𝐟𝐨𝐮𝐫𝐭𝐞𝐞𝐧, truth






🥀




TW: crise de ansiedade e
violência doméstica





Baji soube, no momento em que viu Mahina parada, molhada pela chuva e no meio daqueles que havia derrotado, que tinha algo de errado com ela. A expressão completamente perdida e os olhos castanhos alaranjados apavorados, era só olhar para a garota que conseguiria sentir o mais puro desespero, quase como se emanasse dela.

Desde quando eles eram crianças, a ruiva sempre tinha sido mais apegada a Draken, por motivos que nenhum dos outros membros fundadores soube compreender. Claro que, com o passar do tempo, entenderam que era porque ambos se gostavam além da amizade, mas tinha ainda algo a mais quando o envolvia.

Eles não sabiam, mas Draken já tinha salvado Mahina da morte, mesmo que inconscientemente, e isso ficou marcado na vida dela de diversas maneiras, principalmente em seu coração.

Ao chegar no hospital com o resto da Toman, Baji não hesitou em estacionar a moto rapidamente e procurar por ela, sentia que nem tudo poderia estar bem, principalmente com a situação de uma forma geral. Afinal, Draken também é um dos melhores amigos dele, faz parte do seu tesouro mais precioso.

— Mahina! — a chamou quando a viu, sentada no chão do lado de fora do hospital.

Ela levantou o olhar e um sorriso completamente genuíno apareceu em seu rosto e não hesitou em se levantar, correr e retribuir o abraço apertado que o moreno a deu, passando os braços pelo pescoço dele, até mesmo sendo levantada um pouco do chão.

Não tinha nada a ser dito, aquele momento bastava para ambos.

Transmitia o fato de que ele sempre estaria ali por ela, independente do que acontecesse, e de como ela precisava do apoio dele.

— Você sabe de alguma coisa sobre o estado do Draken? — Baji ousou perguntar, após terminarem o abraço que durou longos minutos.

— Só que ele está em uma cirurgia — respondeu, cruzando os braços na altura do peito — Não aguentei ficar lá dentro.

— Entendi — assentiu e aproveitou para colocar uma mecha do cabelo de Mahina, que estava caindo pelo rosto, atrás da orelha dela — Quer ficar ali comigo e com o Chifuyu?

— Olha pro meu estado — ela riu fraco — Prefiro ficar aqui.

— Ainda tem esse lance de não gostar de te verem chorando? — perguntou e revirou de leve os olhos ao ver Mahina desviando o olhar.

— É complicado...

— Mas ninguém vai te julgar por isso, chorar não diz que você é fraca ou algo do tipo. Além disso, posso garantir que o pessoal percebeu como você é forte sim, independente de ser uma garota.

— Tudo bem — disse, derrotada, e se deixou ser guiada pelo moreno na direção da gangue que, realmente, começou a reconhecer o papel da ruiva na vida dos mais fortes deles.

Porém, diferente de Baji, que achava que Mahina não gostava de ser vista chorando por "ser" uma garota e isso contribuir com o estereótipo que quebrava todos os dias, o motivo verdadeiro era completamente diferente, mas ela não tem força suficiente para o contar. Afinal, não é fácil verbalizar o que acontecia de verdade por baixo da máscara da família Yoshida.



(...)



Depois que Mitsuya apareceu dando a notícia que a cirurgia foi um sucesso, quase de forma automática, os joelhos de Mahina falharam e ela agachou no chão, com as mãos tremendo e a mais pura sensação de alívio se apoderou do seu coração.

"Draken estava vivo".

    Essa frase repercutiu na mente dela de uma forma absurda, inundando o coração de uma paz passageira, quase como se fosse uma das mais bonitas ilusões.

Com essa confirmação, até mesmo uma risada leve saiu pelos lábios da garota, tinha dado tudo certo no final, ele não estava mais em perigo, isso era o que importava para ela. Depois que o "choque" inicial passou, se apoiou nos próprios joelhos, voltou a se levantar, e respirou aliviada vendo a comemoração da gangue, que estava em uma situação de mais pura felicidade.

