𝐭𝐰𝐨, strangers

We are strangers again,
but this time with shared memories






— Você quer sentar com a gente? — Itadori disse e Megumi deu uma cotovelada no garoto que estava sentado ao seu lado.

— Ei! Eu não falei nada de errado!

— Você realmente é uma batata — Nobara reclamou.

Amaya sorriu fraco vendo a interação dos três e se viu lembrando do seu próprio time, da época que não precisava se esconder da própria família.

— Você sabe que pode, não é? — a feiticeira ouviu a voz de Satoru e ele indicou a mesa com a cabeça.

— Não precisa, eu posso colocar meu nome na lista.

— Só se sente, Amaya — o feiticeiro deu de ombros, tentando demonstrar que o fato de que ela estava ali não mexia com ele, o que era mentira.

A xamã suspirou derrotada e andou até a mesa onde os três estudantes encaravam a mulher e o seu professor, completamente entretidos com a clara tensão entre os dois adultos. Itadori e Nobara se encontravam curiosos em relação à mulher, já que o feiticeiro mais poderoso do mundo admitiu que ela era forte e Megumi queria entender o porquê de ela lhe parecer tão familiar.

Amaya se sentou ao lado de Nobara, sentindo cada músculo seu tensionar pela situação em que estava metida. Ela não queria o encontrar hoje, bem no dia que tinha voltado para "casa". A feiticeira tinha arquitetado brevemente na sua cabeça como seria o seu reencontro com ele: na reunião com o antigo professor deles, não tendo assim uma brecha para que ele lhe fizesse perguntas que ela não queria e muito menos planejava responder.

Mesmo tendo essa linha de raciocínio em mente, ela o entendia.

Essa pequena quantidade de empatia que ela nutria pelo feiticeiro mais poderoso do mundo a machucava de uma forma que parecia que chamas queimavam o seu coração de forma intensa, como se a sua própria técnica amaldiçoada estivesse sendo aplicada nela mesma. Amaya tinha plena consciência de que talvez ela não tenha lidado com a situação da melhor maneira, mas não era como se uma adolescente de dezoito anos pudesse decidir o seu futuro com clareza quando a responsabilidade de se tornar a líder de um ninho de cobras é colocada nos seus ombros.

Porém, o que ela fez durante esses dez anos foi o preço que ela tinha escolhido pagar para não meter Gojo nos problemas do clã Okumura e conseguir um pouco de uma falsa ideia de liberdade.

A de cabelos azulados não demorou muito olhando o cardápio do seu restaurante favorito, já que o menu tinha permanecido praticamente igual, e o seu prato predileto ainda estava lá, o sushi tradicional japonês e não as maluquices inventadas pelos ocidentais que ela se deparou nos anos que passou fora do país.

Depois que o garçom se afastou e Satoru apresentou os seus alunos para Amaya, o silêncio se instalou na mesa e nenhum dos dois adultos sabiam como começar uma conversa.

— Então — Itadori começou, chamando a atenção da mesa — Você é solteira?

Os olhos de Amaya arregalaram e o som de uma tapa dado por Megumi foi escutado.

— Você é idiota por acaso?! — Megumi perguntou irritado.

— Alguém tinha que falar alguma coisa!

— Mas tem muitas outras formas de começar uma conversa!

— Você realmente não tem cérebro — Nobara disse derrotada e apoiando a mão na própria testa.

— Assim, eu acho que eu sou praticamente dez anos mais velha que você, mas respondendo a sua pergunta eu estou solteira — Amaya respondeu meio incerta e tendo a atenção dos adolescentes para si.

— Desculpa pela estupidez dele — Nobara disse e Amaya sorriu dando de ombros.

— Não tem problema.

— Então, você trabalha na escola? — Itadori perguntou.

— Não — Amaya riu fraco e batucou as unhas pintadas de branco na mesa de madeira escura — Ser professora não é algo que combine comigo.

— Mas você trabalha como xamã?

— Trabalho, só não sou filiada diretamente à escola. Faço meus serviços por outros meios — a de cabelos azuis respondeu, pensando muito bem em cada palavra que saía de sua boca já que, mesmo que ele não estivesse participando ativamente da conversa, ela sabia que Satoru estava ouvindo tudo.

