Capítulo 12

Point of view - Any Gabrielly

Levo a xícara de café até meus lábios saboreando o líquido preto enquanto observo a enorme sala, não posso acreditar em todo esse luxo diante de mim.

Como ele pode ser dono de tudo isso e nenhum de nós que convivemos com ele diariamente não saber? Eu não consigo, de forma alguma, parar de me fazer perguntas.

Não que me importe com esse caipira, só não consigo entender o porquê dele se esconder assim.

- Estou cansado mãe, preciso mesmo descansar. - Só então lembro-me que Noah está conversando com sua mãe já faz alguns minutos e enfim saindo do transe em tentar entender o que realmente é tudo isso. - Foram quatro horas de vôo e mais duas de carro e já está tarde. - Percebo seu olhar em mim e quando sua mãe me olha também, eu sorrio o mais amarelo que posso.

Eu não sei porquê ele manteve a fachada que estamos casados a sua mãe e o brilho no olhar da mulher a minha frente foi o motivo de eu estar calada até o momento.

- Minha mulher também está cansada, amanhã conversamos melhor.

Minha mulher? Ele está mesmo falando sério?

Sua o seu cu! É o que vem em meu pensamento.

Que merda esse homem come para agir assim?

- Queria que esperasse o seu pai, ele...

- Mãe, por favor, não força. - Noah corta sua mãe, ela coloca uma mecha do cabelo claro atrás da orelha e pigarreia.

- Mas entendo que está cansado e que quer ficar com sua esposa, afinal, são recém casados.

Contenho minha vontade de revirar meus olhos e bocejo realmente cansada, pego o celular que está no bolso de trás do meu jeans, já são quase onze horas.

- Sinta-se em casa, querida. - assusto-me com o abraço repentino, entretanto, a abraço de volta, ela é um doce de pessoa, não sei como gerou o querido aqui.

- Obrigada. - Lhe dou um beijo em sua bochecha, sei ser educada, e essa mulher não tem culpa de seu filho ser um ogro.

- Vamos, bebê - Eu não ouvi isso, ele não disse isso, o jantar do avião só podia estar com algum alucinógeno, para explicar o comportamento estranho desse caipira.

O olho com total nojo e me despeço de sua mãe, Noah tem um certo divertimento em seu olhar e mesmo assim me deixo ser guiada por ele, quando acabamos de subir as escadas, me afasto dele.

- Não precisa me tocar mais, caipira. E nós temos muito o que conversar, eu tenho todo direito de saber em que merda está me metendo.

Ele abre a última porta do lado esquerdo do corredor amplo e com várias obras de artes na parede branca com um enorme lustre pendurado.

Entro atrás do caipira que ainda está em silêncio, suspiro quando vejo o quarto ao todo.

O quarto é todo decorado em branco e preto, a parede do fundo onde a cama fica é toda em um preto fosco, com quatro retratos de um menininho em algumas situações, provavelmente o ogro que está sentado na cama enquanto tira o tênis, a cabeceira é preta que lembra um couro, a cama está estendida com um enorme edredom branco com duas almofadas brancas e duas em preto e branco.

Os criado-mudos estão um de cada lado da cama com abajures pretos e acesos, e em um dos lados contêm um lindo jarro de flores brancas, imagino que sejam para mim.

Vou até o mesmo e tenho certeza absoluta que são minhas quando um pequeno bilhete com uma letra impecável tem o meu nome.

"Que alegria em recebê-la em nossa família. Saiba que em mim terá uma mãe e não uma sogra.

Qualquer coisa que precisar, aperte o número dois no telefone do quarto que Mark lhe atenderá imediatamente.
Bem vinda mais uma vez.
Wendy"

Coloco o bilhete de volta no criado-mudo me sentindo incomodada com todo esse carinho, eu não sei mentir e se isso se estender mais não sei o que farei. Em que merda Noah foi me meter?

Reparo mais uma vez o ambiente arejado, o quarto tem mais duas portas que acredito ser, o closet e banheiro.
Isso é maravilhoso e simplesmente absurdo.

Ele tem vergonha dos pais? Dou um pequeno sobressalto quando ouço sua voz.

