Prólogo




- Nossa, assim você está me deixando tonta! - Diz o pequeno ser sentado, de pernas cruzadas, em minha cama, com um pacote de clube social em suas mãos.

- 3, 2, 1... - Finalizei o meu alongamento e fui em direção à Sofi - A pirueta faz parte do alongamento para, dessa forma, calibrar meu equilíbrio antes da dança. - Ela se esquiva quando tento bagunçar seus longos cabelos loiros.

- Ainda assim me deixa tonta... - Responde de boca cheia, espalhando farelo de biscoito em minha cama.

- É falta de educação falar de boca cheia, pequena! Nossos pais já te ensinaram isso! - Digo repreendendo-a. - E você irá limpar essa bagunça! - Levanto para dar inicio ao meu treinamento.

Ando em direção ao pequeno rádio que ficava em minha mesinha de cabeceira e seleciono a minha música favorita do pianista Soren Bebe. Fecho os olhos e respiro profundamente ao ouvir a doce melodia. Essa era, sem dúvida, uma das minha músicas favoritas para treinar.

Dou início à coreografia que há tanto tempo vinha ensaiando. Não era apenas uma dança qualquer, a cada passo, minha alma se derramava diante do meu Criador, e o meu espírito desejava Sua santa presença. Era como se o próprio Deus estivesse dançando ali comigo. Pode até parecer loucura, mas assim que me sentia ao bailar, pois a dança para mim é uma das mais profundas formas de adoração.

Estava tão distraída que não percebi a entrada de mamãe no cômodo. Só despertei quando o som sessou e a nuvem de glória se dissipou juntamente com a calmaria que inundava o ambiente.

- Já chega, Ana Clara! - Bradou - Deixe-me a sós com sua irmã, Sofia!

- Mas, mã... - A pequena tentou falar, entretanto, mamãe a cortou.

- AGORA!

Sofia desceu da cama cabisbaixa, indo em direção à saída, mas antes de fechar a porta, olhou para mim com os olhos marejados e me ofereceu um pequeno sorriso.

- Mamãe, o que aconteceu para a senhora agir dessa forma? - Pergunto me aproximando lentamente, logo após a saída de minha irmã.

- Você precisa crescer, garota! - Diz apontando para mim e vindo em minha direção - Precisa amadurecer o quanto antes! - Agarrando um dos meus braços, virou-me para que eu fitasse meu reflexo no espelho que ocupava completamente uma das paredes do meu quarto.

- Não estou entendendo onde a senhora quer chegar. - Engulo em seco enquanto mamãe bufava, já perdendo a pouca paciência que ainda lhe restava.

- Ana, olhe para você! Fará 17 anos no próximo mês e tem se comportado como uma adolescente bobinha. Esse seu hobbiezinho não te trará um futuro descente, não te levará para lugar algum, garota! - continuou falando enquanto andava de um lado para o outro - Eu disse ao seu pai para não ficar te mimando e fazendo suas vontades, foi um grande erro ter te colocado no Ballet. Um grande erro!

- E qual é o problema em me tornar uma dançarina profissional? Eu darei o meu melh...

- Então você quer ser uma inútil, Ana Clara? - Diz, encarando-me com incredulidade - Depois de tanto esforço e dedicação de nossa parte para te dar o melhor ensino, você resolve fazer isso comigo, garota? - Agarrando meus braços outra vez, só que agora com muito mais força, jogou-me na cama. - Olhe o exemplo de sua prima Sandra! Ela é uma menina tão inteligente... até conseguiu uma excelente bolsa para estudar moda na França. Terá um futuro brilhante pela frente! Essa sim me enche de orgulho! - Um arrepio percorre todo o meu corpo ao encarar aquele olhar gélido - agora você... - Deu as costas para mim indo em direção ao pequeno rádio em minha mesa de cabeceira. Nessa hora eu já não aguentava mais, as lágrimas rolavam freneticamente pelo meu rosto - Precisamos dar um basta nesses seus sonhos infantis.

- Mamãe, por favor não faça isso! - Clamei ao ver o que ela estava prestes a fazer.

- Depois você irá me agradecer! - Friamente, tirou o objeto que anteriormente tocava no pequeno rádio, e o partiu em vários pedaços, jogando-os no chão à minha frente - Estou lhe dando um novo voto de confiança... veja se não o desperdice fazendo escolhas tolas - Dando as costas para mim, saiu do quarto batendo a porta atrás de si.

Meu corpo tremia de tanto soluçar, já não conseguia enxergar um palmo à minha frente devido a quantidade de lágrimas que saíam dos meus olhos. Sem forças para me ajoelhar, permiti que minh'alma abatida clamasse ao Senhor por socorro. Sentia-me humilhada e rejeitada! Mamãe sabia que ao quebrar aquele CD, ela não estava simplesmente quebrando um objeto que tanto gostava, ela estava dando um ponto final em todos os meus sonhos de uma vez por todas.

Meu coração estava como o CD no chão, completamente estraçalhado, e mesmo que eu tentasse juntar os pedaços, ele jamais voltaria a tocar, assim como os meus sonhos.

E foi ali, com o coração quebrado e sonhos frustrados, que tomei uma decisão, talvez uma das piores decisões de minha vida: seria o motivo de maior orgulho de minha mãe, mesmo que isso custasse a minha própria felicidade!


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"Ora, não há nada mais enganoso e irremediável do que o coração humano, e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo?"

Jeremias 17.9


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