— Acho que entendi — Itadori disse ainda meio incerto, mas ele percebeu que a feiticeira não iria dizer mais nada — Qual a sua técnica amaldiçoada?

— Isso tá virando um interrogatório, idiota.

— Não tem problema — Amaya sorriu de leve para Megumi, alguém que a feiticeira claramente percebeu que tinha crescido, mas que também não estava muito diferente da última vez que a mulher tinha o visto — Acho que seria melhor eu demonstrar.

A feiticeira deixou a sua energia amaldiçoada fluir para as pontas dos seus dedos e as chamas azuis surgiram.

Chamas Infernais, elas não são alimentadas por oxigênio, e sim pela minha energia amaldiçoada.

— Incrível — Nobara e Itadori falaram juntos, praticamente hipnotizados pelas chamas que variavam do azul escuro até o claro.

— Se elas consomem a sua energia amaldiçoada, então para ativá-las você precisa estar perto do alvo, se não é um gasto desnecessário de energia — Megumi disse, demonstrando um certo interesse no assunto.

— Eu uso uma katana por causa disso — Amaya explicou — A minha energia amaldiçoada flui por ela, então consigo alcançar o alvo.

— Mas não é como se você não tivesse meios para fazer as suas chamas chegarem no alvo — Satoru disse e instantaneamente Amaya virou o rosto na direção dele.

— Eu não sou você que consegue usar a técnica inata como bem entender.

— Você consegue sim, só não quer.

— Agora você sabe de minhas capacidades que até eu mesma desconheço?

— É óbvio que desconhece — Satoru sorriu de leve, sabendo que isso a irritaria — Você nunca tentou.

— Não vou discutir sobre isso com você.

— Nem precisa, você sabe que estou certo.

— Passaram dez anos e você continuou um prepotente.

— E parece que você continuou medrosa.

Os dois adultos se encaravam e os três adolescentes juravam que os olhos da xamã mais forte do mundo estavam pegando fogo, como se pequenas labaredas saíssem pelas írises dela. Esse assunto, de forma bem específica, sempre gerou os maiores desentendimentos entre Amaya e Satoru, principalmente quando eles estavam na escola.

O mais velho por alguns meses nunca entendeu e sequer um dia entenderia o porquê de Amaya não gostar de usar os Olhos do Diabo, uma técnica inata tão poderosa que sozinha já fazia a feiticeira ser considerada de Grau Especial, mas tudo no mundo Jujutsu tem um preço. O problema está em que, além da própria Amaya, a elite do clã dela e os superiores do mundo Jujutsu, ninguém sabia o verdadeiro risco que ela corria cada vez que usava esse poder.

— Nunca pensei que veria uma Okumura sendo a portadora "deles" depois de tantos séculos.

Uma voz grave ecoou e Amaya lentamente virou a cabeça na direção de Yuji, onde uma boca aparecia no meio da sua bochecha.

— Para de fazer isso! — o de cabelos rosa reclamou tapando a boca, mas foi inútil, já que ela apareceu de novo em sua mão.

— Realmente é uma combinação interessante — Sukuna disse e todos que estavam na mesa perceberam que a expressão de Amaya nunca esteve tão fechada.

— Ryomen Sukuna — a feiticeira disse séria e a boca na mão de Itadori sorriu.

— É um prazer, Amaya Okumura. Espero que você me entretenha como os seus antepassados fizeram.

A boca sumiu tão rápido quanto tinha aparecido e Amaya encarava a mão de Yuji sem realmente saber o que pensar direito.

Ela sabia que um dos estudantes de Gojo era o hospedeiro do rei das maldições, mas esperava que seria o quarto estudante. Desde a época dela, era comum terem times de feiticeiros com quatro integrantes e então não tinha se passado na mente da feiticeira que Itadori seria a pessoa que agora carregava esse fardo.

— Alguém pode me explicar o que está acontecendo e por que do nada uma boca ficou aparecendo pelo corpo do Itadori?! — Nobara perguntou e Gojo suspirou sabendo que teria que explicar as coisas mais cedo do que estava imaginando.

— Vou explicar quando chegarmos na escola. Tem certas coisas que não podem ser explicadas aqui.

Nobara encarou o professor com as sobrancelhas franzidas, mas não disse nada por causa do tom de seriedade que o de cabelos brancos usou e por também perceber que a situação era muito maior do que Itadori ter comido um artefato amaldiçoado.

