𝐭𝐞𝐧, sober
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CW/TW: menção ao consumo de drogas ilícitas e crise de ansiedade
Às vezes, parece que o nosso cérebro quer brincar conosco, fazendo com que certos pensamentos apareçam e que eles fiquem se propagando quase de forma eterna em nossas mentes. Você não conseguia entender o porquê disso acontecer, não tinha motivos para ficar pensando nesse tipo de coisa, ficar revivendo momentos que não foram necessariamente bons.
Tinham se passado uns dias desde o fatídico sábado que Blake foi atrás de você no seu dormitório e, de alguma forma, as horas que ele passou com você no seu quarto estavam presas na sua mente. Tinha sido legal até, por alguns bons minutos vocês ficaram conversando, foi bom simplesmente poder falar sem ter que se lembrar das responsabilidades, mas não durou muito.
Você até mesmo se questionava porque tinha ficado surpresa quando o seu namorado começou a te beijar. No início, parecia ser um ato fofo e a frase: "Sou completamente viciado em você" só aumentou a ilusão daquele momento, já que não é como se Blake fosse se limitar a um conforto de palavras. Ele nunca perdeu a oportunidade de transar e te marcar, até mesmo parecia como se um dono estivesse marcando sua posse, mas você ainda não tinha tido essa realização e é por isso que a sua mente estava te perturbando, fazendo comparações que não devia.
Não parece certo comparar Blake com Kazutora, já que eles são pessoas diferentes e também ocupam posições distintas na sua vida, mas estava sendo quase que instintivo, cada mínimo minuto que tinha passado com o seu melhor amigo na praia tinha sido muito melhor do que aqueles com o seu namorado e isso até mesmo te frustrava. Quando que passar tempo com Blake tinha se tornado um incômodo?
Balançou a cabeça em negação e terminou de lavar as mãos, indo até dispenser de papel-toalha para as enxugar.
— Já ia perguntar se você tinha morrido aqui dentro.
Você escutou uma voz vindo da porta e encontrou Kimberly, a sua colega de turma e de estágio. A loira, com as pontas do cabelo tingidos de um tom suave de azul, te olhava com uma certa dúvida, estranhando a quantidade de tempo que você tinha passado no banheiro, até mesmo se sentia levemente preocupada, ela te pegou várias vezes completamente perdida na própria mente enquanto trabalhavam no hospital.
Porém, você não conseguia se desprender direito desses pensamentos e dúvidas, principalmente do que tinha escutado Maddy falando para Kazutora, bem no momento em que foi chamá-los para almoçar: "Você não precisa se contentar com a felicidade dos outros". Não conseguia entender o que isso poderia significar, nada aparecia em sua mente quando pensava sobre a frase e isso te deixava ainda mais confusa, já que Kazutora nunca foi alguém de esconder as coisas, principalmente de você.
— Acabei perdendo a noção do tempo — respondeu, sorrindo fraco.
— Está tudo bem?
— Está sim.
— [Nome]...
— Eu juro, Kim — reafirmou, já começando a andar em direção a porta — Só muita coisa na cabeça.
— Sei que não somos tão próximas, mas se quiser conversar, você sabe onde me encontrar.
— Muito obrigada, de verdade.
A loira sorriu, fazendo com que os olhos castanhos brilhassem, e andou ao seu lado pelos corredores do hospital, até a central da equipe de enfermagem, pronta para voltar ao trabalho. Você respirou fundo ao pegar as fichas dos pacientes que teria que checar, sorrindo ao reconhecer alguns nomes conhecidos, principalmente os da área de oncologia infantil. Já tinha um tempo que não era colocada para ir até lá e estava com saudade de ver as crianças.
Tentaria ocupar a mente com isso, não podia se deixar com essas ondas de dúvidas, nem conseguia entender se tinha sentido ficar se questionando tanto, sobre coisas que deveriam ser certezas na sua vida. Afinal, você ama Blake, certo? Chega até ser um pouco cruel com o seu próprio coração ficar se remoendo assim, mas são tantas sensações novas que surgiram, principalmente naquele dia da praia, que você não conseguia simplesmente esquecê-las.
Aliás, você não é a única que está com a cabeça cheia, a sua melhor amiga estava passando pela mesma situação.
Senju sentia o suor escorrer pela pele e os seus músculos já davam sinal de fadiga, mas o treino das líderes de torcida estava bem longe de acabar, o Sol ainda estava no céu e Olívia só liberava no anoitecer, ou até mesmo quando já era de noite. Esse ano também seria um pouco diferente, já que seria o último da capitã e a treinadora aproveitaria cada mínima oportunidade para treinar, tinham que ganhar mais uma vez a NCA, o campeonato anual que acontece na cidade de Daytona, na Flórida.
A platinada entendia as cobranças sobre si, ela é considerada uma das melhores que já tinham surgido na Universidade, então a responsabilidade é imensa, principalmente por ela sempre ser o centro das formações e a principal nas coreografias. Essa fama vem desde o ensino médio e só aumentou na faculdade, o que a fazia agradecer muito as aulas de ginástica que fez na infância, algum ponto positivo das neuras da mãe.
Senju deixou um suspiro escapar pela boca quando viu a estrutura do campo de futebol americano aparecer na sua frente. A treinadora tinha decidido que o final do treino seria ali, sendo mais uma parte física do que a coreografia que já estava sendo ensaiada, o que realmente não trazia nenhuma sensação de conforto, já que nessas horas Olivia gostava de pegar as ideias do marido.
