𝐞𝐢𝐠𝐡𝐭, count on me








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Um sorriso animado apareceu no seu rosto quando viu a prancha de Kazutora já amarrada no teto do Jeep de Draken, estacionado ao longo da calçada.

Parecia que a sua animação se estendia pelo seu corpo, quase como uma corrente elétrica, e até mesmo não conseguiu conter a vontade de simplesmente correr até a entrada da fraternidade, ainda sem parar de sorrir. Entrou na enorme casa e deixou as suas duas mochilas perto do móvel que tinha ao lado da porta, andando até a cozinha, de onde vinha um cheiro delicioso de café.

Logo Kazutora entrou na sua visão, cantarolando baixinho alguma música que você não conseguiu identificar de primeira, totalmente concentrado na torradeira, esperando as torradas ficarem prontas.

When you walked around your house...

Wearing my sky blue Lacoste and your knee socks — você continuou a letra, depois de se aproximar e se apoiar na bancada da ilha da cozinha.

Uma risada escapou pelos seus lábios ao ver a cara de espanto de Kazutora, com certeza ele não tinha percebido a sua aproximação.

— Avisa da próxima vez que chegar assim — reclamou, apoiando uma das mãos no peito.

— E perder a chance de te assustar? — perguntou e se impulsionou com os braços, sentando na bancada — Nunca.

— Chata.

Um sorriso travesso apareceu no seu rosto e Kazutora revirou os olhos, mas se aproximou rapidamente de você, deixando um selar na sua testa.

— Bom dia.

— Bom dia — respondeu, com um sorriso leve nos lábios, e o observou se afastar, pegando uma caneca e um prato pra você.

— Seu pai sabe que a gente vai buscar a prancha na sua casa?

— Não e nem vai saber. Tenho o controle da garagem na mochila, ele nem vai perceber que estive lá.

— É melhor assim, né?

— Com certeza, não quero falar com ele agora.

Kazutora assentiu, servindo as duas canecas de café e já preparando automaticamente a sua, ele já sabia como você gosta, então não precisava perguntar e isso acontecia da mesma maneira com você. Quando a torradeira apitou, saiu da bancada e andou até o eletrodoméstico, tirando as fatias de pão de lá e, logo em seguida, foi até um dos armários em busca da geleia de morango que Kazutora gostava de comer com torrada.

Vocês tomaram tantas vezes café da manhã juntos que já tinham seus hábitos decorados, faziam tudo em um silêncio confortável, não era necessário ter alguma conversa para não ter um clima ruim, a presença já bastava.

— O Draken não vai precisar do carro? — perguntou, ao colocar a louça na pia, depois de terminarem de tomar café.

— Não, ele falou que vai pro dormitório da Emma a pé mesmo.

— Ela não vem pra cá?

— Vamos dizer que ela tá realmente evitando o Mikey agora.

— Por que?

— Ela não te contou? Eles brigaram de novo na segunda.

— Sério? Você sabe por que?

— Não em todos os detalhes, nenhum dos dois quis realmente explicar o que cada um falou, mas com certeza o Mikey pediu desculpas e a Emma não quis aceitar. Ela realmente não tá mais com paciência pra isso.

Você suspirou e se encostou de costas da bancada, deixando que Kazutora lavasse a louça, sabia muito bem como ele te irritaria pra deixá-lo fazer isso sozinho.

— Sabe se o Izana falou com ela essa semana?

— Não, mas por que isso faria diferença? — ele te perguntou, um pouco confuso.

— Porque a forma que ela está agindo com o Mikey é a mesma que o Izana o trata desde a morte do Shin.

— Mas que merda.

— Eu sei.

Desviou o rosto para o outro lado do cômodo em conceito aberto, fixando o olhar nas portas de vidro que davam em direção ao quintal, completamente pensativa. Ainda não tinha tido a oportunidade de conversar direito com Emma sobre Mikey, todas as tentativas tiveram respostas evasivas da loira e com essa nova informação, as coisas pareciam ficar um pouco mais complicadas, principalmente com a possível intervenção de Izana.

