𝐬𝐢𝐱𝐭𝐞𝐞𝐧, blind
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Mahina tinha praticamente a total certeza de que, provavelmente, deveria estar tão vermelha quanto o próprio cabelo ou da cor da flor que decorava o seu antebraço esquerdo. Ela nunca tinha beijado ninguém ou até mesmo se sentindo à vontade para realizar tal ato, mas também não é como se Draken se encontrasse em uma situação muito diferente da dela.
Ele também estava nervoso com isso, admitir coisas que nunca imaginou que admitiria, e ainda existia a questão de que eles não tinham conversado propriamente dito sobre tudo o que aconteceu três anos atrás. Porém, depois desse primeiro beijo e o fato do sentimento ser correspondido de verdade, Draken começou a ter mais certeza ainda de que eles não precisam dessa conversa.
Talvez a ideia de deixar as coisas no passado e seguir em frente só pensando no presente e no futuro, uma linha de raciocínio que pode acabar se tornando extremamente perigosa para se ter, principalmente quando se é amigo de um viajante no tempo.
Porém, Draken e Mahina ainda não sabiam desse pequeno, mas crucial, detalhe.
— Eu quero te mostrar uma coisa — a ruiva disse, tentando quebrar o clima recheado de nervosismo que se instalou depois do beijo.
— O que é?
— Se lembra do desenho da sala do trono que eu tava fazendo?
— Sim, você terminou?
Ela assentiu com a cabeça, com um sorriso animado no rosto, e se levantou da cama rapidamente. Foi até a sua mochila, pegando de lá o caderno de desenhos, com quase todas as folhas já completas e voltou a se sentar na cama, cruzando as pernas. Folheou até achar o desenho, mostrando para Draken, sentindo uma leve quantidade de expectativa dentro de si.
Além de Hajime, o loiro é o único que tinha, até o presente momento, realmente se interessado pelo hobbie artístico de Mahina.
— Isso aqui tá simplesmente incrível — disse, completamente chocado.
Mesmo que o desenho não tivesse cor, feito somente com lápis e um jogo de luz e sombra considerado "simples", estava perfeito. O rei sentado sozinho no trono, localizado na sala decorada até os mínimos detalhes, com a coroa colocada no chão a metros dele, no meio de uma poça que parecia ser sangue.
Mostrava como o rei tinha praticamente perdido tudo, incluindo o seu símbolo de maior poder.
— Demorou uns bons dias pra terminar, mas até que gostei.
— Não vem com esse "até que gostei", tá perfeito — o mais alto argumentou, a fazendo rir.
— Enfim, você pareceu gostar tanto dele lá na loja, então quis te mostrar completo.
— Muito obrigado por ter me mostrado, realmente tá incrível. Tem algum outro que você começou depois daquele dia?
— Tem, mas não sei se vou continuar. Estou na metade e pra mim tá uma bosta — ela folheou o caderno até chegar na última folha — É uma releitura daquela pintura "Fallen Angel" do Alexandre Cabanel, só que sendo uma garota.
— Cara, se você falar mais uma vez que algum dos seus desenhos tá uma bosta, eu vou jogar esse caderno na tua cara.
— Ai nem vem — Mahina revirou os olhos — Tá parecendo o Hajime quando eu falo essas coisas.
—É porque o seu irmão também tem senso, bem diferente de você.
— Ei! — a garota reclamou, o que fez com que um sorriso leve aparecesse no rosto dele.
Com cuidado, Draken passou um dos braços pelos ombros de Mahina, que automaticamente se aconchegou contra o corpo dele, encarando o desenho no caderno.
— Você realmente acha que não tá ruim?
— É óbvio que não tá. Só você e o Mitsuya para serem talentosos e cismarem que tem algum defeito em qualquer coisa que fazem.
— É que, sei lá, parece que toda vez que olho aparece algum defeito, tipo um contorno feito errado ou um traço torto.
— Isso já é você tendo alucinações.
Mahina riu e levantou a cabeça, que estava apoiada no ombro de Draken, para deixar um beijo na bochecha dele, mesmo que isso fizesse com que suas bochechas corassem de novo.
— Obrigada.
— Só estou dizendo o óbvio, não precisa me agradecer por isso.
— Bem, às vezes o óbvio também pode ser difícil de enxergar.
Não precisou de muitos segundos para Draken entender o que Mahina queria dizer, afinal, os dois tinham acabado de se declarar e, se parar para refletir todos os momentos que os dois tiveram ao longo desses anos, seria bem fácil perceber que eles já se gostavam. Porém, eles foram um exemplo óbvio de como as coisas podem não ser tão claras, principalmente quando nós mesmos estamos envolvidos nelas.
Ficamos cegos em relação a nossa própria vida.
Não muito longe dali, mais um menos alguns quilômetros, Eiji se encontrava praticamente tendo uma crise existencial, por finalmente ter parado de ser cego em relação à própria família.