— Ela quer matar a gente? — Ryan, um dos componentes da equipe, sussurrou para parte do grupo, que caminhava até a entrada do campo — Cara, é só a segunda semana de treino.
— Se prepara pra quando chegarmos no final do ano ou até mesmo em abril.
— Até você, capitã?
— Ela é quem mais sofre de todos nós — Chloe se pronunciou e Senju se permitiu rir.
— Agradeço a sua compaixão, mas realmente tô falando sério. Ela quer fazer um ano perfeito, incluindo ganhar a competição em Daytona.
— Mas até que faz sentido ela já querer começar pesado, vamos ter que lidar com a Navarro pra ganhar.
— Esse é o ponto.
A Navarro, uma universidade do estado do Texas, é uma das mais competitivas no mundo do cheer, logo, um dos competidores mais difíceis de se ganhar e bater de frente. Logo, para lidar com tal situação, o nível precisa ser aumentado ainda mais, principalmente sendo esse o último ano com uma das melhores formações que a UCLA já viu.
— Vai ser uma despedida à altura da capitã — Katherine disse e o grupo concordou de pronto, o que fez Senju balançar a cabeça em negação.
— Não é pra tanto, Kathe.
— Mas ela não mentiu.
— Vocês são impossíveis.
O grupo explodiu em risadas, fazendo mais alguns comentários sobre o assunto e Senju se sentia extremamente grata por ter essa equipe. Eles são um grupo de quase cinquenta pessoas e até mesmo agem como uma família, a rotina de treinos e ensaios os fez criar vários laços ao longo do tempo, principalmente pela confiança na hora de fazer as acrobacias.
Ao entrarem no campo, tiveram a vista privilegiada de um dos treinos do time de futebol, que estavam separados em duas equipes, fazendo uma competição de rendimento físico, com corridas e até mesmo levantamento de pesos. Os olhos azulados da platinada logo foram até Mikey, que conversava com Kazutora, debatendo sobre a próxima prova que iriam fazer. Ela conteve uma risada ao ver a expressão concentrada que estampava o rosto do loiro, qualquer coisa que envolvia futebol americano era levada a sério por ele.
— Muito bem, pessoal! — Olivia bateu duas palmas, chamando a atenção do grupo — Como já tinha avisado, nós vamos terminar o treino aqui. Já começamos os ensaios das novas coreografias, mas como temos a adição dos novatos, o ritmo vai ser um pouco mais leve nessa parte. Porém, isso não impede que eu preze pelo corpo de vocês. Tomei a liberdade de falar com o condicionador físico do time de futebol americano e construí uma rotina para todos vocês. Ainda vou definir como vai funcionar o nosso novo calendário de treinos, mas quando tiver tudo pronto, eu passo para a Senju e ela repassa para vocês. Alguma dúvida?
— Por que você tinha que casar logo com o Scott? — Ryan perguntou e até a treinadora riu — Ficar usando esse privilégio é maldade, dona Olívia.
— Para de reclamar, menino. Vamos que eu não tô afim de ver preguiça na minha frente.
Ela assoprou o apito e Senju sentiu os ouvidos zunirem.
— Quero todo mundo correndo nessa pista! Vamos! Vamos! Vamos!
A equipe trocou olhares derrotados, colocou as mochilas nas arquibancadas e então começaram a correr, eles não tinham outra opção além dessa. O campo tem a parte da grama, demarcado para o futebol americano, mas ao redor tem a estrutura de pistas de atletismo, que agora eram ocupadas por eles.
— Ela não falou quantas voltas vão ser, não é? — Chloe perguntou.
— Não.
— A gente tá muito fodido.
— Só percebeu agora?
— Eu amo o seu otimismo, Ryan.
— E eu adoro o seu sarcasmo, Senju.
A capitã voltou a rir do amigo e decidiu focar na corrida, tentando manter um ritmo não tão rápido, mas constante, sabia que era isso que a treinadora buscava, a resistência física. Os quase cinco anos que estava sob comando da morena a ensinaram muita coisa e, mesmo que reclamasse dos excessos, não podia negar que só cresceu ainda mais por causa disso. Na verdade, a equipe inteira sabia disso, Ryan inclusive elogiava Olivia em qualquer momento que tinha a oportunidade, eram gratos demais pela chance de terem sido lapidados por ela.
O grupo se manteve conciso, cada um entrando no próprio ritmo e completando as voltas, enquanto o treino do time estava rolando. Eles já teriam um jogo no final do mês, agosto é o período do início da temporada, e não podiam vacilar, tinham que manter o alto nível para garantirem a classificação para os bowls, que aconteceriam perto do ano novo.
— Pausa de dez minutos! — o treinador Scott gritou e quase automaticamente o time foi se sentando no gramado, quase como se desabassem.
— Ele realmente tá esfregando o nosso cu no asfalto — Baji comentou, cansado, arrancando uma risada dos companheiros de time que estavam mais perto.
— E o resto da equipe tá indo na onda — Kazutora indicou com o ombro o resto dos assistentes de Scott, que estavam em uma roda, discutindo o que tinham visto durante o treino do dia.
— Até os líderes de torcida já estão pegando pesado — um dos jogadores comentou, indicou o grupo que ainda dava voltas pelo campo.
— Eu tenho pena deles, não queria ter que lidar com a dona Olívia quase todo dia.
— Aquela mulher me dá medo — risadas foram ouvidas da constatação de Baji e Mikey balançou a cabeça em negação.
— Ela não é tão ruim assim.
