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─── capítulo 05 ───

Depois do azar que tive de me atrasar no primeiro dia de trabalho, resolvi ir andando até a casa de Bradley todos os dias. O que, com certeza, foi uma escolha muito sábia. Fala sério, quem prefere andar de carro por Londres, quando se pode ir andando e apreciando a cidade? Aqui é um paraíso na terra.

Acordo todos os dias às 6h e saio para correr pelo parque perto do nosso apartamento. Incluí essa parte na minha rotina depois que vi como era gratificante usar minhas queridas pernas de 23 anos para ver coisas bonitas no caminho. Eu não me considero uma garota sedentária, na época da escola sempre fazia algum tipo de esporte todo ano. Já fiz natação, jogava voleibol nos fins de semana, arriscava no futebol feminino quando era preciso e já tentei ser animadora de torcida uma vez, não foi uma boa ideia, inclusive, meu braço direito quebrado que o diga.

Estou suando feito uma porquinha, o que é nojento, mas estou correndo feliz ao redor do lago. Já faz 20 minutos desde que saí de casa, e escutei quase 5 músicas da banda The Vamps. Eles são incríveis, de verdade. Agora estou escutando just my tipe, que se tornou meu vício desde a primeira vez que ouvi ela. Viciante também é a voz de Bradley. É linda e encantadora. Quando a ouço, é como se estivesse deitada em uma nuvem fofinha com uma máscara de pepino no rosto. Muito relaxante.

Na volta pra casa, eu paro na borda do lago pra dar alguns pães que trouxe para os patos. São 3 no total, e sempre ficam me olhando quando passo por perto, então dessa vez resolvi alimentá-los. Como não sei diferenciar o macho da fêmea, batizei eles de Alvin e os Patos. Alvin é o branco com manchas pretas e os dois brancos são seus irmãos, eu acho. Enfim, na minha cabeça faz sentido ter um líder entre eles.

Quando chego no apartamento, encontro Max já sentada na mesa tomando seu café. Ela vai pra livraria às 10h, mas por algum motivo, gosta de acordar bem mais cedo.

─── Bom dia! ── eu falo, indo em direção a geladeira pra pegar água gelada.

─── Bom dia, Cindy! Escuta isso ── me sento na sua frente, observando ela concentrada em seu celular. ─── você preferiria sempre ter um pedaço de comida preso nos dentes ou sempre ter um bad hair day?

─── Um pedaço de comida nos dentes, com certeza.

─── Faz sentido, seu cabelo está sempre em um bad hair day.

─── Oh, cale a boca!

Rindo, dou um tapa em seu braço. Max é obcecada por essas perguntas que nos fazem refletir. Quando não, ela está obcecada por aqueles testes de personalidade. Aqueles que nos fazem perguntas do tipo "que animal você gostaria de criar?", e então respondemos hamster e isso significa que somos uma pessoa profunda. Não faz sentido, eu sei.

─── Preciso de um banho.

─── Sim, está fedendo igual o Blythe quando volta do seu passeio pelo quarteirão. ── reviro os olhos.

Blythe é o gatinho de Max. O nome se deu devido ao amor de minha prima por Gilbert Blythe. O gatinho ficou em Atlanta na casa dos pais dela, já que não podemos ter animais aqui no apartamento, e ela lamenta de saudades todos os dias.

Alguns minutos mais tarde, já tomei banho e estou devidamente arrumada com calças jeans e uma blusinha manga longa de cor verde militar. Londres resolveu receber de bom grado o calor, mas ainda faz um pouco de frio de manhã.

Me despeço de Maxine e logo estou na rua de novo, aliviada por estar adiantada no horário. Confesso que Londres é uma cidade intrigante. Em uma hora você encontra um cantor com um violão fazendo um cover de ho hey - the lumineers, e se atravessar a rua, você vê o batman e o homem aranha dançando Lady Gaga para um vídeo do instagram. Passo pelo cara do violão e jogo uma moeda dentro do seu chapéu.

