𝐘𝐎𝐔 𝐂𝐇𝐎𝐎𝐒𝐄
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𝐂𝐇𝐀𝐏𝐓𝐄𝐑 𝐓𝐖𝐄𝐍𝐓𝐘 𝐓𝐇𝐑𝐄𝐄
𝐘𝐎𝐔 𝐂𝐇𝐎𝐎𝐒𝐄
A FAZENDA DE SISSY era enorme, cercada por vastos campos de vegetação. O mais estranho, porém, era a neve. Há poucas horas não estava exatamente quente, mas o fenômeno ainda assim parecia absurdo. E o pior: a neve tinha uma origem incomum. No centro do celeiro, algo estava gerando uma energia intensa. Do velho telhado da construção, emanava uma força que criava nuvens e neve. Era como se uma pequena tempestade particular estivesse confinada àquele pedaço do mundo rural, cobrindo apenas um raio de uns doze metros.
Quando o carro entrou pelo terreno, sacolejou sobre os pedregulhos e ameaçou deslizar na camada espessa de neve que cobria o chão. Assim que estacionaram, todos começaram a sair apressadamente. O espaço apertado os deixava desconfortáveis. Celeste foi a primeira a descer, seguida por Diego, Allison, Cinco, Vanya e Klaus. O grupo parecia inquieto, sem saber ao certo o que esperar.
Celeste, ao olhar para o celeiro, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Um frio que misturava fascinação e adrenalina. Aquilo era extraordinário, algo que ela nunca havia visto antes. Porém, a intensidade daquela energia lembrava algo: a força de Vanya.
Cinco fez menção de tirar o casaco, talvez para oferecê-lo a Celeste, mas ela o interrompeu. "Ele vai acabar resfriado", pensou, mesmo apreciando o gesto cavalheiro. Diferente dele, seu casaco rosa era bem mais quente que o blazer da academia que ele usava. Não conseguiu nem se explicar direito, apenas sussurrou um "não precisa, obrigada" enquanto seus olhos permaneciam fixos na intensa luz emanando do galpão.
— Uau — murmurou, incapaz de conter a admiração. Os raios que surgiam sobre o telhado iluminavam a cena como se fosse uma tempestade elétrica em miniatura. O estrondo dos trovões, embora assustador para muitos, parecia uma obra de arte para ela.
— Isso que tá acontecendo lá dentro tá causando essa frente fria? — perguntou Diego, visivelmente confuso. Celeste olhou para ele com um sorriso, satisfeita por alguém ter verbalizado o que ela pensava.
— Com certeza — respondeu, com os olhos brilhando de fascínio. — A energia lá dentro é absurda.
Antes que pudessem continuar a discussão, a porta do celeiro se abriu bruscamente, e Sissy surgiu, segurando uma arma. Ela parecia exausta e furiosa.
— Sissy! — gritou Vanya, a voz misturando preocupação e alegria ao vê-la.
— Saiam daqui! Todos vocês! Afastem-se agora! — ordenou Sissy, o tom firme e carregado de urgência.
Celeste franziu o cenho, intrigada. Cinco, sempre alerta, puxou-a levemente para perto de si, um movimento automático de proteção. Vanya, no entanto, começou a se mover devagar na direção de Sissy, seus passos cautelosos.
— Ei, o que aconteceu? Qual o problema? — perguntou Vanya, a preocupação evidente em seu rosto.
Sissy hesitou, seu olhar oscilando entre os rostos à sua frente. Era como se uma batalha interna estivesse sendo travada nela. Por fim, soltou um suspiro pesado e falou, a voz baixa e carregada de dor:
— O Carl.
— O que ele fez com você? — insistiu Vanya, desconfiada. Suas sobrancelhas se arquearam em alerta.
— Ele... — Sissy hesitou novamente, engolindo em seco. — Ele morreu. O Harlan o lançou longe, como uma boneca, do mesmo jeito que você jogou os policiais. O que você fez com ele, Vanya?
— Não, eu...