— Você fala isso porque é o protegido dela — Ash, um dos defensores, comentou e muitos concordaram.
— É sério isso?
— Ele não tá mentindo.
— Até você, Baji?
— Tô falando, capitão. Conseguiu amansar o coração da fera.
— Pelo amor de Deus, Ash — o ruivo caiu na risada, aproveitando para se levantar da grama, limpando a roupa com as mãos.
— E não foi só de uma fera, foram duas — foi a vez de Brandon abrir a boca e Mikey controlou a vontade de revirar os olhos, quando se virou para encarar um dos atacantes.
— O que você quer dizer com isso?
— Vai se fazer de desentendido, capitão? — o brilho nos olhos esverdeados de Brandon mostravam a intenção dele com essas palavras, mas Mikey não percebeu isso, já se irritando com o possível rumo da conversa.
— Se estou fazendo a porra da pergunta, é que eu não sei do que você tá falando.
— Vamos lá, cara, você simplesmente pega a gostosa da Kawaragi. Isso já explica ou quer que eu desenhe?
Kazutora sempre se perguntou qual era a implicância de Brandon com Mikey, talvez fosse pelo fato do loiro ser o capitão e o quarterback, com posições importantes no time, ou até mesmo a própria questão que ele ficava com mais garotas. Porém, de todos os possíveis motivos que poderiam significar as atitudes completamente infantis, um se destacava, que é a "relação" do capitão com Senju.
O moreno bem sabia que a capitã das líderes de torcida já tinha dispensado Brandon várias vezes, mas ele nunca desistia, chegava a ser irritante e um incômodo, não foram poucos momentos em que a ouviu reclamar do companheiro de time, mas já estava ficando ridículo a situação. Além disso, Mikey não estava tendo uma semana boa.
Foi a atenção de Ash que salvou o que restava do treino, se colocando na frente do capitão e o impedindo de avançar em Brandon. Logo o resto do time se levantou, atentos a uma possível briga, e até mesmo o treinador e os assistentes tinham visto a agitação entre os jogadores.
— Fala dela desse jeito mais uma vez e você tá fodido.
— Não se pode mais nem elogiar a garota? — provocou — Não sabia que já tinham oficializado.
— Dá pra calar a boca? — Kazutora perguntou, também começando a ficar irritado.
— E porque calaria? Tem algum problema no que eu falei? — o de cabelos castanhos sorriu, sarcástico, cruzando os braços — Não vai me dizer que ninguém pensou nisso quando ela entrou no campo, ela sabe que aqueles shorts valorizam a bunda dela.
— E você ainda se pergunta porque ela não fica com você.
— É sério, Mikey?
— Vai se fazer de desentendido? — rebateu, se desvencilhando de Ash e olhando para Brandon com um olhar mortal, demonstrando irritação e raiva — Pensei que você fosse menos idiota.
Mikey é considerado uma pessoa até que paciente, sempre foi o capitão dos times, por exemplo, sabia liderar e lidar com as pressões e responsabilidades que vinham com isso, principalmente a questão de ter que saber entender as opiniões dos outros e ouvir. Porém, quando envolvia as pessoas com quem ele se importava, o buraco era muito mais embaixo e, no caso, Senju é um tópico extremamente importante.
— Que merda que tá acontecendo aqui?! — a voz forte do treinador se fez presente no campo e os jogadores se afastaram, mesmo que o clima ainda se mantivesse ruim.
— Nada, treinador. Só algumas desavenças pessoais — Mikey tomou a palavra, mesmo que a raiva ainda queimasse no peito.
— Então levem essas "desavenças pessoais" pra longe do campo. Eu não quero nada dessas merdas atrapalhando os treinos. Entendido?
— Sim, senhor — os dois jogadores responderam, ainda trocando alguns olhares.
— Nós temos um jogo já no final desse mês, coloquem a porra da cabeça de vocês no lugar.
Scott sabia como os seus jogadores conseguem muito bem mesclar o pessoal com os momentos do time, mas agora não é hora pra isso, principalmente com a temporada pra iniciar.
— O treino de hoje já durou o suficiente — ele voltou a falar, conferindo alguns dados que tinha anotado na prancheta — Eu e os assistentes temos algumas observações, mas vamos falar sobre isso somente amanhã. Estão dispensados.
Sons de comemoração tomaram o campo, o que fez com que o treinador soltasse uma risada anasalada, os seus jogadores mal esperavam o que ele e a equipe técnica estavam planejando. O time foi se espalhando, alguns ficando pelo gramado para conversarem um pouco mais e outros já rumando para o vestiário, querendo tirar o mais rápido possível o suor do corpo.
— Se eu pudesse, já teria expulsado o Brandon do time.
— Eu sei que ele é um idiota, Mikey — Kazutora comentou, tirando a camisa e recebendo com felicidade o vento fresco do fim da tarde contra a pele — Mas ele é um dos melhores que a gente tem.
— Você não precisa me lembrar disso, cacete — resmungou, o que fez com que o melhor amigo risse.
— Aproveita que ele foi pro vestiário e fala com ela.
— O que?
— Não foi só o nosso treino que acabou — o moreno indicou com a cabeça o aglomerado de líderes de torcida nas arquibancadas, que ouviam atentamente as palavras de Olívia.
Kazutora acenou uma última vez para o amigo e se virou, também começando o seu caminho até o vestiário, só queria chegar na fraternidade o mais rápido possível. Alguns professores já tinham passado algumas listas e textos para ler e o Hanemiya estava louco para encher a cabeça com alguma coisa que não fosse a cena de Blake te beijando, já estava cansado da repetição que parecia acontecer em sua mente de forma intencional.
