12. I can be your girl

Meus punhos golpeavam as mãos de Kwon com precisão e força, seguindo o ritmo rápido e implacável que eu mesma ditava. O som seco dos impactos ecoava pelo espaço dos bastidores, misturando-se com o barulho abafado das lutas acontecendo lá fora. Eu sentia a tensão vibrando nos meus músculos, os nós dos meus dedos começando a arder de tanto repetir a sequência, mas eu não diminuía o ritmo. Se sentisse dor, significava que eu ainda estava viva. E se eu ainda estava viva, então significava que eu podia lutar.

Kwon era meu suporte, como sempre. Ele mantinha as mãos firmes no lugar, absorvendo cada golpe, sua expressão impassível, mas eu conhecia meu irmão bem o suficiente para saber que ele notava meu estado. Notava a raiva que eu tentava canalizar de forma produtiva, notava a frustração que eu disfarçava com determinação. Eu sabia que ele queria dizer alguma coisa, mas ele não precisava. Não enquanto eu estivesse acertando os golpes com a precisão de um bisturi.

Mas então, a voz da sensei Kim ainda ecoava na minha cabeça, cada palavra dela impregnada na minha mente como uma cicatriz. Ela sabia. Claro que sabia. Não havia um único movimento que passasse despercebido aos olhos dela, e a caminhada que eu havia dado com Axel, por mais breve que fosse, não foi exceção.

"Distrações como essa não são bem-vindas no torneio, Hanna. Você pode encher sua cabeça de baboseiras depois, se quiser, mas só depois de ganhar." O tom dela foi cortante, mas sem pressa, como se estivesse me dando um aviso. "Você pode não ser a capitã da equipe, mas é a mais velha. É uma das bases que mantém todos firmes. Se você fraquejar, o time todo desmorona."

As palavras dela ficaram martelando na minha cabeça como um tambor de guerra. Eu não podia permitir isso. Não podia dar a ninguém a chance de me desestabilizar. E a maneira mais simples de garantir isso era ignorar Axel. Fingir que ele não era nada além de um oponente.

Porque era exatamente isso que ele era, não era? Um oponente. Não um amigo, não alguém com quem eu pudesse baixar a guarda. Eu até havia cogitado, por um breve momento, que talvez pudesse haver alguma neutralidade entre nós. Que talvez pudéssemos coexistir sem essa rivalidade sufocante. Mas essa ideia passou num piscar de olhos assim que percebi o quão estúpida ela era. Ter amigos no time adversário só me arrastaria para um poço do qual eu não conseguiria sair. E eu me recusei a ser puxada para baixo.

Mas então ele me chamou de hipócrita.

Eu sentia minha mandíbula se apertar a cada vez que a lembrança ressoava na minha cabeça. Ele me olhou nos olhos, riu, e disse aquelas palavras como se tivesse o direito de me julgar. Como se soubesse qualquer coisa sobre mim, sobre a pressão que eu carrego, sobre o peso das expectativas em cima dos meus ombros. Ele não sabia. Não tinha ideia do que significava viver sob a sombra de um pai que exigia perfeição, de um sensei que via fraqueza como uma doença incurável.

Mas se ele queria me provocar, então ótimo. Ele conseguiu.

Porque eu usaria isso.

Eu usaria essa irritação como combustível para destruir os Iron Dragons o quanto antes. Eles seriam apenas mais um obstáculo a ser esmagado no meu caminho até a vitória. E Axel? Ele não significava nada. Nem seu olhar, nem suas palavras. Nada.

O nome do Cobra Kai ecoou pela arena mais uma vez, e eu senti meu corpo se enrijecer. Estava chegando a nossa vez de voltar ao tatame, e a energia no ambiente parecia diferente agora. Talvez fosse o peso do que estava por vir, ou talvez fosse apenas o efeito da minha própria raiva borbulhando sob a pele. Tory estava inquieta, seus olhos varrendo o lugar com hesitação, e eu soube imediatamente o motivo.

Agora, nossa luta era contra o Miyagi-Do. E isso significava que Tory enfrentaria Robby.

