𝐟𝐢𝐟𝐭𝐞𝐞𝐧, fear





⚠️ TW: MENÇÃO A TENTATIVA DE SUICÍDIO E AUTOMUTILAÇÃO ⚠️



I kissed the scars on her skin
I still thin you're beautiful











Nenhum dos dois soube realmente quanto tempo passaram ali, simplesmente abraçados na cobertura daquele prédio. Conseguiam distinguir que foram, pelo menos, umas duas horas, já que agora o sol já começava a se pôr.

Não tiveram coragem para dizer nada, Satoru ainda tinha as mãos tremendo de leve, enquanto mantinha um abraço apertado ao redor do corpo de Amaya que, depois desse tempo, já tinha parado de soluçar e somente algumas poucas lágrimas escorriam pelas suas bochechas. Ela ainda estava com o rosto virado pro peito dele e não sabia dizer se teria coragem para o tirar de lá, nunca tinha chorado tanto na frente de alguém.

Tudo estava um caos na mente dela, quase em um looping cansativo, que a fazia se lembrar de cada uma das decisões que teve na vida, principalmente ao ter que fazer ele a ver dessa maneira. Ela não queria que toda a confusão que cerca a sua vida o envolvesse de alguma maneira, ter ele no meio dos problemas causados pela sua própria família.

Porém, não é como se Satoru fosse se importar com isso.

Amaya suspirou mais uma vez e começou a se afastar um pouco dele, de forma que ficasse sentada no chão entre as pernas dele e que pudesse o olhar no rosto. Encarar aqueles olhos azuis tão intensos, aquele infinito oceano, algo que fez com que o seu coração estremecesse, porque era uma das primeiras vezes que tinha visto o olhar dele transmitir medo.

Nunca tinha passado na cabeça dele, até a conversa que tiveram alguns dias atrás, que poderia a perder de maneira definitiva, que a morte também se aplicava a ela. Claro que isso chega a ser um pouco contraditório, já que é um destino natural para algo finito como um ser humano, mas aquele velho pensamento de que eles são os mais fortes o perseguia, de forma de algo básico como a morte passasse despercebida.

Ela também sempre esteve do lado dele.

Satoru ainda se lembrava muito bem do dia que o clã Okumura fez uma visita ao clã Gojo, com a pretensão de ver o herdeiro que possui os Seis Olhos, e conheceu a herdeira do outro clã na época. Mal sabia que quase dez anos depois ela se tornaria a sua primeira namorada e que seria a única pessoa que ele poderia dizer com todas as letras que ama.

Naquela época, nada era muito difícil, eles ainda eram crianças, mas hoje, mais de vinte anos depois, as coisas não são mais as mesmas e isso machuca. Saber que já houve um tempo em que os dois foram plenamente inocentes, chega até ser um pouco mórbido, e ainda tem a própria questão de que a vida dos dois mudou por influência de pessoas gananciosas, que sempre os viram como somente uma forma de controlar o mundo jujutsu.

Decidir o destino de duas crianças deveria ser considerado um crime.

Com agora Amaya o olhando, Satoru se inclinou, fazendo com que as testas dos dois se encontrassem, e suspirou trêmulo, sentindo um pouco de alívio, mesmo que o seu corpo ainda se encontrasse completamente tenso, ainda a rodeando com os braços, em uma espécie de abraço necessitado. Ele também tinha um conflito interno, não sabendo se realmente era egoísta de se sentir feliz com o fato de que tinha a salvado a tempo, ele não sabia os verdadeiros motivos dela.

— Alguns dias atrás, eu disse pra você que não precisava me dizer nada — Satoru desencostou as testas devagar — Mas, agora, eu preciso saber o que está acontecendo.

Amaya engoliu em seco, desviando o olhar para as suas mãos, que brincavam com a barra da blusa dele. Ela se perguntava em como explicar, tirar de dentro de si todos esses anos de completo silêncio, já que nunca contou para ninguém o que acontecia naquele clã e sobre todos os sacrifícios que fez pelas pessoas que ama.

— Desde o início — ela disse, ainda não conseguindo mais o encarar — Sempre quis proteger todo mundo, principalmente de mim e do que eu sou. Sei que isso, no momento, pode estar parecendo uma coisa absurda de se ouvir, mas foi isso que motivou praticamente tudo o que aconteceu nesses dez anos. Eu... — suspirou, cansada — Quero te contar as coisas, só é um pouco difícil.

— E não tem problema — logo disparou e ergueu o rosto de Amaya delicadamente com uma das mãos — Eu só quero te entender, é a única coisa que quero.

