𝑪𝑨𝑷𝑰́𝑻𝑼𝑳𝑶 𝑸𝑼𝑰𝑵𝒁𝑬🌜
Theo Raeken
Amanheceu, está silencioso.
Foi uma longa noite, eu e o Liam nos divertimos muito antes de virmos para a minha casa e quando chegamos aqui foi ainda mais especial. Ele me tocou de uma maneira que ninguém nunca havia me tocado antes, pareceu ter sido bom para ele assim como foi para mim, pelo menos até a parte onde eu não consegui mais guardar para mim o que estava me incomodando, eu falei, falei para Liam que eu beijei outra pessoa, mas eu não esperava que ele dissesse a mesma coisa e ao mesmo tempo que eu.
Nós não conseguimos conversar, dissemos aquilo e o clima pareceu ficar estranho no mesmo instante. A única coisa que Liam fez foi dizer que deveríamos dormir.
Então viramos para lado opostos e eu demorei muito para pegar no sono.
Foi uma longa noite.
Mas eu acordei, acordei assim que o sol bateu pela janela e iluminou o meu quarto.
— Você está acordado?
Eu perguntei baixo, vendo Liam se mexer na cama pela terceira vez.
Ele se vira, não diretamente para mim, mas se vira olhando para o teto.
Ele é fofo quando acorda.
— Bom dia... — ele falou baixo.
— Podemos conversar?
Eu não consigo mais esperar, foi uma péssima noite quase em claro, esse assunto continua rondando na minha mente, eu não sei se eu deveria me importar tanto, porque somos amigos, mas... isso me incomoda sim e eu não quero que isso continue me incomodando.
— Agora?
— Sim. Você beijou mesmo outra pessoa? — eu perguntei.
— E você beijou mesmo outra pessoa?
Nós dois ficamos em silêncio.
— Sim... — dissemos juntos, mais uma vez.
— Foi um garoto? — Liam me perguntou.
— Sim...
— Ah...
— E você?
— Não.
— Não?
— Não.
Silêncio mais uma vez.
— Quem foi? — perguntei. Isso estranhamente me irrita. Será que ele beijou o Corey? Se bem, que ele disse que não foi um garoto... então alguma amiga do Corey?
— Isso importa?
— Eu não sei — digo.
— Você acha que o que nós dois temos... é tipo... um namoro? — Liam se sentou na cama, encolheu suas pernas como indiozinho e olhou para mim.
Eu me sentei também, com as costas sobre a parede.
— Essa coisa de namoro é algo tão complicado, por que temos que rotular? Eu gosto de estar com você, gosto quando estamos conversando até tarde da noite, estar perto de você é algo que me deixa em paz, eu sinto que posso fazer qualquer coisa quando estou com você, eu me sinto livre, eu posso ser eu mesmo. Eu não faço ideia de como um namoro funciona de verdade, mas se for assim, eu não me importaria de estar namorando com você, Liam.
Liam arregalou levemente os olhos enquanto me olhava.
— O que está querendo dizer com isso?
— Eu só quero entender o que é tudo isso, às vezes eu me sinto tão confuso — confessei.
— Eu beijei a Lydia.
— A Lydia...?
— É! Eu não quero mais esconder as coisas de você, isso está me sufocando e dizer a você parece ser a coisa certa a se fazer. Eu beijei ela e toquei o seio dela.
— Você o que?!
Eu não acredito.
— Vocês fizeram?
— Não! Nós não fizemos, ela é minha amiga!
— Você é meu amigo, Liam.
— Mas é diferente, Theodore.
— Como é diferente?
— Por que está falando assim? Não é como se você também não tivesse beijado outra pessoa.
Ele está certo.
— Quem é ele?
— Você não conhece — digo.
— Como ele se chama?
— JJ Maybank.
— Que nome estranho...
— Nos beijamos e ele quase tocou... você sabe onde.
— Então você...?
— Eu o impedi antes — digo — eu não queria, se isso acontecesse um dia eu queria que você fosse o primeiro... então você realmente foi.
Senti meu rosto esquentar um pouco e desviei o olhar.
— Eu também não queria fazer com outra pessoa se não fosse você — ouço ele dizer.
Minha garganta está seca.
— Liam, posso perguntar uma coisa?
