𝐞𝐢𝐠𝐡𝐭, mutual
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Mahina encarava o pai com uma expressão impassível no rosto, simplesmente não era possível que estivesse ouvindo aquela merda toda. Tinha total consciência de que seu pai traía a sua mãe durante o fracasso que foi o casamento deles, mas não esperava simplesmente ter que conhecer uma das amantes, que claramente era só poucos anos mais velha que os gêmeos.
Hajime estava nervoso, torcendo para que a irmã mais nova ficasse com a boca calada pelo menos uma vez na vida. Não era como se ele pudesse prever o que ela fosse fazer, até mesmo para ele, a pessoa que a melhor conhecia, ela podia ser extremamente imprevisível, o que realmente causava muitos problemas.
A quase prisão dela em Londres, poucos dias antes deles voltarem para Tóquio, era o maior exemplo disso.
O moreno agradeceu mentalmente qualquer entidade existente só pelo fato da irmã ter conseguido chegar antes do pai, sendo a primeira vez na vida que estava grato pela velocidade absurda que a ruiva pilotava a moto. Hajime sabia que, se ela não estivesse ali, teriam consequências e ele realmente não queria ter que usar, mais uma vez, os conhecimentos que a faculdade de medicina estava lhe proporcionando.
— Saibam que a partir de agora a Nara passará mais tempo aqui, espero muito que não tenhamos problemas — Makoto sentenciou para os três filhos, mas Mahina sabia que a fala tinha sido dirigida para ela.
— Não se preocupe, pai. Tenho certeza que vamos nos dar bem — Eiji disse, o que fez a caçula controlar a vontade de revirar os olhos, odiava quando o irmão forçava ser um puxa saco.
Toda essa situação incomodava, principalmente agora sabendo a verdade sobre a volta deles para o Japão que, na verdade, parecia ter nome e sobrenome.
Mahina não acreditava que alguém como seu pai pudesse conseguir uma mulher daquelas sem ter um mínimo interesse financeiro, Nara é bonita demais para Makoto. A de cabelos loiros, com leves cachos nas pontas e os olhos azul piscina, encarava intrigada os três filhos do seu mais novo namorado, era um pouco engraçado como os três eram muito diferentes entre si.
Eiji tinha os cabelos perfeitamente alinhados e vestia uma camisa polo azul marinho e uma bermuda preta, praticamente a imagem de um filho perfeito. Já Hajime, mesmo com a clara semelhança com o irmão gêmeo, já era um pouco diferente, com um ar despojado, demonstrado pela blusa cinza simples e calça jeans rasgada de lavagem clara e, para completar o trio, a caçula.
Nara já tinha ouvido Makoto falar sobre a "filha problema", que se metia em tantas confusões que ele poderia ficar o resto da vida reclamando e ainda tinha uma aparência "agressiva" até demais para uma garota de quinze anos. A loira, diferente de muitos adultos, não se abalou pelas descrições do patriarca da família, tinha em mente que precisava conhecer antes as pessoas, para depois assim poder ter uma opinião concreta.
Diferente de Mahina que já tinha pronto o estereótipo da mais nova "madrasta" estabelecido dentro da sua mente. Mesmo que inconscientemente, estava sendo hipócrita por simplesmente julgar a mulher sem mais nem menos. Ela mesma vivia quebrando estereótipos por participar da Toman e por que agora não conseguiria?
Bem, é aquela velha história de como o orgulho realmente pode ferir outras pessoas além de si mesmo.
— Também espero isso, Eiji — a mulher respondeu, simpática — Podemos marcar de fazer alguma coisa juntos, sair e por aí vai.
— Seria ótimo.
— Eu passo.
Hajime respirou fundo ao ouvir a voz da irmã ecoar.
— Mahina, por favor — o moreno sussurrou baixo e a garota simplesmente deu de ombros, se levantando de um dos sofás de couro branco da enorme sala de estar.
— Pra que marcar alguma coisa, se na semana que vem já vai ser outra?
— Mahina Yoshida! — a ruiva suspirou ao ouvir o seu pai gritar o seu nome, mas continuou o seu caminho até as escadas — Pare já aí!
— Se fosse mentira, não estaria tão incomodado assim.
Era perceptível a tensão entre os dois, praticamente dois opostos brigando por espaço dentro de um lugar extremamente apertado e, mesmo que não quisesse admitir, Mahina sabia que estava em desvantagem.
— Ainda não acabei de falar.
— Vai falar o que ainda? Para eu a tratar como se fosse a minha mãe?
— Mahina, só para de falar por dois segundos — Hajime interrompeu a discussão dos dois, fazendo com que a ruiva o olhasse — Por favor.