Enquanto isso, Mikey o encarava se afastar, mais especificamente as cicatrizes expostas, as linhas já mais esbranquiçadas pelo tempo, mas ainda bem visíveis e levemente profundas. Quando eles eram mais novos, Kazutora fazia questão de sempre as esconder, quase todas as fotos que eles têm da época ele está de camisa, inclusive em praias e piscinas. Porém, depois que Jacob foi preso, tudo mudou, ele começou a não ter mais vergonha delas, as marcas eternas de que ele e sua família são sobreviventes e, hoje, ele as mostra, aceitando essa parte de seu passado.
Mikey viu a mudança de Kazutora, como ele cresceu em relação aos próprios traumas, e o acha simplesmente foda demais por isso, realmente admira a capacidade e a força que o melhor amigo tem. Além disso, depois da conversa que tiveram, algo foi atingido dentro do loiro, a parte que sempre o dizia como os problemas dele, o vício dele, não só atingia o seu corpo e mente, mas também seus amigos.
Nunca pensou que poderia acabar agindo parecido com Jacob e ele não quer que Kazutora jamais precise ter mais alguma conversa daquele tipo com ele de novo.
Respirou fundo, também tirando a camisa, e começou a andar até as arquibancadas, esperando que o grupo se dispersasse para que pudesse falar com ele realmente queria. Mikey conhecia muito bem a maioria dos integrantes da equipe, principalmente por causa das festas, já que todos iam, e também alguns casos mais específicos com quem já tinha ficado e até mesmo transado, então acabou que teve que cumprimentar boa parte dos que estavam por ali, se preparando para irem embora.
— Às vezes, eu esqueço que você é uma borboleta social — Senju falou, quando Mikey se pôs em pé na frente dela.
— Você também é uma, nem começa — ele revirou os olhos, o que a fez rir.
— Quer realmente comparar as nossas listas? — ela cruzou os braços, não deixando também de dar uma leve olhada no tanquinho definido bem na sua frente — Você me passou só com a do ensino médio.
— Pra que ficar revivendo o passado, não é?
Senju riu, mas logo um sorriso mínimo apareceu em seu rosto, quando Mikey se deitou na arquibancada, colocando a cabeça no colo dela.
— Você realmente gosta do meu colo?
— É mil vezes melhor do que o meu travesseiro.
Ela sorriu de novo e o observou fechar os olhos, somente sentindo os dedos dela começarem a desembaraçar o cabelo dele. É nesses momentos, em que Senju o olhava, que toda a avalanche de sentimentos que nutria aparecia dentro de seu coração, tudo vinha de uma vez, ela até mesmo se perdia nesse mar de sensações, totalmente inebriada, só conseguia sentir ainda mais.
No meio disso tudo, a sua parte insegura também gritava, toda a construção que ela tinha, envolta dos estereótipos e expectativas que colocavam sobre ela, caía por terra. Ela cresceu vendo como o amor não é necessariamente bonito, também machuca e pode estragar famílias, a mãe dela estragou uma.
Senju não culpa os irmãos pelas atitudes que tiveram com ela no passado, afinal, ela é a prova de como a fidelidade pode ser um fio, dependendo da pessoa de quem se está falando. O pai dela trocou um casamento de anos por uma amante, deixando a família antiga praticamente de lado para dar atenção à nova, a platinada aguentou as consequências das atitudes dos pais a vida inteira. Então, para compensar as falhas que eles tiveram na vida, a solução que ela achou foi a de ser perfeita, em todos os sentidos que ela poderia encontrar.
E bem, conseguiu, ou pelo menos fez com que as pessoas pensassem que ela fosse.
— O que aconteceu ali? — perguntou, o fazendo abrir os olhos — Pensei que você ia meter a porrada no Brandon.
— Ele só tava falando merda demais — respondeu, seco — Eu não quero falar disso, pelo menos não agora.
— Tudo bem, só tinha ficado curiosa.
— Sem problema — respirou fundo, levando sua atenção até os olhos dela, que mais pareciam um caleidoscópio, às vezes pareciam ser verdes e tinham outros momentos que eram azuis, simplesmente lindos e hipnotizantes.
— Eu vi que saiu as datas dos jogos — ela trocou de assunto — Animado?
— Acho que nervoso é a palavra certa.
— Por ser o último ano?
— Exato.
— Se preocupa não, sei que vai dar certo.
— Você acha?
— Eu tenho certeza, pelo menos com o tanto que você está treinando, não tem como dar errado.
— Se for pra pensar assim, você tem razão.
— É sério! Manjiro, tem tudo pra dar certo.
— Fala de novo.
— O que?
— Fala de novo.
— Falar o que de novo?
— O meu nome.
Senju estava confusa, o observando, tentando ver algum traço de que ele poderia estar brincando, mas não, ele estava completamente atento, somente esperando que ela falasse.
— Manjiro.
— De novo.
— É sério isso?
— Aham.
— Mas por que?
— Porque eu gostei — ele sussurrou — Pode me chamar assim agora.
— Eu pensei que você não gostasse muito do seu nome e que preferisse mil vezes "Mikey" — ela sussurrou de volta.
— Eu prefiro, mas você pode me chamar de "Manjiro".
Ela sentiu as bochechas corarem com força e agradeceu a luz alaranjada do pôr do sol por minimizar a situação.
— Tudo bem, Manjiro.
