Capítulo 28

Point of viewAny Gabrielly

- E agora, olhando em seus olhos, eu sinto em meu coração o início de algo novo.

Acabo de narrar tudo que sinto desde ontem a noite até o momento que confrontei a Blair e consequentemente desliguei o celular na cara do Benjamin por saber que não aguentaria mais um confronto nesse dia. A dor que sinto em meu coração e que parece aumentar a cada segundo que passa desse maldito dia que não acaba.

A traição dupla e de me perguntar a todo instante o que eu fiz para merecer isso, a vontade de desistir de tudo e morrer. Noah apenas me escutou em silêncio, sem ao menos me encarar, mas sei que ele ouviu cada palavra, pois sei que ele é observador.

Eu estou acabada e não sei como me reerguer. Suspiro totalmente derrotada.

Encho uma colher com o sorvete napolitano fazendo questão de pegar mais do de creme e morango, já que o de chocolate não agrada tanto meu paladar. Noah está em silêncio, seus olhos estão distantes, ele parece pensar o que me dizer, mas então me surpreendo quando ele se levanta e vai até nosso quarto. “Nosso” minha mente frisa essa palavra e eu me assusto com sua intensidade, eu sinto como se estivesse em minha casa só que com a pessoa errada. Posso ouvir barulhos dele no quarto e eu apenas coloco meus pés em cima do sofá comendo mais do sorvete.

Ele apenas queria me escutar, me ajudou bastante desabafar não nego e mesmo tudo em mim ainda doer eu me sinto leve, contudo receber o silêncio em resposta depois de você narrar quase um livro não é reconfortante, esse homem é estranho.

Passos são ouvidos por mim então olho para a porta do quarto e ele vem fumando seu inseparável cigarro. Nada de novo, entretanto ele sai de lá com uma calça jeans e uma camisa vermelha. Ele vai sair.

— Eu não vou passar a mão em sua cabeça e mesmo se você estivesse certa eu não passaria, você está totalmente errada, bonequinha de plástico.

Olho para ele completamente horrorizada, ele vai mesmo apoiar a atitude de Benjamin? Sendo que ele mesmo me contou sobre a traição. Homens não prestam mesmo!

— Você está errada em querer morrer por causa disso, ou parar de ir na faculdade por causa de sua decepção. Any, não importa em quantos pedaços o seu coração foi partido, o mundo não vai parar, para que você o conserte. Você que foi a errada em fazer aquele palerma o centro de sua vida, e por isso você está sentindo tanta dor. Por ter se doado tanto a quem não merece e agora você está pagando por isso. O amor é bonito e ao mesmo tempo é feio e essa parte do amor te joga abaixo, te prende lá embaixo e então te dá a sensação que está sendo afogada.

Ele parece longe enquanto fala, estou surpresa com o que sai de seus lábios, jamais pensei que esse caipira tivesse tamanha sensibilidade. Será que em algum momento de sua vida ele viveu ou presenciou algo assim? Mas é exatamente o que eu sinto, tenho a sensação que estou presa em um precipício e ninguém será capaz de me tirar de lá.

— Ou você mesmo com dor decide seguir em frente e viver ou então se deixa sucumbir e se entregar a uma dor que você não merece sentir. A escolha é somente sua, bonequinha de plástico. Tenho que ir sair, volto hoje ainda.

Ele sai deixando-me com o silêncio ensurdecedor do trailer,  que deixa meus pensamentos ainda mais altos. Largo o pote de sorvete do meu lado e penso em tudo que Noah disse.

Eu sei que ele tem razão em dizer que sou eu que escolho como viver a partir de agora, mas na prática é tão mais difícil.

Mais uma vez me pego chorando, tento ser forte e não chorar mas é complicado, toda vez que eu lembro que o homem que amo me traiu com minha melhor amiga o choro entala na garganta.

Dói saber que além de perder meu namorado que eu tanto amei eu fiz tudo que eu podia para sempre ficarmos bem, dói saber que ele me traiu na noite de Vegas e foi dissimulado o suficiente para me fazer a única errada da nossa relação quando acordei casada com o Noah. Pergunto-me também se eu não tivesse me casado com o caipira sabe se lá por qual motivo, será que Benjamin e Blair iriam estar me fazendo de idiota, iriam me esconder a traição deles para sempre? Acho que a resposta é bem óbvia e eu não deveria estar me perguntando isso, porque eu só consegui descobrir sobre a traição somente quando Noah a jogou em minha cara.

