𝐭𝐰𝐞𝐧𝐭𝐲 𝐭𝐰𝐨, good luck

Oie!!

MUITAS SAUDADES DE SER MAIS ATIVA AQUI SÉRIO Q ÓDIO DA NECESSIDADE DE TER UM DIPLOMA

A rotina tá puxada gente, infelizmente responsabilidades existem e acaba que escrever fica em segundo plano, mas não vou desistir daqui, tenho muitos projetos no off e quero finalizar pelo menos uma história esse ano (espero genuinamente conseguir esse feito)

Recomendo fortemente que releiam o último capítulo postado antes de começar esse aqui e espero muito que gostem!!

Boa leitura <3








🔥




Mikey estava ansioso.

Andava de um lado pro outro sem saber o que pensar, a mente dele só conseguia se prender em todas as possibilidades ruins, até teve a ideia de ir na polícia, mas o treinador Scott logo interviu e pediu para que se acalmasse, dizendo que tentaria resolver a situação. O loiro confiava no mais velho para lidar com o que estava acontecendo, mas como ele se acalmaria se o melhor amigo dele simplesmente não atendia a porcaria do telefone?

Impossível, humanamente impossível, principalmente no dia de hoje.

Mikey passou horas e horas remoendo o fato de que Kazutora tinha ido visitar o pai e que teria que encarar a pessoa que mais odeia e tem medo no mundo, a única pessoa que pode quebrar Kazutora de dentro pra fora, e em qualquer sentido que isso possa sequer ter. Tudo isso é completamente injusto e não tem como acabar não se frustrando, principalmente quando uma situação como essa acontece logo com pessoas tão boas e que só mereciam paz depois de tudo que passaram.

Tentou respirar fundo ao tirar o celular da orelha, vendo mais uma ligação encerrada porque tinha caído na caixa postal. Até tinha tentado ligar para você, afinal, Kazutora tinha falado que você iria na visita com ele, mas nem você o atendeu, o que o fez ficar ainda mais ansioso.

— Vai criar um buraco no chão do tanto que está andando em círculos, capitão.

Mikey levantou o olhar e encontrou Brandon a poucos passos de si, com as mãos nos bolsos da calça moletom preta e os headfones apoiados no pescoço, o olhando com uma mistura de curiosidade e preocupação.

— O que te incomoda tanto?

— Por que quer saber?

— Assim, estamos no saguão de um aeroporto, indo pra um jogo em outra cidade e o meu capitão parece que vai arrancar a própria cabeça. Não vou nem entrar no fato de que são quase nove e meia da noite e o Kazutora não está aqui, sendo que o nosso voo é às onze.

A menção ao melhor amigo fez a expressão de Mikey vacilar, algo que não passou despercebido por Brandon.

— Está tudo bem com o Kazutora?

— Preocupado com alguém além do próprio umbigo? — não conseguiu segurar a alfinetada, vendo o atacante suspirar como resposta.

— Eu sei que sou um babaca na maior parte do tempo, mas ele é meu companheiro de time, além de ser uma pessoa foda. Não tem como acabar não se preocupando e tipo, o time todo está se questionando onde ele está e você ansioso desse jeito só tá confirmando algumas das nossas suspeitas.

Agora, foi Mikey quem suspirou, bloqueando de vez o celular e o guardando no bolso de trás da calça jeans de lavagem escura.

— Está tão óbvio assim que algo de errado aconteceu?

— Só pelo fato dele estar atrasado mostra isso, nem que seja um pouco.

— Realmente... — soltou uma risada fraca e começou a andar de volta até onde o time estava, indicando com a cabeça que Brandon o seguisse.

Sentiu os olhares de seus jogadores quase que imediatamente, mas os ignorou, voltando a se sentar na cadeira onde estava antes, entre Dylan e Ash, e com agora Brandon em sua frente, um pouco mais afastado da maioria do time e da própria comissão técnica, inclusive Scott, que estava há uns bons minutos falando com alguém no telefone.

— Olha, o que eu vou falar aqui só vai ficar entre nós quatro. Se o Kazutora quiser que o resto do time saiba, já é com ele e não comigo — Mikey falou e os outros três jogadores se entreolharam, assentindo em seguida.

Suspirou ao não saber se estava fazendo o certo em contar o que estava acontecendo, mas se eles três soubessem e se acalmassem, talvez o resto do time fosse seguir o mesmo comportamento. Brandon pode ser quem for em relação a personalidade, mas é um dos melhores componentes do ataque, ao ponto do próprio Kazutora confiar nele em campo, já Ash é o "líder" da defesa, não tem uma pessoa no time que não o olhe com no mínimo respeito, e Dylan é o futuro quarterback, quem vai os liderar a partir do próximo ano letivo.

— Ele foi visitar o pai dele — soltou a informação e logo as reações foram instantâneas.

— O que ele foi fazer lá? — Ash disparou, virando o rosto na direção de Mikey, que deu de ombros, levando a cabeça para trás e encarando o teto do aeroporto.

— Decisão judicial.

— Como assim uma decisão judicial? — agora foi a vez do Brandon perguntar.

— O pai dele conseguiu que recebesse uma visita da Maddy, mas vocês bem sabem que o Kazutora nunca deixaria ela ir sozinha e muito menos com a mãe deles.

Um silêncio desconfortável se instalou entre os quatro e o suspiro de Ash foi audível, como a sequência de alguns palavrões que saíram da boca de Brandon, mas quem quebrou o silêncio foi Dylan.

— O que o pai do Kazutora fez?

A pergunta pegou todos desprevenidos, mas logo Mikey soltou uma risada baixa, voltando a se ajeitar na cadeira e virou o rosto na direção do mais novo.

— Já me acostumei tanto com você que até esqueço que é calouro e muito menos daqui.

— Eu acho que vou levar isso como um elogio.

— Não se preocupe, disse isso com o significado mais genuíno possível.

Dylan assentiu, mesmo que ainda incerto, mas observou o capitão pegar o celular, o desbloquear com o reconhecimento facial e entrar na internet, buscando alguma coisa que ele não conseguiu ver pela forma como Mikey digitava, mas logo teve o aparelho estendido em sua direção e o pegou, sem qualquer expectativa do que veria, nem sabia o que o capitão queria o mostrar, mas foi só ler o título da matéria que sentiu o jantar revirar em seu estômago.

— Esse é o pai do Kazutora?

— O próprio — Mikey respondeu com amargor na voz, enquanto observava Dylan ler a matéria que saiu poucos dias depois do fim do julgamento.

Jacob Hanemiya e a condenação por violência doméstica, agressão e abuso infantil: o resumo do caso, além de análise perante a situação política do estado da Califórnia.