- Vamos conversar, mas não hoje. Eu estou realmente cansado, bonequinha de plástico. - Ainda assustada com a voz rouca do Noah tento me recompor, estava distraída olhando o luxo que é todo esse lugar.

O que os pais do Noah fazem?

- Não, eu preciso entender o porquê de ser rico e não ter falado a verdade aos seus pais, sobre o casamento ter sido consequência de uma noite em bebedeira em Vegas.

- Any. - Ele tenta me advertir entre os dentes, ele parece não estar bem, ele é sempre mal-humorado, porém hoje está pior.

O que ele tem? Porque está tão... sensível? Não sei ao certo, eu não o conheço para afirmar algo. Porém também estou envolvida nesta história e tenho total direito de saber até onde serei envolvida.

- Se você quer que eu fique aqui e não desça imediatamente e conte a sua mãe toda verdade, terá que me dar ao menos uma explicação.

Cruzo meus braços esperando que ele fale, ele tira a camisa vermelha do corpo deixando o peitoral tatuado exposto, mesmo relutante ele se senta e me olha com um certo receio, ele suspira começando a ceder.

- Eu não sou rico, os meus pais sim.- Eu tenho vontade de rir, essa é maior babaquice que já ouvi em toda a minha vida, se os pais são ricos automaticamente os filhos também são. - Sobre manter nosso casamento como verdadeiro aos meus pais é porque eu preciso. Satisfeita?

- Por que precisa? - Não consigo mesmo me dar satisfeita para o que ele disse, isso é pouco para tudo que estou vivenciando no momento.

- Isso já não é da sua conta, Any. Só se faz de minha esposa por três dias, ok?

- Você é esquisito. - Por mais que eu esteja me remoendo de curiosidade, estou cansada, e se ele fazer algo que não me agrade, eu o delato e saio daqui com o nariz em pé. Além do mais, eu não vou me meter, é a vida dele e não a minha. O principal é saber porque me casei com ele e isso ainda é um total preto em minha memória, o resto é resto.

- Ok, mas se ao menos tentar bancar o engraçadinho comigo, vamos ter sérios problemas, você, suas mãos e seu pênis fiquem longe de mim, e você não está me devendo um favor e sim dois.

Agora sim ele rir, e dessa vez não é irônico ou sarcástico, ele realmente achou graça, eu em todo esse tempo que o "conheço" jamais o vi rir dessa maneira, ele chega a pôr a mão na barriga e seus olhos se apertam um pouco com a gargalhada.

Mas não estou brincando, falo bem séria mesmo.

- Relaxa, barbie humana, você não é meu tipo.

Ele pega um controle na gaveta do criado-mudo e liga o aquecedor do quarto, dou de ombros, não me sinto ofendida por sua fala, é verdade, nós não somos o tipo um do outro.

Abro minha mala, procuro por um pijama do panda que trouxe, quando o encontro vou até o banheiro e quando entro fecho a porta com chave, nunca se sabe.

Meu desejo de entrar na banheira é grande, contudo estou cansada o suficiente, talvez amanhã, opto pelo chuveiro, quando a água chega a temperatura ideal depois que o ligo, me enfio na cascata de água com cuidado para não molhar o cabelo e tomo uma ducha rápida apenas para me livrar das últimas horas exaustivas.

Quando entro no quarto, vejo Noah já dormindo com a boca levemente aberta, ele está de barriga para cima e com uma das mãos na barriga. Como alguém dorme tão rápido? Pego os travesseiros que ele jogou no chão e formo uma barreira com elas, como eu disse: nunca se sabe.

Sento sobre o colchão, fazendo uma trança simples no cabelo para que amanhã o mesmo não esteja rebelde e impossível de lidar. Ele solta um pigarro e faz um barulho estranho com a boca.

- Boa noite, bonequinha de plástico. - Definitivamente a comida estava com alucinógeno. Não entendi ele me desejando boa noite, dou de ombros, um pouco de educação é bom.

- Boa noite, caipira.- O respondo enquanto ajeito meu edredom sobre meu corpo.

Apago a luz do abajur, e viro para o lado oposto, olho meu celular uma última vez, decepcionando-me por Benjamin não ter me respondido ou me ligado. Suspiro, não vou abater-me por isso, eu preciso aprender ser forte mesmo quando não tenho o apoio do meu namorado.

