𝟎𝟒
Estar de volta à Wayne Interprises rendeu alguns comentários sussurrados entre os funcionários da recepção. Eles sabiam quem eu era. "Dick Gray-alguma coisa, o filho do Bruce Wayne".
- Bom dia, - eu disse, me debruçando sobre o balcão de mármore, encarando a recepcionista com o melhor sorriso que pude forçar. - eu sou...
- Eu sei. O filho do Sr. Wayne. Você quer vê-lo? Acho que não marcou hora, mas se puder esperar eu vejo se posso encaixar em alguns dias.
Ela estava nervosa, eu podia ver pela forma como ela se atrapalhou com papéis e acabou derrubando um monte de lápis. Uma risada frouxa escapou e eu pude ver suas bochechas tornarem-se vermelhas como morangos maduros.
- Eu não estou aqui para ver o Sr. Wayne. Na verdade, estou procurando Barbara Gordon. É uma novata, estagiária. Ela deve ser desse tamanho - levantei a mão na altura da minha cintura - por causa da cadeira de rodas.
A recepcionista me encarou com um semblante neutro, comprimindo os lábios. Eu me perguntei o que poderia ter dito de errado, talvez ela não gostasse de piadas de cadeirantes.
- Eu. Eu sou Bárbara Gordon.
Me senti como se tivesse atropelado o cachorro de alguém.
- E eu sou desse tamanho. - ela levantou a mão acima da própria cabeça, e se afastou, fazendo impulso contra o balcão. Só então percebi que ela estava sentada em uma cadeira de rodas.
Engoli em seco. Ela continuava me olhando como quem me bateria se alcançasse.
- Me... me desculpe, Barbara. Quer dizer, senhorita Gordon. Senhorita Barbara Gordon.
Ela empurrou a cadeira, dando a volta no balcão. E passando por cima do meu pé.
- Ei!
Percebi que ela se afastava, e que uma outra garota se posicionou atrás do balcão, assumindo seu papel enquanto ela sumia ao fim do corredor.
- Espere! - eu corri atrás dela - Gordon! Bárbara!
Era surpreendentemente rápida.
- Não posso mais ajudá-lo, Grayson. É meu horário de almoço.
Eu a alcancei com certa dificuldade, a tempo de abrir a porta para que ela passasse.
- Pensei que talvez eu pudesse ajudá-la.
- É mesmo? Em que? Será que eu vou precisar da sua ajuda para ofender outros deficientes?
- Não, e me desculpe por isso. - eu segurei sua cadeira com uma das mãos. - Eu não costumo ser tão rude assim, mas atualmente eu estou...
- Passando por coisas difíceis? Pobre garoto rico que ainda tem o movimento das pernas. Será que pode sair da frente?
- Não. Na verdade, não posso. Eu sou um encarregado da Wayne Interprises, e eu fui voluntário para ajudá-la a se adaptar.
- Então diga que eu estou me adaptando bem e me deixe em paz.
- Não dá. Os superiores me acham empático, gostaram da ideia. E eu estou trabalhando mais meu lado solidário.
Ela revirou os olhos. Tinha sido uma boa mentira. Só tinha que ser uma boa companhia para que ela não chegasse ao ponto de reclamar de mim para os superiores e descobrisse que na verdade, eu estava pouco me importando com meu lado solidário.
- Vamos lá, o que gosta de comer? Quer experimentar a cafeteria no fim da rua?
- Tem uma cafeteria no fim da rua?
- Viu só? Você precisa de mim! Só aproveite a viagem, eu vou te pagar um bolinho.
Não demorou muito até chegarmos. Barbara colocou óculos de sol. Talvez porque era verão ou talvez para tornar ignorar os olhares na rua uma tarefa mais fácil. Ela era uma garota bonita, muito bonita. Tinha bochechas salientes e rosadas; olhos grandes, expressivos; pele homogênea e de aparência macia como um pêssego. E eu nem vou falar daqueles cabelos ruivos, como uma cascata flamejante. Mas, infelizmente, não era por isso que ela encarava.
- É a maldita cadeira.
- O quê? - eu perguntei, avistando a cafeteria mais próxima.
- Você olha para os lados, e não entende por que as pessoas olham tanto. Você pensa: "Droga, será que é o meu decote? Meu batom está borrado? Minha meu cabelo está ruim?". Mas não tem nada a ver com nada disso. Eles só vêem a cadeira.
Barbara Gordon não falava aquilo com pesar, ou com pena de si mesma. Ela falava com casualidade. Percebi que era assim que queria ser tratada.
- Chegamos! É um lugar agradável, sempre tem cheiro de canela e café fresco.
Passamos pela porta, enfrentando apenas dois degraus, que deram um certo trabalho. Mas não havia quase ninguém, então Barbara relaxou e tirou os óculos de sol. Eu deixei a sua cadeira próxima à uma mesa e fui até o caixa, onde pedi dois bolinhos e vitaminas de morango.
Jim Gordon tinha me dado um adiantamento, para garantir que eu não fosse desistir, independente do que Barbara fizesse. Palavras dele.
- Grayson. - ela começou.
- Dick. - eu corrigi.
- Certo. Dick. Eu queria te perguntar. Você é o herdeiro da empresa não é?
- Aparentemente esse é um detalhe aparente para todo mundo, mas sim.
- Você não devia estar participando das reuniões e aprendendo o que um dia vai fazer, quando o Sr. Wayne se aposentar ou morrer?
- Me diz, quem te ajuda a ir ao banheiro?
- Ha! Engraçado. Por que não quer falar sobre o Sr. Wayne?
- Barbara...
- Babs. - ela corrigiu.
- Babs. Eu apenas não quero.
- Olha só, isso é raiva?
- Não é raiva.
- Diga isso pra veia pulsando na sua têmpora, ou pro maxilar travado, ou pras mãos...
- Eu já entendi. Você é esperta.
Ela sorriu minimamente e ajeitou o cabelo atrás da orelha. O pedido ficou pronto. Barbara riu quando a atendente chamou "Dick". Eu peguei e enquanto comíamos, ela me mostrou por quantas razões era um apelido ridículo.
──── S C E N E !
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