VI - Ninguém me conhece


Esses capítulo e os próximos serão um pouco menores, e feitos com menor intervalo de tempo. Desculpe pelos vários capítulos introdutórios longos, mas eram necessários. Logo mais, muitas emoções.

Pretendo fazer um capítulo extra. De quem vocês querem?

Azura

O nervosismo imperava meu corpo, e eu simplesmente não conseguia ficar parada, andando de um lado para o outro no quarto.

Desde o pequeno incidente, esqueci até mesmo o que pretendia com Nowa ao procura - lo e voltei para meu quarto, enquanto Roy ficou com a dupla imbatível, porque disse que havia detalhes a serem debatidos e que logo me procuraria. No entanto, já faziam algumas horas.

A noite caiu e a ansiedade aumentou, respirei fundo para tentar manter a sanidade e me sentei na cama, outra vez com a carta em mãos. Minha mente tentava aos poucos decifrar o significado de tudo o que vivenciei nos últimos dias, principalmente o que vivenciei em toda minha existência.

Eu não saberia escolher uma palavra exata para descrever meus sentimentos, mas eram uma mistura de confusão e estranhamento, porque por mais que soubesse que meu nome é Luna Gregori, eu não me sentia como ela, não como nas lembranças que vivenciei. A manceba que vislumbrei era forte, destemida, perseverante, altruísta e sobretudo, uma Gregori. Eu nunca chegaria aos seus pés.

O som de batidas na porta me retirou  dos devaneios e um instante depois um assobio familiar ressou pelo o ambiente. Um sorriso nostálgico dominou minhas feições e logo corri até a entrada dando de cara com Roy, abracei Gardier com todas as minhas forças, meu rosto escondido na curva do seu pescoço sentindo seu cheiro familiar, enquanto as mãos do maior descansavam na minha costa.

─۫─̸ Você esqueceu de assobiar de volta Azul...─۫─̸ Apesar do pouco tempo em Adalasiah, era estranho escutar alguém me chamando pelo meu próprio nome. Dei um soco de leve no braço do garoto, desvencilhando - me do seu toque.

─۫─̸ Isso é por me fazer esperar! Agora entra Gardier, você tem explicações para me fornecer ─۫─̸ Murmurei cruzando os braços. Apesar de estar feliz com sua presença, também desejava a verdade. Estava cansada de receber informações pela metade.

O maior concordou com a cabeça parecendo nervoso e logo deu mais alguns passos para dentro do recinto, a porta se fechando atrás de si. Gesticulei com a cabeça para a cama e segui até a mesma, Roy em meu encalço. Ambos nos sentamos, um do lado do outro, em um silêncio desconfortável, estávamos nervosos pela primeira vez com a companhia um do outro.

─۫─̸ Primeiro de tudo, preciso me desculpar com você...─۫─̸ Roy foi o primeiro a falar, me pegando  desprevenida com sua sentença. O maior apanhou minha destra, segurando - a com carinho, parecia apenas querer ter certeza que eu estava ali ─۫─̸ Eu não imaginava o que ela fazia, ou o que iria tentar...─۫─̸ Ele murmurou em baixo tom, fechando suas pálpebras e respirando fundo.

─۫─̸ Está tudo bem, não foi sua culpa...─۫─̸ Respondi de maneira calma, acariciando sua palma, uma certeza de que tudo estava onde devia estar, ou pelo menos algo próximo disso.

─۫─̸ Eu sou seu anjo de guarda Azul, todo o mal que acontece com você, é minha culpa... ─۫─̸ O mancebo suspirou e se levantou, passando as mãos pelos fios castanhos.

─۫─̸ Eu lembro de reconhecer você como um soldado de Darck, ele é como você?─۫─̸ Perguntei colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. O meu anseio por conhecer minha família era quase surreal.

─۫─̸ A sua família Lun... Azul é conhecida por seus líderes. Adam era um antes de cair e depois o manto passou para seu primo. Seu pai era líder dos guerreiros e da mesma forma Marcos assumiu após a fatalidade com ele. Sua mãe era a líder dos serafins... Contudo, sua casta era outra, mas você seria coroada líder dos querubins em breve... ─۫─̸ Havia certo orgulho na fala de Gardier, principalmente ao dissertar sobre Darck, um pequeno sorriso surgiu em meus lábios. Roy ainda parecia incerto sobre a conversa que estávamos tendo, porém também se sentia nostálgico ─۫─̸ Você me desculpa?