O sorriso que ele deu ficaria gravado na mente dela por muito tempo, uma memória extremamente boa e que, inclusive, marcava o início de uma das decisões mais difíceis que Mikey tinha tomado na vida no início da semana, a de tentar ficar sóbrio. Senju não tinha percebido nesse momento no final da tarde, mas ela tinha presenciado o início de uma nova tentativa na vida dele.
Os dois ficaram ali conversando até escurecer de vez, ao ponto de se assustarem quando ligaram as luzes do campo, o que os fez gargalhar alto. Assim, quando eles estavam sozinhos e sendo eles mesmos, parecia que nada podia os impedir ou os atrapalhar, como se tudo fosse perfeito e que daria certo, quase da mesma maneira confiante em que Senju disse em relação a temporada de futebol.
Ao entrar no quarto, a platinada já te encontrou ali, sentada na própria escrivaninha, escrevendo em um caderno, enquanto lia um livro extremamente grosso. Você também tinha os fones nos ouvidos, completamente inebriada no resumo em que fazia de uma das aulas que teve hoje.
Ela se aproximou aos poucos e passou os braços pelos seus ombros, o que te fez dar um leve pulinho na cadeira, se assustando pela aproximação.
— Oi — você riu, parando a música no seu celular e a abraçando de volta — Não percebi você entrando.
— Invejo demais a sua concentração na hora de estudar.
— Juro que nem sei como acontece, quando vejo já tô praticamente imersa nas matérias.
— Isso sim é uma aluna modelo.
Você balançou a cabeça em negação e sentiu o abraço ficar ainda mais apertado.
— Você chegou tarde hoje, aconteceu alguma coisa?
— Acabou que o treino foi lá no campo de futebol e depois que ele acabou, fiquei conversando com o Mikey.
— O tanto que eu shipo vocês tá nem escrito.
— Você e o nosso grupo de amigos todinho.
— Cara, eu tô falando sério. Vocês têm uma química absurda.
Senju se viu calada por alguns segundos, sem realmente o que dizer de volta, pegava demais pra ela pensar em como tudo parecia se encaixar e que só faltava ela deixar rolar para que acontecesse. Porém, ela não sabia se estava pronta para encarar aquilo que tava por baixo do que deixava as pessoas verem.
— Eu preciso de um banho — ela falou e você estranhou a mudança repentina de assunto, desfazendo o abraço e girando a cadeira, para que a olhasse.
— Eu disse algo errado?
— Não... — ela suspirou — Você só disse a verdade que eu não quero encarar.
— Sobre você e o Mikey?
— É...
— Isso não é algo que eu possa interferir de forma direta porque é a sua vida e os seus sentimentos, mas o que, realmente, te impede de dar essa chance pra ele?
— Eu não sei direito — ela passou as mãos pelo rosto, deixando, em seguida, a bolsa do treino em cima da própria cama — Talvez um medo de dar errado.
— Você se machucar?
— Isso. É só que pra mim o amor não é tão bonito, mas quando se trata dele, parece que é a coisa mais fácil do mundo. Eu só vi esse tipo de sentimento acabando com as coisas e eu não quero que no final isso acabe nos destruindo.
— Mas você só vai saber se tentar, não é?
A sua pergunta foi como um tapa e a platinada se viu desviando o olhar para o chão.
— Você lembra do que eu te falei? Que não é errado ter medo?
— Sim — ela suspirou — Sei disso, mas mesmo assim...
— Eu sei, parece que a gente fica desconfortável consigo mesma.
— É exatamente assim — vocês duas riram fraco e ela voltou a te olhar.
— Olha, se permita também. O amor é diferente para cada pessoa, não é só porque os seus pais tem uma visão deturpada sobre ele que você também tem que ter.
Senju assentiu com a cabeça e respirou fundo, começando a pegar as coisas que precisaria para tomar banho.
— Acho que talvez eu comece a tomar algumas atitudes.
— E eu vou estar aqui para apoiar todas elas.
— Mas se der errado?
— Também vou estar aqui. Vou catar cada caquinho do seu coração e ainda dar uma surra no Mikey.
Ela acabou com a distância entre vocês duas e te abraçou de novo, mas com certeza de uma forma bem mais forte. Mesmo que não falassem, vocês duas sabem que são bem mais que meras melhores amigas e sim irmãs, que compartilham a vida e que vão estar lá uma pela outra, independente do que pudesse acontecer.
(...)
Já era de madrugada quando o celular de Senju começou a vibrar, em cima da pequena cômoda que tinha do lado da cama. A platinada não ouviu de primeira, mas a vibração continuava insistente, ao ponto de a acordar.
Ainda sonolenta, pegou o telefone e franziu as sobrancelhas ao ver o nome de Mikey brilhar na tela.
— Alô? — ela falou em um tom de voz mais baixo, já que você ainda dormia.
— Eu te acordei?
— Aham — riu fraco — Mas não tem problema.
— Mesmo? — ela sentiu o nervosismo na voz dele, o que a fez franzir as sobrancelhas, preocupada.
— Aconteceu alguma coisa?
Silêncio.
— Manjiro — Senju o chamou — O que aconteceu?
— Você pode vir no campo? — ele perguntou, quase como se fosse um sussurro, a voz trêmula ainda presente.
— Em cinco minutos eu chego aí.
A ligação não demorou muito para se encerrar e a platinada só se preocupou em vestir um moletom, por cima do pijama de cetim da cor lavanda, e calçar o primeiro tênis que achou no chão. Pegou o telefone, uma garrafa de água no frigobar e as chaves do carro, tentando fazer tudo no maior silêncio que conseguia, tentando o máximo não te atrapalhar.