Amaya encarava o garoto com um olhar indecifrável, mas de certa forma transmitia uma espécie de conforto, como se ela entendesse a situação de Yuji. Naquele momento, depois de ter o conhecido, a feiticeira tinha compreendido a intenção do seu antigo professor de a chamar de volta para o Japão.

— Merda.


(...)


Amaya encarava a lua sentada na escadaria de pedra da entrada da escola sentindo a brisa fresca da noite bater contra o seu rosto e causar um arrepio pelo corpo dela. A mulher soltou a fumaça do cigarro e suspirou frustrada sabendo que a situação era mais complexa do que ela poderia sequer imaginar.

Ela ainda teria a reunião com o seu antigo professor no dia seguinte, mas fez questão de escutar a explicação simples que Satoru tinha dado para Nobara e, mesmo que o de cabelos brancos não tivesse falado, Amaya tinha entendido o problema praticamente na hora. O fato de que agora os dedos começariam a ressonar e mais maldições iriam começar a aparecer a preocupava até o fundo da alma, já que ela bem sabia como maldições poderiam ser imprevisíveis e perigosas.

— Nunca pensei que logo você começaria a fumar.

A feiticeira escutou a voz que ela reconheceria a quilômetros de distância bem atrás de si e revirou os olhos antes de tragar mais uma vez o cigarro para alguns segundos depois soltar a fumaça pela boca.

— Pessoas mudam depois de certos eventos, Gojo — ela disse sem se virar para trás — Não aja como se você não tivesse mudado também.

O feiticeiro sentiu o seu corpo tensionar sabendo muito bem de qual assunto ela estava falando, sobre o que aconteceu quando os dois ainda estavam no ensino médio. Depois de todo aquele caos, foi como se um furacão tivesse atingido a vida dele, arrancando tudo com que ele se importava, o seu melhor amigo e, logo em seguida, a sua "namorada".

Ela foi embora mais especificamente na noite do dia em que ambos tinham ido atrás de Megumi e de sua irmã. Ele ainda tinha a cena gravada na mente, a eterna lembrança de a ver descendo essa mesma escadaria de pedra correndo e entrando em um carro todo preto, sumindo da vida dele por dez longos anos.

Satoru ainda se lembrava da sensação do mais puro vazio.

O olhar do feiticeiro então se cravou nas costas da feiticeira, em um pequeno detalhe que ele percebeu quando saíram do restaurante por causa do cabelo dela estar preso em um coque no alto da cabeça.

Uma tatuagem, mais especificamente, uma onda do mar com uma data embaixo, o dia em que Amanai tinha morrido.

Ele sabia o tanto que Amaya tinha sido afetada por tudo que tinha acontecido, não foram poucas as vezes que ela tinha o procurado com os olhos marejados questionando tudo, inclusive se não deveria ter morrido naquele dia também. Agora, vendo a mulher terminar mais um cigarro e se levantar para jogar o resto da bituca em uma lixeira próxima era como ver a Amaya daquela época, só que pior.

Os olhos dela continuavam tão incandescentes quanto antes, mas não era como se eles demonstrassem muita coisa, como se estivessem vazios, de forma que não parecesse que era Amaya ali. A feiticeira finalmente tinha se virado para ele e viu que agora que o mais velho já estava com outra roupa, o cabelo um pouco úmido como se tivesse acabado de sair do banho e usava um par de óculos muito específico.

"Ele os guardou" foi o que Amaya pensou ao ver os óculos que ela tinha dado para ele pouco tempo antes de sair do país. Os dois se olhavam e era quase cômico como não conseguiam simplesmente iniciar uma conversa, algo que eles faziam com tanta facilidade no passado que até mesmo chegava a atrapalhar as missões que iam juntos.

Amaya suspirou antes de se virar e começar a andar de volta para os prédios da escola até que foi interrompida por uma pergunta que ela sabia que iria ser feita em algum momento.

— Por que Sukuna sabia da existência dos Olhos do Diabo? — Satoru perguntou e ele viu os ombros dela tensionando.

Ela tinha certeza de que ele iria perguntar isso, ele sempre quis saber mais sobre os olhos dela e, agora, com o rei das maldições os reconhecendo era a oportunidade perfeita para Satoru tentar descobrir alguma coisa.