O Kurokawa não é irmão de sangue dos irmãos Sano, foi adotado alguns anos antes do nascimento dos gêmeos, mas esse fato nunca impediu que eles quatro ficassem próximos e agissem como uma família. Porém, depois da morte de Shinichiro, as coisas começaram a desandar de uma forma exorbitante, destruindo aos poucos o laço que os unia.

Izana culpava o futebol americano pela morte do irmão e até que fazia sentido o pensamento dele, afinal, o vício em morfina veio em consequência de uma lesão extremamente séria no joelho esquerdo, o que acabou causando o fim da vida de um dos melhores quarterbacks da história. Entretanto, Mikey não culpou o esporte por isso e mesmo assim continuou jogando, criando a meta de um dia virar o que Shinichiro já foi, ou até mesmo superá-lo, mas isso não agradou o outro irmão.

Depois da morte do primogênito da família, Izana decidiu sair de Los Angeles, não aguentaria ficar na mesma cidade cheia de lembranças. Então aproveitou que estava se formando na faculdade no mesmo ano e se mudou para San Diego, junto com alguns amigos, e criou com eles um restaurante de comida filipina, para honrar as suas origens e, hoje, é considerado um dos melhores do estado. O problema está no fato de que com essa mudança, a relação entre Izana e Mikey praticamente desapareceu por completo, pelo loiro ainda jogar futebol e pelos problemas com drogas, que foram descobertos no ano passado pelo mais velho na festa de aniversário de Sanzu.

Você ainda se lembrava de como foi preciso Baji e Draken para tirarem Izana de cima de Mikey, nunca tinha visto o platinado tão bravo na vida.

Tudo isso te preocupa já que as chances de Izana saber o que estava acontecendo eram grandes demais e se ele descobrisse das visitas do novo treinador do Los Angeles Rams, tudo poderia ficar ainda pior.

— Daqui a pouco vai sair fumaça da sua cabeça, pelo tanto que você tá pensando — ouviu a voz de Kazutora e você riu fraco, virando o rosto na direção dele.

— É só muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

— Eu sei — ele suspirou, enxugando as mãos em um pano de prato — Pode ter certeza que eu sei.

— O que aconteceu? — você já perguntou preocupada e ele riu, dando de ombros.

— Nada.

— Kazutora...

— Vamos? Eu sei que tá cedo, mas a gente vai se atrasar se não sairmos agora — ele desviou o assunto, já começando a andar até as escadas — Só vou no meu quarto escovar os dentes e pegar minhas coisas.

Você o acompanhou pelo o olhar, totalmente perdida pela forma que ele agiu, não é normal ele esconder algo, praticamente confidenciavam tudo ao outro. Respirou fundo, também indo em direção às próprias coisas para poder escovar os dentes no banheiro que tinha no andar de baixo.

Não conseguia entender o porquê de tantas coisas estarem acontecendo ao mesmo tempo, mas esperava que as coisas pudessem se resolver o mais rápido possível, já não aguentava mais tanta coisa dando errado. Inclusive, pensando nisso, pegou o seu telefone e checou mais uma vez se Blake tinha te respondido, o que claramente não aconteceu.

Bloqueou o telefone sentindo uma certa quantidade de raiva.

Vocês dois tinham discutido, mais uma vez, no dia anterior, por você ter avisado que sairia com Kazutora hoje e Blake sentiu ciúmes, o que fez que praticamente gritassem um com o outro no meio da fraternidade dele. Até mesmo tinha sido Hanma quem tinha feito os ânimos se acalmarem, você nem se reconheceu depois de terem parado de brigar, nunca tinha gritado tanto com alguém na vida.

Depois dessa discussão, simplesmente pegou as suas coisas e saiu da fraternidade sem dizer mais nada, ouvindo os chamados de Blake atrás de si, mas, mesmo depois de ter agido assim, ainda estava ali esperando ele te responder. Você não conseguia entender porque queria tanto receber uma mensagem dele, principalmente por literalmente estar indo passar o dia com o motivo da briga, mas tentaria ignorar.

