[Dia 13]
Bloquinho, eu realmente me sinto vazio.
Não pensei em escrever ontem, porque me sentia esgotado. As coisas simplesmente pioraram, e não enlouquecer estava sendo difícil, ainda mais aqui, trancado no quarto.
Perdi as contas de quantas vezes já chorei até cair no sono, seja de dia ou à noite, as horas parecem estacionadas no tempo. E quando finalmente o dia parece chegar ao fim, nada muda. Sempre indo da cama para o banheiro, do banheiro para a cama, às vezes um prato de comida surge atrás da porta.
Pessoas não deveriam viver nessas condições, certo? Todos deveriam ter as suas três refeições do dia, independente da sua classe social, um banho decente e um lugar para poder descansar. E com muita sorte, conseguindo desligar suas mentes barulhentas.
Me pergunto várias vezes o porquê minha mãe me odeia. Desde quando eu me tornei essa pessoa com quem ela não consegue se comunicar? Aonde eu errei, mostrando que ela não poderia confiar em mim? O que eu fiz? O que eu disse?
Eu sei que ela não está assim pelo o que aconteceu entre ela e o meu pai, e suas visitas noturnas com outros caras, ela mesma disse que o início de tudo não estava nessa situação em si, mas em outra coisa mais antiga. E eu não faço ideia do que seja.
Não posso perguntar, porque ela não quer me ver ou ouvir minha voz. Não posso sair do quarto, porque continuo trancado. E não consigo fazer nada, além de chorar ou escrever em meu pobre diário.
Ontem tive um sonho muito estranho. O garotinho que eu tinha visto a noites atrás, retornara em mais um sonho. Mas eu ainda não sei o que ele espera de mim, o que quer que eu faça, ou se devo ajudá-lo em meus sonhos.
Tentei falar com ele, mas percebi que o garotinho não fala. Ele estava machucado, tinha pequenos e grandes hematomas esverdeados pelo corpinho, além dos olhos cheios de lágrimas. Ele apontava para mim, e em seguida se encolhia, ficando bem próximo da porta do meu quarto.
Tentei me aproximar, mas ele parecia me querer longe. Me sentei na cama e abri os braços, tentando mostrar que não tinha a intenção de o machucar, mas ele ainda parecia receoso. Nas condições em que eu me encontrava, não o culpava por não confiar em mim tão facilmente, eu deveria estar horrível.
Abaixei os braços calmamente e suspirei baixo, ainda sem saber o que poderia fazer. O garotinho precisava de cuidados, parecia assustado e claramente desconfortável. Eu não podia deixá-lo desaparecer novamente, naquele estado.
Juntei toda a coragem que possuía e peguei o primeiro bichinho de pelúcia que encontrei, próximo a minha cama, depois mostrei para o garotinho enquanto tentava me aproximar calmamente dele. Torcia mentalmente para que ele gostasse do ursinho marrom que segurava, era o meu brinquedo favorito quando criança, então esperava que ele também gostasse. Vi seus olhos brilharem na direção do brinquedo e o entreguei sem hesitação, mostrando que não teria problema se ele quisesse o pegar.
Pela primeira vez, vi um pequeno sorriso se formar em seus lábios, e de certa forma, isso me deixou um pouco mais tranquilo. Consegui me ajoelhar em sua frente e fiz apenas um pequeno carinho em seus cabelos, da mesma forma que fazemos com gatos ou cachorros domésticos, mostrando que eles podem confiar em nós. O garoto se encolheu um pouco no início, mas quando percebeu que não tinha interesse em o machucar, olhou para mim enquanto abraçava a pelúcia e começou a se levantar devagar.
Mesmo em pé, ele ainda era bem pequeno, mas agarrou meu pescoço com bastante força, me deixando levemente surpreso. Fiz um carinho calmo em suas costas e percebi que ele estava chorando em meu ombro, mas não me mexi, ficaria naquela posição com ele o tempo que fosse preciso. Até cogitei a idéia de retirar a pelúcia entre nós, mas não queria perder a confiança que o garotinho, até então, estava depositando em mim.