Depois que saiu do quarto, fechando a porta devagar, disparou pelo corredor, decidindo não esperar pelo elevador, descendo pelas escadas na maior velocidade que conseguia e foi da mesma maneira pelo estacionamento até a vaga onde o seu carro estava estacionado. Saiu dirigindo mais rápido que conseguia, sabia que assim chegaria mais rápido do que se fosse a pé.
A cabeça de Senju já estava acumulando muitas ideias e cada uma parecia pior do que a outra, principalmente levando em consideração tudo que estava acontecendo nos últimos dias, como o próprio afastamento gritante de Emma em relação ao irmão. Todos entendiam a loira e os seus motivos, mas chegava a ser de uma frieza tão grande que incomodava, principalmente porque dava pra perceber o quanto ela mesma estava sentindo isso.
Quando chegou no campo, estacionou ao longo do meio fio, bem de frente pra entrada e estranhou não ter encontrado o carro do próprio Mikey ali, não tinha sinal nenhum dele. Na verdade, nem parecia que ele estava ali, só as luzes do campo poderiam denunciar que alguém estaria ali, então Senju não pensou duas vezes em pegar a garrafa d'água e sair do carro, praticamente correndo na direção da imensidão verde.
Procurou por ele em todos os cantos possíveis, até que o encontrou no topo das arquibancadas, encolhido, abraçando o próprio corpo e com o queixo apoiado nos joelhos, mesmo que as pernas tremessem. Ele parecia tão absorto que mal percebeu a presença dela, só a notando quando sentiu uma mão ser apoiada em um de seus ombros, o que o assustou por alguns segundos.
— O que aconteceu? — ela sussurrou, se sentando ao lado dele, devagar.
Mikey não conseguia falar, parecia que tinha algo travado na própria garganta, até respirar chegava a ser difícil. O mundo parecia muito mais devagar do que a mente dele queria processar, cada mínima ação ficava deturpada, confusa, dentro do próprio caos que acontecia dentro dele.
A sua mente dizia uma coisa, mas o corpo queria outra.
Ele não conseguiu dormir, a tentação de simplesmente ir até o próprio armário e pegar o resto de cocaína que tinha era simplesmente absurda, quase como se fosse um veneno, corroendo de dentro pra fora, queimando tudo que encontrava no caminho. Não conseguiu ficar no quarto por muito mais tempo, simplesmente vestiu um moletom, por cima da roupa que usava pra dormir, e saiu andando.
Não soube, por vários minutos, para onde estava indo, acordando da espécie de torpor ao chegar na entrada do campo de treinamento, subindo as arquibancadas e sentando ali, encarando a grama extremamente bem cuidada. Ele conseguia praticamente se ver ali embaixo, jogando com o seu time, conquistando título atrás de título, mas ao olhar pra si mesmo, no estado em que se encontrava, tinha vontade de vomitar.
Nojo e desprezo.
Duas palavras que poderiam resumir muito bem o que ele sentia, além da própria busca da tão acolhedora explosão de euforia que só as drogas conseguiam o proporcionar. Chegava a ser deplorável a espécie de vida dupla que começou a viver nos últimos anos, ele sabe que o vício não é de hoje, desde a adolescência conhecia esse outro "mundo", mas foi só Shinichiro morrer que tudo, simplesmente tudo, começou a se destruir.
Até mesmo a família dele não escapou.
— Manjiro... — ele escutava quase em uma espécie de eco a voz de Senju ao seu lado.
Foram repetidas vezes que ela o chamou, mas não iria desistir até entender o que realmente estava acontecendo, principalmente se comparar com o "Mikey" que tinha conversado mais cedo.
A platinada se levantou da arquibancada e ficou na frente dele, colocando as mãos nos joelhos do loiro e os empurrando para baixo. Assim, se colocou entre as pernas dele e colocou as mãos ao redor do rosto, o fazendo a encarar.
Então, foi aí que algo surgiu na cabeça dela.
As pupilas estavam dilatadas, mas algo dentro dela falava que ele não tinha usado nada.
— Manjiro — ela falou de novo, tentando soar o mais calma possível, e o olhando nos olhos — O que está acontecendo?
Ele queria poder desviar o olhar, céus, a vergonha começou a tomar conta dele, foi aí que percebeu que ela realmente estava lá, o tocando, estando extremamente preocupada. Ela não era uma alucinação e muito menos algum efeito da falta de um sono regulado.
Senju realmente estava ali por ele, porque ele tinha ligado e pedido.
— Eu... — a voz dele saiu rouca e trêmula, o que fez com a preocupação aumentasse nos olhos azulados — Eu estou tentando ficar sóbrio.
Foi um sussurro, mas reverberou na cabeça de Senju como se mil pessoas estivessem gritando na cabeça dela.
A boca se abriu levemente pela surpresa e os olhos marejaram quase de forma automática.
"Ele está tentando ficar sóbrio" — ela pensava repetidas vezes, quase como se fosse a melhor coisa que tivesse ouvido na vida.
Mikey se assustou quando a sentiu o puxar pelas mãos, o forçando a ficar de pé, mas então os braços dela o rodearam pela sua cintura, o apertando com tanta força, quase como se eles pudessem se fundir em um só. Então, ele ouviu a frase que o fez soltar o choro que ele também estava segurando.
— Eu estou tão orgulhosa de você.