Hoje é um dia só seu e de Kazutora, fariam o que mais gostavam de fazer juntos, surfar na praia de Malibu.

O seu relacionamento com Blake poderia esperar um pouco.



(...)



Kazutora estacionou o carro ao longo da calçada e você conteve a vontade de revirar os olhos, começou a gostar cada vez menos de vir em casa com o passar do tempo.

A casa é praticamente uma clássica dos subúrbios ricos de Los Angeles, com a arquitetura fazendo uma referência ao estilo espanhol. Respirou fundo ao descer do carro, andando pelo pavimento que levava à garagem a passos rápidos, realmente não queria ficar ali por mais tempo que o necessário.

Acionou o portão e não esperou que ficasse completamente levantado, só o que era preciso para que conseguisse passar. Pegou o telefone no bolso de trás do short jeans e ligou a lanterna, iluminando o ambiente, recheado de caixas e mais caixas, as quais você sabia muito bem o conteúdo.

As coisas da sua mãe.

Conteve a vontade de suspirar ao ver tudo ali, tinha um pouco mais de seis anos que ela tinha saído do país e você ainda sentia um certo desconforto em pensar no assunto, tinha muita coisa envolvendo a saída da sua mãe da sua vida, como o trabalho dela e, principalmente, o seu pai, de longe vocês não eram uma família com uma história fácil. Balançou a cabeça em negação, tentando focar no seu objetivo e não demorou muito para que achasse o que estava procurando, guardada no fundo do ambiente.

Desviou das caixas, inclusive organizando algumas de uma maneira melhor, sabia que seu pai não faria isso, pelo menos não por agora. Pegou a prancha e fez o caminho de volta, mas algo tomou a sua atenção, em uma das estantes perto da porta que dava acesso ao interior da casa. Apoiou a prancha na estrutura de metal e se aproximou de uma caixa que estava completamente revirada, como se tivesse sido aberta recentemente.

Franziu o cenho ao começar a colocar as coisas no lugar, dentro do papelão, mas a sua mão travou em um porta-retrato específico, que estava virado para baixo na prateleira.

Tinha sido na primeira vez que o seu pai te levou para assistir um jogo de futebol americano, você tinha um pouco mais de cinco anos, alguns meses antes de se mudarem oficialmente para Los Angeles. Estava sentada nos ombros dele, com um sorriso enorme no rosto, enquanto a sua mãe abraçava o seu pai pela lateral.

Nossa, como essa época tinha sido incrível.

O seu polegar passou pela superfície do vidro levemente empoeirada, revelando como tudo parecia ser tão mais fácil naquela época, mais feliz. Porém, essa paz não se manteve por muito tempo, já que o seu pai conheceria a cocaína um tempo depois, marcando o fim de tudo aquilo que vocês um dia já tiveram.

Não é como se não tivessem tido momentos bons nos últimos quinze anos, seus aniversários, alguns feriados e até mesmo a sua formatura no ensino médio. Existiram algumas situações que ele estava sóbrio por você, mas em comparação aos tantos que ele não esteve, e até mesmo a partir do dia em que começou a descontar as frustrações nos seus ombros, são quase como procurar uma agulha no palheiro.

Você ainda o ama, ele é o seu pai no final das contas, mas parecia que cada vez mais isso já não começava a bastar.

Guardou tudo dentro da caixa, a colocando no lugar junto com as outras, e saiu da garagem o mais rápido que conseguiu, carregando a prancha debaixo do braço e sem olhar pra trás. Você não saberia nesse momento, mas o seu pai viu o carro estacionado na frente da casa, reconheceu Kazutora no banco do motorista e andou até o local que já imaginava que você estivesse, pegando os seus últimos segundos no lugar em que cresceu.

Essa tinha sido a primeira vez que o seu pai tinha te visto pessoalmente em cinco meses e o mais velho, às vezes, sentia uma fisgada de culpa no coração, já que agora ele acompanha a sua vida somente em fotos antigas, que se encontram porta-retratos empoeirados, ou nas redes sociais, mostrando um namorado que ele nem conhece.

Arrependimento é uma palavra muito forte e o vício com certeza o colocava em uma situação que ele já não sabia mais como sair.