— O que você fez com meu filho?! — ela gritou, a voz tingida de desespero. Seus olhos estavam cheios de medo, e Celeste sentiu o peso da situação. Era claro que Sissy estava dividida entre aceitar a ajuda de Vanya e manter distância por causa do perigo que ela representava.
Diego bufou, impaciente.
— Não temos tempo pra isso — resmungou, movendo-se rapidamente para atravessar o grupo e entrar no celeiro. Antes que pudesse chegar longe, Sissy levantou a arma e apontou diretamente para ele, obrigando-o a parar.
— Onde pensa que vai? — perguntou, com a voz baixa, mas ameaçadora.
— Vou ajudar seu filho, é claro. — Diego respondeu com desdém, dando de ombros.
Sissy apertou os lábios, claramente relutante. Ela sabia quem eles eram; as notícias do jornal deixaram isso claro.
— Olha, Sissy, eu achei minha família — interveio Vanya, com um tom mais suave. Ela tentava retomar o controle da situação, com os olhos fixos nos de Sissy. — Estes são meus irmãos e minhas irmãs.
Vanya gesticulou para o grupo, e Celeste, mesmo tremendo de frio, levantou a mão em um aceno tímido.
— Oi — disse, sem muito entusiasmo. O frio estava insuportável. "Se eu acendesse uma fogueira e pulasse dentro, ainda estaria congelada."
A tensão no ar era quase palpável, mas uma coisa era certa: ninguém sairia dali sem ajudar.
Sissy parecia desconfiada, especialmente quando seus olhos pousaram em Luther. Ele, afinal, era o homem que havia aparecido na fazenda dias antes, devolvendo a carteira perdida de Carl. Apesar de abaixar a arma com certa relutância, sua expressão permanecia magoada e incrédula.
— Você mentiu pra mim o tempo todo — acusou ela, a voz carregada de impaciência.
— Claro que não. Escuta, eu nem sabia quem eu era. Mas agora eu sei. E não somos os monstros que eles dizem que somos — defendeu-se Vanya, com uma calma quase desesperada. Seus olhos imploravam para que Sissy acreditasse nela. — Não matamos o presidente, não somos terroristas, não viemos aqui pra machucar ninguém.
Sissy hesitou, a desconfiança ainda estampada em seu rosto.
— Então... quem é você? — A pergunta saiu vacilante, como se cada palavra pesasse. Ela parecia perdida, sem saber mais em quem confiar.
— A única que pode ajudar o Harlan. — A resposta de Vanya foi direta, mas carregava um peso emocional que a fez engolir em seco.
Um silêncio tenso tomou conta do ambiente. Todos os olhos estavam em Sissy, aguardando sua reação. Celeste, por outro lado, divagava em silêncio. "Se ela não aceitar, ótimo. Volto pro carro e posso ficar me pegando com o Cinco. Quem sabe até a gente aproveite os últimos momentos antes do FBI nos encontrar."
Porém, a preocupação com o filho venceu. Sem dizer nada, Sissy cedeu, permitindo que todos passassem por ela. Os irmãos não perderam tempo e entraram no celeiro, enquanto a mulher fechava a porta atrás do último.
Assim que Celeste colocou os pés lá dentro, a cena a atingiu como um soco. O corpo de Harlan estava suspenso no ar, cercado por uma força energética pulsante. Ele levitava em um campo gravitacional, os olhos virados para trás, como se estivesse sendo sufocado por seu próprio poder. O coração de Celeste disparou.
— Puta merda — murmurou, quase sem ar.
Vanya, ao ver o estado de Harlan, correu em direção ao garoto, tomada por desespero. O ruído no celeiro era insuportável, um zumbido agudo que parecia penetrar os ossos. Todos taparam os ouvidos na tentativa inútil de abafar o som.
— Harlan! — gritou Vanya, tentando ser ouvida acima do barulho ensurdecedor. — Eu sei que você tá com medo, mas eu posso ajudar! Por favor, me escuta, tá? Você consegue fazer isso?
O menino não respondeu, preso em um transe terrível. Vanya respirou fundo, lutando contra o pânico. Seus olhos encontraram os de Sissy, buscando coragem. "Só eu posso consertar isso," pensou.