Poderia ser considerado um golpe baixo, dizer isso pra ele em um momento como esse, mas Senju só pensava em ser sincera. Agora, mais do que nunca, ela só seria sincera com Mikey, estava disposta a fazer isso.
Ela tirou o rosto do peito dele e ergueu o pescoço para o olhar, vendo as lágrimas também caírem pelas bochechas. Conseguia sentir os tremores do corpo dele, e só aumentaram quando ele também a abraçou, como se ela fosse o apoio que mais precisasse, algo que ele simplesmente necessitava.
Os dedos finos foram levados até as bochechas de Mikey, enxugando cada uma das lágrimas singelas que escorriam por ali, com um carinho e uma delicadeza que só combinariam com Senju.
— Você quer um pouco de água? — ela perguntou.
— O que?
— Eu senti o seu nervosismo na ligação e aí, nem sei porquê, pensei em trazer uma garrafa d'água.
Ela realmente se preocupava com ele e isso estava sendo demonstrado nas pequenas atitudes desde sempre. Mikey tinha um lado que também o sabotava, dizendo que não merecia tal coisa, mas ali estava Senju, com a garrafinha em mãos e a levando para a boca dele, o forçando de leve a beber, sabia que ele não a soltaria tão cedo.
— Isso é uma crise de abstinência? — ela ousou perguntar, falando em um tom de voz mais baixo, depois que Mikey tinha tomado boa parte da água, colocando o que restou em cima da arquibancada.
— Eu acho que sim — ele sussurrou de volta, desviando o olhar para o gramado à sua frente.
— Estou aqui com você.
— Eu sei, literalmente tô te abraçando — ele tentou brincar, até conseguiu com que Senju risse fraco.
— Não nesse sentido — levou a mão até o rosto dele, o fazendo a olhar de volta — Eu estou aqui com você nisso.
Ela apontou para o peito dele, o sentindo estremecer de leve.
— Eu não sei nada sobre isso, mal sei como cuidar da minha própria saúde — ela riu fraco — Mas eu vou entrar com você nessa e mesmo que faça o melhor discurso do mundo, eu não vou mudar de ideia. Entendido?
— Entendido — ele respondeu, ainda com a voz meio agitada, mas um sorriso leve estampou seu rosto — Obrigado.
— Não me agradeça, por favor.
Ele assentiu com a cabeça e a puxou ainda mais.
— Eu não sei como isso funciona, mas você tá sentindo alguma coisa? Quer que eu pegue algo?
Mikey sorriu por ela se importar, simplesmente saber que ela também estaria tentando, por o querer ver bem, sóbrio e finalmente livre.
— Eu não sei, é confuso — tentou explicar, mas nunca achava as palavras certas — É quase como se fosse um formigamento, um ciclo de altos e baixos.
— Desde quando você não usa nada?
— Segunda.
Senju arregalou os olhos, já era quinta-feira. Mesmo que seu conhecimento não fosse um dos maiores, ela tinha uma certa noção de como os efeitos variam de pessoa pra pessoa, mas sempre a primeira semana de abstinência é uma das piores.
— Mais alguém sabe?
— Não... Eu não tive coragem de pedir ajuda pra ninguém.
Ela só conseguiu assentir, sentindo o peito apertar só de pensar no fato das noites que ele poderia estar assim e simplesmente não falou com ninguém, ficou sozinho lutando contra si mesmo.
— Não hesite em me ligar quando precisar.
— Princesa...
— Estou falando sério, Manjiro — ela suspirou — Isso é algo sério e sozinho é mil vezes mais difícil. Eu falei que estou aqui com você, então me deixa te ajudar, por favor.
Mikey nunca pedia ajuda pra nada, isso é algo dele. Talvez o fato de sempre ter sido visto como o mais incrível de todos, alguém simplesmente invencível. Então aprendeu a lidar com tudo sozinho, mesmo que isso doesse de todas as maneiras possíveis, mas ali estava Senju, quase implorando para que pudesse o ajudar.
— Tudo bem — ele respirou fundo, ainda sentindo a espécie de ansiedade que consumia o seu corpo.
— Ótimo — ela sorriu e foi como se iluminasse tudo ao redor.
Mikey não hesitou em se inclinar e encostar a sua testa contra a da mais baixa, conseguindo sentir a respiração dela bater contra o rosto. A proximidade era mínima, sentia a mão dela apoiada contra o peito dele, segurando entre os dedos o tecido levemente mais grosso do moletom acinzentado que usava.
Então, foi aí que ela tomou a primeira das várias atitudes que tomaria a partir de agora.
Não foi um beijo intenso ou algo do tipo, foi suave, somente um encostar de lábios, mas que fez com que ele a apertasse ainda mais, como se fosse possível algo assim. Sentia o corpo quase que se misturando contra o de Mikey, nunca tinha se sentido tão confortável na vida.
O selinho durou poucos segundos, significando muito mais do que algo carnal, mas sim quase que o pacto que estavam fazendo, que Senju estaria ali por ele em todo o processo de finalmente parar, se livrar daquilo que o prendia como correntes fantasmagóricas, o assombrando no dia a dia. Ele ainda tremia contra o corpo dela, isso transmitia como o processo não seria fácil, mas isso não a assustava.
O coração de Senju estava preenchido com o simples fato de que ele estava tentando, por ele e por todos que o cercavam, inclusive ela, e isso já era o bastante.
— Você pode voltar pra frat comigo? — ele sussurrou, ainda com as testas encostadas.
— Posso.