Eu apertei os punhos, sentindo o ódio pulsar como um tambor dentro de mim. A imagem do time adversário se formou em minha mente, e cada um deles parecia uma representação viva de tudo o que eu desprezava. Mas nada me deixava mais furiosa do que a lembrança do que Robby Keene havia feito. Ele traiu Tory, dormindo com uma idiota do Iron Dragons, e agora estava ali, como se nada tivesse acontecido, como se seu erro fosse insignificante. Era patético.

A raiva se intensificava ainda mais quando eu pensava no que Sensei Kim havia dito. Ela estava certa. Sentimentos eram fraqueza. Sentimentos podiam nos arrastar para um poço escuro de distração, nos tornar vulneráveis. Tory estava machucada, mas ela não podia se deixar levar por isso. Não aqui. Não agora.

Me aproximei dela antes de nos alinharmos no tatame. Minha mão pousou firme sobre seu ombro, um toque de ancoragem, de força. Quando ela me olhou, vi nos olhos dela uma sombra de dúvida.

— Seja implacável — Minha voz saiu baixa, mas cheia de convicção. — Mostre a ele que você é forte sem ele. Que você nunca precisou dele. E se ele for homem o bastante, Tory, vai voltar rastejando pra você.

O maxilar dela se contraiu, e seus olhos ganharam um novo brilho. Eu sabia que a raiva estava ali, queimando junto com a dor, e era isso que ela precisava canalizar. A minha mão apertou levemente seu ombro.

— Eu tô com você. Se precisar, tô aqui. Mas não fraqueja. Eu confio em você. Sei que você é forte.

Por um momento, os lábios de Tory tremeram, e então, um pequeno sorriso curvou seu rosto. Ela assentiu, firme.

— Valeu, Hanna. — Sua voz saiu baixa, mas determinada.

Eu respirei fundo e soltei seu ombro, endireitando a postura enquanto observava o Miyagi-Do no outro lado do tatame. Eu via Robby ali, parado, como se fosse o mesmo garoto de sempre. Mas para mim, ele não era mais nada além de um inimigo a ser derrubado.

Eles precisavam entender que a filosofia de lutar sem agressividade não iria salvá-los aqui. Aqui, ou você esmagava seu adversário, ou era esmagado. Simples assim.

Era isso que eu queria. Era isso que eu faria. E se Tory tivesse dúvidas sobre o que fazer, eu não teria nenhuma. Eu ia destruir o Miyagi-Do, e principalmente, eu ia fazer Robby Keene pagar por ter partido o coração da minha amiga.

A voz do anunciador encheu o ar, chamando nossos nomes, e eu senti meu sangue fervendo.

Que começasse a luta.

O círculo foi formado, os gritos da torcida ecoavam pelo ginásio, mas eu mantinha o foco. Minha respiração estava controlada, minha mente fria. Do outro lado, Samantha Larusso se postava com uma guarda impecável, os olhos fixos nos meus. Ela avançou primeiro, rápida e precisa, buscando um soco direto no meu rosto. Meus reflexos estavam afiados. Inclinei a cabeça para o lado e desfiz a ofensiva com um tapa forte no antebraço dela, abrindo espaço para um chute na lateral do tronco. Ela recuou com um passo ágil, absorvendo o golpe, e girou com um chute em arco. Levantei o braço, bloqueando no tempo certo, sentindo o impacto reverberar pelo meu antebraço.

Ela não desistiu. Samantha voltou com uma combinação de socos bem treinada, o estilo defensivo do Miyagi-Do em cada movimento. Mas eu já conhecia esse jogo. Agarrei o punho dela no último golpe e girei, aplicando uma rasteira rápida. Ela perdeu o equilíbrio por um instante, mas conseguiu se recompor antes de cair. Porém, isso era o que eu queria. Aproveitei a abertura e avancei, girando com um chute no peito dela. O impacto fez Samantha tombar para trás, caindo sobre o tatame. O apito soou. Ponto para o Cobra Kai.

Levantei o queixo com um pequeno sorriso e olhei para Tory. Eu sabia que esse momento era dela. Robby Keene entrou no círculo, seu olhar vacilante entre mim e Tory. Bati na mão dela com força, entregando a luta.

— Esse é todo seu. — Murmurei.

— Pode deixar. — Tory respondeu, feroz.