─۫─̸ Claro que sim Roy! Deixa de besteira! Eu só quero que você me conte tudo, não quero mais ser deixada no escuro. É minha vida afinal, eu mereço saber...─۫─̸ Resmunguei em baixo tom e ele concordou voltando a sentar na cama, na verdade ele se acomodou, deitando sobre os travesseiros com o olhar recaindo no teto, provavelmente seria uma história longa. Eu por outro lado, logo me aconcheguei ao seu peito, como de praxe e as mãos do rapaz como costume, começaram a deslizar pelos meus fios castanhos.

─۫─̸ Primeiramente, o que você sabe?

─۫─̸ Quase tudo e quase nada? ─۫─̸ Arrisquei ─۫─̸ Tive acesso as últimas memórias antes de morrer pela primeira vez. Eu te vi ao lado de Marcos e Miguel, vi quando roubou o colar e o enganou, senti seu toque tentando salva - la...─۫─̸ Sussurrei fechando as pálpebras, forçando a corrigir os dizeres ─۫─̸ Tentando me salvar...

─۫─̸ Ok... ─۫─̸ Senti o corpo do maior retesar por alguns segundos, entretanto ele deixou um beijo suave sobre a minha testa, não sei se para me acalmar ou se para acalma - lo ─۫─̸ Você morreu a primeira vez em meus braços. Eu não conheci Luna Gregori, a não ser em seu leito de morte, porém diziam que era teimosa como uma mula, e sabia que iria ser assassinada e por isso sequer lutou, já sabia da maldição e por isso deixou a carta, ela morreu em paz por acontecer pelas mãos do irmão... No fim, ela apenas queria unir - se a eles outra vez...

Era peculiar ouvir histórias sobre mim mesma em terceira pessoa. Roy continuou tranquilamente brincando com o meu cabelo distraidamente.

─۫─̸ Darck não foi controlado por Miguel graças um anel feito do último resquício de poder que havia nela. Então, ao saber sobre a maldição, a ida de Marcos até aqui... ele sabia que eu era a sua única chance, e por isso me deu o anel Azul, como a última chance de retirar o colar de Miguel...

─۫─̸ E você conseguiu...

─۫─̸ Não. Ela morreu nos meus braços e tornou - se poeira... ─۫─̸ As palavras eram carregadas de pesar ─۫─̸ Passamos cem anos em um luto absoluto imaginando que tudo havia acabado, até a primeira surgir... ─۫─̸ Ergui meus olhos para encara - lo, tentando imaginar como havia sido.

Conhecendo Roy como o conhecia, não duvidava que o mesmo havia ficado imerso em culpa durante cem anos, se martirizando.

─۫─̸ Qual era o nome dela? Você lembra? ─۫─̸ Roy se remexeu  desconfortavelmente, as bochechas ganhando um tom rosado.

─۫─̸ Não lembro... ─۫─̸ Ele admitiu parecendo sincero ─۫─̸ Você tem que entender Azul que apesar de ser seu anjo de guarda, eu mantinha certa distância, porque era tudo um objetivo para mim, não uma pessoa... Os sentimentos são complexos para nós seres celestiais... ─۫─̸ Engoli em seco pedindo para ele continuar ─۫─̸ Quando ela renasceu eu senti o poder em cada célula do meu organismo. Adam e eu corremos até o vilarejo do outro lado do mundo, dando de cara com apenas um bebê  e tão diferente... sequer tinha os olhos azuis dos Gregori! ─۫─̸ Roy murmurou perdido em lembranças ─۫─̸ Ficamos ali, vimos ela crescer, se tornar uma moça formidável e quando pensamos ter idade suficiente, lhe entregamos o colar. Ela só encarou o objeto e morreu, assim como nossas esperanças...

─۫─̸ E você não sabia como ela era? Digo, em personalidade, caráter? ─۫─̸ Perguntei tomada pela curiosidade e luto. Aquela foi outra versão minha, completamente esquecida e provavelmente vista como um desperdício.