A garota estava claramente na defensiva, com os braços cruzados na altura do peito e o queixo erguido, quase como se estivesse se preparando para lutar com alguém.
— Continua o que você estava falando antes, querido — Nara disse, conseguindo que a atenção de Makoto fosse desviada para si.
— Tudo bem. Vamos ter uma festa aqui em casa essa semana, vou juntar o fato de que voltamos para o país e o aniversário da Nara que também está se aproximando.
— Que dia que vai ser? — Hajime perguntou, um pouco curioso.
— No dia 03 de agosto.
Foi como se o mundo tivesse travado por alguns segundos.
— Como? — sussurrou, desacreditada.
— O que você resmunga tanto aí, pirralha? — a voz irritante de Eiji entrou cortante na mente de Mahina, quase como se tivesse a acordado.
— Como assim essa festa vai ser no dia 03 de agosto?
— Ela vai ser nesse dia porque é o aniversário da Nara e espero muito que você tenha alguma roupa decente no seu guarda roupa.
— Não tem como ser em outro dia? — chegava a ser estranho fazer tal pergunta, pedir algo para alguém que nunca tinha lhe dado nada.
— Não — Makoto respondeu, estranhando o comportamento da filha, mas logo um pensamento surgiu em sua cabeça — Se você estava pensando em se encontrar com aqueles merdinhas que você chama de amigos, pode ir parando e tirando essa ideia idiota da sua cabeça. A condição para que você pudesse voltar era ficar longe deles, então a cumpra.
Mahina sabia de tudo isso, de como os seus amigos eram mal vistos pelo seu pai, eles eram delinquentes no final das contas.
Ela era uma delinquente.
Também se lembrava de como a condição para que voltasse para o Japão e não ficasse em Londres era não mais se envolver com eles ou se meter em confusão com a polícia mais uma vez. Porém, mesmo que seu pai ainda não soubesse, ela descumpre esse acordo desde o dia em que tinham voltado.
Ela não conseguia evitar, eles eram tudo, como viveria longe deles?
Isso era algo impossível e tanto Mahina quanto Makoto sabiam disso, era visível pela simples forma como a garota o encarava.
— A festa vai continuar sendo no dia 03, espero que se comporte.
A ruiva nem se deu o trabalho de responder o pai, somente se virou e subiu as escadas.
(...)
Hajime encarava a porta do quarto de Mahina com a mente completamente cheia.
Tudo que envolvia a família deles era complicado até demais e isso o irritava, mas não tinha muita coisa que ele poderia fazer, pelo menos não agora. Ele sabia como a situação de uma nova madrasta não era legal, ele mesmo não tinha gostado da ideia de já ter uma outra pessoa ocupando o lugar da sua mãe, mas ele tinha outra opção além de respeitar?
Para completar, ele tinha gostado de Nara. Depois que Mahina subiu para o quarto, a mulher logo mudou de assunto, engatando uma conversa que durou quase duas horas, e ele percebeu que foi para tirar a atenção de Makoto sobre a caçula, o que foi uma atitude que ele seria eternamente agradecido.
O moreno respirou fundo antes de girar a maçaneta e encontrar a irmã sentada na escrivaninha, que ficava de frente para a enorme janela e que a fazia ficar de costas para quem entrasse no cômodo. Fechou a porta e Mahina virou a cabeça para trás, finalmente notando que ele estava ali.
— Se veio brigar comigo, pode ir saindo — a garota disse e voltou a se virar para frente.
— Para estar desse jeito, deve saber que estou certo em vir aqui.
— Logo você vai defender o papai?
— Não estou defendendo o papai, mas sim a Nara.
Hajime viu os ombros da irmã tencionarem e terminou de se aproximar, finalmente vendo o que ela fazia tão concentrada na escrivaninha.
— Eu só não quero que ele aja como se fosse normal substituir a mamãe — a voz de Mahina saiu baixa, quase como se não quisesse admitir o que estava falando — Eu sei que ela não gostava muito de mim também, mas é meio chato já ter que engolir alguém no lugar dela.
— Eu sei, princesa, mas nós temos que respeitar as escolhas dele também.
— Não quero — respondeu emburrada e o mais velho riu com gosto.
— Não estamos em uma situação de poder escolher e você sabe disso.
— Bem que você podia parar de ser tão compreensivo.
— Acho que não, faz parte da minha personalidade — Hajime sorriu ao ver que ela tinha revirado os olhos — Não sabia que você tinha voltado a desenhar.
— Voltei já tem um tempinho.
— Por que não me contou? Eu amo os seus desenhos, são simplesmente lindos.
