Capítulo 37
Após tomar seu banho, Emily desceu e me ajudou a arrumar a mesa para o jantar. Estávamos em uma conversa gostosa, sentados no sofá. A qualquer momento Sofia e David poderiam chegar. Para falar a verdade, eles já deveriam ter chegado há muito tempo.
Emily ria de algo falado pelo irmão, quando a dor volta com força, como das últimas vezes. Fecho os olhos e tento controlar a expressão em meu rosto. Peço licença e subo a escada. Quase caio algumas vezes, mas me mantenho firme.
Ao virar o corredor, encosto-me na parede e seguro a cabeça com as mãos. Do nada uma fraqueza toma conta do meu corpo, e aos poucos escorrego pela parede ficando agachada. A dor estava tão intensa que me causa um grande mal-estar. Levanto-me com dificuldade e vou até o primeiro quarto com banheiro, o de hóspedes.
Ponho para fora todo o meu almoço. Sinto-me tão fraca que só queria deitar e dormir. Fico alguns minutos sentada no chão, de olho fechado, até ouvir a voz da minha irmã no andar inferior. Levanto devagar, dou descarga, lavo a boca, faço gargarejo com enxaguante bucal e saio do banheiro, no mesmo instante em que Roy passa pelo corredor. A cabeça ainda latejava, mas com menos intensidade.
— Ah, aí está você! — sorri entrando no quarto — Sua irmã chegou!
— Eu ouvi! Vamos! — sorrio sem mostrar os dentes e desvio do seu olhar. Começo a caminhar antes que ele pergunte algo. Assim como a avó, Roy era muito perspicaz — Sorella! — abro outro sorriso, desta vez era totalmente sincero.
Minha irmã corre ao meu encontro. Abraço-a com força, e mais uma vez me dá vontade de chorar. Nos afastamos após um tempo e reparo que minha irmã está radiante.
— Agora você não vai se livrar de mim, Aninha! Estou de volta, e desta vez para ficar! — diz rindo — Como está a vida de casados? — pergunta sugestivamente para Roy, que estava ao meu lado, e para mim.
— Maravilhosa! — abraço a cintura do meu esposo — Ansiosa para conhecer o seu apartamento amanhã?
— Completamente ansiosa! Estava conversando com o David justamente sobre isso e...
A nossa noite foi exatamente assim, com muita conversa, risadas, abraços, lágrimas de alegria. E é claro, não posso me esquecer dos momentos de dor. Muita dor.
Por incrível que pareça, consegui me esquivar dos olhares questionadores do meu esposo. Em alguns momentos consegui disfarçar com sucesso, em outros, algumas caretas ficaram estampadas em meu rosto.
Quando Roy me chamou para conversar, disse a ele que seria melhor fazermos isso antes de dormirmos. Meu esposo concordou com muito custo. No entanto, quando subimos para o quarto, ele foi para o banho e eu para a cama. Fechei os olhos e ali fiquei, até sentir o espaço ao meu lado mexer e a luz ser apagada.
Achei que tinha sido a mais esperta, mas parece que não foi bem assim. Roy envolve minha cintura com o braço e me trás para mais perto de si.
— Eu sei que você ainda está acordada, mas eu vou respeitar o seu tempo. Só quero que saiba que eu estou aqui! — suspira antes de beijar meu cabelo — Eu amo você!
Nessa hora eu quis me virar para ele e contar todos os meus temores. Eu não faço ideia do que me aguarda, mas eu tenho certeza de que não quero preocupá-lo ainda mais. Principalmente sem um motivo concreto.
Na manhã seguinte acordei por volta das nove horas. Roy e Emily já tinham saído para o trabalho e escola, respectivamente. Minha irmã continuava dormindo. Devia estar exausta por causa da viagem. Desço a escada, tomo meu café e só subo para escovar os dentes antes de sair. Deixo um bilhete para Sofi dizendo que tinha saído, mas que voltaria logo para ela conhecer seu novo apartamento.
Resolvo dar uma caminhada, e foi a melhor escolha que eu fiz. Aproveito o tempo para falar com o Pai e sentir a natureza aquietando o meu coração. A criação revela a glória do seu Criador. O sol estava lindo e quente. Mesmo assim havia uma brisa fresca tornando o dia ainda mais belo.
Suspiro profundamente antes de entrar naquele lugar terrível, chamado hospital. Sigo para a ala de emergência, que estava mais cheia do que ontem.
— Bom dia! — cumprimento a atendente — Eu fiz alguns exames ontem e vim pegar os resultados com o doutor Galen.
— Bom dia! A senhora é a Ana Clara Carter? — pergunta.
— Sou eu. — assinto com a sobrancelha erguida.
— O doutor pediu que liberássemos sua entrada assim que a senhora chegasse. Pode entrar por aquela porta e virar no segundo corredor a sua direita. A primeira sala é a do doutor Galen.