Enquanto isso, Kazutora estranhou o seu silêncio depois que ajeitou a prancha no teto do carro, mas não contestou, sabia que não gostava de ir até a sua casa. Ele mesmo também não se sentia à vontade para pisar no lugar em que cresceu nos últimos dias, não conseguiria encarar a mãe depois do que ela da ligação que tiveram na segunda-feira.

Respirou fundo, sentindo o vento fresco do início da manhã bater contra o seu rosto enquanto dirigia até Malibu, ouvindo uma música qualquer que tocava na rádio, o que com certeza não melhorava o clima de maneira alguma. Então, aproveitando que, agora, tinham parado em um sinal vermelho, pegou o telefone, que estava jogado no console do carro e passou os dedos rapidamente pela tela, entrando no Spotify e começando a fazer uma lista de reprodução.

Você percebeu a movimentação dele, mas não disse nada, ele ficava lindo tão concentrado assim, mordendo o interior da bochecha, como se estivesse fazendo uma das decisões mais difíceis da vida dele.

— Nunca conheci alguém que levasse tão a sério a escolha de músicas para dirigir.

— Nem vem, [Nome] — ele revirou os olhos, conectando o celular ao carro pelo sistema de bluetooth — É um momento sagrado.

Você não conseguiu segurar a risada e aproveitou para abaixar ainda mais a janela, o sinal tinha ficado verde novamente.

— É só colocar em uma playlist específica pra isso. Não vai me dizer que não tem uma playlist pra dirigir.

— Eu tenho, mas esse não é o ponto.

— Então qual é?

— Dirigir sozinho é uma coisa, mas estar indo surfar com você é outra. Tipo, situações diferentes merecem músicas diferentes.

— Não vou tentar discutir.

— Você sabe que eu tenho razão.

Agora foi a sua vez de revirar os olhos e você viu o sorriso convencido, extremamente atraente, de Kazutora aparecer no rosto dele e ele aumentou ainda mais quando o moreno aproveitou para colocar os óculos escuros Ray Ban do modelo hexagonal.

Ele sabia que ficava bonito desse jeito, com o cabelo solto, sendo bagunçado levemente pelo vento, e ainda com a luz do início da manhã refletindo no rosto e você estava ali somente para o observar. Não conseguiria negar o tanto que o seu melhor amigo é bonito e ainda de uma maneira extremamente natural, mas, por alguma razão, ter esse tipo de pensamento em relação a ele te causava uma sensação estranha no estômago, tentava relevar todas as vezes que apareciam na sua mente.

Porém, você sentiu o seu coração praticamente errar uma batida quando ouviu os acordes iniciais da primeira música que Kazutora tinha escolhido.

Snap Out Of It, Arctic Monkeys.

Você até se ajeitou no banco, focando o olhar na estrada à sua frente.


What's been happening in your world? Oh
What have you been up to?
I heard that you fell in love
Or near enough
I gotta tell you the truth


"Só pode ser brincadeira, não tem razões que o fariam escolher essa música por causa da letra, é só porque é da banda favorita dele" — você pensava, sentindo uma espécie de nervosismo tremendo contra a sua pele.


I wanna grab both your shoulders and shake, baby
Snap out of it (snap out of it)
I get the feeling I left it too late, but baby
Snap out of it (snap out of it)


Você tentava se convencer enquanto balançava a cabeça no ritmo, ouvindo Kazutora cantar baixinho a letra. Por Deus, só podia estar ficando louca e imaginando situações que não fariam sentido, Kazutora não gostaria de você. Como que ele gostaria de alguém como você?


If that watch don't continue to swing
Or the fat lady fancies having a sing
I'll be here waiting ever so patiently for you to
Snap out of it


Esfregou as mãos de leve no rosto e conteve a vontade de suspirar e simplesmente perguntar qual era o sentido daquilo, principalmente depois que a música acabou e começou outra, mais especificamente, 505. Nunca tinha reparado nas músicas que ele colocava, afinal, deveriam ser músicas, mas não parece que é o que estava acontecendo.