O embate começou. Os golpes eram intensos, carregados de emoções não ditas. Robby hesitava, bloqueava e recuava ao invés de atacar com força total. E eu sabia o motivo. Ele não queria machucar Tory. Péssima escolha. Ela percebeu essa fraqueza e usou a vantagem. Seus ataques se tornaram mais agressivos, os chutes mais altos, os socos mais afiados. Ele bloqueava, tentava recuar, mas ela não o deixava respirar. Uma sequência rápida de três golpes o fez tropeçar para trás, e então, com um chute potente na altura do abdômen, Tory o fez cair no chão. O apito ressoou.

Tory saiu do círculo e bateu sua mão contra a minha.

— Mandou bem, garota. — Murmurei.

Ela me lançou um olhar satisfeito antes de se afastar. Agora era a vez de Yoon. Ele entrou com confiança, mas eu sabia que seu adversário era perigoso. Miguel Diaz. Eu o tinha observado. Ele era forte, rápido, estratégico. Um lutador nato. Seus cachos caíam na testa enquanto ele se movia com leveza, os olhos brilhando com determinação. Mas eu não podia me deixar distrair.

A luta começou e, para minha surpresa, Yoon estava na defensiva. Ele bloqueava, recuava, e isso não era do seu feitio. Miguel pressionava com socos e chutes, forçando Yoon para trás. Isso estava errado. Gritei para ele, meu tom firme.

— YOON, TROCA AGORA!

Ele reagiu rápido, correu para bater na mão de Kwon, mas Miguel foi mais esperto. Com um chute veloz, ele acertou o peito de Yoon com precisão, fazendo-o tropeçar para trás. O apito soou. Ponto para o Miyagi-Do. Eu cerrei os dentes. Yoon voltou para a lateral, visivelmente abalado. Eu conhecia aquele olhar. Ele nunca tinha sido atingido desse jeito no torneio. Passei a mão no rosto, observando Miguel.

Ele era mesmo bom. Mas isso não significava que venceria.

Felizmente, Kwon foi o próximo a entrar no círculo. Seu adversário, um garoto de moicano que eu já tinha observado antes. Ele tinha garra, mas Kwon era simplesmente melhor. Ele começou a luta testando o adversário, trocando socos rápidos e desviando com facilidade. O garoto tentava acompanhar, mas estava claro que Kwon dominava o ritmo. Então, sem mais brincadeiras, meu irmão acelerou.

Uma sequência brutal começou. Kwon acertou um soco na lateral das costelas do adversário, seguido por um chute frontal que o fez cambalear. O garoto de moicano avançou com um soco desesperado, mas Kwon se abaixou e girou, varrendo suas pernas. Antes que ele pudesse se recuperar, meu irmão girou novamente e desferiu um chute giratório devastador na lateral da cabeça dele. O impacto foi tão forte que ele caiu no tatame sem chance de reação.

O apito final soou. A torcida explodiu em gritos. Vitória do Cobra Kai.

Ergui o queixo com orgulho. Mais uma rodada vencida. Mais um obstáculo eliminado. E isso significava que estávamos cada vez mais próximos da final. Eu dei uma última olhada para Miguel Diaz, que ainda estava na lateral do círculo, observando-nos. Ele era forte, mas eu era mais forte. E logo, ele descobriria isso da pior maneira possível.

O suor ainda escorria levemente pela minha nuca enquanto descia do tatame ao lado do resto da equipe. Meu coração pulsava acelerado, não apenas pela intensidade da luta, mas pela descarga de adrenalina que ainda queimava em minhas veias. O cheiro de esforço, de competição e de determinação impregnava o ar, tornando tudo ainda mais vívido.

Eu respirava fundo, tentando me manter focada. Havíamos vencido mais uma, e isso era tudo o que importava. Estávamos avançando. O Cobra Kai estava avançando. No entanto, quando me virei para sair, apressando o passo para passar direto pelo espaço da arena, senti meu ombro esbarrar contra algo sólido. Alguém.

Minhas sobrancelhas se franziram automaticamente, e meu olhar se ergueu num reflexo rápido para encarar quem havia cruzado meu caminho. Meu corpo travou por um instante. Era Miguel Diaz.

Por um mísero segundo, um instante que me irritou profundamente, eu simplesmente perdi as palavras. Meus olhos captaram os detalhe, o olhar quente e perspicaz dele, o leve sorriso que se formava no canto dos lábios, como se ele se divertisse com a situação. Seus cachos um pouco desalinhados pelo esforço da luta, o peito subindo e descendo no ritmo de sua respiração ainda um pouco acelerada.