Finalmente fecho meus olhos e deixo o cansaço tomar conta do meu corpo.

(...)

Mesmo com preguiça abro meus olhos, a dias eu não dormia tão bem assim, a cama macia e o edredom quentinho me deixam com o desejo de passar o dia todo na cama, mas sei que isso não será possível. Eu vi quando Noah se levantou pela manhã, muito cedo por sinal, e como sempre acontece, é silencioso, e por eu estar com sono naquele momento dormi instantaneamente.

Pego meu celular para que eu saiba que horas são, um alívio passa por mim ao ver que são apenas dez horas.

Nenhuma ligação de Benjamin, porém tem duas da Blair, apenas ignoro, eu não quero conversar com a ruiva agora, ela vai ter um ataque de histeria quando eu contar tudo que vi nas últimas horas, prefiro estar bem acordada e com cafeína no sangue, só assim terei ânimo e paciência para poder conversar com minha melhor amiga.

Levanto-me devagar, observo mais uma vez o quarto e tendo certeza que não foi nenhum sonho, vou até a janela e o enorme e bem cuidado jardim está a minha frente.

Porque ele age assim? Por que age como se não tivesse onde cair em morto? Olhando toda a dimensão desse lugar deduzo que ele é mais rico que todos nós.

Eu não o vejo como alguém melhor por descobrir que ele tem uma condição financeira invejável, ele ainda continua sendo um ogro e caipira.

Duas batidas faz com que eu vire em direção a porta.

- Entre - murmuro baixo, porém quando a porta é aberta sei que quem quer que seja, me ouviu perfeitamente. Mark entra com uma postura invejável.

- Bom dia, senhorita Urrea, a senhora Urrea pediu para avisar que lhe aguarda para o desjejum.

Mordo meu lábio nervosa, eu não quero ficar sozinha com a mãe do caipira, eu não sei mentir e ele sabe isso.

- Onde está aquele cai... - contenho-me quando percebo o que eu iria falar, Noah vai ter que me dar um rim para pagar o que me deve, um favor diante essa situação não é nada. - Onde está meu marido? - Minha boca amarga com a palavra marido, nem aqui nem no inferno.

- Ele foi com o senhor Urrea aos vinhedos da família, não devem demorar, garantiram que voltam para tomarem café com a família.

Vinhedos? Então a família do caipira fabricam vinhos, como nunca ele citou isso? Por que manter sua vida em mistério total? Noah está se revelando uma caixinha de surpresas.

- Obrigada. - Ele apenas acena a cabeça positivamente.

- Só vou tomar um banho, e já desço. - Aviso querendo arrumar algum modo para poder demorar mais um pouco.

Mark apenas assente e se retira do meu quarto, vou até minha mala e pego roupas de frio, tomo um outro banho rápido, namorando novamente a banheira, de hoje não passa, vou entrar nesta enorme banheira e só saio quando minhas mãos murcharem.

Visto o conjunto branco de frio, me sinto extremamente bonita com o mesmo, já fazia um tempo que não usava moletons e me esqueci o quão lindos são.

Solto meu cabelo e amo o ver todo seco, porém macio, não há nada que substitua um cabelo "sujo", meu cabelo só fica assim depois de dois ou três dias que o lavei. Apenas o ajeito com as mãos, vendo a ondulação que se formou pela trança.

Vou até o quarto e vejo meu celular piscando uma mensagem, pego o aparelho e meu coração se entristece com o conteúdo da mensagem.

" Quando chegar iremos conversar, Any. Já estou cansado de você sempre decidir as coisas sem me consultar antes. Um relacionamento é feito por dois e não por um. Benjamin."

Recebida às 10:22 am.

Meus olhos ardem com a mensagem, droga, Any, não é o melhor momento para chorar e eu sei que Benjamin tem razão, ultimamente estou o magoando demais. Respiro fundo para engolir qualquer choro e depois que tenho certeza que não desabarei saio do quarto.

Vou até a sala de jantar que vi ontem a noite e conforme me aproximo vejo a mesma repleta de alimentos.