Determinada, ela deu um passo à frente e usou seus poderes para se fortalecer, tentando atravessar o campo energético e se aproximar de Harlan. Mesmo assim, cada movimento parecia um risco enorme.
— Cuidado — pediu Cinco, em um tom mais aflito do que ele gostaria de admitir. Sua mão tocou levemente as costas de Celeste, como se aquele contato pudesse lhe trazer algum conforto. "Não acredito que vai acabar assim," pensou, sentindo a frustração crescer. "Depois de tudo o que fiz, é assim que termina? Não ter a chance de viver com ela? Isso é uma piada cruel."
Enquanto isso, Klaus, sempre inquieto, começou a se afastar do grupo, explorando o celeiro. Foi até a porta dos fundos e deu uma espiada para fora.
— É... pessoal? — chamou ele, hesitante.
Os irmãos se viraram para ele, curiosos.
— Que foi agora? — perguntou Diego, irritado, como se já estivesse prevendo uma encrenca.
Celeste e Cinco trocaram um olhar resignado. "O que mais pode piorar essa situação?"
Mesmo assim, eles seguiram Klaus até a porta. Diego foi o primeiro a alcançar, e bastou um único olhar para ele soltar um suspiro pesado.
— Ah, merda... — resmungou, claramente exausto. "Ótimo, só falta chover ácido agora."
Celeste teve que empurrar Klaus de lado para conseguir ver. Assim que olhou para fora, seu rosto se contorceu.
— Agora ferrou de vez — murmurou, incrédula.
No campo coberto de neve, duas figuras familiares se aproximavam. Uma delas era a gestora; a outra, Lila. Celeste lançou um olhar para Cinco, que já sabia exatamente o que significava a presença delas.
— Quem são? — perguntou Klaus, confuso.
Cinco suspirou, impaciente.
— Essa é a gestora — respondeu com desprezo, enfiando as mãos nos bolsos do blazer.
Celeste, no entanto, não perdeu a chance de provocar Diego.
— E a outra é a namoradinha do Didi. — Ela deu um leve empurrão no ombro dele, arrancando um meio sorriso que ele tentou disfarçar.
— Ela é minha ex-namorada — corrigiu Diego, com a voz mais exaltada do que ele gostaria. O tom deixava claro que ainda havia mágoa ali.
Celeste ergueu as sobrancelhas, divertida. "Opa, drama à vista."
Diferente de Celeste, Klaus parecia estar curtindo o caos como se fosse um programa de comédia. Afinal, ele não tinha ideia da metade do que realmente havia acontecido.
— Ui, danado — murmurou Klaus, com aquele sorriso travesso que só ele conseguia fazer. Diego, por sua vez, quase corou.
— Quer saber? Acho que isso nem importa. — Luther interrompeu, claramente sem paciência para piadinhas ou apresentações. Seu cenho franzido mostrava o incômodo crescente. — Elas parecem bem zangadas.
— Ah, com certeza. — Celeste concordou, cruzando os braços e fazendo um bico quase teatral. — Tem razão.
Por dentro, entretanto, ela não estava nada tranquila. Sua mente repetia uma oração ansiosa: "Que não seja por causa da diretoria. Que não seja por causa da diretoria." Quanto mais a frase ecoava em sua cabeça, mais ela percebia o quão nervosa estava.
— É — Cinco murmurou, lançando um olhar preocupado para Celeste. Ele estava tão tenso quanto ela.
— Nosso irmão tem esse dom de deixar as pessoas irritadas. — Allison comentou, um sorriso cheio de malícia surgindo enquanto dava um tapinha provocativo nas costas de Diego.
— Tá bom, vamos descobrir logo o que elas querem — Cinco disse, impaciente. Ele sabia que ficar parado ali, encarando as duas figuras no gramado, não resolveria nada. — Vocês ficam aqui com a Vanya e o garoto.
— Quando você diz "vocês", se refere a quem? — Celeste estreitou os olhos, claramente não gostando da ideia de ser excluída. Sua expressão era quase uma confissão silenciosa: "Fizemos merda."