─۫─̸ Azul tente entender, não tínhamos ideia do que estava havendo e tínhamos medo. Adam procurou por ajuda em outro lugar e uma bruxa de boa vontade nos auxiliou na época, falando sobre a maldição. Então, enterramos a garota e esperamos pela próxima...

Não havia uma nota sequer de carinho na voz de Gardier. O que me fazia diferente das outras, afinal?

─۫─̸ Em todas as outras vidas, eu apenas observava a distância. Não queria me envolver, me apegar e logo em seguida ter meu coração destroçado por diversas vezes através dos milênios. Eu vi o que isso pode fazer com um homem...

─۫─̸ Está falando de Adam? ─۫─̸ Interrompi, sentindo o meu peito acelerar. Roy permaneceu mudo por longos segundos, parecendo pensar em suas palavras.

─۫─̸ Em parte sim. Adam viveu para você, todas as suas versões. Ele se integrava a família, muitas vezes como um tio, um primo, ou apenas um amigo próximo... e todas as vezes ele chorava no novo túmulo, pedindo perdão ao filho, ao seu irmão, e para seus pais...

Senti meus olhos encherem de lágrimas, tentando pensar no quanto pappa havia sofrido, não só por mim, mas por todas as versões. Ele saberia o meu primeiro nome, ele saberia todos...

─۫─̸ E continuamos assim. Em algumas vidas você conseguia encarar o colar sem morrer, e até mesmo toca - lo sem acesso aos poderes, e achávamos ter feito progresso, mas você sempre partia, uma hora ou outra. Continuamos tentando até você aparecer anjinha. Tudo nessa vida era diferente e nunca entendemos o motivo...

─۫─̸ O que há de diferente Roy? ─۫─̸ Me sentei na cama apressadamente, o colar em volta do meu pescoço esquentando solenemente.

─۫─̸ Primeiro, achamos que não tivesse nascido e que nossas chances esgotaram, porque você simplesmente sumiu por três anos, e isso nunca ocorreu antes. Nesse período Adam tentou seguir em frente e se casou com Roseta, na época ela só parecia ser uma humana extremamente devota... ─۫─̸ Uma risada amarga deixou os lábios do maior ─۫─̸ Ele te encontrou três anos depois, sem nenhuma memória e a aparência...

─۫─̸ O que tem minha aparência? ─۫─̸ Questionei bruscamente e o mais velho franziu o cenho me encarando. Se sentando também na cama, incrivelmente perto, a palma de sua mão deslizando pela minha bochecha suavemente; com carinho, devoção, seu olhar recaindo em meus lábios por alguns segundos

─۫─̸ Seus olhos, sua boca, seu rosto... ─۫─̸ As palavras não passavam de um sussurro baixo ─۫─̸ Você é ela, exatamente igual. E eu não poderia te tratar como as outras, não poderia deixar que você morresse em meus braços outra vez Azul... ─۫─̸ O celestial encostou sua testa a minha, suas pálpebras fechadas, a respiração tanto dele quanto a minha, se tornando  mais intensa ─۫─̸ Eu mudei minha forma, me tornei o filho de alguém e o seu melhor amigo. Eu cresci ao seu lado, eu te conheci nos mínimos detalhes e você era tão fascinante! Nunca te vi como uma Gregori ou como qualquer outra coisa além de Azura. Eu comecei a te amar exatamente pelo o que você é e nunca pelo o que você foi... ─۫─̸ Ele desabafou, ainda de olhos fechados. Contudo, eu não estava. Não conseguia desviar o olhar do seu rosto, Gardier parecia tão sereno enquanto contava a história que havia guardado durante séculos ─۫─̸ Você é a minha melhor amiga Azura, é a pessoa que mais amei e vou amar durante toda minha existência. Independente do que acontecer, eu vou te seguir e te proteger, como sempre fizemos, ok? ─۫─̸ Ele tornou a abrir seus olhos e foi inevitável corar sobre sua atenção, o coração batendo acelerado no peito ─۫─̸ Nada mudou...