- Bom dia, querida. - Wendy se levanta para me receber com um abraço, depois do longo abraço, sento-me ao seu lado direito. - Como dormiu? - Wendy pergunta depois que ajeita seu guardanapo.

- Muito bem, obrigada - Agradeço enquanto sou servida com um pouco de café pelo Mark.

- Querida, sei que deve estar um pouco tímida, mas eu preciso mesmo saber, tenho tantas perguntas.

Tomo um longo gole de café, sentindo minha garganta queimar com o líquido quente e amargo.

Meu Deus do céu, o que eu vou fazer?

- Não precisa perguntar nada a ela mãe. Não temos nada grandioso para contar.

Eu nunca me senti tão feliz com a chegada desse homem, tenho vontade de ajoelhar-me e agradecer.

Olho para ele e um outro homem alto entrando na sala de jantar, ele tem uma expressão séria e me olha inquisitivo.

- Any e eu estudamos juntos, não tivemos um relacionamento longo, apenas o suficiente para ter certeza que nos gostamos, fomos para Vegas e nos casamos lá.

Arregalo meus olhos com a estupidez que Noah fala, ele se aproxima e se senta ao meu lado e apenas me olha sério.

O que ele quer dizer com esse olhar? Eu não sei dizer, não tenho esse nível de intimidade com ele.

- Eu vou passar mal, não acredito que você me tirou o direito de preparar um casamento digno de um Urrea. Meu único filho! Isso é demais para mim. Vegas? Você se casou em uma capela com um mero Elvis? Eu devia te dar uns tapas Noah Jacob Urrea.

Posso ver o choque e descontentamento em sua voz.

- Não é nada demais, mãe. Não é uma festa pomposa que vai definir se eu terei um casamento feliz ou não, isso vem com o dia a dia não é mesmo?

Noah lança um olhar ao homem ao lado da mulher, que ainda está me olhando com uma certa curiosidade. O ar está pesado neste local e eu me sinto mal por estar aqui. E não tenho brecha para falar nada ou sair daqui.

- Já que meu filho não nos apresentou, eu mesmo faço isso. Sou Marco Urrea.

A voz grossa e forte preenche a sala, ele me olha dentro dos olhos sem mostrar alguma fraqueza ou receio. Um verdadeiro macho alfa, acho que sei de onde Noah puxou tanta imponência.

- Prazer, senhor Urrea, sou Any Gabrielly - Esfrego minha mão na minha calça por baixo da mesa, esse homem me causa um certo medo.

- Corrigindo, Any Urrea.

Ele fala sério, mas logo depois sorrir para mim, mostrando que está brincando, tentando descontrair o ambiente.

Grande merda esse sobrenome que ele pronuncia com tanto orgulho.

Olho completamente rápido para meu lado esquerdo que me sinto um pouco tonta. Noah agarrou minha mão que estava até então em minha perna por debaixo da mesa.

Sua mão treme um pouco, mas ele tenta me olhar com tranquilidade. Tenho vontade de puxá-la, mas sei que não seria bom neste momento meu rompante. Eu começo a sentir pena dele sem saber o porquê. O que ele esconde? Porque ele fica tão nervoso em sua própria casa?

Ouço passos rápidos e me surpreendo por ver uma menina loira de no máximo seis anos correr até Noah, pela primeira vez vejo seu sorriso nascer verdadeiro em seu rosto sem ironia ou sarcasmo, um sorriso genuíno. Um certo brilho aparece em seu olhar, arrisco em dizer que é um olhar amoroso.

Ele se levanta e se abaixa esperando o "baque" em seu peito pela menina, e quando isso acontece ele a pega e se levanta com ela em seu colo.

- Que saudades nono, estava com muitas saudades. - Ela agarra seu pescoço e enche seu rosto com beijos.

- Também estava com saudades, Ariel. Eu não vivo sem minha princesa.

Ela gargalha alto, enquanto segura seu queixo e volta encher seu rosto de beijos, eu não tenho olhos para outra coisa ao não ser essa cena.

Os olhos azuis se viram para mim e como qualquer criança aponta seu pequeno dedo em minha direção.

Pensei que fosse ouvir um "Quem é ela?" e não a frase que saiu de seus lábios finos.

- É a menina dos seus desenhos, Nono?!

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