— Nossos irmãos desnaturados. — Cinco respondeu, carregando o habitual sarcasmo. Os outros fizeram careta, sem se ofender de verdade. — Você vem comigo, minha linda.
— Isso. E eu vou também. Andem logo. — Diego se adiantou, esbarrando em Klaus enquanto passava pela porta. O Número Quatro não demorou a voltar para dentro junto com o resto do grupo.
Celeste e Cinco o seguiram. Não deram as mãos — não por falta de vontade, mas porque o frio cortante fazia com que ambos preferissem manter as mãos nos bolsos. Durante o caminho até o campo, acabaram alcançando Diego. Ele caminhava à direita, enquanto Celeste ficou no meio dos dois.
Cada passo parecia carregar o peso de um julgamento iminente. "Nada a perder", Celeste pensou inicialmente. Mas, no fundo, sabia que era mentira. "Definitivamente eu NÃO posso morrer virgem."
— Adoro o cheiro de ar fresco do campo. — A gestora comentou, como quem fala sobre o tempo. Sua naturalidade irritou Celeste instantaneamente. Lila, ao lado dela, fez uma careta.
— Me dá vontade de vomitar. — Lila respondeu, sem humor. Seus punhos cerraram assim que os três se aproximaram o suficiente para começar a conversa.
— O que você quer? — Cinco perguntou, direto, sem esconder sua impaciência.
A gestora estreitou os olhos, avaliando-o.
— Te ver sofrer. — Lila foi mais rápida, disparando a provocação. Celeste quase revirou os olhos. "Sério? Qual é a necessidade de tanto rancor?"
Diego, no entanto, sentiu o golpe. Franziu o cenho, buscando algum resquício de importância na situação.
— E eu? — ele perguntou, quase indignado.
— Você nem vale a minha raiva. — Lila rebateu, entredentes. Para Celeste, foi quase cômico, mesmo que a tensão do momento não a deixasse rir de verdade. Ela apenas deu uma palmadinha solidária no ombro de Diego.
— Calma. — A gestora interveio, com aquele sorriso frio e calculado que parecia ser sua marca registrada. Celeste sentiu o estômago revirar. Era incrível como alguém podia exalar tanta falsidade sem nem se esforçar. — Estamos aqui em uma missão oficial.
— Que missão? — Celeste perguntou, a testa franzida em preocupação. Cada batida acelerada de seu coração parecia um alarme. Ela já imaginava o pior. "Traições são o forte dela, então por que seria diferente agora?"
— Como chefe da Comissão, decidi eliminar os criminosos responsáveis pelo assassinato da antiga diretoria. — O sorriso perverso da gestora cresceu enquanto a sentença pairava no ar.
Celeste sentiu o sangue ferver. Suas suspeitas estavam certas. As mãos cerraram involuntariamente enquanto sua mente tentava, sem sucesso, transformar aquilo em um pesadelo. "Isso não pode estar acontecendo."
Diego soltou uma risada sarcástica, cruzando os braços.
— Nós não matamos a diretoria.
— Na verdade... — Celeste pigarreou, tentando disfarçar o tom irônico. — Digamos que meus poderes tenham… feito um corpo robô "desligar" o A.J. Carmichael e…
— E o meu machado de emergência tenha, por acidente, escorregado na cabeça de uns outros... — Cinco completou, o tom casual demais para a gravidade da confissão.
Os dois se atropelavam tentando suavizar o caos com um toque de eufemismo. Mas, se fosse para ser sincero, não havia maneira de escapar da encrenca que tinham arranjado.
— Vocês mataram a diretoria?! — Diego gritou, a incredulidade transbordando em sua voz. Descruzou os braços, segurando o ombro de Celeste, que apenas estreitou os olhos, já sem paciência. Não havia mais como esconder nada. Cinco soltou um suspiro profundo, como quem já esperava aquela reação.
— É, matamos. — ele respondeu com um simples encolher de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo. A gestora soltou uma risada debochada, enquanto Diego parecia paralisado, ainda tentando processar o que estava ouvindo.