Além disso, você tem um namorado e você o ama, certo? Tem uma parte de você que sabe que ama Blake, mas por que simplesmente estava se importando com a letra de uma música?

O problema está no fato de que todas as músicas que tocaram, até vocês chegaram a Malibu, tinham algum significado por trás, meticulosamente escolhidas por Kazutora, que segurava as mãos do volante com força, te olhando pelo canto do olho de tempos em tempos. Ele não sabia de que lugar tinha tirado coragem para fazer isso, mas estava ali, praticamente gritando na sua cara o que queria de verdade.

Porém, o amor não é tão fácil assim, mesmo que nas músicas pareça ser.



(...)



Quando Kazutora estacionou o carro no estacionamento da praia de Malibu, você quase deu um grito de animação.

Ainda nem eram sete horas da manhã direito, então a praia praticamente vazia se mostrava quase como a entrada do paraíso.

— Também sentiu falta daqui? — escutou a voz de Kazutora, enquanto ele começava a pegar as pranchas.

— Com certeza — respondeu, pegando uma de suas mochilas — Mas como assim "também"? Você não veio surfar nas férias?

— Não senti vontade — ele deu de ombros e você só aceitou a justificativa.

Não demoraram a começarem a se arrumar, colocando os macacões de neoprene e, claro, passando o protetor solar nas partes que não eram cobertas pela roupa, e logo estavam andando descalços pela areia ainda levemente fria da praia.

A brisa fresca do mar balançava de leve o seu cabelo, que estava preso da maneira que você mais gostava, com a intenção de não cair no seu rosto enquanto surfar e a mesma coisa valia para Kazutora, que ostentava um rabo de cavalo. Você o encarou de canto de olho, enquanto andavam até o mar e o seu coração se aqueceu quando viu o sorriso dele aparecer, quando sentiram a água gelada molhar os pés.

Nostalgia, a palavra que com certeza significava esse momento pra vocês dois.

Começaram a avançar no mar, sentindo o nível da água subir cada vez mais, até que chegaram na altura boa para subirem nas pranchas, deitando sobre elas, e começaram a dar braçadas, adentrando ainda mais naquele infinito azul. Quando estavam bem mais no fundo, se sentaram, com uma perna de cada lado, e observaram o nascer do sol se concretizar por completo.

Azul, laranja e amarelo.

Parecia que uma pintura tinha sido feita no céu e não tinha como você não se sentir genuinamente feliz, sentindo o vento fresco no rosto, a movimentação das ondas abaixo de si e ainda a presença de Kazutora do seu lado, que com certeza é a parte mais importante disso tudo. Você respirou fundo, antes de virar o rosto e o encarar, descobrindo que ele já estava te olhando.

Foram poucos segundos, mas pareceram quase que uma eternidade.

Os olhos dourados do garoto pareciam brilhar como ouro com a luz do Sol refletindo neles e ainda tinha o início da tatuagem de tigre no pescoço, que não tinha sido completamente coberta pelo macacão. Agora, o encarando assim, com esse brilho no olhar e ainda com um sorriso que você não conseguiria descrever de tão incrível, você entendeu, por um breve momento, o que tinha sentido no mercado, uma sensação de "casa".

Não.

Não era isso.

Na verdade, Kazutora parecia ser o que "casa" deveria significar.

— Preparada? — a voz dele te tirou do transe.

— Sempre.

Com um aceno de cabeça, vocês dois voltaram a se deitar sobre as pranchas e deram ainda mais braçadas, chegando perto da parte do mar que as ondas estavam se formando e, como a maré estava cheia agora na parte da manhã, vocês totalmente conseguiriam ondas incríveis.

A ansiedade te tomou quando a onda perfeita apareceu no seu campo de visão e não duvidou nem duas vezes antes de girar a prancha e se preparar para finalmente surfar. Kazutora não foi muito diferente, pegaria aquela onda com você, estaria do seu lado até nisso, nas pequenas coisas.

A sensação libertadora de estar pegando uma onda te encheu por completo e algumas memórias boas começaram a te invadir aos poucos, enquanto a manhã se propagava.