─۫─̸ Nada ─۫─̸ Repeti suspirando, percebendo o olhar de Gardier sobre minha boca, assim como meu olhar recaiu sobre a dele. O mancebo se aproximouainda mais, quase selando seus lábios ao meus. Era a primeira vez que estávamos tão próximos e eu não queria me afastar.

─۫─̸ Você já foi beijada Azura? ─۫─̸ O corar das minhas bochechas intensificou e neguei com a cabeça ─۫─̸ Fico honrado em ser o primeiro... ─۫─̸ Ele murmurou, se aproximando ainda mais. Contudo, o soar da porta abrindo fez presença, assim como Mike cantando.

─۫─̸ Pônei maldito, pônei maldito lalalala...─۫─̸ Ele cantarolava até ver a proximidade entre Roy e eu.

O caído trazia consigo uma bandeja de alimentos,  me fazendo recordar que não havia ingerido nada durante o dia.

Gardier pigarreou se levantando com uma expressão embaraçada no rosto, provavelmente igual a minha. Mike por sua vez, caminhou até a cômoda do lado da cama, deixando a bandeja ali e então dedicou um olhar para Roy.

─۫─̸ Foram dias longos para a Luna e para você também, segurança. Que tal ir para o seu quarto descansar, hum?

─۫─̸ É Azura, não Luna... ─۫─̸ Gardier respondeu em um tom crítico, fazendo Mike dar de ombros. Apesar da expressão serena, havia uma certa ameaça em seus olhos e naquele momento me senti fora da história.

─۫─̸ Luna precisa descansar, e está sobre meu turno... ─۫─̸ A voz do caído tornou - se fria, como nunca ouvi antes.

─۫─̸ Mike eu não tô...

─۫─̸ Ele tem razão Azul... ─۫─̸ Roy me interrompeu, levantando da cama. O mancebo deixou um beijo em minha testa e começou a se afastar até a porta.

─۫─̸ Roy? ─۫─̸ Ao ouvir seu nome, o maior virou já na porta. Mike apenas encarava a cena com braços cruzados.

Assobiei suavemente fazendo - o sorrir, e logo em seguida retribuir como uma despedida. No momento que a porta fechou deixando o caído sozinho comigo, ele resmungou baixo algo como 'odeio anjos de guarda'.

─۫─̸ Qual é o lance do assobio?

─۫─̸ Quando criança, eu me perdi certa vez até que ouvi Roy assobiar, ele estava a minha procura. Eu retribui o assobio e desde então é nossa forma de nos encontrarmos...─۫─̸ Expliquei com um sorriso nostálgico apanhando a bandeja de comida para minha frente ─۫─̸ E por que você e ele pareciam prestes a pular no pescoço um do outro? Ele é meu melhor amigo... ─۫─̸ Ergui meu garfo apontando na direção do caído, ameaçando-o ─۫─̸ Não me faça te bater...

─۫─̸ Você não sabe bater em uma mosca Luna, quem dirá em mim... ─۫─̸ Ele riu suavemente se jogando ao meu lado da cama, observando enquanto eu comia ─۫─̸ Não é uma história minha para ser contada. Mas, assim como você o defende, eu também defendo meus amigos e não gosto de anjos de guarda...─۫─̸ O maior deu de ombros, roubando uma batata frita do meu prato ─۫─̸ E não sabia que melhores amigos se beijavam na boca...

─۫─̸ A gente não...─۫─̸ Bati em sua mão.

─۫─̸ Mas iriam...─۫─̸ Novamente Mickey gargalhou ficando de pé e bagunçando o meu cabelo. Revirei os olhos ─۫─̸ Descanse Luna. Amanhã cedo estarei aqui para te buscar, vai ser seu primeiro treinamento... ─۫─̸ E com esses dizeres, o caído me deixou sozinha no quarto outra vez.

Meu corpo de fato estava cansado, pedindo por uma boa noite de sono, mesmo após ter dormido por três dias seguidos. Contudo, minha mente estava desperta, e eu não conseguia me manter quieta dentro do quarto.
Após o jantar, perdi a conta de quantas vezes reli a carta e a essa altura, já havia decorado palavra por palavra.