Só então agora percebo que Noah me contou e se ele me contou é por que ele descobriu. E como ele descobriu? O que ele sabe que eu não sei? Meu coração bate forte na caixa torácica de meu peito, como eu não me apeguei a esse detalhe antes? Meu Deus eu sou tão burra!

Penso em pegar meu celular para ligar para aquele ogro mas então lembro que eu fiz questão de passar com meu carro em cima do aparelho branco. Duplamente burra.

Deito no sofá, não me importo de o sorvete está derretendo eu não quero mais comer e não quero ter que levantar e ter que ir até a cozinha colocá-lo dentro do congelador novamente.

Minha vida está uma merda, eu sei que posso voltar para casa mas eu não quero, será que o caipira achará ruim eu ficar apenas mais uns dias aqui? Com certeza sim, aposto que aqui é seu prostíbulo porém não me importo, aqui eu tenho paz, estou longe de tudo e de todos e dessa paz que eu preciso neste momento.

O cansaço finalmente toma conta do meu corpo resultado das horas que não durmo então apenas fecho meus olhos por alguns instantes esperando o Urrea chegar para que eu possa perguntá-lo como ele descobriu sobre Benjamin e Blair.

(...)

Estico minhas pernas e braços ao mesmo tempo, estranhamente me sinto descansada e confortável, abro meus olhos quando percebo que não estou no sofá como quando fechei meus olhos e sim na cama. O cheiro forte do perfume do Noah e um leve cheiro de cigarro me fazem perceber que estou coberta com seu edredom e não o meu. Meu Deus ele me colocou na cama.

Olho para o pequeno relógio despertador me assustando quando meus olhos captam os ponteiros indicando que são dez e vinte dois da manhã. Como eu consegui dormir por quase doze horas? Eu praticamente entrei em um semi coma. Levo minha mão ao outro lado da cama sabendo que o caipira não está aqui, em seu lado sinto uma leve temperatura, ele levantou não faz muito tempo e deve ter ido trabalhar.

Resolvo levantar quando minha bexiga dói e quase não consigo mais segurar o xixi em minha bexiga, levanto quase correndo e vou até o banheiro, abaixo a calça de moletom e quando minha bunda encosta na porcelana branca do vaso sanitário um alívio é quase solto em forma de gemido por meus lábios ao que eu finalmente expulso o líquido quase transparente.

Aproveito que já estou no banheiro e tiro minha roupa pretendendo tomar um banho e começar ajeitar minha vida. Vou até o registro e abro o pequeno registro de metal e alguns segundos são o suficiente para a água aquecer. Entro debaixo da cascata quente molhando-me da cabeça aos pés.

A dor ainda está aqui e sei que vou levar um tempo para recuperar-me, mas agora de cabeça mais fria, sei que posso seguir em frente, sei que posso começar minha faculdade de gastronomia, sei que posso comemorar meus vinte e um anos como planejei ano passado, apenas preciso alterar algumas coisas e vai dar tudo certo. Eu só sei agora que o tema baseado em princesas e príncipes não é a melhor escolha, o tema felizes para sempre não existe e eu descobri da pior maneira. Sei que em algum momento vou conseguir mudar o tema sem precisar alterar tudo em cima da hora deixando minha organizadora de mãos atadas por estar tão próximo meu aniversário.

Passo o sabonete em todo em meu corpo e quando me sinto limpa desligo o chuveiro enrolando a toalha verde em meu corpo magro. Saio de dentro do banheiro e congelo na porta quando Noah abre a porta da frente com uma sacola de padaria em mãos. Ele paralisa ao me ver saindo do banheiro e seus olhos descem por meu corpo, engulo a pouca saliva presente em minha boca.

Eu não me sinto envergonhada por estar apenas com uma toalha tampando minha nudez, eu sei que sou bonita e não vou me fazer a rogada, eu sou bonita e ponto. Também sou confiante comigo mesma, nunca fui o tipo de mulher que se sente mal por ter alguma imperfeição no corpo, como alguma estria, celulite e gordurinha em sua pele, é normal e faz parte da natureza humana. Mas também não preciso ficar nua em frente a um homem para provar que eu sou autoconfiante, se eu chegar a ficar nua é porque desejei estar.

— Limpe a baba ou ela vai escorrer, caipira. — aperto a toalha com um pouco mais de força em meu corpo.

Um pequeno sorriso sarcástico aparece em seu rosto, ele entra e fecha a porta e umedece os lábios.

— Relaxa, bonequinha de plástico, eu não tenho o mínimo interesse em você, tanto que te rejeitei ontem a noite quando quase implorou pra que eu te fodesse.