Você tinha aprendido a surfar com a sua mãe, afinal, ela era uma surfista profissional, competindo nas mais diversas competições pelo mundo afora, mas se aposentou agora no verão, se fixando de vez na Austrália. Ela ainda mantinha contato, de tempos em tempos se ligavam, inclusive conheceu por uma chamada de vídeo a nova namorada dela, Harper, a australiana que a fez decidir ficar por lá.

Por alguma razão, não a culpava por ir embora, com certeza a atuação dela na profissão tinha ficado limitada depois que decidiram ficar em Los Angeles, por influência do seu pai de querer te dar uma vida "normal", sem ficar pulando de país em país, mas acabou que não deu muito certo. Sua mãe tinha engravidado de você muito nova, com dezessete anos, e acabou casando com o seu pai por causa disso, ele tinha 21 na época e, por causa disso, mesmo que ela não falasse, sabia que os sonhos dela tinham sido frustrados e atrasados por sua causa.

Hoje, com 22 anos, sabia que não era totalmente culpa sua, não tinha pedido para nascer, mas não é como se essa auto sabotagem fosse parar de acontecer tão fácil assim. Então, momentos como esse, que você fazia o que a sua mãe amava, te mostram o porquê dela ter ido embora um pouco depois de você ter completado 16 anos, dando um basta no relacionamento abusivo em que vivia com o seu pai.

A sensação de fazer o que ama é tão boa que chega a ser inebriante e, depois de ter começado a fazer enfermagem, entendeu ainda mais o que ela sentia quando subia em uma prancha com uma graciosidade invejável.

Você e Kazutora ficaram no mar até encher com pessoas de mais, sabia que não seriam os únicos a quererem aproveitar um sábado ensolarado e ainda com a maré alta. Logo estavam voltando para a areia, sentindo a água gelada pingar enquanto andavam até o carro, para colocarem as pranchas no teto e tirarem os macacões. Faziam tudo no modo automático, já sabiam aquela rotina praticamente de forma decorada, não foram poucas vezes que foram até Malibu com esse objetivo.

— Eu estava precisando fazer isso — você disse, enquanto voltavam para a areia, mas dessa vez só com as roupas de banho e duas toalhas, para esticarem e poderem se sentar.

— Também, só fazer algo que gosto genuinamente.

Assentiu com a cabeça e deixou que o silêncio reinasse de novo, depois das músicas que tocaram no carro, o clima tinha ficado levemente estranho, como se tivessem palavras não ditas entre vocês dois e isso estava te frustrando, já que nunca tinha ficado minimamente incomodada na presença do seu melhor amigo. Não deveria existir algo assim entre vocês dois.

Chegaram em um lugar na praia mais vazio e sentaram nas toalhas, observando o mar quebrar a poucos metros de distância e sentindo na pele o calor dos raios solares do fim do verão, simplesmente bom e reconfortante.

— Mais cedo, quando eu falei que tinha muita coisa acontecendo, por que disse "eu sei"?

Kazutora apoiou as mãos atrás do corpo, se inclinando levemente pra trás, e virou o rosto na sua direção, recebendo um olhar incisivo sobre si, ele já imaginava que você perguntaria em algum momento.

— Daqui mais ou menos um mês, vai fazer cinco anos que o meu pai foi preso — ele começou a falar, sentindo quase como um gosto ruim na boca só por estar mencionado isso — E, por causa do "bom comportamento" dele, ele conseguiu na justiça o direito de receber uma visita da Maddy.

— É o que?! — você se ajeitou na toalha, praticamente se sentando ereta e com os olhos em total estado de choque.

— É... — suspirou, cansado — Aquele filho da puta vai conseguir ver a filha que ele mesmo traumatizou quando ela era simplesmente uma criança.

— Kazutora...

— Não tem muito o que se possa fazer, é a porra de uma decisão judicial.

— Como a sua mãe tá?