— Hoje faz exatos cincos anos disso — explicou para o novato que só assentiu com a cabeça depois de terminado de ler, devolvendo o celular.

— As cicatrizes do Kazutora vieram disso?

— Elas foram até usadas como prova.

— Meu Deus...

Dylan tinha cruzado os braços e encarava fixamente o chão do saguão, processando o que tinha acabado de ler e descobrir, nunca, nem em mil anos, iria pensar que tudo isso tinha acontecido. Por ser de Seattle, esse não é um tipo de notícia que acabaria chegando nele, é algo que realmente acaba ficando dentro da Califórnia, mais especificamente de Los Angeles, afinal, Jacob estava se preparando para se tornar prefeito da cidade.

— Estou preocupado por ele não me atender porque eu não sei o que aconteceu nessa visita. Não sei se deu certo ou se deu errado, mesmo que eu acredite fielmente que seja a segunda opção.

— Será que o Baji não consegue falar com ele? — Brandon sugeriu e Mikey balançou a cabeça em negação.

— Duvido muito e ele já tá lidando com muita coisa pra eu ir incomodar ele e pedir pra ligar pro Kazutora.

— Por isso ele tá brigando com o Chifuyu? — Ash perguntou e tentou indicar de forma discreta o casal, que claramente estava tendo uma conversa bem acalorada.

— Brigando não é a palavra certa, acho que "discutindo" seria melhor — Mikey comentou, desviando o olhar dos amigos — E isso é mais porque o Fuyu não gosta de como o Baji quer lidar com os pais dele.

— Em que sentido?

— De tempos em tempos a mãe dele vem atrás pedindo para conversar e ele quase sempre nega, mas o Chifuyu odeia quando isso acontece porque ela vai atrás dele e ele se vê no meio de uma confusão que não o envolve. Isso acontece há anos e ele tá começando a perder a paciência.

— Acho que eu também acabaria perdendo a paciência — Brandon comentou e Mikey teve que concordar.

— Eu entendo muito bem os dois lados da história, mas não me meto porque aí eles me botariam pra falar quem tá errado e eu não sou a pessoa certa pra dar algum tipo de julgamento em relação a isso.

— Eu quero fazer uma pergunta, mas não sei se estaria sendo intruso demais — Dylan comentou e os outros três riram fraco, percebendo como esse assunto poderia estar soando como se eles tivessem falando grego.

— Pode perguntar, Dylan.

— Por que o Baji não quer falar com a mãe dele?

— Bem, isso começou no ensino médio, logo depois que ele começou a namorar o Chifuyu, porque o pai dele é homofóbico pra caralho e até hoje enche o saco.

— Mas o que a mãe dele tem haver com isso? Tipo, ela não é o pai dele — comentou confuso e Mikey suspirou.

— Ela pode até não ser, mas ela é conivente com o que ele fez, faz ou deixa de fazer em relação ao filho deles. Assim, o cara simplesmente expulsou o Baji de casa quando faltavam poucos meses pra gente se formar e ela não fez nada pra impedir, nem discutiu. Só viu o Baji sair de casa e nunca mais pisar os pés lá, eu e o Kazutora que fomos pegar as coisas dele pra você ter uma ideia.

— Mas que merda.

— Com certeza e assim, eu entendo o Chifuyu porque ele se desgasta, mas é fodido pro Baji também lidar com alguém que nunca o defendeu querendo voltar pra vida dele.

— Muita informação pro meu cérebro.

— Precisamos fazer uma noite só pra atualizar o Dylan e os outros novatos sobre as fofocas e histórias do time — Ash comentou, cutucando Mikey com o cotovelo, que riu da sugestão do ruivo.

— Vou pensar na sua ideia.

O defensor bateu palmas animado e aproveitou para puxar outro assunto, deixando a rodinha deles com um clima pelo menos um pouco mais leve do que antes, o que Mikey genuinamente agradeceu mentalmente. O loiro se permitiu somente escutar a conversa que acontecia na frente dele, tendo assuntos triviais se sobrepondo às preocupações que o cercavam dia e noite, mas isso aconteceu até que visse um dos funcionários da comissão técnica o chamando.

— Já volto pessoal — avisou ao se levantar.

Desviou de mais de 40 jogadores até conseguir chegar em Scott, que tinha saído do telefone e estava com uma expressão bem mais tranquila do que antes, quando Mikey foi falar com ele acerca da demora de Kazutora.

— O Kazutora está bem? — foi a primeira pergunta que saiu da boca do loiro e o mais velho sorriu, gostava demais de como a amizade de dois dos seus melhores jogadores funcionava.

— Sim, ele está bem para vir jogar conosco amanhã.

Alívio tomou conta de Mikey, que suspirou, apoiando as mãos na cintura.

— Era com ele que estava falando no telefone?

— Não, estava falando com o Tony.

— O Tony?

— Aham, ele vai acompanhar o Kazutora amanhã.

— Como assim?

— Eu liguei para o Kazutora também, mas acho que você viu que ele não está comunicável e a minha próxima opção foi falar com a Mary, que prontamente me atendeu, mas logo passou o telefone pro Tony que, segundo ela, é quem sabe mais sobre a questão do Kazutora vir jogar ou não.

— Então o Tony vai assistir o jogo amanhã?

— Isso mesmo, vou pedir pro Diego levar vocês para entrarem na área de embarque enquanto eu vou até a companhia aérea ver se consigo trocar a passagem do Kazutora para amanhã e conseguir uma para o Tony.

— Espera, ele não vem no voo com a gente?

— Eu disse que o Kazutora está bem para jogar amanhã, mas isso não significa que ele está bem agora.

A frase afundou o peito de Mikey de uma maneira que ele não imaginou sentir, não sabendo como encarar Scott sem que a expressão vacilasse e demonstrasse a mais pura e genuína preocupação.

— Mikey, eu sei que você está preocupado, não desejo para ninguém o que o seu melhor amigo teve que passar hoje de tarde, mas no momento, ele precisa da família dele.

— Mas...

— Eu sei que você quer falar com ele, mas nem eu consegui isso. Só falei com a Mary e o Tony e escutei um "oi" da Madeleine no fundo da ligação, mas nada além disso.

Mikey teve que engolir tudo que estava na garganta dele, a frustração de não poder ser o apoio que Kazutora precisava, não poder fazer o que o moreno estava fazendo por ele.

— Pode ajudar o Diego a levar o time pra área de embarque?

— Claro, treinador.

Não precisava de muito para perceber como o loiro estava frustrado com tudo isso, sem contar com o próprio jogo importante que teriam no dia seguinte, simplesmente contra um dos maiores rivais deles dentro da companhia, a Universidade de Stanford, que fica na cidade de San Francisco. Respirou fundo e foi com o Diego pedir para o time se organizar, pegando mochilas e bilhetes para poderem sair do saguão, mas antes que pudesse seguir o auxiliar técnico foi até Baji, que agora conversava com o namorado sem o clima acalorado de antes.

