alvos de piadas.
— Onde está o Benjamin? — olho dentro dos olhos azuis de Brandon e ele sorri sem mostrar o lindo sorriso que tem — por favor, me fale a verdade.
— Ele se estranhou com o Urrea, precisou sair para esfriar a cabeça — arregalo meus olhos com a informação — Calma, eles não saíram no tapa como duas barraqueiras. Bom, você conhece o gênio do Benjamin e sabe como Noah adora provocar qualquer ser com vida na terra, então...
Tinha que ser, eu nem vou perguntar o que aquele caipira fez, pois tenho certeza que foi ele que começou.
Meu celular vibra no bolso de trás, da apertada calça jeans. Levo meu dedo na barra de notificações, podendo finalmente ver um SMS de Benjamin.
“Me encontre na cafeteria em frente à faculdade, precisamos conversar.” De: amor; Recebida às 19:33
Suspiro por não ter um beijo ou um eu te amo no fim da mensagem, nem ao menos um emoji fofinho. Está pior do que pensei.
— Eu preciso ir até a cafeteria — faço cara de cachorro que caiu da mudança, fazendo Brandon sorrir um pouco, querendo encorajar-me.
— Nada que um bom sexo não melhore o humor do seu namorado.
Deus o ouça Brandon, é o que eu penso, enquanto olho para minha amiga, que apenas me cumprimenta com um aceno de cabeça, voltando a conversar com Ricardo, que não me olhou em momento algum, por estar de olho em alguns rabos de saia.
Aperto a bolsa que está em meu ombro, dou apenas um pequeno aceno para meus amigos e vou em direção à cafeteria do outro lado da rua. Ao longe, através da grande vidraça, o cabelo castanho escuro que tanto amo já é visível. Eu fecho meus olhos por alguns segundos e, quando os abro, estou com coragem o suficiente para entrar no Coffee Story.
Ele está de cabeça baixa enquanto brinca com seu café expresso. Eu vou para perto dele, relativamente rápido, e sento-me à sua frente.
— Benjamin — O chamo, tendo a certeza de que o mesmo está consciente de minha chegada. Apenas está assimilando ou pensando como deve conversar comigo.
— Aquele cara é um idiota, minha vontade é de ir para a faculdade e arrebentar a cara dele — ele levanta sua cabeça lentamente e, quando meus olhos encontram os seus, encosto minhas costas na cadeira, assustada. Eu nunca vi tanta raiva neles antes, Benjamin me olha com seriedade o tempo todo.
— Essa situação não vai dar certo, Any — Ele aperta o guardanapo entre seus dedos, voltando a baixar a cabeça quando a garçonete se aproxima. Assim como ele, peço apenas um expresso, apesar de não gostar tanto assim de café.
— Me desculpa, eu... — perco-me em minhas palavras, eu não sei mesmo o que falar ou o que fazer — O que aconteceu na faculdade? — sei que é a pior pergunta para o momento, mas eu apenas... Não sei como devo agir.
— O que você acha? — o moreno solta uma risada amarga — aquele bastardo mal pisou na entrada da faculdade e eu já quis socar a cara dele. Se não fosse por Brandon e Ricardo, eu estaria em uma delegacia e Urrea em um necrotério, dentro de um saco.
Um frio passa em minha espinha por ouvir sua fala, meu Benjamin não é esse homem violento. Também surpreendo-me pelo fato de saber que meu namorado avançou no caipira, sem que o mesmo o provocasse.
— Aquele filho da puta teve coragem de dizer na minha cara que você se casou com ele porque está internamente insatisfeita comigo. Tanto emocionalmente, quanto sexualmente e que você o deseja, somente é orgulhosa demais para admitir.
Eu pego a xícara que a garçonete deixou um tempo atrás em nossa mesa e tomo um gole generoso, uma forma de evitar que um grito saia de minha boca.
Quem aquele desgraçado pensa ser?
— Isso é mentira — minha voz sai com tanta raiva e firmeza, assustando-me, não lembro se, alguma vez, fui tão firme.
— Eu sei, Any. Mas… Não é fácil para um homem ouvir de outro essa porra. Porque merda eu fui aceitar ir para Las Vegas? — sei que se trata de uma pergunta retórica.