Assim que chego no apartamento de Bradley, sou bombardeada por Adeline, que pula no meu colo ainda vestindo pijama.

─── Cindy, papai me comprou a torre de lego da Rapunzel! ── ela grita animadamente.

─── Isso é incrível, Line. Vamos passar a tarde montando ela.

Ouço um resmungo atrás de mim e nem preciso me virar pra saber que é Nora esperando com o seu melhor amigo detector de metal. Me sinto ofendida sabendo que mesmo depois de uma semana, ela ainda não confia que eu não carregue nada agressivo comigo.

Bradley aparece na sala com partituras nas mãos, assim como todo dia. Ele usa calças jeans e camiseta. As vezes acho que temos o mesmo estilo de roupa. Meu guarda roupa é só jeans, blusinhas e tênis. Tal como o de um homem. Mas também há poucas exceções, como, dois ou três vestidos e uma saia, talvez.

─── Bom dia, Cindy! ── Bradley sorri pra mim.

─── Bom dia! ── sorrio também. É bom ter um chefe legal que simpatize com você e não faça da sua vida um inferno simplesmente por prazer. E claro, espero não estragar a nossa boa relação de chefe e babá, funcionária, ou seja lá qual nome podemos dar para mim.

─── Cerejinha, eu já vou indo. Cindy vai trocar a sua roupa. ── o pai de Adeline a pega no colo para se despedir.

─── Hãn... na verdade, eu gostaria de pedir algo primeiro. ── Ele me olha, esperando que eu continue. ─── Estava pensando em levar Adeline a pista de patinação que abriu aqui perto. Claro, nos divertimos muito no apartamento, mas você disse que eu poderia sair com ela também. ── eu me atropelo nas palavras, um pouco ansiosa. ─── E o lugar é seguro, cheio de crianças pra ela brincar e o Martin vai com a gente, claro.

Por um momento, Bradley parece um pouco decepcionado. Eu acho.

─── É que... Bom, eu quem iria levá-la no fim de semana.

─── Oh, sim, sem problemas então. Fica para uma próxima oportunidade.

─── Papai, Cindy pode ir com a gente? ── Adeline pergunta, fazendo aquela expressão fofa demais que já fui vítima incontáveis vezes só nos últimos dias.

─── Ah, não, não, eu não posso, Line!

─── Tem compromisso? ── Bradley pergunta.

Se maratonar Harry Potter o dia todo conta como compromisso, então sim.

─── Não tenho, mas eu não trabalho no fim de semana ── dou uma risadinha sem graça. ─── Quer dizer, não que seja um incômodo ficar com Adeline mais um dia da semana, é só que...

─── Eu pago o dia pra você.

Droga. Ele parece que tem sempre uma resposta na língua. Espertinho.

─── Não... não é isso que me preocupa. ── Ele levanta a sobrancelha, esperando por uma resposta. ─── Você é... famoso, sabe. Eu sou uma desconhecida, agora nem tanto... Mas não falariam nada na internet sobre isso?

Ele sorri. Abre um sorriso muito bonito, por sinal. Destacando seus caninos. E uma fileira de dentes branquinhos e retinhos.

─── Cindy, não se preocupe com isso. ── Bradley diz, me olhando nos olhos. O sorriso ainda está lá. ─── Se fizerem alguma especulação, é só falarmos que você é minha contratada, funcionária ou...

─── Babá ── o corto. ─── Hãn... quer dizer, não sua babá. Babá da sua filha.

Pelo amor de Deus, Cindy.

─── Isso, babá da minha filha. Não será um problema. E independente do que aconteça, Nora sempre consegue fazer com quê a mídia não espalhe falsas suposições.

Olho de canto de olho para Nora, que apenas assiste tudo de braços cruzados. E com uma cara nada boa, devo ressaltar. Como se isso fosse uma surpresa.