— Posso interromper vocês? — perguntou ao terminar de se aproximar e viu como Chifuyu suspirou, assentindo com a cabeça.

— Já chegou a hora de vocês irem?

— Exato, são mais de quarenta pessoas para passarem pela revista e a gente tá zero a fim de correr risco de perder o voo.

— Totalmente compreensível — o loiro riu fraco e levou os olhos verdes até Baji — Não me olhe desse jeito.

— Não quero ir estando "assim" com você.

— Mas nós não estamos "assim".

— Não?

Chifuyu riu, balançando a cabeça em negação de forma suave, não demorando a ficar na ponta dos pés para deixar um selinho demorado nos lábios do namorado.

— Não estamos. O que está acontecendo é uma situação chata envolvendo alguém que nem no nosso relacionamento está e que vamos lidar com isso depois que você voltar trazendo mais uma vitória pra casa. Tudo bem?

— Tudo perfeito.

Não foi só Chifuyu que riu da frase do moreno, o próprio Mikey caiu na risada, e deu alguns passos de distância para que os dois pudessem se despedir com mais privacidade. Logo, estava ele e Baji andando juntos, fechando o grupo do time ao andarem pelo saguão, recebendo alguns olhares curiosos, afinal, um grupo grande de pessoas usando roupas praticamente padronizadas, no caso os moletons da UCLA, chama uma boa quantidade de atenção.

— O treinador não vem? — Baji perguntou, confuso, ao ver o Scott sendo atendido no balcão da companhia aérea.

— Ele vai resolver umas coisas e depois vai encontrar a gente.

— Envolve o Kazutora?

— Como você sabe?

— Cara, eu não sou tão burro assim.

Mikey riu fraco por um momento, mas se viu atualizando o outro melhor amigo sobre o que estava acontecendo e com certeza com mais detalhes do que tinha dito para Brandon, Ash e Dylan, afinal, Baji sabia de muito mais coisa do que eles. Kazutora sempre foi fechado em relação ao que acontecia dentro da própria cabeça e sobre o que o atormenta dia e noite, mas tem certos momentos que chega a ser impossível continuar assim, colocando tudo o que sente embaixo de um tapete imaginário e fingir que nada daquilo existe.

O problema está no fato de que tudo aquilo existe tão bem ao ponto de o fazer chorar depois de praticamente uma década não se permitindo a ter uma reação tão humana.

É complicado se ver quebrado depois de tanto tempo tentando se segurar de forma quase que impossível no vazio e algo que não pode ser ignorado é a forma como Kazutora se manteve firme na mais pura força de vontade, o que não só o cansou, como também o esgotou.

Por um momento, ele não reconheceu onde estava e isso o assustou, mas logo reconheceu as paredes em tom mais escuro de cinza, o armário, a escrivaninha, as estantes recheadas de livros e a cômoda ao lado da cama. A sensação de que estava em casa o atingiu e ele se viu voltando a relaxar contra o colchão, com o frescor do ar condicionado ligado trazendo uma espécie de conforto, mas ele sabia que não voltaria a dormir. Essa é uma característica dele, o fato de ser muito difícil voltar a dormir depois de estar acordado, poderia estar com o sono que for, não conseguiria.

Suspirou ao se ver sentado na cama e esfregando o rosto com as mãos, tentando espantar qualquer coisa que o faria ficar na cama o dia inteiro. Se forçou a se levantar, subiu um pouco as persianas para uma quantidade mínima de luz entrar no quarto, sendo o suficiente para ele não ligar o interruptor, e foi em seguida na direção do banheiro fazer as higienes matinais.

Porém, a noção de que estava sem espelho o tomou logo ao entrar, o que o fez quase travar. O ambiente poderia até estar limpo, sem qualquer caco ou resquício de algo quebrado espalhado, mas o espaço do espelho estava ali na frente dele, como uma eterna lembrança do que tinha acontecido na noite anterior.

— Realmente sou uma bagunça — murmurou ao pegar a escova de dentes e a pasta, tentando também não focar tanto na mão enfaixada, mas a voz de Tony logo ecoou na porta do quarto.

— Kazutora, você está aí?

— No banheiro!

Escutou os passos do padrasto ecoarem pelo chão e logo o homem entrou no campo de visão, vestido com roupas que usava nos dias em que não estava trabalhando, uma das inúmeras camisetas de banda e calça jeans.

— Bom dia, Tony.

— Bom dia, Kazutora. Já ia vir te acordar.

— Que horas são? — perguntou, ainda um pouco sonolento.

— Quase onze horas da manhã.

Os olhos de Kazutora arregalaram quase de forma imediata, mal querendo acreditar que tinha dormido tanto assim e a noção de que tinha que estar em San Francisco logo o atingiu, ele tinha que estar naquele jogo hoje à noite.

— São quase sete horas de carro até lá.

— Quem disse que vamos de carro? — Tony perguntou, tentando evitar começar a se divertir com o leve desespero do enteado.

— Como assim?

— O seu treinador ligou para a Mary ontem, perguntando o porquê de você não ter ido pro aeroporto. Conversamos para tentar procurar uma solução e uma forma confortável para irmos pra lá e ele conseguiu voo para nós às 14 horas. Não se preocupe que teremos tempo para almoçar, arrumar uma mochila pra você e ir na sua fraternidade pegar o seu equipamento.

Kazutora assentiu com a cabeça, respirando mais calmo e aliviado, mas uma informação se sobrepôs às outras.

— Espera, você vai mesmo conseguir ir no jogo comigo? — perguntou, esperançoso, e sorriu, mesmo que minimamente, ao ter um aceno positivo de cabeça como resposta.

— Mudei um pouco a minha escala de plantão e está tudo certo para eu te ver fazer alguns touchdowns hoje.

— Não estou te atrapalhando?

— Nem um pouco — assegurou, desencostando do batente da porta do banheiro — Prefiro muito mais ver o meu filho jogar do que ir trabalhar.

Kazutora tentou não transparecer, continuando a conversa com Tony com a maior naturalidade que conseguiu, mas ele não poderia negar o fato de que tinha gostado, e muito, de ouvir Tony o chamando de filho e que por um momento se viu quando ainda era uma criança e que só queria que o pai o visse jogar, uma contradição perante a tudo o que já acontecia na época. Por muito tempo e enquanto crescia, se culpou por ainda querer a atenção de Jacob, mas ele só queria "um pai", não um agressor.

— Tome um banho, se arrume e depois desça. Vou começar a fazer o almoço com a sua mãe e com você ajudando o processo fica ainda mais rápido.