— Você continuou curioso — Amaya disse voltando a se virar para ele.

— E parece que você vai continuar não me contando as coisas — o feiticeiro disse e a mulher percebeu o leve o tom de irritação que começava a aparecer na voz dele.

— Só não complique mais as coisas, Gojo — ela suspirou — Já temos problemas demais para lidar.

— Saber sobre os seus poderes atrapalharia em que?

"Tudo", foi o que ela queria ter respondido, mas preferiu escolher mais uma vez o silêncio.

— Você não vai me falar nada?

— Boa noite, Gojo.

A feiticeira começou a se sentir nervosa com tudo aquilo, com nada saindo como ela esperava, do jeito que tinha planejado por horas. O hospedeiro era um garoto incrível do primeiro ano, as memórias de tudo que tinha passado naquela merda de país voltando a praticamente todos os instantes e ainda tinha Satoru Gojo a fazendo querer pegar o primeiro avião que pudesse para qualquer lugar do mundo.

Ele estava certo, sempre esteve.

Ela tinha continuado medrosa.

Ela era uma grande covarde e Amaya sabia que Amanai tinha morrido por causa disso, pela falta de coragem dela.

A vida de outras pessoas eram afetadas todos os dias porque ela tinha medo dela mesma, do que ela poderia se tornar ao clamar por todo o seu poder.

Ela sentiu uma mão se fechar ao redor do seu braço e ao virar o rosto se deparou com os olhos de Satoru a olhando como o céu mais perfeito. Foi o mais próximo que ela tinha chegado dele em anos e ela sentia o coração querer sair pela boca.

— Não vire as costas pra mim — ele disse com a voz baixa — Não aqui.

Amaya desviou o olhar e encarou o chão, mordendo o lábio inferior tentando controlar o caos que estava sentindo dentro de si.

— Por que? — ele finalmente perguntou, depois de anos — Só me explica.

— Me solta.

— Amaya.

— Me solta, Gojo — ela levantou o olhar e encarou aqueles olhos infinitos, sentindo cada erro que cometeu apertar o seu coração — Eu não lhe devo satisfações do que eu faço ou deixo de fazer.

— Vai ser desse jeito? Você volta e não vai explicar nada?

— Não aja como se eu tivesse voltado para ficar.

A frase entrou na mente incansável de Satoru como uma pedra sendo lançada em uma janela e a expressão séria que estampava o rosto da mulher que um dia ele pensou que passaria anos ao lado foi como uma sentença dizendo que ele tinha sonhado demais com a volta dela, fantasiado com as possibilidades de a ter de volta.

Porém, como ele a teria de volta se a Amaya que ele via na sua frente não era aquela que ele um dia tinha sido apaixonado?

— Eu não reconheço você — ele disse com um óbvio tom de decepção na voz, carregado do mais puro amargor — Não é você que eu queria ver depois de tanto tempo.

O de cabelos brancos soltou o braço de Amaya e deu uma última olhada naquele par de olhos incandescentes que um dia o fizeram sentir tantas coisas e que agora só o transmitiam o mais puro vazio, a completa sensação de nada, como se o infinito tivesse desaparecido.

Satoru assumiu para si naquele momento que "eles" realmente tinham significado nada para a mulher dos cabelos da cor das profundezas do oceano.

Ela agora era uma mera estranha que, ironicamente, já tinha sido a pessoa mais importante do mundo para ele.

Satoru se virou e voltou a andar em direção aos prédios do colégio, deixando a feiticeira para trás o olhando, sentindo a primeira lágrima cair pela sua bochecha.



Oi gente! Como vocês estão?

Primeiramente, quero pedir desculpas pela demora nas atualizações porque a facul tá realmente tomando meu tempo, mas vou tentar sempre ficar trazendo alguma coisa para vocês!

Agora, eu tenho que agradecer pelos 3k de leituras na fic! Vocês querem me matar do coração só pode kkkkk

Além disso, tivemos muitas emoções nesse capítulo, né? O que acharam kkkk (risada nervosa)

Espero que tenham gostado! Não se esqueçam de comentar o que acharam (amo o feedback de vocês) e de votarem no capítulo!

Até a próxima! ❤︎

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