Já era o terceiro cigarro que o moreno fumava e ele não reclamaria se Hajime o visse assim e o desse um soco, o discurso já estava decorado na cabeça do gêmeo mais novo: "Você é idiota por simplesmente pagar pra estragar os próprios pulmões. Sabe quanto custa o tratamento de um câncer no pulmão?!". Mesmo que a questão financeira nunca fosse ser um problema para qualquer um dos gêmeos, Eiji entendia o argumento do irmão, mas tinha certas situações em que sentia a necessidade de ter a leve queimação no peito a cada trago.
Principalmente agora, com tudo que tinha sido revelado.
Algumas cenas começaram a aparecer na mente dele nos últimos dias, as maneiras como Mahina agia, a forma como Hajime começou a o tratar ao longo do tempo e como o favoritismo de Makoto tinha se acentuado. Muita coisa começava a fazer sentido e a cabeça do moreno chegava a latejar pelo tanto que estava se remoendo por cada atitude errada e a ausência que teve na vida da irmã caçula.
No início, quando eram somente crianças, realmente a tratava mal por uma implicância infantil, um ciúme irracional em relação a coisas que Mahina nunca teria, atenção parental. Hoje, sendo um adulto, não conseguia entender o que o motivava na época, tiveram tantas cenas ridículas, que ficam ainda piores ao se lembrar de que a ruiva é uma vítima de violência doméstica.
Violência doméstica.
Essas duas palavras ecoavam na cabeça de Eiji de uma forma absurda, quase como se o assombrassem, trazendo uma sensação fantasmagórica de como existe a possibilidade de que a vida de Mahina poderia ter sido melhor, se ele não tivesse sido tão cego. Uma ânsia também aparecia em seu estômago e ele não sabia o que fazer para, no mínimo, consertar.
Ele nem sabia se tinha algo a ser consertado, já que ele e Mahina nunca tiveram alguma mínima relação, além do sangue que os unia.
— Se fosse em outro momento, provavelmente zoaria da sua cara, mas, ao mesmo tempo, é estranho te ver sentado dessa maneira em um parque.
Eiji quase deu um pulo no banco de madeira pelo susto e, ao virar o seu rosto para a direita, encontrou Kotaro, tomando o que parecia ser um frappuccino.
Na última vez que os dois tinham se visto, o mais velho estava com o cabelo pintado de um vermelho intenso, mas, agora, um rosa pastel tingia os fios, que são originalmente loiros. Além disso, notou como algumas tatuagens nos dedos eram novas e Eiji se perguntava se essas tinham algum significado ou eram as que faziam parte do processo de "transformar o meu corpo em uma galeria de arte".
O Yoshida tinha suas opiniões sobre o mecânico, principalmente pelo fato das incertezas que ele trazia na própria vida. Esse não poderia ser um momento pior para Kotaro aparecer, talvez fosse uma pegadinha muito sem graça do universo.
— O que quer? — perguntou, grosso, se levantando e andando até a lixeira próxima do banco, onde tinha um cinzeiro.
O moreno apagou o resto do cigarro, o descartando em seguida, e ameaçou pegar outro do maço, mas uma mão o segurou pelo antebraço.
— Para com essa merda, Eiji — Kotaro suspirou e deu o último gole na sua bebida e a jogou no lixo — O que tá rolando?
— Não é da sua conta.
— Você tá com uma cara de cu, pior do que a normal, e quer que não seja da minha conta?
— Isso é sério?
— Você sempre tá emburrado, agora tá quase parecendo um cão chupando manga.
Eiji olhava o mais alto com descrença, não demorando também a revirar os olhos.
Tudo, praticamente tudo, em Kotaro o intrigava, desde a forma como ele lidava com a vida e até mesmo a aparência, as inúmeras tatuagens e o piercing que tinha na sobrancelha direita. Porém, o que o mais irritava era a forma como ele parecia se importar com ele, além do fato de que o próprio Eiji gostava de quando isso acontecia, o fazendo duvidar de muitas coisas.
Inclusive a própria sexualidade, um assunto que sempre voou pela sua mente ao longo dos anos, principalmente na adolescência. Nessa época, ele tinha tanto medo de perder o "orgulho", que Makoto sentia em relação a ele, que descartou, como lixo, muitos dos seus verdadeiros interesses.
— Posso te perguntar uma coisa? — Eiji quebrou o silêncio e o tom de voz sério que usou fez com que Kotaro franzisse as sobrancelhas.
— Pode.
— O que você sabe da relação da Mahina com o nosso pai?
— Em que sentido?
— O que ela te falava sobre ele? Na verdade, o que ela te falou da nossa família?
— Eu não sei de muita coisa — Kotaro suspirou — Só que ela odiava ficar em casa e eu só ajudava nisso. Por que a pergunta?
— Quero entender umas coisas.
O mais alto o olhou com preocupação, nunca tinha o visto se importando com a irmã caçula e isso o assustava de certa maneira, já que não era normal.