Tomei um outro banho e novamente Lia cuidou do meu machucado, mas não ficou por muito tempo, limitando  a dizer que Mike arrancaria meu couro na manhã seguinte e era melhor descansar. Eu deveria, mas não conseguia. Sentia algo me chamando, me puxando para fora daquele quarto, o mesmo sentimento que me fez buscar por Nowa mais cedo; a sede por mais respostas, dessa vez com meus próprios olhos.

Calcei rapidamente meu all star vermelho e sai do quarto, o corredor vazio e silencioso me recebendo, mesmo que tudo parecesse estranhamente semelhante e confuso no castelo, principalmente de noite; a lembrança visualizada mais cedo estava fresca na minha mente e não havia ninguém ali para me impedir.

A noite estava fria e por isso estava abraçando meu próprio corpo enquanto caminhava pelos corredores de pedra o mais silenciosamente possível, a última coisa que eu iria querer era alguém surgindo do nada e me matando de susto ou que algum fantasma surgisse de última hora. Bom, se existem anjos e demônios, existem fantasmas, certo?

Um arrepio percorreu minha nuca enquanto arriscava um olhar para trás, agora as lembranças de Invocação do Mal espreitando na minha mente. Resmunguei comigo mesma e apressei meus passos.

Corredores e mais corredores, até encontrar uma escadaria extensa e devidamente escondida, iluminada apenas por tochas, foi exatamente por ali que segui. Desci cinco lances de escada, cada uma me levando até depósitos de comida e mantimentos, aos fundos sempre mantendo uma porta que levava até outra escadaria. Segui assim até que no décimo lance, não havia uma porta e sim um alçapão, e ao colocar minha mão sobre o puxador, instantaneamente o colar em meu pescoço brilhou fortemente e então houve um clic, e a porta escancarou - se para mim. Engoli em seco, sentindo o coração acelerar, lembrando dos dizeres de Nowa; "Adalasiah sempre reconhece um Gregori".

Estava uma completa penumbra, a única luz que havia ali era do meu colar que continuava a brilhar fortemente e minha mão se apertava em volta dele deixando apenas um pequeno feiche sair. Se tivesse alguém lá embaixo, eu não queria anunciar minha presença.

No momento que desci todos os lances da escada e pisei no chão de pedra, o alçapão fechou e de repente, o caminho foi iluminado por tochas e mais tochas, me instigando a ir em frente e assim eu fiz. E exatamente como na lembrança, de repente o chão de pedra se tornou grama, repleta de variadas flores. Respirei fundo, e nesse momento eu soube que o local não estava vazio.

Rapidamente me escondi atrás de um pilar de pedra e permaneci ali em silêncio, reconhecendo a voz do homem imediatamente.

─۫─̸ Estamos perto de quebrar a maldição, pelo menos mais perto do que já estivemos em todos esses anos...

A única vez que ouvi a voz de Nowa tão repleta de emoção foi quando estava morrendo diante do mesmo e ele disse que não aconteceria "dessa vez", por muitas vezes acreditei ter alucinado com a visão, mas ali estava o príncipe demônio, tão frágil a ponto de quebrar. Contudo, a minha maior dúvida era, como ele havia adentrado o local? Ele não era um Gregori, então?

Arregalei os olhos ao me tocar de algo tão óbvio e coloquei as mãos sobre a boca para não emitir nenhum ruído. Era Gabriel, o arcanjo.

─۫─̸ Conseguiremos não é? Eu sei que será dessa vez, e tudo será como antes... ─۫─̸ Um suspiro trêmulo escapou dos lábios do maior.

Meu coração batia tão rápido que desconfiava que ele pudesse escutar. Arrisquei um olhar para fora da pilastra e visualizei o homem sentado sobre a grama, apenas conversando com o vazio.