No meio disso tudo, uma pessoa também respirava aliviada observando a ruiva agora ser abraçada com força por Mitsuya. Esse alguém era Takemichi, que acreditava que tinha arrumado o passado de vez e que no futuro tudo estaria bem, incluindo a garota, afinal, a morte de Draken tinha sido o gatilho para que ela se tornasse a "Rainha do Crime" e até mesmo ser assassinada a sangue frio.

Agora, tudo parecia certo e que nada poderia dar errado.

Bem, todos que acreditam nisso são inocentes e ingênuos.

Como Hanma disse, antes de sair do estacionamento em que aconteceu a luta, a Toman não teria mais paz e todos ali entenderiam isso e não seria de uma maneira muito fácil. Talvez a sequência de acontecimentos que os assombrariam quebrasse ainda mais algumas pessoas ao longo do tempo, o que com certeza ajudaria muito a tudo ficar cada vez pior.

Porém, no momento, nenhum deles sabia disso e também não imaginariam o que realmente poderia acontecer.

No meio daquela comemoração toda, Mahina procurava alguém com o olhar e, ao não o ver em nenhum lugar, saiu dali à procura dele. Não tinha visto Mikey desde o momento em que tinha saído do hospital e isso a preocupava levemente, sabia que aquela pose toda era completamente fachada, o conhecia melhor do que ninguém e, além disso, eram extremamente parecidos em alguns aspectos.

Indo em direção ao hospital, logo o achou, no mesmo lugar que ela estava antes de Baji chegar. Andou até o loiro, se agachou na frente dele e sorriu quando ele levantou a cabeça, a olhando nos olhos. Mahina sempre tinha achado incrível como os olhos escuros de Mikey transmitiam uma imensidão de emoções, quase como se fossem a porta da alma, conseguindo sentir na pele a confusão que se instalava dentro dele.

— Você também ficou com medo, não é? — a voz dela saiu suave, quase como se fosse um sussurro.

— Sim, ele realmente assustou a gente dessa vez — Mikey disse, um pouco cansado, e encostou a testa na dela.

É um gesto até que considerado simples, mas não necessariamente para essa dupla de melhores amigos. Desde o dia em que tinham realmente estabelecido a amizade, esse ato ganhou um outro significado, mostrava como eles estavam em sintonia e transmitindo o que sentiam um para o outro, esse era o nível do vínculo deles como amigos.

Mikey e Baji foram os primeiros amigos que Mahina teve e sempre seriam os melhores também, eram completamente únicos na vida dela.

Porém, mesmo sendo tão importantes, eles não sabiam de tudo o que acontecia com a ruiva, principalmente agora com ela voltando de três anos morando em Londres, disparadamente o pior período da vida dela. Ela gostaria muito de deixar esse passado para trás, esquecer o que passou naquele país, mas era impossível.

Tinha marcas pelo corpo e pela sua mente inteira e, além disso, não era como se o seu pai fosse mudar a forma como a tratava, ela sempre seria o desgosto da família e, ao sair dali do hospital e chegar em casa, ela teria isso sendo reafirmado mais uma vez.



(...)



Makoto não é e nunca será alguém burro, sempre foi extremamente inteligente e, ao se tornar pai de alguém como Mahina, começou a ficar cada vez mais esperto, já que ela testava todo e mínimo "autocontrole" que possuía.

Ele tinha percebido que ela tinha sumido da festa por causa da demora na cozinha e ao chegar lá, sabia que ela tinha fugido pelo fato de que ninguém soube dizer onde ela estava. Depois, conferiu na garagem e ao não ver a moto ali, sentiu a raiva começar a surgir dentro de si. Teria que mentir para os convidados, inventar que a filha tinha passado mal e que não desceria mais para a festa.

Na cabeça dele, ela tinha o envergonhado mais uma vez e Makoto odeia ser feito de chacota, principalmente por alguém como a sua filha.

Mahina sabia que estava, no mínimo, encrencada ao voltar pra casa e ver as luzes da sala ainda acesas, mesmo que os carros dos convidados não estivessem mais estacionados ao longo da rua. Sentiu cada milímetro da sua pele arrepiar ao guardar a moto na garagem, sem antes esquecer de achar algum lugar no meio daquele espaço para esconder o controle do portão e as chaves, não poderia simplesmente perder a sua única forma de liberdade.

Tirou os coturnos, deixando junto com outros sapatos, e entrou na sala, travando ao ver o pai já encarando a porta, esperando por ela.