Ele soltou uma risadinha baixa, um som que pareceu reverberar dentro de mim, e murmurou um breve:

— Foi mal.

Pisquei algumas vezes, sentindo meu cérebro processar a cena, e me odiei por essa fração de segundo de hesitação. Respirei fundo e recuperei minha compostura, forçando um tom neutro:

— Tudo bem. — Fiz uma pequena pausa e, em um ímpeto, acrescentei — A propósito, você lutou muito bem.

Miguel arqueou levemente as sobrancelhas, parecendo surpreso por um instante antes de abrir um curto sorriso. Havia algo sincero e despretensioso em sua expressão, o que me irritou mais ainda.

— Você também se destacou bastante — Ele respondeu com naturalidade. — Foi uma boa luta.

Molhei os lábios, respirando fundo. Ele era gentil, talvez até educado demais para alguém que estava em uma competição como essa. Mas eu não estava disposta a alimentar esse tipo de troca amistosa por muito tempo. Estreitei o olhar, inclinando levemente a cabeça antes de responder:

— Eu só estava me aquecendo. Na próxima vai ser bem pior.

Miguel riu baixinho, um som que me fez querer revirar os olhos e ao mesmo tempo provocou um estranho calor na boca do estômago.

— Vou contar com isso — Ele disse, ainda com aquele maldito sorriso.

Assenti de leve, virando-me rapidamente e me afastando. Minha mente fervilhava de pensamentos indesejados, e meu maxilar se retesou. Eu não era de ferro, afinal. Miguel Diaz era atraente, tinha técnica, força, estratégia... Mas nada disso importava. Ele era um adversário, um obstáculo no meu caminho, e eu não perderia meu foco por uma trivialidade dessas.

Antes que eu pudesse me aprofundar demais nesses devaneios, Han passou ao meu lado, cutucando meu ombro de maneira provocativa.

— Eu bem que senti a tensão entre vocês — Ele comentou com um sorriso insinuante.

Revirei os olhos, forçando uma risada debochada. Não deixaria que ninguém tirasse conclusões precipitadas sobre algo que, para mim, não significava absolutamente nada.

— Anda logo, Han — Retruquei, batendo de leve no ombro dele enquanto passava à frente.

Tensão? Por favor. Eu não temia nada nem ninguém. E, definitivamente, não sentiria qualquer coisa desse tipo por Miguel Diaz.

Não enquanto eu não fosse a campeã.

Eu não sabia exatamente o que me incomodava. A luta de hoje tinha sido intensa, e vencemos, como eu sabia que aconteceria. No entanto, alguma coisa parecia presa dentro de mim, um nó apertado no peito, uma inquietação que não fazia sentido. Eu havia ignorado Axel, como deveria ter feito desde o começo, mas sua expressão me assombrou. O olhar dele era incandescente, carregado de algo mais do que raiva. Eu não me importava com o que ele pensava, mas a intensidade daquele olhar permaneceu comigo.

E Miguel... Eu tinha hesitado. Por que diabos eu tinha congelado? Eu não era do tipo que ficava sem palavras, muito menos por um garoto, ainda mais um do time adversário. Isso me irritava. Eu me sentia vulnerável, e isso era inaceitável. Eu precisava treinar, precisava exorcizar esse peso estranho que me acompanhava desde que deixamos o ginásio.

O hotel estava silencioso quando cheguei ao meu quarto e chamei Tory para treinar comigo na praia. Ela riu, dizendo que eu era incansável, mas que precisava de descanso. Eu apenas balancei a cabeça, compreendendo. Todos lidam com as coisas de maneira diferente. Meu jeito era esse: punhos cerrados, pés firmes no chão, corpo em movimento constante. Se eu parasse, minhas emoções poderiam me consumir.

Caminhei até a praia com passos decididos. A noite estava fresca, o vento marítimo soprava contra minha pele como uma carícia fria. O cheiro do sal impregnava o ar, e o som das ondas quebrando na areia me envolvia como um mantra silencioso. O céu escuro era pontilhado por estrelas brilhantes, refletindo sobre o mar negro e misterioso.

