Capítulo 10

Point of view — Any Gabrielly

O sorriso no meu rosto não cessa enquanto desfio o frango, estou tão feliz que sinto que nada pode estragar meu início de noite, o cheiro do arroz enquanto cozinha se alastra pelo trailer.

Um suspiro sai de meus lábios quando lembro da tarde que tive com Benjamin, apenas conversamos e tudo foi tão tranquilo que me fez ter a sensação que estávamos iniciando nosso namoro hoje.

Nem eu e ele falamos sobre o caipira e fiquei muito satisfeita por ele estar tentando passar por cima de toda essa confusão e ficar comigo.

Depois de conferir se todos os ingredientes para preparar o estrogonofe estão sobre o pequeno balcão, pego a panela e coloco em cima do fogão.

Tenho certeza absoluta que Noah come somente besteiras, pois percebi que ele não tinha nenhuma panela em seu armário, eu não vou seguir sua dieta louca, estou acostumada a comer comida todos os dias.

Sempre gostei de cozinhar, lembro-me quando Amélia tentou ensinar para eu e sua filha. Comigo foi paixão à primeira vista e todos dias ia para cozinha ajudá-la enquanto Blair foi um desastre e nunca mais tentou novamente, ela não tem vocação alguma e prefere achar pronto e ter o trabalho apenas de levar a boca e mastigar.

O cheiro da cebola e alho faz com que minha barriga proteste quando os jogo no óleo quente, olho as horas em meu celular e me pergunto se quero ir na faculdade, eu estou bem melhor, somente tenho receio de sentir-me enjoada nas aulas.

Prefiro optar ir amanhã e assim recuperar todo conteúdo perdido.

Olho para dentro da panela percebendo que o estrogonofe começou a ferver e arroz já está pronto.

A porta do trailer abre e por ela passa um Noah soado, ele me olha como se eu fosse alguma espécie a ser estudada quando me vê provando o estrogonofe de frango.

Ele vai direto para o quarto sem ao menos me cumprimentar, contínuo terminando a janta e escuto o chuveiro sendo ligado poucos minutos depois.

Desligo a última panela e pego um prato para me servir, vou até a pequena saleta e me sento no sofá, pego meu notebook indo até minha pasta de filmes no intuito de me distrair com algo. Esse lugar precisa de internet com urgência para então eu poder maratonar minhas séries atrasadas.

Meus olhos rodam por toda extensa lista de filmes e opto por assistir busca implacável pela quarta vez, eu sou absurdamente apaixonada por Liam Neeson.  

Dou a primeira garfada na comida e presto atenção no filme.

— Estou indo para a faculdade — assusto-me com Noah a minha frente todo de preto, apenas assinto enquanto mastigo a comida.

—  Seu cartão —  aponto para pequena mesa e ele pega juntamente com a nota do quanto gastei, ele apenas observa o valor e coloca tudo em seu bolso. — Desculpe o valor, você não tinha panelas e eu tive que comprar algumas.

Falo sobre os trezentos dólares gasto em alimentos e alguns utensílios de cozinha.

— Não tem problema.

Pensei que ele fosse ter um ataque pelo valor gasto, mas não, ele mais uma vez fica em silencio. Ele pega a chave de sua moto, mas antes que eu possa me conter o chamo.

— Noah —  ele continua segurando a maçaneta da porta e vira um pouco seu corpo para me olhar, mas que merda me deu? Eu queria oferecer janta a ele, porém não quero brigar quando ele me der uma mal resposta, hoje meu dia está bom demais para ser destruído com seu humor do capeta.

— Bem, a janta está pronta e comer estrogonofe frio é ruim.

Dou de ombros e volto a prestar atenção no filme vendo Kim ser sequestrada, essa parte do filme é tensa e umas das cenas que mais gosto no filme.

Noah olha as horas em seu pulso e joga a mochila no chão, eu pensei que ele fosse recusar mas quando o vejo indo até sua cozinha, volto a comer, poucos segundos depois ele se senta ao meu lado por ser o único sofá do local.

Pelo canto do meu olho o vejo dar a primeira garfada e então ele arregala um pouco seus olhos verdes para voltar a comer com vontade, uma pitada de orgulho se acende em mim e a vontade de o provocar cresce, porém não faço nada, eu prefiro esse silêncio o que é totalmente estranho para nós dois, pois sempre estamos alfinetando um ao outro.

Enquanto comemos prestamos atenção no filme contudo eu estou tão cansada. Bocejo quando o sono dá sinais em meu corpo, e ainda são somente sete horas, consequência de eu não ter dormido noite passada.

Noah ainda continua centrado no filme, pelo seu interesse nítido no desfecho da história julgo que é a primeira vez que ele vê busca implacável.

Encosto minha cabeça no encosto do sofá e meus olhos pesam no mesmo instante.

(...)

Meu corpo é repousado em algo macio com delicadeza, abro meus olhos no mesmo instante assustada, Noah está com a expressão fechada.