— A Mahina está bem?
A pergunta de Kotaro foi quase como uma flecha no coração de Eiji, que desviou o olhar, se perdendo no verde das folhas das árvores que preenchiam o parque. Ele nunca saberia a resposta para essa pergunta de forma exata, o que o entristecia de certa maneira, principalmente para a forma como as coisas realmente aconteceram nos últimos anos.
Além disso, ele não conseguia imaginar que a resposta poderia ser "sim".
— Eu não sou a pessoa adequada pra responder essa pergunta.
— Mas por alguma razão, que eu não sei, você está falando sobre ela e ainda com uma preocupação que eu nunca vi você direcionando a alguém. O que aconteceu?
Eiji voltou a o encarar, tendo a atenção presa nos olhos cor de mel de Kotaro, que o transmitiam uma dúvida que ele sabia que tinha embasamento, afinal, a relação entre os dois irmãos nunca foi uma das melhores. Porém, agora, sabendo de tudo, doía ouvir esse tipo de coisa.
— Isso cabe a Mahina e não a mim — conseguiu encontrar as palavras dentro de si — Eu só... Queria saber se tinha mais alguma coisa.
— Você está me deixando preocupado falando desse jeito.
Eiji soltou uma risada fraca e balançou a cabeça em negação.
— Você é impossível, Kotaro.
— E você está estranho.
Kotaro gostaria de falar mais alguma coisa, tentar ser mais incisivo, talvez conseguir arrancar o que realmente estava acontecendo na família Yoshida, mas o celular de Eiji começou a vibrar, indicando que alguém o ligava.
— Já acabou o horário de visita? Quer que eu te busque então? — Eiji perguntou, depois de ouvir o que a pessoa falou do outro lado da linha — Tudo bem, me dá uns minutos então. Até daqui a pouco.
— Quem é? — Kotaro perguntou, depois que o moreno terminou a ligação.
— A Mahina.
— Como assim a Mahita tá te ligando?!
Eiji riu da cara de Kotaro e colocou as mãos no bolso de trás da calça, encarando o mais velho o olhar incrédulo, tendo a verdade sobre o seu comportamento antigo em relação a irmã praticamente sendo gritada.
Não deveria ser estranho um irmão se preocupar com o outro.
— É... Algumas coisas mudaram.
— Cara, você vai me explicar sim o que tá rolando, quero nem saber.
— Um dia eu vou te explicar, Kotaro.
— Eu vou cobrar, filhinho de papai.
— Você ainda vai me chamar assim? — reclamou, o que fez o outro sorrir.
— Óbvio. O apelido combina com você e ainda te irrita, praticamente o combo perfeito.
Eiji o empurrou pelo ombro, um pouco irritado, mas com um sorriso leve no rosto.
Mesmo que não gostasse de admitir, Kotaro realmente era uma pessoa legal e, em todos os momentos que passaram juntos, inclusive alguns em Oxford, quando ainda morava na Inglaterra. Todos tinham seu lugar especial nas suas memórias, mesmo que muitos deles fossem somente vários foras do moreno em relação às investidas do tatuado.
No meio de tantas mudanças, principalmente a relação com a própria irmã, algo que era considerado fora de cogitação de sequer existir, Eiji via uma possibilidade de também mudar por completo, incluindo em relação ao mecânico, que o acompanharia até o carro.
A visão que tinha em relação ao próprio pai estava rachada, quebrada em vários cacos.
Tudo parecia estar se encaminhando, talvez, para situações melhores, com as pessoas parando de ser cegas sobre as próprias vidas e sentimentos, mas não é como se o futuro fosse ser tão bom assim.
Quando Takemichi apertasse a mão de Naoto, em frente a porta do apartamento dos Tachibana, depois de dar para Hina o colar com o trevo de quatro folhas, seria revelado, no futuro, como as coisas não deram tão certo assim.
O Hanagaki não imaginava que Hina seria morta novamente e que a Toman ainda estaria envolvida nisso, principalmente com a questão que conseguiu salvar Draken, a gangue não deveria cair nas trevas se o vice-líder estivesse vivo. Porém, aos poucos, entenderia que tudo que envolve a Tokyo Manji é muito mais complicado do que parecia, já que muitos fariam de tudo para conseguir uma posição de prestígio no mundo do crime.
Oi gente! Tudo bem com vocês?
QUE SAUDADE DE ATUALIZAR AQUI
Esse capítulo é um de transição de arcos, ou seja, no próximo já vamos entrar em Valhalla! Estou muito animada para chegar finalmente nesse arco, que é um dos meus favoritos do mangá inclusive 👀
Tivemos hoje também mais cenas do Eiji e do Kotaro e eu juro que não consigo explicar o tanto que gosto desses dois, a dinâmica deles é tudinho pra mim
Bem, espero que tenham gostado! Não se esqueçam de votar e de comentar (AMO ler o feedback de vocês)!
Até a próxima! ♥︎
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