Meus pés afundaram na areia fria quando cheguei a uma área aberta o suficiente para treinar. A praia estava deserta, o que era um alívio. Nada me distrairia agora. Fechei os olhos por um instante, puxando o ar devagar, sentindo meu corpo se acalmar antes da tempestade. Meus músculos ainda estavam aquecidos da luta, prontos para a ação.

Respirei fundo, abrindo os olhos, e assumi minha postura de luta. Comecei com sequências simples, socos retos e firmes, sentindo cada impacto no ar. Meu corpo reagia no automático, sem hesitação, como se eu fosse feita para isso.

Chutes. Primeiro baixos, testando a estabilidade na areia, depois médios, focando na precisão, e por fim, altos, golpeando o vazio com força. Meus pés giravam suavemente, encontrando equilíbrio, a respiração firme, constante. Eu me movia como uma máquina, calculada, precisa. Cada golpe era uma descarga elétrica de frustração, raiva, dúvida. Eu expulsava cada pensamento invasivo com o impacto invisível contra o nada.

Eu não era fraca. Não podia ser. Eu era Hanna Jae-Sung, filha de um homem que não toleraria falhas, treinada para ser a melhor. E eu iria provar isso.

A brisa forte empurrou algumas mechas do meu cabelo contra o rosto, mas eu as ignorei. Minhas mãos disparavam golpes rápidos, sequências complexas que me mantinham focada. Minha mente gritava apenas uma coisa, continue.

Treinei até sentir meu corpo arder. Até que a dor substituísse a inquietação. Até que eu não sentisse mais nada além da certeza de que, na próxima luta, eu não hesitaria. Eu esmagaria qualquer um que ficasse no meu caminho. Sem dúvidas, sem fraquezas. Apenas força.

A areia fofa sob meus pés dificultava os movimentos, exigindo ainda mais força a cada chute que eu desferia no vazio. Recomecei com um chute frontal, subindo a perna com precisão, sentindo os músculos das coxas e panturrilhas se contraírem com o esforço. O impacto da perna contra o ar causava um pequeno deslocamento da areia abaixo de mim. Repeti o movimento mais algumas vezes antes de passar para um chute lateral. A rotação do quadril exigia mais controle na areia, tornando o golpe mais pesado, mas, ao mesmo tempo, me fortalecendo.

Então, me preparei para um chute giratório. Girei o corpo rapidamente, elevando a perna com impulso, sentindo o vento cortar minha pele conforme executava o movimento com precisão. Porém, o som de passos correndo pela areia me distraiu no último instante, quase me desequilibrando no final do giro. Franzi o cenho, tentando conter o impulso de gritar de irritação. Meus olhos se voltaram para os intrusos, e minha expressão logo se transformou em uma máscara de indiferença. Axel e a garota do Miyagi-Do, Samantha.

Eles estavam ofegantes, os cabelos desgrenhados pelo vento, como se estivessem fugindo de algo. Suspirei, revirando os olhos. Se Kwon estivesse envolvido nisso de alguma forma, eu não ficaria surpresa. Antes de voltarmos ao hotel, ele ficou no caminho do ônibus, resmungando sobre como queria quebrar a cara de alguém e sobre sair para beber. O que quer que tivesse acontecido, não era problema meu.

Respirei fundo e voltei ao meu treino. Meus pés afundavam na areia a cada movimento, tornando cada golpe um verdadeiro desafio. Eu me movia com rapidez, alternando chutes altos e baixos, testando minha agilidade mesmo com o peso da resistência natural do terreno. A regata fina que eu usava colava-se à pele, e o vento frio da noite castigava meus ombros e braços expostos.

Fiz uma breve pausa, pegando minha garrafinha d'água. Levei o bico da garrafa aos lábios e, enquanto bebia, meus olhos voltaram à cena. Foi quando vi.

Axel inclinou-se na direção da garota. Meus músculos se enrijeceram no mesmo instante, os dedos apertando a garrafa com força desnecessária. Então, os lábios dele tocaram os dela.

O beijo durou alguns segundos. Segundos longos e patéticos. Eu os observei, imóvel, como se estivesse assistindo a um espetáculo ridículo de teatro. No entanto, Samantha logo se afastou, atordoada, gesticulando de forma incerta e recuando. Ela parecia dizer algo antes de desaparecer, deixando Axel ali parado, no meio da areia, como um idiota.