Ela assentiu e subiu as mãos trêmulas até o rosto dele, passando as unhas delicadamente pelas bochechas. Agora, com o pôr do sol já praticamente acabando e com as estrelas decorando o céu, não tinha o que ser dito. Na cabeça de Amaya ainda tem uma grande confusão, uma junção de cenas soltas e complexas da sua vida e que, agora, ela teria que explicar pra Satoru da forma certa, mesmo não tendo ideia de como fazer.

Mesmo que a assustasse, verbalizar todo o seu passado, ela tentaria, já que de todas as pessoas do mundo, Satoru é a que mais merece saber a verdade.



(...)



Ao desligar o chuveiro e deixar que as gotículas de água caírem pelo seu corpo, rodeando cada parte de si, Amaya encarava em silêncio o chão do box. Eles tinham voltado para a escola jujutsu e agora se encontravam no quarto dela, onde tudo praticamente tinha acontecido nos últimos dias.

A feiticeira se via em um estado de quase torpor em relação a tudo, talvez um modo automático, nem ela sabia o que dizer, principalmente com uma voz incessante dentro da própria cabeça.

Acha que ele vai continuar com você depois de descobrir que estou selada no seu corpo? Que patético, criança.

Você não sabe de nada — ousou respondeu, sussurrando.

Está querendo comparar a mente de uma maldição de mais de mil anos com a de uma mulher de 27? Vamos lá, Amaya, pensei que já tinha entendido como as coisas funcionam.

— Você não o conhece.

Eu já estava dentro de você quando começaram a se aproximar, assisti o seu estúpido relacionamento com ele ser construído e o vi se tornar o feiticeiro mais forte do mundo. Então, posso sim pensar que uma pessoa como ele, tão importante, não vá ficar com alguém que é o meu receptáculo. Vamos lá, só ligar os pontos.

Amaya segurava a toalha que enrolava o seu corpo com tanta força que, talvez, se puxasse um pouco mais, poderia rasgar o tecido. Como doía ouvir as opiniões que ela mesma tinha em relação a tudo, serem verbalizadas dessa maneira, quase como se realmente fossem verdade e de uma maneira tão perfurante.

Ela respirou fundo, começando a se enxugar, sentindo as mãos tremendo durante praticamente todo o processo. É difícil passar as mãos por um corpo que ela mesma odeia, por significar tantas coisas que ela sentia nojo.

Um receptáculo imperfeito, cicatrizes de lutas que ela nunca quis participar e outras que ela mesma causou, olheiras de uma insônia incessante e ainda os traços que mostravam de longe que ela é uma Okumura, tem vários momentos que ela odiava até o azul dos olhos.

Se deuses ou qualquer entidade maior existissem, Amaya tinha a certeza de que a odiavam, da mesma maneira que ela odeia a si mesma.

Não podia ser possível a deixarem em um corpo como aquele.

Ela se virou de costas para o espelho, não conseguia realmente se olhar agora, não conseguia distinguir se tinha sido bom, ou não, Satoru ter aparecido naquele momento, Amaya sempre achou que a morte seria a única libertação para a sua alma.

Satoru ajeitou a postura quando a viu saindo do banheiro e o seu coração apertou dentro do peito.

Ele sentia dor ao a ver assim, tão destruída.

Além disso, é a primeira vez que ele a vê com uma camiseta de manga curta, batendo na metade das coxas, e foi quase impossível controlar o olhar e não ver o que, dessa vez, ela não escondia.

Amaya andou devagar até o platinado, que estava sentado na ponta da cama, não usando a venda, sentindo aqueles olhos acompanhando cada passo e, ao parar na frente dele, soltou o ar que mal percebeu que estava segurando.

Conseguia sentir as batidas do seu coração retumbarem nos ouvidos.

May... — a voz de Satoru saiu baixa, dolorida, quando ele pegou as mãos dela, girando para que pudesse ver as cicatrizes que ele fazia, até esse momento, a mínima ideia que existiam.

Irregulares, algumas mais finas e outras mais grossas, como se tivessem sido feitas com uma força desmedida. Elas subiam da ponta dos pulsos até o fim do antebraço, ele tentou contar, mas não conseguiu, não com a mente tão cheia assim.

Ela puxou as mãos do toque dele e imediatamente ele pensou que tinha feito alguma coisa errada, mas não, foi somente para que pudesse mostrar as outras. Puxou o tecido para cima, revelando as coxas que, no interior, tinham as mesmas cicatrizes dos braços, só que em uma quantidade bem menor.

Amaya não conseguiu mostrar por muito tempo, logo soltou a camiseta e ameaçou cruzar os braços, mas Satoru a impediu e o olhar dele dizia: "posso?".

Ela assentiu com a cabeça e ele suspirou, pegando as mãos dela de volta.

Ele a olhou de novo, perguntando mais uma vez se "podia" e ela assentiu mais uma vez, mesmo que não entendesse o que ele queria fazer.