Abro a minha boca completamente chocada com sua fala, mas então sorrio quando vejo seus olhos com um brilho maldoso, eu começo a entender quem é Noah Urrea. Se fosse antes seria um motivo para começarmos uma briga, mas agora eu sei que ele é grosso por natureza mas embaixo de toda essa armadura tem um coração bondoso.

— Eu trouxe pão. — Noah avisa e começa andar até sua cozinha, ele para e olha para trás.— Ah, eu deixei sua mala no canto do quarto já que desde ontem a deixou dentro do seu carro.

Apenas assinto e enquanto Noah vai em direção a cozinha eu vou até o quarto e realmente vejo a mala rosa em um canto que eu não havia notado quando levantei.

Será que essa é a forma do caipira me dizer que eu posso ficar aqui pelo tempo que eu precisar?

Noah é um homem que sabe muito bem como ser um ogro com alguém mas quando se trata de boas ações, ele é mais do fazer do que falar e por isso acho que é a sua forma de me dizer que eu posso ficar. Dou de ombros porque sei que assim que ele estiver cansado da minha presença ele não vai exitar em falar, ou melhor, me expulsar.

Coloco com certa dificuldade a mala em cima da cama, abro a mesma e faço uma careta com a bagunça da mesma, minhas roupas foram jogadas de qualquer maneira e brigo comigo mesma por ter feito isso quando pensei que estava de partida deste trailer. E olha onde eu vim parar? No trailer que por várias vezes chamei de maldito. A vida gosta mesmo de jogar certas verdades na cara da gente.

Pego um vestido de alça um pouco acima dos joelhos um pouco rodado rosa chá que não está tão amarrotado como a maioria das minhas roupas, coloco uma sandália nude com um pequeno salto e passo apenas um pente em meus cabelos os deixando secar naturalmente.

Penso em passar nem que seja um pouco de maquiagem para esconder as olheiras provocadas pelo choro, mas não, preciso conversar com Noah.

Vou até a cozinha e vejo Noah dá uma enorme mordida no pão que está em sua mão, ele está de pé encostado no pequeno balcão e uma xícara de café está ao seu lado.

Pego um pãozinho que ele trouxe e coloco uma fatia de queijo, pego um pouco de café e batizo com um pouco de leite.

— Como soube da traição? — Pergunto de súbito pois sei que Noah detesta enrolação e também não estou com paciência para ficar de lero lero. Dou uma mordida no meu pão e o mesmo desce com dificuldade, eu não tenho fome contudo sei que devo me alimentar, homem nenhum merece ver uma mulher se acabar aos poucos por causa dele.

Noah engole o pão que mastigava até então e me olha dentro dos olhos, seus olhos estão mais esverdeados do que nunca, ele nunca me olhou assim.

— Brandon e Ricardo me falaram de suspeitas que eles tinham, então por coincidência vi aqueles dois em uma sala na faculdade, aquela boneca assassina o punhetava enquanto riam de você. Pelo que entendi eles estão juntos bem antes mesmo de vocês começarem namorar. São uns bastardos.

Meus olhos ardem com que escuto, ele fala assim sem dó ou piedade, verdadeiro como sempre.

Alcanço um pedaço de papel toalha e cuspo o segundo pedaço de pão que tinha acabado de morder, fora de cogitação eu conseguir comer depois de ouvir o que ele me disse.

—  Foi só o que eu ouvir, Any. Eu tenho até a foto dos dois se beijando mas acho que isso você não vai querer ver, o que importa é que você já sabe.

Uma lágrima desce dos meus olhos, ele se aproxima, mas então para como se percebesse o que iria fazer. Abraço meu corpo numa tentativa de me aquecer-me é tão triste saber tudo isso.

Porque me enganaram por todo esse tempo? O que eles ganharam com isso? Blair que o apresentou para mim, então se ela já estava com ele, porque me apresentou e me incentivou a namorar o Benjamin? São dois desgraçados!

Noah ainda me olha, ele como eu desistiu de comer, sua mão está em punhos.

— Essa porra não vai ficar assim.

Noah apenas fala isso e sai da cozinha com passos firmes, posso ouvir barulhos dentro do trailer e com alguns minutos ele aparece com a chave do meu carro em sua mão.

— Vamos agora na casa desse filho da outra, você precisa enfrentar esse projeto de homem  para poder seguir em frente.

Começo a negar quando ele me puxa pelo braço, mas não porque eu não quero ir e sim porque eu não sei onde ele mora.