— Você dormiu na merda do meu sofá e eu o quero livre quando chegar, por isso fiz o sacrifício de te trazer até aqui.

— Hum, ok.—  é a única coisa que respondo.

Fico sem reação, mesmo ele ter sido grosso em suas palavras, sua ação ao ser calmo ao me pôr na cama foi totalmente contraditório.

Quando Noah está perto da porta, ele vira um pouco seu corpo para me olhar.

— E não vai sujar minha cama, já que está vazando.

Ele sai do meu campo de minha visão e eu continuo estática, como se quer ele sabe que estou menstruada? Levanto-me como um raio e vou até o banheiro, conferindo a situação da minha roupa e está tudo certo.

Eu tenho vontade de sujar seu lado da cama entretanto seria muito infantil de minha parte e nojento também.

Troco minha roupa por um pijama para usar no frio me jogando na cama não me importando se ainda é cedo, eu preciso descansar.

Point of view — Noah Urrea

Nunca julgue um livro pela capa a frase passa em minha cabeça quando lembro-me de Any, os últimos dias tem sido estranhos. Ela continua irritante pra caralho, entretanto percebi coisas que me deixou confuso.

O que aquela garota é? Eu sempre a vi como uma menina irritante e que tem tudo e todos aos seus pés e não me enganei, porém quando ela está em casa sem atenção ela é outra pessoa.

Porque ela age como se tivesse duas personalidades? Ela decorou meu trailer, ela sabe cozinhar, come sanduíche e assiste filmes de ação. Ela fez tudo ao contrário do que eu esperava. Ela me irrita até o último fio de cabelo e mesmo assim consegue me surpreender.

Começo bater a caneta azul em meu caderno, a aula está chata, é como se faltasse algo. Pelo canto do olho encaro o lugar onde Any senta com seu namorado e sua amiga estranha. Recuso-me acreditar que Any é o que está fazendo falta, contudo eu não posso negar que quando ela está na sala, fica mais divertido, meu passatempo preferido é irritar essa mimada, eu não a suporto e não vou engolir todo meu desprezo por ela. Nada melhor do que descontar meu nojo no próprio alvo.

Continuo olhando seu namorado perfeito que ainda está concentrado em seu caderno enquanto Blair conversa com Ricardo sobre algum assunto que não me importa. E mesmo assim sei que depois ele me contará, pois ele é pior que mulher quando se juntam em algum salão de beleza.

Aquela garota tem feito minha vida um inferno e depois que revelou que estamos casados nenhuma universitária quer se aproximar.

Ela parece ser a abelha rainha dessa merda de faculdade e ninguém ousa irritar a bonequinha de plástico.

Não sei se é pelo fato dela ser filha de um juiz ou se por causa das festas que promove e todos querem ir.

Maldita mimada.

Eu não preciso das menininhas desse lugar porém é irritante saber o motivo que as afastam.

Só de pensar que vou precisar de sua ajuda nos próximos dias um jato de ar quente sai de minhas narinas.

Ela vai me causar dor de cabeça e muita raiva antes de convencê-la.

Como eu vou fazer isso?

Quando a hora de ir embora é anunciada, levanto-me da minha mesa, jogando a mochila nas minhas costas, um alívio passa em meu corpo quando o ar noturno me recebe e sei que posso fumar livremente.

Pego um cigarro e quando consigo acender o mesmo, levo o rolinho branco até meus lábios, conforme a nicotina chega ao meu pulmão uma onda de calmaria me toma, sinto como se o mundo resolvesse explodir neste momento eu não seria atingido.

— Que bom que te encontrei, Urrea — Trago mais um pouco da fumaça que ainda está em minha boca, esperando que Benjamin cague pela boca. — Eu estou de olho em você — solto a fumaça que está presa em meus lábios em seu rosto.

— E...— jogo o cigarro no chão, piso em cima do resto do cigarro para que o mesmo se apague, eu sei exatamente o que ele quer dizer, porém, darei corda para ver até onde a estupidez de seres humanos como ele chega.

— Se eu ver um mísero cabelo da Any fora do lugar, eu vou adorar vestir um macacão laranja depois que eu matar você.

A vontade de rir me consome e é exatamente o que eu faço.

— Tsc, não se preocupe meu caro. A Barbie humana não me interessa nem um pouco, caso ao contrário, você deveria temer mesmo, olhe bem pra você  e depois para mim. Não seria difícil eu a tirar de você. Porém devo admitir que você é o Ken perfeito para ela.

— Você é muito pretensioso e debochado, eu conheço minha mulher. — Sua voz soa confiante e ele está cheio de si, tenho vontade de comer aquela garota para jogar na cara dele o quão fácil seria, entretanto, não vale a pena, Any tem a voz tão irritante, imagina gemendo? Obrigado, eu passo.

— Tem certeza?—  Só não deixo de plantar a semente da dúvida.