Assentiu com a cabeça e logo viu Tony sumindo do campo de vista, o permitindo respirar fundo, apoiando as mãos na bancada. Mesmo sabendo dos horários que teria que cumprir, se permitiu fechar os olhos, apreciando o silêncio que finalmente conseguiu dentro da própria mente. Claro que não foi por muito tempo, flashes do dia anterior logo começaram a aparecer, desde a visita, o espelho sendo quebrado e indo até a briga de vocês, algo que ainda não foi completamente assimilado, porque ele nunca pensou que poderia sentir algo como "ressentimento" em relação a você.

Forçou a jogar um pouco de água no rosto e começou de verdade o dia, indo até o quarto para pegar uma muda de roupa limpa para logo entrar no chuveiro e se colocar dentro de um avião em direção a San Francisco, e foi o que ele fez.

Kazutora suspirou aliviado ao sair da área de desembarque do aeroporto e encontrar Diego, o assistente técnico de Scott, já à espera dele e de Anthony, que parecia o mais animado de todos, afinal, tem um bom tempo que não consegue assistir aos jogos ao vivo, não sendo pela TV ou gravação.

— Você nem imagina o desespero que estávamos com a possibilidade de você não jogar hoje — Diego desabafou e Kazutora riu, tirando os AirPods das orelhas e os guardando na mochila.

— Como é bom ser indispensável — brincou e o assistente riu, começando a guiar os três até a saída para o estacionamento, depois de se cumprimentarem propriamente.

— Nem puxa esse assunto que o Scott sobe pelas paredes.

— Ele já tá pensando no ano que vem?

— Não tem como não pensar, principalmente com você, o Mikey e o Baji saindo ao mesmo tempo.

Kazutora se viu em uma posição de somente conseguir assentir com a cabeça, nunca tinha parado pra pensar como a situação do time ficaria depois que eles saíssem, demonstrando que a comissão técnica teria um trabalho um pouco mais difícil pela frente. O caminho até a Universidade de Stanford não durou mais do que trinta minutos, sendo regado por uma conversa animada entre Anthony e Diego, que comentavam sobre o início da temporada da própria NFL.

Antes de Tony começar a sair com Mary, ele não era tão vidrado no esporte, assistia o Super Bowl mais pelo show do intervalo do que qualquer coisa, mas depois que se começa a namorar com a mãe de um possível futuro jogador profissional, você acaba sendo jogado em meio a universo de um esporte que consegue sim ser muito interessante. Kazutora só acompanhava a conversa do banco de trás do carro alugado, não necessariamente querendo intervir ou algo do tipo, preferiu observar a cidade passando pela janela.

Tinha completa noção de que, pela forma como as coisas estavam acontecendo, Diego sabia do que tinha acontecido na noite anterior, ou pelo menos sabia que tinha ido visitar o pai, percebeu isso com alguns olhares preocupados que recebia de tempos em tempos. Não o julgava, se estivesse na situação dele também se preocuparia, mas é um pouco frustrante, para não dizer outras coisas, porque parecia que agora as pessoas esperavam que ele fosse quebrar e esse é um olhar que ele nunca recebeu na vida.

— Eu vou levar o Tony para onde estamos hospedados para que ele possa se instalar, além de levarmos suas coisas pessoais. Os meninos já iniciaram o último treino no campo, só seguir essa calçada que te leva direto pra lá.

Kazutora assentiu positivamente com a cabeça as instruções de Diego e logo estava se despedindo dos dois, segurando a sua bolsa com os equipamentos em um dos ombros, e andando em direção ao último treino antes do jogo. Ao olhar a tela bloqueada do celular, notou o horário, já eram quase 17 horas, e com o jogo começando às 20, Scott conseguiria fazer um último treino mais leve e já fazer um processo de concentração para o primeiro confronto fora de casa da temporada.

Não demorou para que ouvisse os barulhos de seus companheiros de time, além de uma música, Humble, Kendrick Lamar, que estourava de uma caixinha de som, praticamente tomando o campo de treinamento que tinha sido separado para UCLA antes do jogo, que seria no estádio da Universidade. Kazutora se aproximou com as mãos dentro do bolso da bermuda de treino, já tinha viajado com ela, e se colocou perto da equipe técnica, a qual observava os jogadores terminarem a sequência de aquecimento.

— Escolheram a playlist do Baji hoje?

A voz do moreno ecoou e não demorou nem dois segundos para que Scott se virasse e respirasse aliviado por o ver ali, indo o abraçar praticamente de imediato.

— Você está bem, garoto? — perguntou em meio ao abraço, mas se afastou para poder receber a resposta olhando o mais novo nos olhos.

— Vou ficar.

— Pra mim, é isso que importa — sorriu, sincero, e Kazutora riu de leve, levando os olhos até o campo.

— Já posso me juntar a eles?

— Com certeza, só se alongue e corra duas voltas.

Assentiu, deixando a própria mochila perto de onde as outras dezenas estavam e se dirigiu ao campo, começando a alongar os braços enquanto andava.

— Você viu a mão dele, Scott? — Carlos, integrante da equipe médica do time, perguntou, não tirando os olhos de Kazutora.

— Sim, vou explicar de forma mais detalhada o que aconteceu depois, mas não é nada tão grave.

— Mas ele vai jogar?

— Ele precisa jogar, Carlos — a resposta do técnico bastou não só para o próprio Carlos, mas também para toda a equipe se calar perante a esse assunto de uma vez.

Todos se preocupavam com Kazutora de maneira genuína, mas ele precisava de uma distração, colocar a cabeça em outro lugar, e o futebol americano é um ponto seguro pra ele e Scott sempre soube disso.

O treinador se lembra até hoje do dia em que ligou a TV para assistir o noticiário e simplesmente viu o rosto de um dos novatos do seu time para a próxima temporada como uma vítima de violência doméstica. Desde a denúncia, feita em abril daquele ano, as autoridades tentaram encobrir o caso, não necessariamente para proteger Jacob, mas sim as vítimas. Então, quando aconteceu o primeiro vazamento, mais ou menos em julho, pareceu que o mundo tinha virado de cabeça para baixo e não foi à toa a grande repercussão que o julgamento recebeu, já em setembro.

No primeiro dia de treino daquele ano, aconteceram alguns olhares curiosos para cima de Kazutora, além da clara posição protetiva que os outros dois componentes do trio de ouro possuíam em relação a ele. Scott percebeu então que talvez poderiam acontecer algumas confusões dentro do time, mas ele fez questão de falar com o próprio Kazutora após o fim daquele treino e depois que a pequena reunião dos dois tinha acabado, ele soube que tinha em seu time um ótimo jogador, com muito potencial para ser explorado, e uma pessoa excelente, mas que só tinha sofrido demais.