— Eu não sei onde Benjamin mora, ele nunca me levou para conhecer seus pais, então não sei onde é.

Admito com vergonha de mim mesma e quando percebo seu olhar incrédulo em cima de mim eu me encolho, Noah abre a boca para falar alguma coisa entretanto ele parece pensar o que dizer e bufa então.

— Que se foda, eu não sei falar de outra maneira, não seria eu mesmo se começasse a poupar palavras. Você é muito burra mesmo, Any. Como você namora uma pessoa por tanto tempo e que não sabe onde mora? É pedir para ser feita de trouxa mesmo.

Eu não falo nada, pois sei que é a verdade. Mas eu estava tão cega de amor que sempre arrumava uma desculpa para o comportamento de Benjamin.

— Vou ir na oficina, e vê se deixa de ser tonta, bonequinha de plástico.

Ele me dá um peteleco na testa e sai da cozinha me deixando com meus pensamentos.

O dia passa arrastado entre minha raiva e choro, mas quando percebi que faltava apenas quarenta minutos para começar a faculdade, eu decidi ir.

Vou mudar de curso e tentarei a todo custo evitar Blair e Benjamin naquele lugar.Sei que vou ter que aprender a chegar em alguns lugares que temos em comum e consequentemente encontrá-los,  mas ainda é cedo para isso.

Continuo com a mesma roupa de mais cedo, apenas me maquio ficando o mais natural possível, está fora de cogitação eu chegar na faculdade parecendo um zumbi, para todos os efeitos estou bem. Tranco a porta do trailer e vou até o meu carro afim de tentar dar o primeiro passo para o meu recomeço.

(...)

Saio da secretaria com os papéis da minha transferência em mãos, não foi difícil conseguir uma vaga no curso desejado, apenas terei que esperar uns dias para poder iniciar junto com a nova turma.

— Any. — primeiro congelo no lugar quando reconheço a voz, mas então eu apresso meus passos, eu não quero conversar com Benjamin, eu só quero que sua cabeça exploda.

Meu braço é segurado e deixo meu corpo ser virado por ele. — Ei, eu estava te chamando.

— Para quê? Para mentir mais, me fazer de idiota por mais tempo?

Atrás dele posso ver Ricardo e Brandon nos encarando um pouco mais longe, Blair não está com eles. Outros alunos passam por nós dois e parecem não perceber o clima pesado o que eu acho bom, quero evitar o quanto posso meu nome se envolver em fofocas.

— Eu já estou sabendo que soube da noite de Vegas, eu não contei por medo de te perder, Any. Naquela noite eu bebi tanto, e a Blair também e acabamos transando, acho que deve ter rolado uma química idiota quando bêbados, mas eu amo você e por isso quando acordamos decidimos deixar no passado. Nós dois amamos você. Me perdoa. Lembre-se que eu também te perdoei, amor.

O olho sem reação alguma, ele quer mesmo falar sobre o meu erro? Ele quer mesmo comparar? Ele está mentindo sem receio algum.

Eu sei toda a verdade e tenho vontade de jogar tudo em sua cara, mas estou quase chorando e não quero ser a fraca da história, do que vai adiantar eu brigar ou gritar se eu não vou voltar com ele e muito menos acreditar em o que ele disser? Ele já pisou demais em minha dignidade e hoje foi a última vez que eu choro por ele, mesmo doendo, me proíbo de derramar qualquer lágrima por Benjamin Rivera.

— Eu amei cada pedacinho seu, Benjamin. E eu erre sim, contudo eu nunca escondi isso de você, eu confessei meu erro. Então não me peça para te perdoar, não me peça para voltar para você, porque eu não consigo.

Eu começo a andar mas ele me segura novamente.

— Você não pode terminar comigo assim, você me ama e eu te amo, Any. Você é minha.

— Me solta. — falo entre dentes, e com isso ele tenta me abraçar.

— Ela pediu para você a soltar, seu bastardo.

Olho para o lado e vejo Noah de pé com um cigarro em mãos fumando tranquilamente, seu cabelo está um pouco bagunçado e algumas pessoas param para nos olhar.

— E quem você pensa que é para se meter assim, Urrea? — Benjamin cospe com raiva, Noah nem vacila com o tom raivoso do meu ex namorado, pelo ao contrário, ele sorri divertido como se Benjamin tivesse chegado onde ele queria.

— Quem eu penso que eu sou? Por acaso esqueceu que sou o marido dela? Então sugiro que tire essas mãos imundas de minha mulher antes que eu mesmo a tiro a força.

Sendo assim Noah dá dois passos para frente.

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