Ele estava sentado em uma das inúmeras cadeiras ainda espalhadas pelo espaço e segurava um copo de Whiskey pela metade, com os olhos totalmente vidrados nela. Mahina já imaginava que ele estaria bêbado a essa hora da noite e ainda com o fato de que ele soube que ela fugiu de casa mais uma vez.

— Sabe, Mahina — a voz de Makoto saiu grave, depois de dar mais um gole no copo e se levantar da cadeira — Realmente esperava que você tivesse minimamente amadurecido com o tempo.

A cada palavra, a garota sentia o seu corpo estremecer.

Quando o viu começar a dobrar as mangas da blusa social, mordeu os lábios para segurar o soluço que ameaçou sair pelos seus lábios, já que Makoto odeia quando ela chora, não suportava o barulho, significava fraqueza.

Acompanhou com o medo no olhar cada mínima atitude do seu pai, esperando em uma espécie de tortura ele terminar de beber a bebida. Ela já conseguia sentir na pele o que aconteceria mais uma vez e isso a desgastava de uma forma absurda, principalmente mentalmente.

Cortes podem se cicatrizar, ossos podem ser consertados, hematomas podem desaparecer, mas traumas, danos mentais, são praticamente impossíveis de serem "ajeitados" completamente, principalmente quando não são valorizados, taxados como drama.

— Mas pelo visto — ele voltou a falar, a encarando nos olhos com o olhar ameaçador que ele conseguia dar — Parece que você ainda tenta me desafiar. Estava com aqueles delinquentes de novo, não é? Se metendo em brigas por motivos fúteis? Sujando o meu sobrenome?

Não conseguia falar, a sua garganta estava fechada e até mesmo respirar começava a ficar difícil.

Makoto é a única pessoa de quem ela tem medo.

Não, pavor.

Mahina sente pavor do próprio pai, mas principalmente nesses momentos de quando ele a olhava com superioridade, como se ela fosse um mero inseto, pronto para ser pisoteado.

As lágrimas já se acumulavam nos cantos dos olhos dela, enquanto mordia o lábio fortemente, ao mesmo tempo que queria conseguir segurar o choro e se distrair da dor. Não era como se já não estivesse acostumada com tal situação, tinha praticamente dez anos que isso acontecia, mas sempre doía muito.

Sentir o punho do seu pai contra o seu corpo.

Porém, não é só a dor física que sentiu ao ser jogada contra a parede mais uma vez, mas também a psicológica. No fundo, ela sabia que não merecia tudo isso, mesmo com todos os erros que já tinha cometido ao longo da vida, principalmente os que envolvia a Toman, mas não era fácil acabar não acreditando nas palavras que o seu pai agora gritava a plenos pulmões.

Ela era uma péssima filha.

Um peso, só mais um gasto.

Uma pessoa que não conseguia fazer nada direito, que não obedecia, que o desafiava.

Foram tantas e tantas vezes que escutou aquelas palavras que até sabia a ordem que o seu pai as falaria.

Agora, por exemplo, ele diria, enquanto segurava com força os curtos fios de cabelo da filha e erguia a cabeça para que ela o encarasse, que ele deveria ter pressionado ainda mais Elizabeth que a abortasse.

Ela já sabia tudo o que o seu pai pensava sobre ela, mas não era como se não doesse toda vez que ouvisse.

Era horrível se ver comparada com pessoas que ela sabia que eram muito melhores do que ela, no caso seus irmãos mais velhos, mas essa é uma situação que não pode ser mudada, já que Mahina tinha desistido de tentar há muito tempo.

Já tinha aceitado que era a decepção da família.

— Espero que aprenda de uma vez — Makoto sentenciou, soltando o cabelo de Mahina, o que a fez tombar para frente, apoiando as mãos no chão — Se eu souber que você esteve com esses garotos de novo, acabo com a sua vida.

Mahina olhava para o chão, escutando atentamente o barulho dos sapatos sociais de seu pai contra o chão frio de mármore branco, dessa forma descobriria quando o seu pai começaria a subir as longas escadas. Ela tremia, mas não era de frio por ainda estar um pouco molhada por causa da chuva, e sim pelo choro que finalmente veio ao perceber que estava sozinha no meio daquela enorme sala de estar.