A pergunta o pegou desprevenido e o fez desviar o olhar pra areia, se arrependimento matasse, provavelmente não teria falado aquele tanto de merda pra própria mãe na última vez que se falaram na segunda. Quando ela lhe contou o que tinha acontecido, Kazutora explodiu em raiva e frustração, falando e assumindo coisas que não deveria e só foi cair na real quando na terça-feira o seu padrasto, Anthony, apareceu na faculdade querendo falar com ele.

O moreno até tinha se assustado quando viu o namorado da mãe na porta da Toman no final do dia, ainda com parte do uniforme de bombeiro, indicando que tinha saído do quartel e ido diretamente pra lá atrás do enteado. O ruivo, com praticamente cinquenta anos nas costas, já tinha experiências demais de vida para julgar o mais novo por ter reagido da forma que reagiu, mas não podia simplesmente ficar parado diante da situação.

— Sei que provavelmente sou uma pessoa que você não esperava ver agora, mas acho que temos que conversar sobre uma coisa — o mais velho tinha os braços cruzados na altura do peito e Kazutora suspirou.

— Olha Tony...

— Nem tente se esquivar.

Indicou com a cabeça a caminhonete estacionada ao longo da calçada e andou até o carro, sabendo que o mais novo o seguia. Abriu a caçamba e se sentou, dando dois tapinhas e o moreno se viu obrigado a sentar ali também, colocando a mochila ao lado, encarando o pôr do sol começando a colorir o céu.

— Eu não queria falar tudo aquilo pra ela — foi o que Kazutora conseguiu dizer e Anthony assentiu.

— Tanto eu quanto a sua mãe sabemos disso, mas o que a machucou foi você ter pensado nisso. Sei que é uma situação delicada, ninguém imaginava que ia acontecer, mas não é como se a Mary não tivesse tentado impedir.

— Depois que pensei direito, imaginei que ela tinha feito isso.

— Ela só te contou depois que o recurso que ela fez com o advogado foi negado pelo juiz — explicou, observando o mais novo encarar o tênis.

— A capacidade que eu tenho de falar merda é impressionante.

Anthony não conseguiu conter a vontade de rir, o que fez com que Kazutora o olhasse.

— Foi só um deslize seu, não se martirize por isso.

— Falar é fácil.

— Sei muito bem que é, mas isso o que aconteceu não vai fazer você ser um péssimo filho e não aja como se não estivesse pensando nisso também.

— Vou começar a pensar que você é que nem a [Nome] e que consegue ler mentes — resmungou, o que causou mais uma explosão de risadas do ruivo, mas que dessa vez também foi acompanhada pelo próprio Kazutora.

— Quando você permite que as pessoas te conheçam, é fácil de te entender. Sei que ouviu muito que era uma criança difícil, mas não é isso o que eu vejo e muito menos a sua mãe.

O Hanemiya só conseguiu assentir com a cabeça, sem muita coragem de encarar o padrasto no momento, as suas próprias falas reverberavam pela cabeça.

Tinha dito que a mãe tinha deixado o seu pai se encontrar com Maddy, colocando a culpa na mulher que o pedido tinha sido aceito. Céus, simplesmente a acusou de ajudar o próprio abusador, chegava a até se sentir enjoado só com esse pensamento.

— Ei... — Anthony disse, apoiando a mão no ombro de Kazutora — Ela não está brava com você ou algo do gênero, só um pouco chateada e da mesma maneira que estamos conversando aqui, vocês dois também pode.

— Eu não sei se vou conseguir encarar ela agora.

— E tá tudo bem. Vocês dois passaram por muita coisa e superar as coisas é um processo longo, não se force a fazer isso de uma maneira rápida, pode acabar destruindo você mais do que imagina.

O moreno sentiu essas palavras, afinal, conhecia a história de Anthony e de como o luto da sua primeira esposa demorou anos para passar, até que se abrisse o suficiente para tentar algo, depois de tanto tempo, com Mary, até por isso ele não teve filhos.

— Obrigado por ter vindo aqui.

— Não precisa me agradecer, isso é o mínimo que eu poderia fazer vendo vocês dois assim. Aliás, aproveita e aparece lá em casa pra almoçar no sábado, vou fazer minha lasanha especial e eu sei que você gosta.