A risada que ameaçou escapar de meus lábios era quase cínica. Fascinado por mim, ele dizia. E no instante em que percebeu que eu não daria a mínima para suas provocações, correu para os braços da primeira garota disponível. Que nobreza. Que coração grande ele tem, não? Sempre cheio de espaço para todas. Um verdadeiro cavalheiro, atirando para todos os lados até acertar um alvo. Ótimo. Muito conveniente.

Ele se virou na minha direção, como se tivesse sentido meu olhar sobre ele. Mas eu rapidamente desviei os olhos, voltando a repetir os golpes com intensidade dobrada. Sentia uma irritação crescente queimando dentro do meu peito. Minhas pernas subiam com mais força, o impacto do chute contra o vento parecia um desabafo silencioso. Não importava. Nada disso importava.

Eu só esperava que ele não se aproximasse.

Eu estreitei os olhos na direção dele, observando com atenção cada movimento. Axel simplesmente virou as costas e foi embora, em completo silêncio. Nem mesmo lançou outro olhar para mim. Aquilo me fez rir, mas não de um jeito divertido. Era uma risada seca, amarga, carregada de raiva e descrédito. Isso era mesmo sério? Agora ele me ignoraria?

Era inacreditável. Ele estava agindo como se eu o tivesse ofendido, como se eu fosse a errada da história, quando desde o início eu deixei claro que não queria proximidade. E ainda assim, ele insistia. Me criticava, me provocava, dizia que eu era a pessoa horrível aqui. Mas então ele beija uma garota logo depois de ser dispensado por outra? Como se uma coisa compensasse a outra? Como se não importasse quem fosse, contanto que ele não ficasse sozinho?

Hipócrita.

A palavra pulsava na minha mente como um tambor rápido e irritante. Ele dizia que eu era a errada, mas agora estava se provando exatamente igual ao que me acusava de ser. A diferença é que eu não tentava esconder.

Minha respiração acelerou e meus punhos se cerraram com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. Em um único movimento, desferi um soco furioso contra o ar, sentindo a tensão se espalhar pelo meu corpo. Continuei a golpear, com chutes rápidos e socos calculados, tentando canalizar minha frustração na minha técnica. Cada golpe cortava o ar frio da noite, minha respiração tornava-se mais ofegante. Mas, eventualmente, senti um arrepio incômodo percorrer meus braços. O frio finalmente me alcançou.

Suspirei pesadamente, pausando meu treino por um instante. Meu corpo estava quente do esforço, mas a brisa gelada da noite fazia minha pele arder. Era melhor eu voltar. Peguei minha garrafa d'água e minha toalha, abraçando meu próprio corpo em uma tentativa de me proteger do frio. Meu quimono estava no hotel, e a regata fina não ajudava muito naquela temperatura.

Eu começava a caminhar de volta, tentando ignorar os pensamentos que fervilhavam na minha mente. Mas ao levantar o olhar, percebi algo incômodo, Axel vinha na minha direção.

Ele não olhava para mim, mas era evidente que nossos caminhos se cruzariam. Apertei os lábios e desviei o olhar, decidida a ignorá-lo completamente. Mas, para minha irritação, ele se aproximou e, sem dizer nada de imediato, estendeu o casaco dele para mim.

— Você não vai conseguir lutar se acabar pegando um resfriado. — Ele murmurou, sua voz baixa, mas firme.

Fiquei paralisada por um segundo. O quê? Agora ele se importava? Depois de tudo aquilo? Depois daquela cena ridícula que eu tive que assistir? O quê, ele achava que podia bancar o cavalheiro agora? O pensamento fez minha raiva escalar ainda mais rápido do que antes.

Soltei uma risada curta e sem humor, revirando os olhos.

— Ah, agora você se importa? Que patético. — Minha voz pingava sarcasmo, mas também raiva genuína.

Sem pensar duas vezes, dei um tapa forte no casaco, fazendo-o cair no chão.

— Vai se ferrar, Axel. — Vociferei, as palavras saindo como veneno antes que eu me afastasse com passos duros e decididos.

Eu sentia meu sangue fervendo, minha mão tremia ligeiramente pela explosão de raiva, e meu peito subia e descia rápido. Eu precisava esfriar a cabeça. Precisava tirar isso da minha mente. O que mais me irritava não era apenas Axel em si, mas o fato de que ele conseguiu me fazer sentir algo. Algo que eu não queria sentir. Uma raiva tão fora do comum que quase me desestabilizava.