"Cortar o cabelo não serviu de muita coisa" pensou, sentindo o seu couro cabeludo doer por causa da força dos puxões de seu pai, sabia que alguns fios também tinham sido perdidos.

Mahina estava cansada de tudo.

A sua cabeça gritava tentando ter um mínimo raciocínio para se levantar do chão, mas nem isso conseguia, foi tanta coisa que aconteceu em poucas horas que nem ela, alguém que tinha uma inteligência absurda, conseguia compreender totalmente.

Ela tinha quase perdido Draken.

A cena dele caído no meio daquela briga voltou com força na mente da garota e, juntando ao o que tinha acabado de ouvir, tudo ficou ainda pior.

Ela não tinha conseguido o proteger.

"Proteger os reis".

Não conseguiu cumprir a missão que estava por trás do seu título de rainha, a missão que tinham lhe dado no dia em que tinham criado a Toman.

Ela começou a se achar ainda mais ridícula e estúpida com esses pensamentos invadindo a sua mente, mas alguém interrompeu essas ondas.

— Mahina! Respira comigo! Vamos! Respira comigo!

A garota acordou do completo estado de transe ao ver Hajime ajoelhado na sua frente, falando para que respirasse, e foi então que veio a realização no cérebro dela de que estava hiperventilando, mal conseguindo respirar. Estava tendo mais uma das inúmeras crises que quase sempre tinha enquanto crescia dentro daquela casa, no meio dessa "família".

— Vamos, concentra comigo — Hajime disse um pouco mais calmo, ao perceber que a irmã já tinha percebido a presença dele ali — Respira fundo... 3, 2, 1... Solta o ar... Repete isso comigo.

Ele se aproximou um pouco e apoiou com cuidado as mãos no rosto da mais nova, começando a analisar o que aquele homem tinha feito, dessa vez. Porém, como sempre, ele nunca machucava ou encostava no rosto de Mahina, era inteligente demais até para isso.

Hajime suspirou frustrado vendo as lágrimas ainda caindo pelas bochechas da caçula, sabendo o tanto que ela odiava chorar.

— Não diga nada — o moreno disse, ao perceber que Mahina tentaria falar alguma coisa — Vamos conversar sobre isso depois. Tudo bem?

Ela assentiu em silêncio e se deixou ser carregada pelo irmão até o seu quarto, algo que Hajime fazia desde quando Mahina era uma criança e isso o machuca de tantas maneiras que pareciam que tinham arrancado o seu coração do peito.

A festa em si não acabou tão tarde, afinal Makoto gostava de dormir cedo, mas tudo começou a preocupar o mais velho dos três irmãos quando o patriarca os mandou para o quarto sem mais nem menos. Hajime sabia o que isso significava e, ao ouvir alguns minutos depois o barulho da tranca, foi como se o mundo estivesse desabando.

Ele se sentia inútil por não ter conseguido fazer nada dessa vez, mesmo que já tenha marcas o suficiente das vezes que interveio para proteger quem ele mais amava no mundo.

Subiu as longas escadas com cuidado, tentando não mexer tanto em Mahina e começou o longo caminho pelos corredores até o quarto da garota, que era o último. Porém, ele não esperava que encontraria Eiji ali.

— Hajime — o outro gêmeo começou a falar, mas a voz sumiu quando o olhar se pousou em Mahina.

A garota percebeu que o irmão a encarava, escondendo o rosto contra o peito de Hajime, não queria ser vista por ele daquela maneira.

— Eu não tô afim de conversar, Eiji, pelo menos não agora — respondeu, com o tom de voz claramente demonstrando cansaço e voltou a andar, mas o irmão se pôs na frente mais uma vez.

— O que aconteceu?

— Como assim o que aconteceu?! Isso é lá uma pergunta que se faça?!

— Óbvio que é! — tentou argumentar, passando as mão pelo cabelo — Ela tá simplesmente desse jeito e você quer que eu não pergunte nada?!

— Vai ser sonso na casa do caralho — Hajime sentenciou, encarando o irmão no fundo da alma e forçou a passagem mais uma vez.

— Vei, Hajime, sonso onde?! Só estou querendo entender!

— Esse é o ponto, Eiji! Como assim você quer entender o que já sabe?!