Mikey não demorou a ver a figura do melhor amigo se aproximando, parando de fazer a série de exercícios no meio. Por um instante ficou parado, somente o observando, quase como se não pudesse acreditar que ele estava ali, mas logo começou a andar na direção dele e depois já estava correndo.

Kazutora percebeu a cabeleira loira correndo em alta velocidade e se preparou para o impacto, abrindo os braços para o abraço que ele sabia que necessitava. Ambos cambalearam alguns passos e por muito pouco não foram ao chão, o que gerou risadas, mas logo o silêncio reinou entre os dois melhores amigos, enquanto se abraçavam.

— Nunca mais não atenda as minhas ligações, eu te imploro — Mikey murmurou contra o pescoço de Kazutora, onde escondia o rosto.

— Só se você me pedir de joelhos.

— Eu não estou brincando, Kazutora — a voz do loiro saiu séria ao erguer a cabeça e finalmente o olhar nos olhos, percebendo na hora que tinha de algo diferente.

O dourado não estava tão brilhante quanto antes.

— Deu tudo errado? — sussurrou a pergunta e Kazutora desviou o olhar para a grama do campo.

— Mais do que você possa imaginar.

Foi aí que Mikey notou a mão enfaixada do amigo e as perguntas estavam estampadas no seu rosto, mas não seria agora que ele conseguiria as respostas que queria.

— Eu te conto tudo mais tarde, mas eu preciso desse treino primeiro. Tudo bem?

O pedido o pegou de surpresa, principalmente por Kazutora se colocar em uma posição de falar sobre algo que aconteceu com ele, mas não o questionaria, não em um momento tão único quanto esse.

— Eu contei pro Baji sobre o que você ia fazer ontem — falou, enquanto os dois andavam de volta na direção do time.

— Mais alguém sabe?

— Brandon, Ash e Dylan — respondeu, incerto, com receio de ter feito merda ao abrir a boca para outras pessoas.

— Tudo bem.

— Mesmo?

— Mesmo — Kazutora riu fraco, respirando fundo — Eles me questionariam e eu contaria de qualquer forma.

— Você está realmente disposto a falar sobre isso?

— Eu cheguei no meu limite, Mikey... Realmente cheguei no meu limite.

As pernas de Mikey travaram um pouco, deixando que Kazutora se afastasse um pouco mais, logo recebendo também um abraço bastante apertado de Baji. A mente do capitão simplesmente paralisou no tempo e no espaço, processando o fato de que simplesmente a rocha, o porto seguro, a fortaleza do grupo tinha chegado no seu próprio limite. Chega até ser um pouco ridículo pensar que alguém não tem um limite ou que ele seja tão longe que chega a ser intocável, mas, na verdade, todos têm, principalmente os guerreiros mais fortes.

Mikey se pegou pensando sobre isso várias e várias vezes ao longo do treino, perdido nas possibilidades do que poderia ter acontecido na visita, se deixou levar pela própria mente ansiosa que não estava tendo nada corrosivo a atacando, pelo menos nos últimos dias. Se deixou vagar pelo medo de ter o seu melhor amigo machucado novamente, pelo receio e até mesmo pânico da possibilidade de Kazutora sumir da vida dele, em qualquer sentido metafórico ou literal que isso possa significar.

O tempo passou e já estava escurecendo com o time no vestiário do estádio, alimentados e se preparando para o jogo difícil que teriam, afinal, remorso é uma coisa complicada quando se trata de perder uma final de divisão, a qual garantia uma vaga para os play-offs, o conjunto de jogos que definem os dois times que competem na final do campeonato nacional. Stanford estava se preparando para superar a UCLA e lutar para poder avançar ainda mais na competição, tentando quebrar a hierarquia que acabou se formando na divisão nos últimos anos.

Porém, isso com certeza não é uma tarefa fácil, afinal, se um time está no topo, tem motivos para isso. E no caso da UCLA, eles têm de sobra.

Mikey respirou fundo ao entrar novamente no vestiário, ainda não tinha terminado de se vestir, só estava com a parte debaixo do uniforme pronta, mas tinha que fazer algo antes do que qualquer coisa e Scott tinha autorizado a ideia dele. O treinador fez questão de afirmar que não ligava se isso poderia trazer problemas pra ele perante a organização que comanda os jogos universitários, ele só queria que a mensagem que o seu quarterback queria passar fosse escutada pela maior quantidade de pessoas possível.

O capitão andou devagar pelo espaço, com alguns de seus jogadores o encarando desconfiado, afinal, é um pouco estranho ver logo Mikey ainda não vestido e com uma boa quantidade de cartazes em mão, mas ele tinha que fazer isso por Kazutora, alguém que o olhava com uma completa confusão no rosto, inclusive tirando os fones e os guardando na mochila.

— O que é isso? — perguntou para o melhor amigo quando ele parou bem na frente dele.

— Uma mensagem que eu quero passar.

A resposta foi ampla, mas logo se tornou específica, com Mikey mostrando cada um dos tipos de cartazes que tinha pedido a ajuda de Senju para que pudessem ser feitos. As líderes de torcida tinham chegado pela manhã em San Francisco e não hesitaram em ajudar em realizar um pedido até que simples, mas com uma mensagem extremamente poderosa.

Kazutora, por longos segundos, dividiu seu olhar entre os cartazes e o melhor amigo, sentindo o seu peito afundar com o passar do tempo.

"Pelo fim da violência doméstica"

"Denuncie e salve vidas"

"Ligue para 911"

Cópias e cópias das frases estavam na mão do capitão, que não sabia como propriamente reagir, afinal, o melhor amigo dele não falava nada. Em outros contextos, o silêncio de Kazutora poderia ser reconfortante, quase como se fosse a materialização da calmaria depois de uma tempestade, mesmo que ele em si fosse um fenômeno da natureza tão intenso como a própria intensidade. Porém, o que ele poderia sequer dizer?

Sentia a garganta apertada e a sensação que poderia começar a chorar, algo que com certeza ele não se habituaria de maneira tão fácil.

— Estou me questionando muito se fiz merda — Mikey sussurrou, mas foi o suficiente para que Kazutora "despertasse" do transe que tinha entrado.

— Não... — conseguiu dizer — Você com certeza não fez merda.

O moreno segurou com um pouco mais de força as laterais do cartaz que segurava, um dos que dizia "Denuncie e salve vidas", e respirou fundo, após se levantar do banco em que estava sentado.

— Você consegue entender o tanto que isso significa pra mim? — ele perguntou e Mikey se viu quase que assustado, afinal, nunca pensou que ouviria a voz do melhor amigo falhar.