— Não sei, foi mais ou menos na época daquela vez, não tava muito afim de conversar — Mahina disse e Hajime suspirou cansado, tendo o olhar agora focado no desenho que a irmã fazia.
— Vai ter alguém sentado no trono? — perguntou, mudando de assunto.
— Sim, pensei em fazer ser um rei sem coroa — respondeu olhando para o papel, onde tinha a sala do trono que fazia com uma quantidade de detalhes absurda.
— A ideia é bem diferente, mas tem alguma razão por trás?
— Na última aula de história, o professor falou algo sobre reis que governavam "sozinhos" sem apoio algum da corte ou da nobreza, o que praticamente significava que eles não tinham mais a "coroa".
— Gostei muito do conceito, mas estou surpreso com você prestando atenção em alguma aula.
— Ei!
Hajime começou a rir e se afastou, para se deitar na cama da irmã e dar alguns tapinhas no colchão, indicando para ela fazer a mesma coisa. Mahina soltou o lápis, se levantou da cadeira e respirou fundo ao deitar ao lado do irmão e encarar o teto branco do quarto.
— Vai começar o sermão agora?
— Não, acho que você já entendeu que estava errada.
— Não gosto mais de você.
— É incrível como você simplesmente não consegue mentir.
— Cala a boca, Haji.
— Não — implicou, cutucando a irmã várias vezes — Agora, me conta o porquê de você não querer que a festa aconteça dia três.
— Era o que o papai falou, sair com o pessoal.
— Se fosse só isso, você não teria ficado daquele jeito.
Hajime nunca tinha visto Mahina ficar tão vermelha, o que o fez se sentar na cama no maior estado de euforia.
— Calma! Era um encontro?!
— Não era! — Mahina falou no impulso, também se sentando — Na verdade, eu não sei.
— Nossa calma, nunca pensei que esse momento ia chegar.
— Depois eu que sou a dramática da família.
— Nem vem! Você nunca falou se estava gostando de alguém, então deixa eu viver o meu momento aqui.
— Isso é sério?!
— Óbvio que sim! Agora mata a minha curiosidade! É um garoto ou uma garota? Você conheceu agora na escola? Imagina se for esse lance de amor à primeira vista.
— Claro que não! Não é como se eu fosse conseguir gostar de alguém em tão pouco tempo — Mahina resmungou, pegando um dos seus travesseiros e o abraçando.
— Não estou falando de gostar, você não precisa gostar de alguém para ir em um encontro com ela. Pode ser simplesmente uma atração.
— Também não é tão fácil assim, por mais esquisito que isso possa parecer.
Mahina, às vezes, se pegava pensando se ela não era estranha ou até mesmo que não funcionava da maneira "certa". Em muitas conversas, principalmente depois de entrar na adolescência, se sentia um pouco deslocada, não sabia porque não sentia atração por pessoas que eram claramente bonitas, mas que não tinha proximidade, um vínculo.
Porém, quando o assunto era voltado para uma pessoa extremamente específica, tudo ficava ainda mais confuso. A ruiva não sabia qual foi o real momento em que começou a gostar de Draken, mas foi algo praticamente natural dentro dela, fazia sentido.
— Não tem problema — Hajime disse, conseguindo a atenção da irmã — Cada um tem sua forma de amar e de se relacionar com os outros, não é algo necessariamente ruim.
— Você acha isso?
— Por que não acharia? Todos nós somos diferentes, então por que teríamos a mesma forma de amar? Seria simplesmente muito sem graça.
— Você tem um ponto.
— Sei que tenho.
— Convencido — Hajime riu fraco e bagunçou o cabelo da irmã.
— Agora vai, me conta quem é.
— Nunca que eu faço isso.
— Por que não?!
— Vai me dizer que você não vai ir atrás da pessoa ou alguma coisa?!
— Você tem uma imagem muito errada de mim.
— Não, eu te conheço extremamente bem.
— Depois ainda fala que eu sou o irmão favorito.
— Mas você é! Você ser não me impede de te achar idiota.
— Estou me sentindo extremamente ofendido.
A risada de Mahina ecoou pelo quarto e Hajime a puxou para um abraço, o que fez com que os dois se deitassem na cama da garota mais uma vez.
— Você realmente não vai me contar quem é?
— Nem é curioso.
— Por favor.
— Vou te deixar fazer perguntas até acertar.
— Você é malvada.
— É isso ou nada.
— Tudo bem — o moreno revirou os olhos — Bem, eu conheço pessoalmente?
— Sim.
— Faz parte da gangue, certo?
— Sim.
— Então já sei qual é, nem sei porque não pensei nele antes.
— Quem você pensa que é?