Percebi que estava começando a ficar mais pensativo do que o normal, tentando entender o que teria machucado tanto assim o garotinho, por que ele começara a aparecer nos meus sonhos de uma hora para a outra, qual seria o gatilho que o traria de volta para os meus sonhos, caso eu estragasse tudo, dessa vez?
E sem falar que, ele continuava me parecendo familiar, de alguma forma, mas eu ainda não sabia identificar da onde ou o porquê. Mas estava conseguindo me dar conta de que, talvez, ele pudesse ser uma alucinação. Se eu parasse pra pensar bem, eu não estava me alimentando bem durante esses dias, minha cabeça dói às vezes e eu me forço a dormir várias vezes por dia, para que o tempo passe mais rápido.
Será que eu estou começando a enlouquecer de verdade?
Tudo bem, eu não posso fazer perguntas, mas talvez, eu possa tentar uma outra coisa, como: desenho! Crianças gostam de desenhar e colorir, certo? Confesso que eu não gostava nem um pouco, quando era mais novo, mas acabava me rendendo às vezes, por falta de opção.
Segurei o garotinho firmemente no colo e me levantei devagar, ele tinha parado de chorar a alguns minutos, ainda estava agarrado na pelúcia e no meu pescoço, mas eu já não me incomodava mais com isso. Caminhei calmamente até a pequena bancada, que estava a poucos metros da cama, e peguei poucas folhas de papel e algumas canetinhas coloridas.
Levei o pequeno até a minha cama e o sentei ali de uma forma confortável, coloquei um travesseiro por trás das suas costas, e outro na sua frente, apoiando as folhas de papel e as canetinhas, depois, me sentei na sua frente e tentei esboçar o melhor sorriso que consegui, para ele.
Tive mais uma pequena surpresa quando o pequeno sorriu de volta para mim, de uma forma tímida, mas para mim já era o bastante, por enquanto. Apontei calmamente para o papel e pedi para ele desenhar quem teria o machucado daquela forma, primeiramente, ele me olhou por alguns minutos, e eu me perguntei se ele teria entendido o que eu tinha dito, em seguida, ele pareceu pensar um pouco enquanto fitava as canetinhas, até pegar a azul escuro.
Eu não sabia o que esperar do seu desenho, talvez ele desenhasse tão mal quanto eu, quando menor, ou talvez fizesse um desenho aceitável e claro, que me traria muitas informações, as quais eu não sabia ao certo o que faria quando tivesse, mas alguma coisa eu faria!
Depois de um pequeno tempo de espera, percebi que ele havia utilizado outras cores no seu pequeno desenho, e que na folha haviam três pessoas, ou pelo menos era o que eu estava entendendo entre os rabiscos dele.
Pedi para que ele escrevesse os nomes daquelas pessoas, para que eu pudesse tentar identificá-las, e talvez eu estivesse colocando muita fé em mim mesmo, mas na hora, eu só conseguia pensar em descobrir mais sobre tudo aquilo. Então, esperei por mais um tempo, e confesso que fiquei levemente confuso, mas já estava um pouco feliz com o progresso que estava tendo com o pequeno garotinho.
Na folha estava escrito: "eu", "mamãe" e "papai". E agora, que eu estava com a folha em mãos, consegui dar uma boa olhada em tudo o que estava ali. O boneco que representava o garotinho estava todo de azul, e curiosamente, estava na mesma altura que os outros dois, mas talvez fosse um detalhe inútil de se prestar atenção. Já o segundo, era claramente uma mulher, estava de cabelos rosa e o seu corpo era azul escuro. E o terceiro, estava todo de azul também, e era um pouco menor do que a mulher, o que parecia estranho.
Por que o "pai" seria menor do que a "mãe"? Talvez os tamanhos dos bonecos tivessem relação com o tanto que ele foi machucado por cada um? Mas isso faria sentido?
Resolvi então pedir ao garotinho que escrevesse o seu nome, mesmo sem ter muita diferença caso eu não o conhecesse, mas não custava nada tentar.
E aí bloquinho, eu descobri que não estava preparado para o que viria, mas sei que você não vai me julgar. Se você soubesse como me sinto aliviado toda vez que termino de escrever em você, é realmente libertador, é como se eu tirasse um peso enorme de dentro de mim, mesmo que não seja desabafando com alguém, mas você é uma ajuda e tanto, bloquinho.
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