— O que aconteceu ontem? — conseguiu perguntar e Kazutora desviou o olhar para o teto por alguns segundos.

A pergunta ficou no ar, com a resposta na ponta da língua, mas como ele diria tudo? Ele nunca falou, nunca colocou em palavras o que acontecia com ele, foram anos e anos para que pudesse compartilhar situações e cenas da infância e adolescência. Como ele falaria sobre o momento que o fez reviver tudo que tinha colocado trancafiado dentro de si?

Teve que respirar fundo, com o silêncio do vestiário o atingindo em ondas, percebendo como o time estava quieto, o que o fez sentir uma espécie de ansiedade, que começava a formigar na pele, não conseguiria descrever o que plenamente o que sentia, principalmente por saber o tanto que significava para todas as pessoas que estavam ali. Por isso, se viu se afastando de Mikey, ainda com o cartaz em mãos, e andou até o centro do vestiário.

— Já aviso de prontidão que não sou bom em falar em público — começou, tentando não só aliviar o clima, como também se acalmar.

Algumas risadas ecoaram pelo vestiário e sustentou o olhar com Mikey, que o observava com uma clara dúvida.

— Ontem, de forma bem específica, foi um dia bem merda pra mim e acho que pelo menos a maior parte de vocês vai me entender. Assim, não consigo acreditar que possa existir alguém nesse mundo que não seja assombrada por algum tipo de fantasma do passado. — acenos de cabeça e alguns comentários em concordância ecoaram e Kazutora se viu respirando fundo mais uma vez, com um formigamento surgindo lentamente em suas costas. — Sei que a maioria de vocês também não sabe muita coisa sobre a minha vida e isso foi uma escolha que tomei ao longo do tempo por causa das coisas que eu passei. Algo que também tenho noção é o fato de que alguns gostariam de saber a origem das minhas cicatrizes e outros até sabem, mas não conversam comigo sobre, algo que particularmente sou grato, e falo isso da forma mais sincera possível. E... Eu acho que hoje é o dia que vou explicar.

Kazutora virou o cartaz para que todos pudessem ver e a confusão nos rostos de seus companheiros de time foi imediata, o que um "Denuncie e salve vidas" deveria significar? Para aqueles que entraram recentemente no time, são de outros estados ou até mesmo não se lembram de algo que aconteceu há cinco anos atrás tudo parecia uma emaranhado de palavras sem muita explicação, mas quando Kazutora andou até Mikey e pegou outro cartaz, agora dizendo "Pelo fim da violência doméstica", tudo fez sentido.

E o silêncio absoluto se fez presente.

— Eu não gosto muito da palavra "vítima" nesse contexto, mesmo sendo uma que não esteja errada, mas pelo menos eu não me vejo como uma. Acho que "sobrevivente" se enquadra mais.

A figura de Kazutora no meio do vestiário falando sobre seus problemas parecia irreal não só para Mikey, como para Baji também, o que os deixava levemente felizes, afinal, lidar com todos os seus problemas sozinho não é algo bom ou fácil, mas também os deixava preocupados, porque o que poderia ter acontecido para deixar o melhor amigo deles em tal situação?

— Mikey fez esses cartazes por causa disso, ele e o Baji também são voluntários comigo junto com a prefeitura de Los Angeles em um programa que a minha mãe financia para ajudar mulheres e crianças que não possuem condições para irem até lugares seguros. Eles sabem dessa parte da minha vida, de como depois de anos existem coisas que ainda me atormentam e que eu possuo mais cicatrizes do que essas que estão na pele. E assim, vocês bem sabem que eu não sou que nem aquele dali que fica enchendo o saco pedindo coisa toda hora...

A cara de indignação de Mikey foi tão grande que Kazutora riu alto junto aos outros integrantes do time, fazendo um coração com as mãos para o melhor amigo, mesmo que um pouco desajeitado.

— Então, vocês se importariam de fazer parte disso comigo? — a pergunta foi sincera, com os cartazes em mão e vulnerabilidade pelo momento como um todo.

Muitos ali nunca tinham visto Kazutora falar sobre si de tal forma, ele sempre foi mais um ouvinte do que qualquer coisa e a maioria do time já tinha desabafado com ele pelo menos uma vez. Então, eles não conseguiriam simplesmente negar.

— Você tem noção do tanto que nós te achamos foda? — Dylan perguntou e Kazutora riu fraco, balançando a cabeça em negação — Eu juro que nunca falei algo tão certo na minha vida.

Foi tão natural assistir o time se levantar como todo e ir atrás de cartazes, receber abraços, apertos no ombro e até algumas palavras de conforto, que se sentiu estranho. Chega até um pouco ser engraçado, não acha? Mas tudo é um processo complexo, que não deve ser apressado, muito menos ignorado. Inclusive, é algo característico da vida, esses processos, mudanças e construção de novos hábitos, ou até mesmo a busca por esperança em meio a um lugar que um dia não se via mais salvação.

Você encarava as inúmeras caixas que estavam na garagem da sua casa com um certo peso no peito, principalmente pela maior parte delas pertencer a alguém que não faz mais parte da sua vida. Um suspiro saiu dos seus lábios quando desceu os pequenos degraus e entrou de vez no cômodo, acendendo a luz para contemplar melhor todos aqueles objetos. Não sabia necessariamente porque foi até ali, mas os seus pés te guiaram e aqui estava, remexendo em caixas que poderiam vir diretamente de uma máquina do tempo, de uma época em que vivia na ilusão de que a sua família funcionava.

Depois de jantar com seu pai, acabou dormindo em casa, mais especificamente em seu antigo quarto, com a enorme janela com vista pra rua, o que te trouxe uma certa nostalgia. Um certo clima ainda se mantém, o café da manhã foi particularmente silencioso e o almoço foi melhor porque seu tio resolveu fazer uma visita surpresa e até mesmo decidiu ficar pelo resto da tarde. Foi engraçado se ver novamente sentada no "sofá-balanço", que tem na varanda da sua casa, com os dois enquanto tomavam limonada e conversavam sobre tudo um pouco.

Acabou atualizando seu pai sobre a sua vida, falou sobre o estágio, mostrou fotos da sua viagem para o Havaí e ainda comentou sobre as dúvidas acerca das especializações que pretende fazer depois de se formar e ainda ouviu as opiniões dele sobre, não se surpreendendo com ele dizendo que te vê mais como uma enfermeira de UTI do que qualquer coisa. Foi uma tarde boa e agora, com a noite já preenchendo o céu da Califórnia, conseguia ouvir de fundo o som de Enjoy The Silence, Depeche Mode, enquanto seu pai e tio arrumam a casa para assistirem o jogo UCLA X Stanford, já que alguns amigos deles da época da faculdade apareceriam.