Ele me olha dentro dos olhos novamente, porém, agora está um pouco mais calmo.
— Acho melhor darmos um tempo, eu amo você e por isso faço esse sacrifício — meus olhos agora se enchem de lágrimas. Eu não tento esconder minha dor, começo a negar constantemente — eu pensei a tarde toda, Any. Vai ser o melhor para você e para mim — Benjamin aponta para si mesmo. Sinto um aperto na garganta com o nódulo que se formou.
— Não termina comigo, Benjamin. Você mesmo me disse que não acreditava em tempo, que isso não existe em um relacionamento — Não seco a lágrima que escorre por minha bochecha e ele segura minha mão que está em cima da mesa, dando um leve aperto.
— Eu sei o que eu disse, mas, como você quer que eu fique tranquilo em casa, sabendo que está com outro homem? — abro minha boca para o parar antes que fale algo que me magoe ainda mais, porém, ele não me deixa terminar. — Eu sei que jamais vai me trair, contudo, não é fácil para mim.
Mesmo eu detestando o rumo dessa conversa, eu tenho que concordar com ele.
— Mas… — sinto-me incomodada com o pensamento que surge em minha mente — são seis meses — Tento mostrar o óbvio e ele parece entender quando uma luz de compreensão atravessa seu olhar — Benjamin, você é homem e tem suas necessidades, eu não vou suportar vê-lo com outras garotas.
Dói só de imaginar que isso possa acontecer. Ele estar com outras mulheres que não sejam eu... Isso é demais para mim.
— Eu pensei nisso também, eu também não suportaria vê-la com outros homens, pensei que poderíamos ter uma amizade colorida — meus olhos se arregalam com sua fala, isso é um absurdo. Ele não quer ficar comigo em um relacionamento sério, mas me quer como uma aventura — Não pense besteira, Any. Eu te conheço tempo suficiente para saber que está criando teorias malucas. Escute-me bem, apenas faço isso para que você fique tranquila, sem preocupações, para se resolver e se dedicar a fazer a vida daquele cara um inferno. Quando tiver vontade de estar comigo, apenas me ligue. Eu farei o mesmo com você!
Eu assinto enquanto umedeço meus lábios ressecados, ele pousa sua mão direita em meu maxilar me dando um beijo leve nos lábios.
— Nós vamos ficar bem, vamos superar essa fase ruim.
Benjamin me diz e eu torço que isso seja verdade.
(...)
Passo um pouco de base embaixo dos meus olhos, tentando esconder um pouco as marcas causada pelas lágrimas dos últimos quarenta minutos. Meu reflexo no espelho não é um dos melhores. Blair está ao meu lado, recolhendo todos os lenços que usei para se livrar deles na lixeira mais próxima.
— Você precisa se acalmar, Any. Sei que não está sendo uma semana fácil, porém, você tem que enfrentar essa situação de cabeça erguida — Blair tenta aconselhar-me quando começo a chorar de novo. Eu passo minha mão debaixo dos meus olhos, secando as malditas lágrimas.
— Eu juro que estou tentando, mas está sendo difícil. Tem apenas um dia e olha tudo o que aconteceu. Benjamin disse que quer um tempo e que vamos ficar juntos — faço aspas com os dedos quando repito sua fala — nós duas sabemos que isso é a porta para o afastamento, esfriamento e depois término.
Inspiro o ar do vestiário feminino, tentando não chorar de novo. Blair alisa minhas costas, dando-me um pouco de conforto.
— Benjamin ama você, Any. No final tudo vai se resolver.
Apenas confirmo, olhando-a através do espelho.
— Eu vou para casa, se é que posso chamar aquele lugar de casa. Eu não tenho cabeça para ficar aqui!
— Você faz bem, me ligue para qualquer coisa. Não importa a hora e, se eu estiver transando, ainda sim, paro para te socorrer.
Sorrio ao ouvir minha melhor amiga, eu a amo por isso. Blair sempre me faz rir, em qualquer situação desastrosa de minha vida. Dou-lhe um abraço e saio do banheiro mais tranquila.