— Obrigada! — agradeço e sigo suas orientações. Ao chegar, bato à porta e o doutor manda eu entrar — Olá, doutor!
— Olá, senhora Carter! — seu rosto denuncia o cansaço. Deve estar virado, desde ontem — Como está se sentindo?
— Hoje estou bem, mas ontem à noite foi terrível! Senti tanta dor que cheguei a vomitar em um momento. O que me deixou ainda mais preocupada — comento massageando o couro cabeludo — E eu acabei me esquecendo de pedir para o senhor passar algum remédio.
— Na verdade, Ana, optei por não fazê-lo, visto que os resultados dos seus exames sairiam hoje. — diz pegando um envelope no armário atrás de si. Ele coloca os papeis virados para mim — Infelizmente as notícias que eu tenho não são boas. — continuo com os olhos fixos nos deles. Desejava ouvir tudo, menos aquelas palavras — a tomografia identificou um tumor no tronco cerebral.
— TUMOR? — coloco-me de pé sentindo a respiração falhar.
— Senhora, — ele também se coloca de pé, com cautela — por favor, acalme-se. Eu sei que não é a notícia que esperava ouvir, mas a senhora precisa tentar ao máximo se acalmar, prestar a atenção em minhas palavras e entender a seriedade da questão.
Assinto com a cabeça algumas repedidas vezes e me sento novamente. Fito os papeis enquanto escuto atentamente suas explicações. Em alguns momentos me deu uma vontade louca de sair correndo daquela sala. Em outros, de ligar para o Roy e pedir que ele viesse ao meu encontro. O desespero era evidente em meu rosto. Isso não poderia estar acontecendo!
— Ana Clara?
Fecho os olhos e nego com a cabeça.
— Eu não consigo! — digo e começo a chorar, descontroladamente — Eu... não consigo pensar... em nada mais, além de que estou com um câncer... na minha cabeça. — levo as mãos trêmulas ao rosto — Como isso foi acontecer, doutor?
Sinto suas mãos em meus ombros e isso me faz chorar ainda mais.
— Sinto muito, senhora Carter! Sua preocupação é plausível. Porém ainda precisamos fazer outros exames para saber qual é o tipo de tumor, e qual será o procedimento que iremos fazer. Não sabemos se ele é maligno, o chamado câncer, ou benigno. Por isso precisamos fazer a biópsia o quanto antes.
— Quando? — pergunto enxugando minhas lágrimas e tentando me concentrar em suas palavras.
— Assim que saiu o resultado, eu já consegui agendar um horário para fazermos uma biópsia amanhã. — levanta-se e contorna a mesa — Apesar de existir o tumor benigno, ele também deve ser tratado rapidamente, pois estamos falando de uma área sensível. — aponta para a própria cabeça. — Preciso que a senhora e, se possível, o seu marido, estejam aqui às oito da manhã. Vocês precisarão tomar algumas decisões importantes, principalmente devido a sua condição.
— Minha condição? — rio sem humor e acabo falando rispidamente — Estou doente, só quero saber o que preciso fazer para tirar isso do meu cérebro, o quanto antes.
— Justamente por isso! — une as mãos — Tratamentos como a quimioterapia e radioterapia, são extremamente perigosos para o bebê. — arregalo os olhos.
Sinto meu corpo inteiro gelar. Senão fosse pela cadeira, já teria ido ao chão.
— Bebê? — sussurro.
Percebendo minha reação, o doutor esfrega o cabelo nervosamente com as mãos.
— Me perdoe! Não fazia ideia que a senhora não sabia sobre a gravidez! Não foi minha intenção surpreende-la assim.
— Estou grávida? — toco meu ventre e sinto um arrepio percorrer minha espinha — E com um tumor! — Encosto-me na cadeira e fecho os olhos.
— Ana Clara! — a voz do doutor Galen se distancia à medida que eu sinto o ar faltar.
Escuto seus gritos me chamando, mas não tinha o que fazer. Entregar-me seria a melhor decisão, não é mesmo? Na verdade, não, pois agora não era apenas eu. Tinha uma vida em meu ventre. Tento puxar o ar.
— Eu... não posso... morrer! — é a primeira coisa que, com bastante dificuldade, digo ao recobrar a consciência. Me coloco de pé e o médico segura os meus braços. O que agradeço internamente, visto que minhas pernas bambearam imediatamente devido a fraqueza.
— Você não está bem! Quer que eu ligue para o seu esposo vir aqui te buscar? Assim podemos conversar com ele.
— Não! Eu preciso conversar com ele. — engulo em seco.
— assinto sem parar — E eu ficarei bem. — fecho os olhos e suspiro — O que vai acontecer com o meu bebê, doutor?