─── Cinderela, vamos comigo e o papai? ── Adeline faz biquinho. Garotinha esperta e fofa demais. Nunca pensei que eu seria facilmente manipulada por um rostinho bonito e mais novo.

─── Tudo bem, então. Eu vou com vocês. ── acabo me rendendo, torcendo para que depois dessa saída, minha cara não acabe estampada em sites de fofoca.

Mas consigo deixar essa preocupação de lado ao perceber a animação de Adeline. Ela dá pulinhos alegres no colo do pai e tagarela sobre como será legal patinar com seu papai e a babá.

Depois que tomamos nosso café da manhã, eu e Adeline fomos ao mercado. E é claro, com nosso amigo Martin. Ele é um homem engraçado que deve estar na casa dos cinquenta anos. Foi o caminho todo nos contando piadas ruins. Piadas bem ruins do tipo: O que um neurônio disse ao outro neurônio? Eu não consegui pensar numa resposta na hora, então ele me disse: "Você tá pensando o que eu tô pensando?"

Não tem graça, eu sei. Mas Martin riu como se ele estivesse vendo um leão marinho de galochas cantando Britney Spears.

No supermercado, eu tive uma nova ideia para ajudar Adeline a não sentir receio em experimentar coisas novas. O desafio é irmos no mercado toda semana e ela escolher algo que nunca comeu para experimentar. O escolhido de hoje foi brócolis. Então, no almoço, eu fiz spaguetti com brócolis e molho branco. Ela demorou um pouco pra decidir se comia ou não, então, eu disse a ela que aquelas árvores pequeninas tinham sido colhidas da horta da Moranguinho. E mais que depressa ela comeu tudo.

Na hora do seu cochilo da tarde, eu me deitei no sofá e fiquei lendo O lado feio do amor. Eu confesso que às vezes gosto de me torturar lendo um livro de romance triste. Me faz lembrar de como o meu último relacionamento acabou. E aí eu choro mais ainda.

Eu e Alex, meu ex namorado, ficamos juntos por 2 anos e meio. E durante todo esse tempo, fiquei ansiosa por um anel de noivado brilhante no meu dedo, tal compromisso que ele me prometia toda noite no seu momento juras de amor. Mas, é claro, isso não aconteceu.

Um dia antes do seu aniversário, eu estava a todo vapor preparando uma linda surpresa para ele com a ajuda de sua mãe. Então, ele me ligou e só terminou. Por telefone. Não foi homem o bastante para fazer isso cara a cara. Mas acho que eu teria me humilhado e chorado cachoeiras na sua frente. Então, obrigada, Alex. Pelo menos por isso.

Eu acabei destruindo o quarto dele junto com toda aquela surpresa estúpida. O mais surpreendente? Sua mãe me ajudou a fazer isso. Três dias depois, eu fui ao supermercado comprar mais sorvete de menta, - meu item de sobrevivência quando estou deprimida - e o encontrei lá fazendo compras com uma ruiva barriguda de talvez 5 meses de gestação.

Tranquei a faculdade de jornalismo e fui demitida da floricultura que trabalhava por estar deprimida demais e estar deprimido o lugar também.

Foi aí que acabei vindo para Londres. Trabalhando na casa de um cantor famoso, que por sinal é muito lindo, cuidando da sua filha que é a criança mais doce que já conheci, e sendo feliz.

Mas como nem tudo são flores, em alguns raros momentos eu me lembro de Alex. Como agora. Quando estou lendo a cena em que Corbin pergunta se Miles pretende amar Tate e ele responde que não. Poxa, Miles.

─── Cinderela, você tá chorando? ── encontro Adeline parada ao meu lado, me olhando preocupada. Nem percebi que seu horário de cochilo já tinha acabado.

Me sento depressa, secando essas lágrimas inúteis.

─── Eu só estou lendo um livro muito triste.

─── Mas porque tá lendo se ele te faz chorar? ── ela franze as sobrancelhas de modo fofo.