Os dedos dele passaram devagar sobre cada uma das cicatrizes, percebendo que algumas pareciam ser mais recentes do que gostaria de imaginar. Enquanto isso, ela lutava pelo instinto de puxar os braços mais uma vez e o expulsar do quarto ou até mesmo da vida dela, é tão complicado se mostrar assim, expor um lado da vida dela que estava guardado a sete chaves.

Expor o fato de que tinha se destruído ao longo do tempo, principalmente para alguém que é o sinônimo de perfeição, o mais forte.

Amaya tinha sido criada para, no mínimo, se igualar a Satoru, mas não foi isso o que aconteceu e as frustrações da sua própria família aumentavam cada vez mais com o passar do tempo, se misturando com os próprios sentimentos que a feiticeira tinha em relação a si mesma.

Os olhos dela se arregalaram e não demorou para que um soluço fosse segurado, quando mordeu o lábio inferior com uma certa quantidade de força.

Ele tinha beijado cada um dos pulsos dela.

Beijado as cicatrizes que marcavam a pele dela com a eterna lembrança do ódio que existia nela sobre si mesma, além do fato de que ela se lembra de cada momento em que as fez, quase como um peso fantasmagórico dos seus momentos mais difíceis.

Beijado o corpo que ela odeia.

Beijado o que ela considerava nojento.

Como que logo ela poderia merecer uma coisa dessa? Um sentimento tão puro e sincero?

Porém, o que ela não sabia era que ele, Satoru Gojo, também se perguntava isso.

Como ela poderia ainda o amar? Mesmo sendo tão incrível e ter viajado por tantos países, conhecendo tantas outras pessoas?

— Eu te amo — ele sussurrou e foi ali que as lágrimas dela voltaram a cair.

— E eu não mereço você.

Ele deixou uma risada leve sair pelos lábios, deveria ele ser quem falava isso.

Como uma pessoa tão forte como ela poderia o escolher e ainda dizer que não o merecia?

Satoru puxou as mãos de Amaya e ela se sentou no colo dele, colocando uma perna de cada lado do corpo dele, e encostou a testa no ombro do mais alto, sabendo que ele tinha a colocado dentro da própria barreira de infinito. Uma tentativa totalmente involuntária e automática de a proteger do que estivesse fora do alcance dele.

— Sinto muito, por tudo o que você passou.

— Não sinta — ela respondeu, com a voz fraca — Tudo o que aconteceu é resultado das minhas escolhas.

— Mas se eu tivesse insistido mais para que você tivesse ficado...

— Não teria mudado nada, Satoru — suspirou — Na verdade, teria me dado ainda mais motivos para ir embora e proteger você.

Os olhos dele se arregalaram e ele puxou rapidamente o rosto dela, a olhando com os olhos tão confusos que chegava a doer nela o ver assim.

— Você foi embora por mim?! — ele quase gritou, não entendendo como isso poderia ser verdade.

— Se lembra das nossas aulas sobre a era de ouro do jujutsu?

— Amaya, o que isso tem a ver?

— Sukuna não foi a única maldição especial que dava problema naquela época e muitos esquecem que ele tinha uma amante, uma humana que foi amaldiçoada por ele próprio.

— Eu lembro disso, ela foi derrotada antes da alma de Sukuna ser separada.

— Sim, ela foi derrotada pelos meus antepassados.

— E? Eu sei disso, esse foi o motivo que fez o diretor ir atrás de você.

— Não foi esse motivo.

— Então qual foi? — Amaya suspirou antes de responder, tentando colocar pra fora o que a atormenta desde os seis anos de idade.

— Porque eu sou igual ao Itadori.

— O que?

A expressão de Satoru foi mudando aos poucos, junto com a ligação dos pontos de todas as informações que finalmente recebeu e, a cada segundo que passava, Amaya sentia vontade de vomitar, colocar pra fora qualquer coisa que tinha dentro dela. Parecia que o chão não existia mais e o nervosismo a tomava de uma forma absurda, porque ela não conseguiria imaginar o que ele acharia disso.

— May...

— Eu nunca consegui lidar com o poder dela e, na época que eu fui embora, foi o auge disso, não conseguir controlar tudo. Cheguei a matar pessoas por causa disso, Satoru. Então, os superiores vieram atrás de mim.

— Os contratos...

— Exato — ela suspirou, passando as mãos pelo cabelo — Tem muito mais coisa e problema envolvendo tudo, vamos dizer que não sou o orgulho da família. E, como isso é algo que me envolve diretamente e tudo foi causado por mim, quem que tem que resolver sou eu. Acabei aceitando as condições deles e saí do país, tentando proteger você e meus irmãos mais do que qualquer coisa.

— Você e a sua mania de achar que pode salvar todo mundo sozinha — resmungou, levemente irritado.