O doutor Galen me deixa por dentro de alguns riscos que um tratamento pode causar ao bebê no ventre. Porém prefere conversar melhor comigo na presença do meu esposo.
Ele me dá mais algumas recomendações sobre amanhã, e me passa um remédio especifico em caso de dor. Saio do hospital completamente desorientada. Em minha mente eu tinha um plano, ir à seguradora e conversar com o Roy, mas foi só pôr os pés para fora que tudo desaba novamente.
Fico em pé parada, bem na entrada do hospital, olhando para o nada. Até que um segurança do local vem falar comigo.
— Está tudo bem, moça?
— Sim! Perdão! — digo conseguindo me concentrar e lembrar do meu destino.
Segundo o doutor, uma das consequências de um tumor cerebral era a perda de concentração, e até mesmo a perda da memória. O que me deixa receosa. Para não correr o risco de me perder por aí, pego um táxi e dou o endereço da seguradora Carter. Passo a viagem toda com as mãos em meu ventre, criando uma espécie de barreira protetora. Como se eu fosse capaz de protege-lo de algo que vinha, justamente, do meu interior.
Enxugo os vestígios das lágrimas para não causar tanto alarde, mas sem sucesso. Meu rosto está vermelho e inchado. Qualquer um que me visse naquele estado perceberia que algo estava errado.
— Obrigada! — agradeço ao pagar o motorista.
— Senhora, — chama minha atenção antes de sair do carro — seja o que estiver acontecendo, confie em Deus!
Olho para ele com os olhos marejados, mas não digo nada. Apenas assinto uma única vez, antes de colocar os óculos de sol e sair do carro. Era a primeira vez que pisava na seguradora Carter, não imaginava que viria para entregar uma bomba ao meu esposo.
Tento passar direto, mas sou impedida por um dos seguranças. Belo momento para isso acontecer. Identifico-me como a esposa do Roy. Porém o mesmo me direciona para a recepção. Uma das recepcionistas dá uma risada debochada, fazendo cara de quem duvidava.
— E eu sou a esposa falecida do senhor Carter!
Eu, que já não estava boa, explodo com tal comentário.
— Olha aqui, sua garota insolente, por causa do seu deboche e falta de educação, pode ir dando adeus as suas colegas de trabalho, pois os seus dias nesta empresa estão chegando ao fim. — digo com voz firme e o dedo enfiado em sua cara.
A moça arregala os olhos e começa a gaguejar. O segurança, que pelo visto também está querendo sofrer uma ameaça da minha parte, aproxima-se novamente com cara feia. Mas para sorte dele, David aparece na recepção.
— AC! — sorri. Contudo, ao ver minha carranca e a cara dos demais, crispa as sobrancelhas — Está tudo bem por aqui?
— Pergunte aos seus péssimos funcionários! — encaro cada um. Lembro-me então do motivo para estar ali — O Roy está aqui?
— Sim, está na cobertura. — ele olha do meu rosto para a sacola com a logo do hospital — Você está bem?
Engulo em seco e prefiro me afastar.
— Vocês, — diz aos funcionários — espero que não tenham tratado mal a senhora Carter! Ou preparem-se para o pior. — seu tom é sério e firme. Nunca tinha o visto falar assim.
— Ana! — ele consegue entrar correndo antes que as portas do elevador se fechem — O que está acontecendo?
— Me perdoe, Dav, mas eu prefiro conversarmos com o meu esposo primeiro.
— Claro! — ele fica desconsertado, sem saber o que fazer — Chegamos. — aponta para o corredor, dando-me espaço para ir na frente — Lise, o Roy está na sala dele ou na do meu tio?
— Na sala do senhor Carter, senhor David. — diz se colocando de pé.
— Ok! — olha para mim — Esta é a esposa do Roy, Ana Clara. Ela ficará esperando na sala dele. — sinto a mão de David em minhas costas, mas não olho para ele.
— Tudo bem! Por favor, me acompanhe. — a tal Lise contorna a mesa e me guia até a sala — É um prazer finalmente conhece-la! — sorri docemente — fique à vontade, o senhor Roy deve retornar a qualquer momento.
— Obrigada! — digo e ela se retira, deixando-me sozinha.
Observo a sala por alguns segundos antes de caminhar até a grande mesa preta, que fica na frente de uma cortina de vidro, revelando a bela vista parisiense. Um porta-retratos na mesa do meu esposo chama minha atenção. Era uma foto nossa do dia em que fizemos um piquenique, onde Roy disse pela primeira vez que me amava.
Retiro os óculos e enxugo uma lágrima.
— Eu não posso questionar, Senhor! — sussurro sentido um aperto no peito.
— Querida? — a voz do meu marido me faz congelar no lugar. Pressiono levemente o meu ventre antes de me virar.
É agora!
>>>><<<<
🥺💔🧠😭🤰🏼🙏🏼
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