Já estava pronta para ver o jogo, com uma camiseta antiga que tinha achado no seu armário, provavelmente de quando tinha entrado na faculdade, e não sabia necessariamente o que sentir. Ao longo de anos se habituou a ver os jogos dos meninos, até mesmo aqueles que eram fora de casa, e hoje estava sendo uma exceção tão grande em relação a essa rotina que o seu coração apertava, sem falar do hábito que tinha criado de ficar olhando o celular em busca de qualquer atualização de Adelaide sobre a situação de Johnny.

Só de pensar em tudo isso se sentia cansada, quase como se tudo fosse desmoronar só com um simples estalar de dedos.

Estava tão avoada com a própria cabeça que não ouviu passos atrás de si, só percebendo que tinha alguém com você na garagem quando escutou a voz de seu pai.

— Você amava essa fantasia, praticamente tinha que lavar todo dia porque você sempre queria a vestir.

Quase saltou pelo susto, piscando os olhos para voltar a ter foco e logo percebeu do que o seu pai estava falando, já que segurava uma foto bem específica. Estava no colo da sua mãe, vestindo a fantasia completa da princesa Jasmine, quase certeza de que essa foto tinha sido tirada no seu aniversário de oito anos, com balões verdes e dourados decorando o fundo. A sua mãe tinha um sorriso mínimo, já o seu dominava praticamente o seu rosto inteiro enquanto passava os seus braços pelo pescoço da mulher e colava a sua bochecha com a dela.

— Ela nunca gostou muito de mim, não é?

A sua pergunta fez com que o seu pai suspirasse, se apoiando na estante metálica ao seu lado, com o olhar dele desviando da foto e indo até o seu rosto.

— Quer a minha opinião sincera?

— Por favor.

— Acho que a sua mãe amou e continua amando você, mas gostar sempre foi um tópico difícil pra ela.

— Tenho a mesma opinião — passou o dedão sobre a foto, tirando um pouco de poeira que tinha ali.

— Ainda conversa com ela?

— Não muito, acho que a última vez que conversamos foi no ano-novo. E você?

— Falei com ela semana passada.

— Por causa das caixas?

— Aham, não posso simplesmente jogar as coisas dela fora.

— Mesmo com ela as largando aqui anos atrás?

— Não são minhas, então não posso tomar essa decisão.

— Justo. Ela vai querer alguma coisa?

— Não, disse que posso até vender.

— Não esperava algo muito diferente — soltou uma risada fraca ao guardar a foto de volta na caixa.

— Você conhece a Harper?

— Você sabe da namorada dela? — perguntou um pouco chocada e seu pai riu.

— Claro que sei, ela não é a atual campeã mundial?

Se a sua mãe já é uma lenda aposentada do surf, Harper é uma estrela em ascensão, de forma que as duas sejam vistas com muita admiração pela comunidade, afinal, talento e dedicação para o esporte é extremo por parte das duas.

— Ela é e acho que vai ser esse ano de novo.

— Não duvido, ela é quase tão boa quanto a sua mãe.

— Vocês ainda conversam?

— Não muito, às vezes ela me pergunta sobre como você está, mas nada além disso.

Assentiu com a cabeça e deixou que o silêncio os abraçasse, não um necessariamente estranho, mas não que chegava a ser confortável, porque existem muitas coisas a serem ditas entre vocês dois.

— Às vezes, eu me culpo pela relação que você e a sua mãe tem.

— Por que diz isso? — perguntou, aproveitando para se sentar em uma banqueta que estava largada no meio da garagem.

— Eu que quis que você tivesse uma vida "normal" e acabei frustrando muitos dos sonhos da sua mãe por isso.

— Você sabe que eu te agradeço por isso — foi sincera, batucando os dedos na coxa — Eu não consigo ver a minha vida sem ter morado aqui e assim, nós dois sabemos que ela foi embora por motivos além do casamento de vocês.

— Ela nunca quis uma vida estável.

— Ela nunca quis ser mãe — você corrigiu o seu pai e mesmo que fosse uma frase difícil de dizer, não sentia amargor nenhum em constatar um fato — Ela tentou, sei que tentou, caso contrário não teria memórias boas com ela. Assim, sendo bem sincera, a maioria delas ainda envolvia surf, o conforto dela, o que deixava mais fácil o ato de lidar comigo.

— Não fale como se fosse um inferno ficar com você.

A sua risada preencheu a garagem e seu pai balançou a cabeça em negação, te olhando levemente indignado.

— Não quis dizer isso, mas você sabe que pra ela eu sempre acabei sendo um incômodo. Você vivia discutindo com ela sobre isso.

— Você ouvia?

— Um pouco difícil não escutar enquanto vocês gritam a plenos pulmões — tentou deixar a frase com um tom leve, mas falhou.

— Desculpa.

— Águas passadas — deu de ombros, mesmo sabendo o tanto que ouvir essas discussões te marcaram — Mas você foi e é diferente dela em relação a isso.

— Eu sempre te quis.

A sinceridade do seu pai é algo que te marcou, em todos os sentidos, porque ele sempre foi verdadeiro com você, principalmente pelo fato de que foi ele quem te criou de verdade.

— Mesmo com tudo, o fato de você ser o meu pai nunca mudou.

— E nunca vai mudar.

Um sorriso sincero apareceu no seu rosto, espelhando o que estava no do seu pai.

— Aproveitando aqui, desculpa pelas mensagens que te mandei da última vez que nos falamos, não estava em um bom momento.

— Não se preocupe, já imaginava algo parecido.

— Queria que você não tivesse que pensar algo assim sobre o seu pai.

— Mas você está tentando para que isso não aconteça mais, certo?

O seu pai te olhava com um olhar que você não conseguia entender o que significava, uma mistura de sentimentos que só alguém que não merece o que tem consegue sentir, porque ele sempre teve dúvidas em relação ao fato de como você poderia ser filha dele, mas esse é o ponto. O seu pai é um homem incrível, mas que se corrompeu para um lado da vida do qual é muito difícil de se libertar e ele está tentando de novo, tentando sair dessa por ele e por você.

— Estou e essa vai ser a tentativa definitiva.

— Vão ficar aqui escondidos até que horas? — não conseguiu responder por causa da voz do seu tio, que ecoou da porta da garagem, a qual fazia a ligação com o interior da casa.

— Já terminou de arrumar as coisas? — o seu pai perguntou, se desencostando da estante e começando a andar na direção do irmão caçula.

— Depois de você me abandonar com o trabalho difícil.

— O trabalho difícil de colocar salgadinhos num pote?

— Você sabe o tanto que é difícil abrir um pacote de Doritos?!