─۫─̸ Todos seguirão em frente, todos serão felizes... ─۫─̸ Nowa parecia desolado. Os ombros curvados e o olhar baixo, nada semelhante a figura imponente que havia me acostumado ─۫─̸ Menos eu, porque vou ficar para trás... ─۫─̸ Uma pedra foi apanhada e atirada no lago, o mesmo lago que era um portal, por onde o arcanjo Miguel invadiu Adalasiah, surgindo para me assassinar ─۫─̸ Serei esquecido e ficarei grato por isso, porque não consigo ser feliz sem você, e eu não serei o rei da sua história e prefiro mil vezes a escuridão do que simplesmente fingir que está tudo bem por mais tempo que o necessário...─۫─̸ O desabafo fez meu peito doer e lágrimas arderem em meus olhos. Eu havia descoberto seu maior segredo, e dentre tantas segredos descobertos, aquele que mais me atormentou, foi saber que o príncipe demônio possuía um coração ─۫─̸ Porque nada está bem desde a sua morte, e eu definitivamente não estou bem...

Queria ser mais próxima do homem, queria dizer que tudo ficaria bem, mesmo que eu duvidasse dessa sentença.

Ele havia dito mais cedo; todos ali carregam traumas, alguns maiores do que os outros, só não imaginava a profundidade. E todas as palavras que eu pudesse dizer, de um estranho modo, sabia que nada surtiria efeito no demônio.

O colar no meu pescoço continuava a brilhar e dessa forma eu conseguia sentir tudo o que ele tentava esconder. Uma mistura de raiva, saudades, tristeza e sobretudo, amor. Era uma avalanche, me sufocando ao ponto de sentir as lágrimas deslizando pelo meu rosto. Quentes e familiares.

Eu não deveria estar ali, não era um momento meu.

─۫─̸ Saia. Sei que você está aí...─۫─̸ A voz  masculina ressou, arrepiando todo meu corpo, a emoção e sentimento que me dominava sumindo, como um passe de mágica. Meu olhar recaiu sobre o colar, e franzi o cenho ao nota - lo ainda brilhando ─۫─̸ Saia Luna. Agora.

─۫─̸ Ok ─۫─̸ Murmurei com desgosto e e
ergui as mãos em sinal de rendição, saindo de trás da pilastra. Nowa já estava de pé, os braços cruzados e a expressão séria como de praxe. Nenhum vestígio do homem de segundos atrás.

─۫─̸ O que faz aqui? Veio pra me acertar outra vez no saco? ─۫─̸ Rude e idiota. Se um dia senti pena, foi delírio.

─۫─̸ Vai me tratar como um pedaço de bosta? Porque se a resposta for sim, a minha também vai ser... ─۫─̸ Também cruzei os braços e observei enquanto ele revirava os olhos.

─۫─̸ Como achou esse lugar?

─۫─̸ A carta que você me deu, me fez recordar de algumas coisas, vivenciei algumas lembranças... ─۫─̸ Murmurei deixando os braços caírem ao lado do corpo e decidi me aproximar. Observando com mais atenção o ambiente que me rodeava. Era simplesmente lindo, era óbvio que se tratava de um santuário e não saberia dizer se sou digna de estar ali.

─۫─̸ Que lembranças Luna? ─۫─̸ Havia uma nota de preocupação na voz do maior. Ergui as orbes para ele e dei de ombros.

─۫─̸ Meus familiares, minha morte, um homem que amei... ─۫─̸ Era a verdade, foi exatamente o que senti naquela lembrança. Nowa apenas desviou o olhar voltando a sentar na grama.

─۫─̸ E como ele era?

─۫─̸ Eu não sei, não consegui ver seu rosto. Mas, eu nunca me senti tão viva, porque era extraordinário o que ela sentia. Havia o amor dela, e havia o amor dele e todas essas emoções estavam mescladas, gravadas na alma. Ela morreu feliz por ter a chance de sentir esse sentimento...─۫─̸ Confidenciei encarando o lago ─۫─̸ E lamentou pela sua história de amor trágica até o último segundo. Queria que diferente dela, a minha fosse feliz...

─۫─̸ Ela é você...─۫─̸ Nowa sussurrou ainda de pé, me encarando com a mesma frieza no olhar ─۫─̸ Porém, você não é ela...

Uma risada áspera escapou dos meus lábios.

─۫─̸ E o que você sabe sobre ela? Você sequer a conheceu algum dia? Eu estou tão cansada, tão exausta! Todos aqui tem histórias, traumas, mas isso não significa que os meus doem menos. Sinto como se no fim eu fosse uma versão substituta, assim como as outras que vieram antes e sequer valiam o esforço de saber seus nomes, e a única pessoa que poderia me dar essa informação, está morta Nowa! Morta!