Senju entrelaçaria os dedos com os de Mikey e o guiaria pelas arquibancadas, servindo de apoio para que ele descesse os degraus. Andaram lado a lado, com ele a abraçando pelos ombros e ela com um braço passando pela cintura dele, não o soltando em nenhum momento.
Entraram no carro em silêncio e se mantiveram assim até chegarem na fraternidade, onde Senju estacionou perto da moto de Kazutora. A casa estava em completo silêncio, somente com as luzes externas acesas, então entraram devagar e subiram as escadas com mais cuidado ainda, não queriam arriscar acordar algum dos meninos.
Mikey se deixou ser guiado até o próprio quarto e não reclamou quando Senju tomou a frente para ligar o ar-condicionado e arrumar a cama de casal com cobertores, a deixando de uma forma tão confortável que ele não conseguiu entender como ela fez. A platinada tirou o próprio moletom, o colocando em cima da escrivaninha, junto com o telefone, e o ajudou a fazer o mesmo, para enfim o guiar para a cama.
Quando os dois estavam já estavam debaixo das cobertas, com as luzes do quarto apagadas, eles se encaravam, ambos absorvendo cada um dos últimos momentos que passaram juntos. Então foi aí que, dessa vez, ele tomou a atitude, passando um braço pela cintura dela e a puxando para perto de novo, sentindo também o calor que emanava dela.
Senju conseguia sentir que a agitação estava ali em Mikey, as pupilas ainda um pouco dilatadas, mas uma espécie de calmaria também era presente, como um presságio do futuro que aconteceria quando as drogas sumirem de vez.
— Você realmente não vai embora? — ele perguntou, tentando com todas as forças não deixar com que o medo transparecesse.
— Não vou embora — ela assegurou, mais uma vez — Eu realmente estou aqui, Manjiro. Não sou uma espécie de alucinação.
— Mesmo?
Os dois acabaram rindo e ela se aconchegou mais contra o abraço do mais alto.
— Mesmo, não duvide disso.
Mikey se permitiu sorrir, mesmo que a sua mente e o próprio corpo ainda estivessem uma bagunça, mas ele sabia que tudo isso ia vir, ao tomar tal decisão.
Ficar sóbrio não é fácil, principalmente quando os motivos que te fazem buscar a saída da realidade te rondam como abutres, em busca da presa perfeita. Porém, quando se tem apoio, tudo fica mais fácil, até respirar para de ser um tormento.
Manjiro sabia que teria que falar com os amigos sobre a decisão, demonstrar o tanto que, mesmo nesses primeiros dias, ele já estava se consumindo, sentindo os efeitos da ausência repentina das drogas circulando pelas suas veias. Admitir e mostrar o lado vulnerável de se ter um vício em algo e mesmo que a vergonha ousasse prevalecer, a noção de que todos vocês estariam por ele também existia.
Principalmente você, ele sabia que seria a que mais faria esforços para que tudo desse certo, isso o confortava de maneiras que não conseguiria nem colocar em palavras. Mesmo que a sua família de sangue tivesse sido quebrada anos atrás, incluindo agora a própria irmã gêmea, a família que ele escolheu ter, as amizades que manteve por mais de uma década, estariam ali por ele assim que tomasse coragem para pedir ajuda e apoio.
Senju percebeu como os olhos dele tinham ficado nublados, como se tivessem voltados para dentro, observando a tempestade que acontecia na própria mente, então ela lhe tocou o rosto, conseguindo a atenção de volta para si.
— Eu estou aqui e você vai passar por isso e vencer — disse, deixando um carinho leve na bochecha exposta — Não se esqueça que você é o "invencível Mikey".
Ele engoliu em seco, aceitando o peso das palavras de Senju, sabia que tinha sim um pouco de verdade no que tinha sido dito e agora é a vez dele de verdadeiramente acreditar em si e talvez mudar o conceito que se tinha por detrás do apelido.
— Obrigado — disse, sendo o mais sincero possível.
— O que eu falei sobre me agradecer?
— Entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Senju se viu revirando os olhos, mas um sorriso leve permaneceu ali. A situação não é das melhores, na verdade, é extremamente delicada e coloca em jogo o próprio futuro de Mikey, mas, de alguma maneira, o clima naquele quarto estava leve e calmo, quase como se fosse uma espécie de aconchego.
Ele não sentiu quando conseguiu dormir, se entregando, finalmente, para a inconsciência tão desejada, mas ele sabia que algo tinha mudado entre ele e Senju, porque diferente de todas as outras vezes que já tinham dormido juntos, agora, ele sentia que ela era uma espécie de âncora, que o segurava no meio dessa tempestade absurda que o circulava, querendo de todas as maneiras que ele naufragasse.
Porém, ele estava decidido e de certa maneira pronto tentar ficar sóbrio e nada o faria parar de querer ser livre.
Oi gente! Tudo bem com vocês?
Eu não consigo explicar o TANTO que esse capítulo é importante pra fic, tanto com a própria [Nome] com as suas dúvidas em relação ao Blake como o Mikey tentando mudar, não tenho estruturas pra isso 😭
A partir de agora, a fic está entrando em uma nova espécie de "arco" e espero que estejam animados que nem eu!! Tem tanta coisa que quero desenvolver pra vocês e espero que estejam gostando da forma que estou guiando a história, mostrando os núcleos de cada personagem e fazendo essas alternâncias de focos
Bem, espero que tenham gostado do capítulo! Não se esqueçam de votar e de comentar (AMO ler o feedback de vocês)!
Até a próxima! ♥︎
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