Ando pelo corredor, recebendo alguns olhares curiosos e alguns cumprimentos. Eu apenas sorrio minimamente e sigo meu caminho, querendo desesperadamente chegar ao estacionamento para entrar no lugar mais seguro que tenho agora, meu carro.
Ao longe, posso ver Noah agarrado a cintura de uma caloura, enquanto solta um leve sorriso e cochicha novamente na orelha da morena alta.
Não mesmo! Se minha vida está uma merda por causa dele, ele não pode ficar tão tranquilo. Caminho a passos firmes até a parede em que ele está e paro em sua frente.
Os olhos da morena fixam em mim, eu faço minha maior cara de sofrida.
— Eu estou cansada disso, Noah. Por que faz isso comigo? — a testa da morena forma alguns vincos, os olhos de Noah estão irradiando raivas e eu seguro minha risada.
— O que ela está falando, Noah? — Tenho vontade de vomitar com a voz robotizada, ela força uma ternura que não tem.
— Ele não falou? Oh, Me Deus! — levo as mãos até minha boca, faço a maior cena. Alguns alunos da faculdade mais próximos de nós olham curiosos a cena, é isso que eu preciso e quero, aqui na faculdade, ele não pega mais ninguém, a não ser vadias.
Ele é tão galinha, Benjamin nunca foi assim. Lembro-me dele com algumas garotas, mas nada tão gritante com o intuito de se provar como garanhão, como esse ser a minha frente.
— Ele é meu marido, porém, quer agir como se fosse solteiro, eu não aguento mais isso.
Tenho vontade de rir, quando burburinhos se formam, aposto que os veteranos estão boquiabertos, sem entender nada.
— Para com isso, bonequinha de plástico — sua voz é áspera e eu aproveito meus olhos vermelhos para simular um choro quando levo minhas mãos em meu rosto.
— Eu te amo tanto e você sempre me trata como uma cadela, por quê?
Por dentro estou sorrindo e sambando por ver o choque em seu rosto. A morena me olha com pena, mas não me importo com isso.
— Any — sua voz sai em advertência. O tempo que ele anda conosco, por ser amigo de Ricardo e Brandon, serviu para algo: eu sei que ele odeia atenção voltada para si. O que é contraditório, pois as retardadas desse lugar só faltam babar por ele, com todo mistério e “charme” que elas dizem que ele tem.
— Você é um tipo especial de babaca — fico satisfeita ao escutar a voz da morena — me desculpa moça, eu não sabia que ele é casado, jamais teria deixado ele se aproximar se soubesse — ela coloca a mão em meu ombro, me olha com pena e um pouco de generosidade — Você é linda, não deixa esse idiota pisar em você.
Foi além do que eu pensei, mas se a rádio corredor servir para alguma, pelo menos aqui, ele não tem mais caça e já é um começo.
— Obrigada.
Ela sai de perto de mim e Noah segura meu braço me assustando, começando a me puxar. Seu aperto é firme e sua mão está suada.
— Me solta seu idiota — eu grito e ele não fala sequer uma palavra; segue firme, arrastando-me para algum lugar, quando o estacionamento está próximo, ele me solta e fecha seus olhos.
— Mas que merda foi aquela? Você por acaso enlouqueceu, porra?
Ele começa andar de um lado para o outro. Eu cruzo meus braços, quebrando o quadril para o lado, colocando o peso de meu corpo na perna esquerda.
— Eu disse que ia fazer sua vida um inferno, não disse? — levanto minha sobrancelha e dou de ombros, totalmente tranquila. Realmente, acabar com a foda dele de depois da aula melhorou meu humor — então, meu querido esposo, é apenas o começo.
Ele vem para cima de mim como um urso, mas recua ao perceber o que ia fazer.
— Sai daqui, Any — ele mal me olha — Sai de perto de mim, sua mimada do caralho.
Eu destravo o alarme do carro vermelho sangue, escutando o som bipar duas vezes.
— Eu vou sair porque eu quero, não por que você pediu, caipira. Afinal, meu trabalho por hoje, foi feito — Começo a andar em direção ao meu carro, mas paro ao lembrar-me de algo: olho para trás, vendo ele chutar a roda de sua moto com muita raiva. — Te vejo em casa, amor.
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