— Pode.
— Alguma vez você já se perguntou se Deus realmente existe?
— O que? Por que eu duvidaria?
— Eu sei lá... é que as pessoas o descrevem de uma maneira que não parece justa. Se ele é assim tão bom, por que ele não dá misericórdia àqueles que são diferentes? — eu perguntei. Falar sobre isso é complicado.
— Como nós?
— Sim. Nós vamos viver e vamos para o inferno quando morrermos, mas isso não é justo. Não é justo porque eu não acho que isso seja tão errado, durante muito tempo eu pensava que isso era uma atrocidade, é tudo muito novo, mas eu não acho justo ter que pagar de uma forma tão cruel por te achar tão bonito, por te beijar e tocar você... eu sei que toda essa coisa carnal é um pecado, mas não deveria ser pecado se sentir da forma que eu me sinto quando estou com você, isso eu tenho certeza que não é carnal, não é desejo, eu só me sinto feliz e não quero ir para o inferno por isso.
Liam chega mais perto e segura uma das minhas mãos.
— Talvez ele nos dê uma chance, nós nunca fizemos nada de errado aqui, nunca fizemos mal a ninguém — Liam falou — mas se não der, eu nunca vou me arrepender de ter conhecido você, Theo.
Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios.
Eu sou um idiota, por que beijei outra pessoa se tenho ele bem aqui?
— Vamos prometer uma coisa um ao outro? — Liam disse.
Ele segura firme a minha mão.
— O que?
— Nunca mais beijar outra pessoa e se... sentirmos vontade de fazer isso, sempre contar um para o outro.
— Tudo bem — digo rapidamente — não quero beijar outra pessoa que não seja você.
Liam sorri.
— Que horas são?
— Eu não sei — digo — quer tomar café da manhã?
— Quero, mas seu pai não está em casa?
— Vamos para outro lugar, mas promete voltar para eu apresentar você a minha mãe? — perguntei.
— Claro, eu quero muito conhecê-la.
As coisas parecem melhores agora, eu espero que estejam.
— Posso tomar um banho? — ele perguntou.
— Pode, eu te empresto uma roupa.
— Obrigado.
Liam sorri para mim.
Se eu já tivesse escovado os meus dentes eu o beijaria agora.
...⌛...
— Você chegou! Por onde andou, menino? — A mãe de Liam perguntou preocupada assim que entramos no restaurante.
— Oi, mãe. Como a senhora está? — Liam se apressou em abraçá-la.
Saímos da minha casa e tomamos café da manhã em uma loja que vende umas rosquinhas ótimas. Liam disse que precisava voltar para casa, então eu o acompanhei até aqui, durante o caminho conversamos bastante, acho que está realmente tudo resolvido, isso é bom.
— Preocupada! Onde você estava?
— Eu... dormi na casa da Lydia.
— Da Lydia?
Vejo o pai de Liam espiando atrás da porta da cozinha, provavelmente está tentando ouvir o que Liam está dizendo. Sei que é ele por conta de que metade do seu corpo está à mostra.
— É! Nós dormimos lá — digo, vendo os dois olharem para mim — a Lydia pediu para o Liam ficar, e uma amiga dela veio da França e ficou por lá... acabou que nós ficamos por lá.
Vejo a mãe dele olhando para as suas roupas.
— Ah, entendi — a mais velha diz, mas seu olhar parece um pouco confuso.
— Bom dia! — o pai de Liam saiu de trás da porta — e aí, filhão? Como você está? Dormiu fora, né?
Acho que nunca vi ele sorrindo tanto.
— Oi, pai...
— Deve estar cansado, como foi a festa?
— Foi tudo bem — vejo como Liam está desconfortável.
— Diga a sua namorada que ela pode vir almoçar com a família quando quiser.
— O que? — Liam franziu a testa.
— A Lydia! Bom, eu posso dizer a ela pessoalmente quando ela vier trabalhar — ele diz.
— Mas...
— Eu vou comprar alguns milhos, volto logo. Bom dia, garotão! — Ele dá dois tapas em minhas costas quando passa por mim.
O que deu nele?
— Deixa eu te ajudar, mãe — Liam disse
— Não precisa, vá descansar, filho.
— Eu estou bem, eu te ajudo, mãe.