Mas uma coisa era certa, eu não deixaria isso me distrair. Não agora. Nem nunca.

O vento cortante da noite atingia minha pele como lâminas invisíveis, um frio que parecia se infiltrar através da minha roupa leve, arrepiando cada centímetro do meu corpo. Mas eu não ia fraquejar. Não precisava da ajuda daquele maldito gigante de aço. Se Axel achava que poderia me desconcentrar, ele estava muito enganado. Eu não estava confusa. Não estava hesitante. Eu estava certa. Certa de que o destruiria na primeira oportunidade.

A areia fria sob meus pés pesava a cada passo que eu dava na direção do hotel, os músculos ainda pulsando da sessão de treino, mas agora carregados com uma energia diferente, um tipo de raiva que fervia sob a minha pele, misturada com algo que eu não conseguia nomear e me recusava a analisar. Ele simplesmente saiu. Simplesmente virou as costas e foi embora. Como se nada tivesse acontecido. Como se nunca tivesse olhado para mim daquele jeito intenso e obcecado. Como se, de repente, não se importasse mais. Como se tivesse me esquecido.

Ridículo.

A risada amarga escapou dos meus lábios antes que eu pudesse conter. Ah, então era assim? Ele me chama de hipócrita, age como se eu fosse a pessoa mais insuportável e fascinante do mundo ao mesmo tempo, e agora simplesmente... Me esquece? Supera? Como se todo aquele teatro de olhares carregados e provocações significasse nada?

Hipócrita do cacete.

Meus punhos se fecharam, os dedos cravando na palma das mãos. Eu sentia cada fibra do meu corpo tensionada, como se precisasse bater em alguma coisa para extravasar essa energia fervente dentro de mim. A brisa salgada da noite não ajudava em nada, apenas arrepiava minha pele ainda mais, aumentando a sensação de desconforto.

Quando cheguei ao hotel, cada passo ecoava pelo hall silencioso. O segurança perto do elevador me lançou um olhar breve antes de voltar ao seu jornal. Ignorei, apenas segui direto para o quarto. Assim que entrei, me vi envolvida pelo calor artificial do ambiente, mas isso não fez nada para dissipar a inquietação dentro de mim.

Tory já estava dormindo, a respiração calma enchendo o quarto no ritmo de um sono profundo. Sorte a dela. Eu, por outro lado, sentia que poderia socar o saco de pancadas a noite inteira e ainda assim não ficaria satisfeita. Suspirei, arrancando a blusa fina e jogando no canto antes de pegar minha toalha e entrar no banheiro.

A água quente caiu sobre meu corpo como uma avalanche de calor, relaxando os músculos tensos, mas não conseguindo acalmar meus pensamentos. Apoiei as mãos contra a parede de azulejos úmidos, fechando os olhos por um instante. Eu precisava dissipar esse nó no meu peito. Precisava lembrar do que era importante. O torneio. A vitória. O Cobra Kai. Nada além disso importava.

Ao sair do banho, enrolei a toalha no corpo e peguei o celular. A tela iluminou meu rosto no escuro do quarto e uma notificação chamou minha atenção.

Era uma mensagem no grupo. Han estava falando sobre um restaurante de salsa. Eu franzi o cenho, passando os olhos pelo texto. "Muita gente vai estar lá amanhã à noite. Vai ser divertido!"

Não era o tipo de lugar que eu frequentaria normalmente. Nunca fui de festas, danças ou qualquer coisa que envolvesse um monte de gente se esfregando e rindo alto. Mas... Talvez por uma noite. Talvez por uma única vez, sem o peso da competição nas minhas costas, eu pudesse aproveitar. Além do mais, eu tinha algo a provar.

Se Axel achava que podia simplesmente me apagar da cabeça como se eu nunca tivesse sido um desafio digno, ele estava muito enganado. Eu faria questão de garantir que ele pagasse com aquela maldita língua.

Com um sorriso de canto, apaguei a tela do celular e me joguei na cama. O frio da noite ainda rondava minha pele, mas dentro de mim, o fogo continuava queimando.

Obra autoral ©

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