Eu não quis admitir para mim mesma, no entanto a conversa com Roy havia me magoado. Algumas lágrimas deslizaram pelo meu rosto e enxuguei as mesmas com fúria, me levantando  pronta para ir embora.

─۫─̸ Fica... ─۫─̸ O pedido desesperado me pegou desprevenida e neguei com a cabeça.

─۫─̸ Você não se importa, lembra?

─۫─̸ Seu primeiro nome depois da morte foi Beatriz, o segundo foi Violet, o terceiro era... ─۫─̸ Ele pareceu se dar  conta sobre o que estava falando, e focou seu olhar em mim com um pedido silencioso nos olhos, Nowa segurou meu pulso com suavidade, repetindo o pedido com mais afinco e humildade ─۫─̸ Fica, por favor...

Ainda entorpecida pelas informações, acatei seu pedido e juntos nos sentamos na grama, um ao lado do outro, encarando o lago.

─۫─̸ Você a conheceu? Conheceu alguma versão minha?

─۫─̸ Por que isso importa? Todas estão mortas ─۫─̸ Ele rebateu, áspero e cortante.

─۫─̸ Porque ninguém me conhece completamente, nem mesmo eu e isso me assusta. Eu não sei o que encontrar ao fim da linha... ─۫─̸ Desabafei encarando o rosto do homem ao meu lado.

Eu não era apenas Azura. No entanto, não sabia ser Luna Gregori e todas as outras que existiram, eu queria lembrar delas, mesmo que o mundo virasse pó e todo o restante esquecesse, eu queria  lembrar.

─۫─̸ Ninguém me conhece também...─۫─̸ O demônio deu de ombros ─۫─̸ Havia apenas uma pessoa e ela se foi... ─۫─̸ A tristeza na sua voz fazia meu peito doer. E sem pensar muito bem, apanhei a destra do príncipe, entrelaçando os dedos aos meus, sua mão era quente sobre meu toque e me obriguei a ignorar o arrepio que percorreu meu corpo.

─۫─̸ Podemos nos conhecer juntos... podemos ser amigos...─۫─̸ Sugeri com embaraço e as bochechas coradas.

Por alguns segundos, Nowa apenas me encarou, sem dizer qualquer palavra. Eu acreditava realmente que ele aceitaria meu pedido, eu queria que ele aceitasse. Mas no fim, ele levantou do chão, desvencilhando - me do meu toque.

─۫─̸ Eu não me importo com você, quantas vezes tenho que repetir? ─۫─̸ Irritado, o homem passou as mãos pelos fios castanhos do cabelo. Logo em seguida, apanhou uma pedra do chão e atirou no lago com força, algumas gotas de água respingando sobre mim enquanto a pedra quicava diversas vezes. Antes a pedra do que eu. ─۫─̸ Você pode ser a salvadora dos demais Luna, mas não é a minha salvadora! Não tente ser minha amiga, entendeu? Eu não preciso da sua pena!

Então, era isso? Soltei uma pequena risada, ficando de pé outra vez, encarando o homem diante de mim.

─۫─̸ Você me acusa de desempenhar o papel da vítima, mas faz exatamente a mesma coisa...─۫─̸ Explodi, colocando um dedo sobre o peito do maior ─۫─̸ A diferença entre você e eu é que se me estenderem a porra da mão, eu vou aceitar! Eu vou aceitar porque não quero afundar e com toda certeza não quero afundar como você! E eu não sei, não entendo porque me odeia tanto. Foi tão ruim assim salvar minha vida?

Até as palavras saírem da minha boca, eu não sabia se queria um resposta. Contudo, ao vê- lo simplesmente ali, parado diante de mim, com o olhar tão vazio quanto o peito, doeu mais que qualquer confirmação. Ele não se importava ao ponto de sequer me dar uma resposta.

Soltei uma risada amarga da minha própria idiotice, e me forcei a não chorar, eu não era a errada, era ele. E simplesmente lhe dei às costas, acreditando realmente que o demônio poderia sim ter um coração, porém este havia se transformado em pedra há muito tempo.

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