─── Hum... Eu não sei, Line. Leitoras são estranhas. ── fecho o livro e coloco ele de lado, decidindo continuar chorando só quando chegar em casa. ─── O que quer fazer agora?

─── Vamos montar lego!

Adeline sempre grita animada quando quer muito fazer algo. E isso é extremamente fofo.

Espalhamos todas as peças do lego pela ilha da cozinha e passamos o restante da tarde montando a torre da Rapunzel enquanto comíamos salgadinhos e tomávamos refrigerante. Quando Bradley chegou, eu estava discutindo com uma criança de 5 anos.

─── Line, você não pode colocar o Flynn Rider tocando piano. Ele tem que ficar aqui embaixo da torre chamando pela Rapunzel.

─── Mas eu quero ele tocando piano, Cindy!

Com isso cheguei a conclusão que Adeline só me chama de Cindy quando está brava comigo. Mas claro que a discussão boba seria só emoção e no final eu faria as vontades delas. Atitudes de uma boa babá.

─── Flynn Rider não é um ladrão? ── Bradley pergunta, parando ao meu lado e observando nossa pequena bagunça.

─── Papai! ── Adeline o repreende. ─── Ele tem um bom coração e se apaixona pela Rapunzel, depois ele vira príncipe porque eles se casam!

Bradley encara a filha chocado, mas eu apenas dou uma risadinha.

─── Sua filha de cinco anos é tão intensa quanto as músicas da sua banda. ── eu comento.

─── Andou escutando The Vamps?

Arregalo os olhos, percebendo tarde demais o que tinha acabado de falar.

─── Escutei... algumas... São muito boas. Just My Tipe é a minha favorita, apesar de gostar muito de Somebody To You, mas a sua voz em Hair Too Long está perfeita...

Nossa, Cindy, cala a boca.

─── Mas isso não significa que agora sou uma fã doida nem nada do tipo. Eu só fiquei curiosa e fui pesquisar mais sobre vocês.

Bradley não diz nada, apenas fica me olhando, e isso significa que eu só vou continuar falando.

─── Tipo, vocês são bons, mas não vou me tornar super fã de vocês agora. ── Merda. ─── Quer dizer... o que eu quero dizer é que... ainda pode confiar em mim para o emprego.

Adeline dá uma risadinha e essa é a minha deixa para ficar quieta.

Há um sorriso discreto na boca de Bradley, e me sinto meio boba olhando pra ele. Ele é tão bonitinho e fofinho que dá vontade de apertar. Mas não acho que isso é o tipo de coisa que um homem gostaria de ouvir.

─── Você sempre terá minha confiança para esse emprego, Cindy. ── Ele finalmente diz. Sorrio. ─── Só de estar ajudando na alimentação de Adeline, já prova que realmente se importa com ela e gosta do que faz.

Fico orgulhosa de mim mesma. Eu sabia que o curso de gastronomia serviria de algo no fim das contas.

─── Eu gosto mesmo de tudo isso. ── compartilhamos um sorriso. ─── Eu já vou indo, então.

Line pula no meu colo e eu dou um beijo em seus cabelos loiros. Acho que ela já esqueceu sobre eu contradizer ela de colocar Flynn Rider tocando piano.

Bradley me acompanha até a porta, assim como faz todos os dias. Então, ficamos nos olhando, como toda vez. Isso acontece até um dos dois finalmente dizer algo e eu ir embora.

─── Fico feliz que tenha aceitado sair com a gente.

─── Vai ser divertido. Aliás, sou uma patinadora raiz de Atlanta. ── Ele solta uma risada.

─── Vou te fazer beijar o chão, princesa.

Tento não pensar muito no que ele me chamou. Pelo meu próprio bem.

─── Eu não contaria muito com isso. ── aperto a alça da bolsa no ombro. ─── Até amanhã, então.

─── Tenha uma boa noite, Cindy.

─── Você também, Bradley.

Quando entro no elevador, há um sorriso idiota no meu rosto. Eu desmancho ele na hora, me sentindo patética.

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