Você riu da interação dos dois e saiu andando atrás deles, recebendo um olhar do seu pai que dizia tudo que precisava, que se ainda quisesse conversar ele estaria disponível e para o momento, isso já era o bastante.

Respirou fundo enquanto abria uma garrafinha de Smirnoff Ice, tomando um gole da bebida gelada ao se sentar em um dos puffs novos que o seu pai tinha comprado para a recente decoração que estava sendo feita na casa, que variava entre pintar as paredes de cores diferentes até trocar móveis, tudo para marcar o recomeço definitivo da vida dele.

Vozes te cercavam com os amigos do seu pai e do seu tio reunidos pela sala na frente da enorme TV que agora decorava a parede principal, tinha que admitir que essa foi uma ótima compra, se brincar a resolução dela é melhor do que a sua visão. Você, inclusive, até se lembrava da maioria das pessoas que estavam ali, muitas só tinha visto quando criança e precisou de ajuda para recordar dos nomes, mas a experiência estava sendo divertida, já tinha dado altas risadas das clássicas "piadas de tiozão", o auge do entretenimento de quando se fala de homens que beiram o final dos seus quarenta e início dos 50 anos.

A pré-transmissão do jogo passava na TV com comentaristas já dando suas opiniões sobre o jogadores e o jogo em si, não conseguiu conter o sorriso orgulhoso quando mencionaram os seus amigos, sabe que os seus amigos são bons e estarem no último ano aumenta ainda mais os holofotes que sempre estiveram sobre eles. Porém, uma sensação estranha tomava o seu peito, não conseguia colocar em palavras, mas algo te dizia que o jogo não seria fácil, talvez pudesse ser o fato de que Stanford pode ser um adversário difícil por terem um defesa sólida, entretanto, não saberia afirmar se era isso.

Tomou um gole mais longo da bebida ao ter a imagem dos comentaristas saindo da tela com o anúncio da entrada dos times sendo feito e as câmeras focando nos jogadores de Stanford e sua equipe de torcida, que corriam pelo campo ao som de uma música eletrônica qualquer. Uma risada saiu da sua boca quando ouviu o seu tio vaiando e sendo seguido por boa parte das pessoas que estavam na sala, o que te fez balançar a cabeça em negação.

— Esses daí não tem chances contra os meninos — o seu pai comentou, ficando em pé ao seu lado.

— Isso é um fato.

— Quer apostar no resultado?

— Qual é o seu palpite?

— Está tentando ser espertinha e se basear no que eu vou falar? — ele te julgou com o olhar e você riu mais uma vez.

— Só estou usando as táticas que você mesmo me ensinou.

— Depois eu que sou a má influência pra ela.

— Você a ensinou a falsificar assinaturas, Mark!

— Ela precisava ir no passeio do zoológico!

— Ela tinha 11 anos!

A sala inteira se divertia com a pequena discussão entre os irmãos e você sentiu o seu peito se aquecer com tudo que a rodeava, pelo menos alguma parte da sua vida parecia encaixar de alguma forma.

— Pra mim vai ser 41 X 28 para nós — a sua voz interrompeu os dois e o seu pai ficou alguns segundos pensando na aposta dele.

— 26 X 21 para os meninos.

— Tão apertado assim?

— Stanford é uma universidade difícil de se lidar.

— Tenho que concordar. Qual vai ser a aposta?

— Ter que lavar a louça depois do jogo?

— Fechado.

Firmaram o acordo com um pequeno brinde, a sua garrafinha de Ice com o copo de Pepsi do seu pai, sim, ele é o tipo de cara que prefere Pepsi do que Coca-cola.

A sua atenção logo voltou para a TV, agora com o anúncio da entrada da UCLA ressoando, mas o seu coração afundou no peito com o que estava sendo transmitido, o silêncio agora reinava na sala antes barulhenta. Sentiu a mão do seu pai apertando o seu ombro e os seus olhos marejaram quando a câmera focou em Kazutora, que liderava não só a entrada dos jogadores, mas das líderes também.

— Foi ontem que fez cinco anos da prisão do Jacob, não foi?

Não conseguiu responder em voz alta, só um pequeno aceno de cabeça em concordância foi o que conseguiu fazer, a sua atenção completamente vidrada na TV. Os seus ouvidos zuniam de leve, com as vozes dos comentaristas quase que de fundo, mas ainda conseguia identificar o que falavam, mencionando a prisão de Jacob e dando a opinião deles sobre os cartazes que o time da UCLA carregava, principalmente mencionando a coragem que Kazutora tem.

Denuncie e salve vidas.

Essa frase de forma bem específica te fez afundar ainda mais no puff, porque você se lembra muito bem em como, depois que a prisão de Jacob tinha sido decretada, Kazutora praticamente correu de onde estava sentado e foi até você, ainda no meio daquela maldita sala do tribunal de Los Angeles. Ele te abraçou apertado e escondeu o rosto contra o seu pescoço, ficando naquela posição por minutos intermináveis até que ele sussurrou a frase que seria tatuada no seu coração, além de te ter feito chorar ali nos braços dele.

"Muito obrigado por ter salvado a minha vida".

Respirou fundo e se forçou a tomar mais um gole da bebida, praticamente terminando a garrafa, não poderia deixar que o choro saísse ali no meio da sala, se colocando de pé em seguida quando anunciaram que o hino dos Estados Unidos começaria a tocar, sendo a imagem de Kazutora, com o cartaz estendido sobre a cabeça, a última antes que a banda de Stanford fosse o foco, já que seriam eles que tocariam o hino.

Se sentia inquieta, afinal, ainda não sabia o que tinha acontecido naquela visita, mas aquilo dentro de você, que dizia que o jogo não seria fácil, agora gritava e o seu coração apertava, enquanto os versos do hino ressoavam pela sala, não demoraria muito para que o jogo começasse de forma definitiva.

Você tinha que se redimir com Kazutora.

Algo que deixava a situação ainda mais complexa é o fato de que você não era a única que estava pensando dessa forma, ou pelo menos de uma maneira parecida.

Afinal, Kazutora nunca tinha jogado sem ouvir o seu desejo de "boa sorte".







OI DE NOVO

É galera, como estamos em KKKKKK

Sei que muitos gostariam de ter visto a [Nome] e o Kazutora conversando já nesse capítulo, mas não se preocupem que isso já vai acontecer no próximo 👀

Aqui eu quis focar em como tudo está se organizando e até mesmo como falei nas notas finais de uns capítulos atrás, os limites dos personagens estão sendo testados agora, porque muita coisa não é conversada direito e né, tudo tem consequências nessa vida, sendo elas boas ou não...

Bem, espero que tenham gostado do capítulo! Não se esqueçam de votar e de comentar (AMO ler o feedback de vocês)!

Até a próxima! ♥︎

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