— O loiro que tem a tatuagem na cabeça, só esqueci o nome dele.
— O nome dele é Ken, mas o apelido é Draken — Mahina respondeu em um tom de voz mais baixo, completamente envergonhada.
— Esse daí mesmo.
— Como você sabia que era ele?
— Bem, só tem três pessoas na cabeça que eu acho, segundo o que me disse, que você teria intimidade suficiente para gostar, o Draken, o de cabelo preto e o outro loiro.
— O Keisuke e o Mikey?
— Esses daí mesmo.
— Nunca que eu ia gostar deles, são só meus melhores amigos.
— Viu? Não é muito difícil perceber, vocês eram grudados desde criança.
— Realmente...
— Além de que foi ele que te deu esses brincos no seu último aniversário aqui no Japão, né? — perguntou, passando os dedos pelo pequeno pingente de rosa.
— Foi sim.
— Sei que deve ser chato desmarcar as coisas com uma pessoa, mas vocês vão ter outras oportunidades de sair.
— Mesmo se a gente tirar isso de questão, ainda não quero ir nessa festa.
— Por que?
— Vão ser iguais as outras — suspirou cansada — Cobrir minhas tatuagens, passar maquiagem, usar salto, posar para fotos, conversar com pessoas que eu não gosto sobre assuntos que eu detesto e ainda servir de boneca do papai. Sei muito bem que provavelmente ele vai me jogar pra cima de algum filho dos "amigos" dele.
Hajime sabia de tudo isso, ela era quem mais se sentia desconfortável nos eventos que o pai deles organizava, porque era claro como ela não se encaixava ali, que aquele mundo não era feito pra ela.
— Vai dar tudo certo, princesa. Só confia em mim.
(...)
Mahina encarava o celular com um semblante triste e até mesmo decepcionado, não queria realmente desmarcar as coisas com Draken, mas ela não tinha nenhuma opção e odiava estar nessa situação. Depois que conversou com Hajime na noite anterior, começou a aceitar a situação um pouco, mas ainda sentia raiva dentro de si.
Ela não podia escolher o que fazer com a própria vida.
Claro que se tem que levar em consideração o fato de que ela só tem quinze anos, mas tem certas situações, principalmente as que envolvem o seu sobrenome, que gostaria muito de evitar e nunca mais passar. Tanta cobrança por uma imagem tão frágil e que há anos já foi quebrada.
A ruiva escutou ansiosamente os toques da ligação até que Draken atendesse.
— Pensei que seria eu que ia te ligar — o loiro disse e Mahina riu fraco, se apoiando na beiral da janela da sua sala.
A escola dela estava no intervalo, então a maioria dos alunos estava do lado de fora no pátio ou no refeitório.
— Eu tenho que te avisar sobre um negócio, então acabei ligando.
— Está tudo bem?
— Essa é uma pergunta muito complexa, se você parar para pensar.
— Mahina...
— Enfim — a garota riu — É só que eu não vou poder ir com você no festival.
— Seu pai vai tá em casa?
— Pior, ele vai dar uma festa de aniversário pra minha mais nova madrasta.
— Madrasta? Seus pais se separaram?
— Duas semanas antes da gente voltar pra cá.
— Seu pai foi rápido — a risada de Mahina ecoou pela linha e um pequeno sorriso satisfeito surgiu no rosto de Draken, por ter conseguido tirar essa reação dela.
— Mais rápido que ele só o Flash.
— Olha, não se preocupa que dá pra marcar outra coisa depois.
— Você tá livre depois da escola? — ela perguntou, depois que uma ideia surgiu em sua cabeça.
— Sim, por que?
— Eu estou reformando a minha moto, ela é meio antiga, então acaba que ainda tenho muita coisa pra ajeitar. Logo, preciso achar umas peças e com certeza você sabe onde achar.
— Quer que eu te busque na escola?
— Por mim pode ser, até fica bom pro Haji, porque aí ele não precisa sair da faculdade pra me deixar em casa.
— Então, te vejo mais tarde?
— Com certeza.
Não demorou muito para que a ligação se encerrasse e, mesmo que não soubessem, os dois estariam com leves sorrisos estampados nos rostos.
Afinal, o sentimento sempre foi mútuo, mas nunca tinha sido verbalizado.
Oi gente! Tudo bem?
Nesse capítulo tivemos uma informação BEM importante sobre a Mahina e, para quem não entendeu, é o fato de que ela é demissexual! Além disso, o que vocês acharam da Nara? Já vou avisando que ela vai ser bem importante kkkkkk
Espero que tenham gostado! Não se esqueçam de votar e de comentarem (AMO ler o feedback de vocês)!
Até a próxima! ♥︎
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