— Mas se estou querendo entender, é porque não sei, porra!

— Parem de gritar — Mahina conseguiu falar, fazendo com que a atenção dos dois voltasse para si — Por favor.

Hajime tentou respirar fundo, tentar diminuir a raiva que sentia do irmão que estava  na sua frente, mas era praticamente algo impossível, com ele o olhando daquela forma, simplesmente como se estivesse falando grego. Porém, como que ele não saberia? Não tinha percebido da mesma maneira que ele?

Deu as costas de vez para o irmão e andou em silêncio até o quarto de Mahina, a colocando na cama com cuidado e a observou girar, de forma que encarasse a parede em que a cama estava encostada e ficasse de costas pra ele.

— Vou falar com o Eiji rapidinho.

— Você vai voltar? — ela perguntou, o que fez com que o coração dele se partisse.

— Sempre vou voltar, nunca duvide disso — deixou um leve beijo no topo da cabeça dela, antes de se virar mais uma vez e sair do cômodo.

Ao voltar para o corredor, encontrou Eiji ainda ali, talvez tivesse esperança que o mais novo por alguns minutos pudesse simplesmente ter desistido do assunto e voltado para o próprio quarto. Porém, o moreno queria saber, afinal ele realmente não sabia o que aquilo tudo significava.

Quando ouviu o leve barulho da tranca da porta do seu próprio quarto ser trancada, soube que algo muito estranho estava acontecendo, não fazia sentido algo do tipo, mas com o passar dos minutos uma angústia se instalou nele. Ele não sabia dizer o porquê, mas sentia que tinha algo de errado e ao ter a porta destrancada, não pensou duas vezes em abrir, pegando o seu pai andando pelo corredor, como se nada estivesse acontecendo.

Isso fez com que Eiji ficasse levemente confuso, mas piorou ao ver o irmão praticamente correndo em direção a sala.

— Eu não estou entendendo o que está acontecendo, Hajime — suspirou — Não estou mentindo, de verdade.

— Não consigo acreditar em você.

— Hajime...

— Você quer que eu acredite que, durante a porra dos últimos dez anos, você não percebeu que o papai batia na Mahina?

A pergunta de Hajime ecoou de uma forma absurda dentro de Eiji, que encarava o gêmeo com uma expressão tão assustada que chegava a ser frustrante para ambos os lados.

Aquilo realmente era verdade? Como ele nunca tinha percebido?

— Eu...

— Você realmente nunca soube?

— Não — ele respondeu, ainda em choque, encostando as costas em uma das paredes no corredor.

— As portas trancadas, as roupas compridas, a forma como ela o evita e foge dele — Hajime listava, praticamente contando nos dedos.

— Quanto tempo? — perguntou de supetão.

— O que?

— Há quanto tempo que isso acontece, Hajime?

— Dez anos, ele bate nela há dez anos.

Eiji encarou o irmão praticamente conseguindo ouvir o som do seu coração sendo partido, ele realmente não fazia ideia do que acontecia e isso o irritou. Ele podia ter todos os motivos para não gostar de Mahina, mesmo que eles sejam um pouco infantis para um adulto de 21 anos, mas aquilo era o auge.

Ela continuava sendo a sua irmã caçula.

— Como você percebeu? — perguntou, queria entender o que ele tinha perdido, se sentia estúpido a cada segundo que passava sob o olhar julgador do mais velho.

— Quando ela quebrou o braço com sete anos.

— Mas não tinha sido algo haver com ela andar de bicicleta?

— A Mah só aprendeu a andar de bicicleta quando o Mikey a ensinou e isso foi quando ela tinha dez — Hajime respondeu, um pouco confuso com a constatação do irmão — Quem te falou isso?

— A mamãe, pelo menos agora eu sei que essa foi a desculpa que ela me deu — passou as mãos pelo cabelo, tentando descontar a frustração em algum lugar — Meu Deus...

— Depois desse dia eu comecei a perceber umas coisas e até que chegou o dia que eu me coloquei na frente.

— A sua cicatriz no lábio... — Eiji praticamente sussurrou, ligando os pontos na sua cabeça, e Hajime assentiu, cruzando os braços.