—  Satoru...

— Eu... Ainda estou entendendo o que você me disse e processando a ideia de que você também é um receptáculo de uma maldição milenar, mas ainda quero saber por que você não me contou. Porra, eu teria te ajudado, feito qualquer coisa. Você sabe disso melhor do que ninguém.

Amaya entendia a frustração que Satoru expressava, o tom de voz de pura confusão e raiva transmitia isso, mas também tem a importante questão de que ela só tinha 18 anos quando foi embora, não tinha a mentalidade de hoje e muito menos esperava as consequências que essa decisão poderia trazer.

O mundo jujutsu nunca foi fácil de se lidar, tinha inúmeras questões por trás de cada mínima regra e Amaya achava que conseguiria lidar com isso, proteger todos do poder colocado dentro de si, sempre foi a mulher mais forte no final das contas. Porém, essa força não tinha sido suficiente.

— Eu não podia falar sobre isso na época, na verdade, não era nem pra estar te contando também.

— Por que?

— Vamos dizer que o meu clã estava proibido de mexer com a alma da maldição que está em mim.

— Mas então como que você... Foi tudo segredo até a morte da Amanai.

Satoru tinha começado a entender como tudo é complicado quando envolve os Okumura.

Mesmo tendo derrotado a maldição a mais de mil anos atrás, eles não poderiam mexer com a alma dela, que estava antes selada em um colar amaldiçoado. Porém, na busca incessante por poder e prestígio, ignoraram essa regra para transformar Amaya na arma perfeita, mas nada foi como planejado.

No dia em que Amanai morreu, pelas mãos de Toji Fushiguro, Amaya tinha se descontrolado pela primeira vez estando em uma missão, ou seja, de uma maneira pública. Foi aí que o maior segredo dos Okumura foi revelado para o alto escalão, marcando o início de mais problemas para a herdeira do clã das Chamas Infernais.

— Exato, tudo começou a dar errado ali e não só pra mim — ela sorriu fraco, sabendo muito bem que Satoru tinha entendido de quem ela estava falando.

— Você também tem vontade de voltar para aquela época? — perguntou, em um tom de voz mais baixo — Antes de tudo acontecer?

— Todos os dias da minha vida. Se pudesse, teria feito tudo de uma maneira diferente, sei lá, ter pensando mais ou até mesmo ter tido menos medo da minha família.

— Mas o passado é o passado.

— E temos que viver com ele de alguma maneira.

Amaya sabia disso, tinha total noção de que, mesmo que nunca esquecemos do passado e dos problemas que residem nele, temos que, de alguma maneira, lidar com isso e continuar "vivendo". A ideia é boa, chega até ser um pouco motivadora, mas não é como se fosse fácil colocar na prática.

Ela tem marcas disso na pele.

— Me desculpa por tudo — suspirou, colocando as mãos ao redor do rosto dele — Por não ter contado, ter ido embora, te deixar sozinho lidando com tudo e ainda por te envolver nisso, nos problemas que deveria conseguir resolver.

— Por favor, não me peça desculpas. Isso é a única coisa que vou te pedir.

Ela assentiu com a cabeça e sentiu, mais uma vez, os braços dele a envolverem, para um abraço que ela não sabia, até recebê-lo, que precisava tanto.

O fato de que, mesmo que a maldição dentro dela falasse ao contrário, Satoru ficaria ao lado de Amaya independente de qualquer coisa. Isso a acalmava de uma maneira que nunca tinha sentido nos últimos anos, talvez uma mínima sensação de paz.

Agora, nada os separaria novamente.

— Eu te amo, Satoru.

— Eu também te amo, Amaya — ele passava as mãos no cabelo dela, quase como se o penteasse com os dedos — E eu não vou deixar você lidar com isso sozinha, vou te salvar.

Essa poderia ser uma frase que poderia trazer conforto pra qualquer pessoa, o feiticeiro mais forte dizendo que te salvaria, mas, para Amaya, foi quase como se estivessem partindo o coração dela.

Ela não sabia se queria ser salva e também não tinha consciência de como isso acabaria machucando Satoru.

Afinal, ele já tinha falhado em salvar uma outra pessoa.





Oi gente! Tudo bem com vocês?

TAVA COM MUITAS SDDS DE ATUALIZAR AQUI

Esse capítulo é quase como um divisor de águas na história, principalmente na questão do relacionamento da Amaya e do Gojo. Além disso,
eu acho que daqui mais uns 5/7 capítulos já vamos estar finalizando a primeira parte da fic, que vai se encerrar mais ou menos onde o próprio anime parou!

Bem, espero que tenham gostado! Não se esqueçam de votar e de comentarem (AMO ler o feedback de vocês)!

Até a próxima! ♥︎

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