— Então nesse caso, pegue o pedido daquela mesa que eu vou mexer a panela que deixei no fogo. Vocês já comeram? — ela perguntou olhando para nós dois.
— Já sim — digo.
— Tá bom, Sente-se, querido — ela diz para mim — se quiser alguma coisa nos avise.
— Obrigado.
Ela sorri para mim, então entra para a cozinha.
Liam olha para mim e lancei uma piscadela em sua direção, vendo ele sorrir com as bochechas coradas.
— Eu já volto — ele diz e eu assenti.
Me sentei em uma das mesas vazias e o vi pegar uma caneta e um bloquinho enquanto ia até uma mesa. Ele é simpático e sorridente com o cliente, é fofo.
Será que ele gosta da Lydia? Quero dizer, eles se beijaram e... espera, será que ele gosta de mim?
Uma vez o Isaac falou que quem se beija é porque tem algum sentimento um pelo outro, ele até me contou que uma vez quando ele gostou de uma garota, ele ficava toda hora pensando nela, não queria sair de perto dela e às vezes sentia seu coração acelerando.
Ai, droga.
Será que eu gosto do Liam?
Mas e se ele me enxergar apenas como um amigo especial?
Porque na verdade, é o que realmente somos.
Eu odeio rótulos, isso é tão confuso.
— Você por aqui? — Olhei para o lado e me arrependi no mesmo instante por ter olhado.
— Oi, Corey.
— Ei, você veio — Liam veio sorridente para perto de nós, mas ele não está sorrindo para mim.
— Sim, eu briguei com a minha mãe e não queria ficar em casa, eu não tinha para onde ir, então lembrei do seu convite.
Convite?
— Você é bem vindo aqui sempre, o que vai querer?
— Não estou com muita fome...
— Fica aí, eu volto em um segundo — Liam disse antes de entrar para a cozinha.
Vejo Corey puxando uma cadeira e se sentando ao meu lado.
Com tantas mesas vazias, por que ele precisa se sentar bem ao meu lado?
— Aqui é aconchegante, né? — ele falou.
— Hum.
— Você já veio aqui antes?
— É.
— É muita coincidência eu morar aqui pertinho.
Silêncio.
— Não acha?
— Uh.
Ouço ele rir baixo.
— Vocês conversaram?
— O que? — Olhei para ele.
— Eu trouxe pão de queijo — Liam apareceu, segurando a bandeja com uma porção de pão de queijo — vocês querem suco de goiaba ou melancia?
— Eca? — Corey diz.
— Vou trazer apenas água para você — ele mostra a língua para Corey e ele ri — e você?
— Melancia, por favor.
— Ao seu dispor — Liam se curvou em reverência e eu ri — você não vai embora agora, né?
Minha mãe deve estar preocupada.
— Posso ficar mais um pouco — digo.
— Tá bom, o prato de hoje é Feijoada, fique para o almoço.
— Feijoada?
— É muito bom, você vai gostar.
— Se você diz então confio em você — digo, ele sorri — eu já volto.
Vejo ele voltando para a cozinha.
— Vocês são tão gays.
— Você... dá para perceber? — perguntei e Corey começou a rir.
— Eu estava brincando! Você se entrega muito fácil — ele diz ainda rindo — calma, eu já sabia.
— Já?
— Eu e o Liam conversamos — ele diz.
— Sobre o que?
— Ele tem muitas dúvidas.
— E você por acaso é Deus para ter todas as respostas?
— Não, mas sou gay há 17 anos e por incrível que pareça já vivi muitas experiências por aí — Corey falou.
— Hum.
— Você não precisa ter ciúmes de mim.
— O que?
— Eu e o Liam somos apenas amigos, eu já pensei que poderia rolar, não vou mentir, mas eu percebi que não funcionaria.
Que atrevido!
— Somos amigos e nada além disso, você pode parar de me odiar agora porque seu gatinho só tem olhos para você! — ele ri um pouco.
Gatinho?
Meu gatinho?
Olhos só para mim?
— Ele te disse isso? — eu perguntei.
— E realmente precisa?
Um sorrisinho involuntário se forma em meus lábios.
— Ele está caidinho por você.
Então meu gatinho está caidinho por mim?
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