— Posso levar a [Nome]? A gente vai surfar sábado de manhã.

— Claro que pode, aquela garota é praticamente parte da família.

Kazutora riu fraco, concordando com o mais velho e não sentindo nada estranho dentro de si quando Anthony se colocou como parte da família. Na verdade, fazia sentido até demais o ruivo ser considerado como um dos Hanemiya, ele sim fazia um papel de verdade naquela casa.

— Ela tá levando eu acho — ele te respondeu, também se ajeitando na toalha — Só é frustrante ver todos os esforços para o tirar das nossas vidas valendo quase nada.

— Já falei como odeio o sistema judicial?

— Hoje não — brincou, arrancando uma risada sua.

— Eu odeio o sistema judicial.

O moreno balançou a cabeça em negação e então ele sentiu as suas no ombro dele, o forçando para baixo. Inicialmente ele não entendeu o que você queria, mas quando o seu olhar foi em direção às suas pernas, compreendeu. Apoiou a cabeça nas suas coxas, se deitando de costas para a toalha, e começou a te olhar debaixo, vendo o seu rosto brilhar por causa do Sol.

— Quando o dia da visita da Maddy for determinado, me avisa.

— Por que?

— Porque eu vou com vocês. Sei muito bem que você nunca a deixaria ir sem companhia, e da mesma maneira, eu não vou te deixar ir sozinho — respondeu, direta e irredutível.

— Tudo bem — ele sabia que era uma discussão já com um fim pré-determinado.

Você foi com ele no dia da denúncia, não seria agora que não o acompanharia.

— Aliás, meio que esqueci de te contar outra coisa.

— O que?

— Hoje o Tony vai fazer lasanha especial no almoço, quer ir comigo?

— Óbvio! Não sou maluca de perder a oportunidade de comer a comida dele.

— Ele cozinha melhor do que eu até.

— Pera que aí você já tá exagerando.

Kazutora riu da sua constatação e se ajeitou um pouco melhor na posição, sentindo os seus dedos começarem a desembaraçar o cabelo dele, completamente já marcado pela maresia.

— Você pode contar comigo pra qualquer coisa — você sussurrou, quase como um juramento.

— Eu sei — ele respondeu no mesmo tom de voz — Você também, não se esqueça disso, independente do que aconteça.

Assentiu com a cabeça e olhou nos olhos, aquele brilho dourado te encarando de volta. Um sorriso automático apareceu no seu rosto e quase que na sequência um estava brotando no rosto dele, vocês estavam em uma pequena bolha.

Ele logo puxou um outro assunto, falando sobre uma nova série da Netflix que ia lançar e que tinha ficado interessado na sinopse e você o ouviu, por simplesmente gostar de o ouvir, não se sentia pressionada a responder. Kazutora não te transmite essa sensação, a de te empurrar contra algo.

Nessas horas que se passaram com vocês conversando na areia da praia, não tinha problemas.

Não tinha o seu pai.

Não tinha o pai do Kazutora.

Não tinha a questão de Emma e Mikey.

Não tinha o fato de que vocês estão no último ano da faculdade.

Não tinha Blake, você não pensou no seu namorado durante todo esse tempo.

Não tinha espaço para mais nada além de vocês dois.






Oi gente! Tudo bem com vocês?

MANO ELES SOMENTE ELES POR DEUS

Vei, sério, fico chocada pelo tanto que eles têm química, Kazutora coloca Blake no chinelo na mesma facilidade que 2 + 2 = 4 e eu não aceito opiniões contrárias!!

Inclusive, nesse cap tentei fazer o flashback da cena do Kazutora com o Anthony ser mais fluído e, por favor, me deem opinião sobre, preciso saber se ficou minimamente decente kkkkkk

Além disso, esse rolê deles ainda não acabou!! No próximo cap, vamos ter esse almoço em "família" e finalmente vou mostrar a Maddy pra vocês, garanto que vão gostar demais dela 👀

Bem, espero que tenham gostado! Não se esqueçam de votar e de comentar (AMO ler o feedback de vocês)!

Até a próxima! ♥︎

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