O moreno tem uma pequena cicatriz no canto esquerdo na boca que conseguiu ao receber um soco do pai por intervir no momento em que ele "mostrava" como Mahina deveria se portar. Ele tinha 14 anos e ela oito. Depois desse dia, foi como a mínima relação entre pai e filho desaparecesse por terra, mesmo que com os gêmeos Makoto realmente fosse até que uma "boa" figura paterna.

— Não é sem motivo que eu a defendo ou até mesmo a cubro pra ficar longe de casa, aqui não é um bom lugar pra ela.

— Eu não sei o que dizer.

— E não você também não precisa, nunca se envolveu com isso, completamente diferente de mim.

— Mas se eu soubesse...

— Ia fazer o que? — soltou uma risada repleta do mais puro escárnio — Você a odeia desde que a gente é criança, realmente ia a defender da pessoa que vive falando que você é o filho favorito? Por favor, Eiji, menos, muito menos.

— Mas...

— Mas o que porra?! — Hajime voltou a gritar, completamente irritado, e andou até o irmão, apontando o dedo no peito dele — Você se importa tanto com a Mahina que nunca percebeu nada sobre ela! Já percebeu como às vezes ela passa dias sem comer?! Como ela se tranca na merda daquele quarto?! Ou até mesmo como ela foge de casa quase toda semana?! Claro que não! Você só enxergou a merda do seu umbigo durante todos esses anos e só agora, por "finalmente" a ver daquele jeito, vai virar pra mim e me dizer que se importa?! Vai se foder, Eiji!

Mahina sempre foi a pessoa mais importante na vida de Hajime, o próprio ponto de luz com o sorriso, as piadas e as ideias completamente malucas, mas era isso que a fazia tão especial. Para ele, ver uma pessoa que nunca deu a mínima pra ela simplesmente virar e falar que se importa queimava de uma forma absurda.

Eiji não tem o direito de falar que agora se importa com Mahina, ninguém daquela família tem.

O mais velho deu uma última olhada no irmão e se virou, decidido a voltar ao quarto da caçula, não aguentaria mais encarar a cara dele, pelo menos não no momento atual.

— Espera! — Eiji gritou, conseguindo segurar o braço de Hajime — Me deixa fazer mais uma pergunta, por favor.

— Faça.

— É por isso que você desistiu de fazer música na faculdade e passou pra medicina?

Hajime, depois de muitos anos, sentiu lágrimas ameaçarem cair pelo seu rosto, esse é um assunto tão delicado que, mesmo já tendo anos dessa decisão, ainda doía. Afinal, ele trocou o sonho dele pela proteção de Mahina.

— Quando você realmente ama alguém, você muda as suas prioridades, Eiji — suspirou, desvencilhando o seu braço do toque do seu irmão — Espero que um dia você também consiga entender isso.

Eiji encarou Hajime andar pelo corretor como se tivesse sido jogado em um buraco negro, sendo completamente sugado pelos questionamentos que agora invadiam a sua mente e, principalemente, seu coração. Estava sendo como se a sua vida tivesse sido praticamente uma mentira, o que realmente foi o que aconteceu.

Makoto não era o homem bom que pensava que fosse. Elizabeth mentiu para ela sobre os machucados da irmã. Mahina é uma vítima de violência doméstica. Hajime tinha abdicado do seu maior sonho, agora até mesmo entendia porque não ouvia mais ele tocar piano.

A sensação que Eiji estava sentindo era como se tivessem jogado um balde de água fria, o tirando da realidade paralela que ele mesmo tinha sido colocado dentro, em uma jogada para que a sua irmã caçula sempre fosse vista como a errada, já que, na visão dos pais deles, ela sempre seria um erro, uma mancha na família.

Porém, nenhum dos dois pensou que chegaria o momento de que a verdade começaria a ser revelada e que, talvez, algumas coisas pudessem ser resolvidas.





Oi gente! Capítulo meio pesado hoje né...

Alguns de vocês já suspeitavam do que acontecia entre a Mahina e o pai dela e foi agora que eu consegui contar e né, sou a maior hater do Makoto

Ele ficou meio grande também, com mais de 4k de palavras e espero que vocês não se importem com isso kkkkk

Bem, espero que tenham gostado! Não se esqueçam de votar e de comentar (AMO ler o feedback de vocês)!

Até a próxima! ♥︎

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