Dou dois tapinhas em seu ombro, vejo um pouco mais a frente, Brandon e Ricardo com lindas garotas, eu poderia estender minha noite com eles e talvez fazer um ménage com duas garotas das quatro que estão na roda, já tem um tempo que não faço isso, mas… tenho que convencer uma garota chata a ir para Stratford comigo.

Vou até o estacionamento, mal olhando os alunos que estão ali, subo em minha moto depois que coloco o capacete.

Estaciono a moto em frente ao trailer, as luzes estão apagadas, subo os pequenos degraus e quando abro a porta o silêncio é notório, dou graças a Deus por Any estar dormindo e eu não precisar lidar com sua presença irritante.

Sento-me no sofá e minha barriga ronca, me lembro do estrogonofe que a Barbie humana fez e vou até a cozinha sorrindo ao ver a panela em cima do fogão.

Aquela mimada me surpreendeu por ter feito algo tão gostoso, coloco um pouco de arroz no prato e jogo por cima o estrogonofe.

Seu notebook ainda está sobre a mesa, tiro o mesmo do modo de espera e estranho ao ver uma lista enorme de filmes de ação e terror.

Onde estão os filmes de romances melosos? Garota estranha.

Sei que se Any acordar agora vai arrumar um escândalo por eu estar mexendo em suas coisas e eu simplesmente vou ignorar como sempre.

O nome busca implacável 2 chama minha atenção e não tenho dúvida alguma que quero saber o que aconteceu com Kim e Bryan. Será que pai e filha terão que enfrentar alguma consequência depois que ele a salvou das mãos dos sequestradores?

Aperto o play e começo prestar atenção no filme enquanto minha barriga agradece pelo alimento fornecido a ela.

(...)

— Ei acorda— algo cutuca minha costela, sinto todo meu corpo protestar em alguns pontos. — Caipira.

Abro meus olhos quando sei quem me cutuca insistentemente, percebendo que dormir no sofá.

— Quando fizer seu lanchinho de madrugada, pelo menos coloque as coisas no lugar, aqui já é pequeno demais para ter acúmulo de bagunça, imagina esse lugar ter infestação de barata? Deus me livre, quero nem imaginar essa hipótese.

Minha cabeça começar a doer com sua falação logo pela manhã, prefiro quando mantemos o silêncio e distanciamento um do outro.

— Ah, cala boca— sei que saiu como um resmungo, mas sei que ela entendeu, pois me mostra o dedo do meio e sua mão agarra minha camisa logo em seguida, puxando-me fazendo assim que eu caia do sofá.

— Ficou louca, porra? — Levanto com raiva, olhando em seus olhos castanhos.

— Eu estou muito louca, eu não suporto mais olhar sua cara de merda todos os dias e nunca mais me mande calar a boca, está para nascer homem que faça isso.

Coço minha cabeça com raiva, maldito seja a hora que eu aceitei estar casado com ela.

— Dane-se, eu vou trabalhar.

Quando penso ir tomar um banho para começar meu dia, lembro de hoje a noite.

— Vamos para Stanford hoje a noite, arrume suas coisas.

Eu não peço, apenas aviso, depender dela faz com que a sensação de amargo em minha boca aumente e eu não preciso aumentar ainda mais a minha humilhação.

Ela começa a rir, enquanto se senta no sofá tranquilamente.

— Vamos é muita gente, eu não vou nem a esquina com você, Urrea.

Sempre soube que eu teria dor de cabeça por causa dessa maldita viagem.

Jeremy é um desgraçado!

— Você é minha esposa e tem que me seguir onde eu for.

Sei que fui um otário machista, mas de forma alguma eu vou implorar.

— A prova do por que te chamo caipira, está se comportando como um homem das cavernas e mesmo assim, a minha resposta é não. — Ela se levanta e vai em direção a cozinha, a sigo, pois eu preciso dessa maldita mimada.

Ela se vira para mim e cruza os braços.

— Sou sua esposa somente no papel meu querido, você jamais conseguiria uma mulher como eu por livre e espontânea vontade.

Como se eu quisesse alguém como ela, podem me internar como louco se algum dia eu quiser alguém como ela para mim.

— Você vai, Any.— Minha voz sai ríspida, ela ergue uma sobrancelha e não se abala com a raiva que estou sentindo.

—Não, eu não vou. Essa conversa acaba aqui.

Tenho vontade de amarrar seu corpo, dopá-la e levá-la a força, mas, eu preciso dela com o melhor humor possível para que meus pais acreditem nesse casamento. Eu não vou voltar para casa, apesar de amar Ariel.

Aperto meus dedos e olho dentro dos seus olhos, me odeio por fazer isso, e ela vai me pagar por essa humilhação por cada maldito dia que permanecer ao meu lado. Abro minha boca três vezes até que minha voz ecoa pela cozinha, fazendo minha boca amargar ainda mais e sua feição demonstrar surpresa.

— Por favor.

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