— Você não contou pra eles? — a gestora provocou, divertindo-se com a surpresa deles. — Ah, Cinco, você me decepciona.
— Cinco, o que foi que vocês fizeram? — Diego perguntou, a voz carregada de preocupação. O rosto dele estava pálido, claramente sem acreditar que aquele casal tão pequeno fosse capaz de algo tão... monstruoso.
— Fiz o que precisava pra levar minha família pra casa. — Cinco deu de ombros, sem demonstrar remorso. Seu olhar se tornou gélido quando se fixou na gestora. — Até alguém me enganar no trato.
— O trato ia funcionar perfeitamente, se alguém conseguisse cumprir um simples prazo. Pena. — A gestora respondeu, com um sorriso venenoso.
— Você armou pra gente falhar! — Celeste retrucou, sua paciência se esgotando a cada segundo. Ela franziu o cenho, tentando se controlar, mas estava difícil. Cinco, visivelmente irritado, colocou uma mão no ombro dela. Ainda estava tentando manter a calma, embora soubesse que as coisas estavam prestes a piorar. — Sua vadia trapaceira-
— A responsabilidade era de vocês! — A gestora interrompeu, o tom agora feroz. Ela ajustou a roupa com um gesto arrogante, como se quisesse se proteger da máscara que começava a cair. — Sua e dos seus irmãos e irmãs. Esse é um teminha recorrente na vida de vocês, não é? — Ela sorriu com desdém. — Sempre atrasados, perdidos, bagunçados...
O estalo do tapa foi tão rápido e forte que ninguém teve tempo de reagir. Diego e Cinco ficaram atônitos enquanto a gestora cuspia sangue no chão, a marca vermelha de Celeste bem visível na sua bochecha.
E então, Lila, sem pensar, avançou contra ela. Mas Diego e Cinco a impediram, segurando-a com firmeza.
— LAVE A SUA BOCA PRA FALAR DA MINHA FAMÍLIA! — Celeste gritou, o rosto distorcido de raiva. Seus olhos estavam fulminantes.
A gestora, incrédula, não teve outra reação a não ser rir. Mais uma risada de escárnio, como se tudo aquilo fosse apenas um jogo.
A fúria de Celeste cresceu, a vontade de destruir aquela mulher transbordando. Mas, quando Lila tentou partir para cima novamente, a gestora estendeu a mão, fazendo um gesto silencioso de controle. Lila parou imediatamente, congelada. Cinco e Diego ficaram ao redor, prontos para segurar qualquer um dos dois, como se o mundo inteiro estivesse prestes a desabar.
— Vou deixar passar esse surto adolescente — a gestora disse com desdém, olhando Celeste de cima a baixo. Para Celeste, tentador dar um soco, mas ela sabia que isso só faria a situação piorar. — Porque, afinal, vocês são os responsáveis pela morte da diretoria, e eu não vou tolerar essas tolices.
— Inclusive... — Diego começou, com um olhar severo. Ele olhou para Celeste e Cinco, um tanto desapontado. — Eu não acredito que vocês mataram a diretoria. Vocês não têm ideia de como a Comissão está uma zona agora.
— Uma zona? — a gestora perguntou, a voz começando a beirar o desespero com a crítica direta. Diego franziu o cenho. "Que tipo de coordenadora é essa, que não percebe que está afundando a empresa?" ele se perguntou, irritado. — Quem falou isso?
— Todo mundo. — Diego falou entre dentes, a raiva agora óbvia. — Até os faxineiros acham que está indo pro buraco.
— Ele não matou só isso. — Lila comentou, os olhos fixos em Cinco. A mistura de mágoa e raiva era palpável. Diego e Celeste trocaram um olhar confuso.
Cinco franziu o cenho, claramente incomodado com o rumo da conversa. "Essa garota está maluca."
— Do que você está falando? — Cinco perguntou, ainda confuso, embora agora com um tom de impaciência. Parecia querer entender, mas o que ela estava dizendo não fazia sentido.
— Não se faz de bobo, seu merdinha adolescent-
— Já chega! — A gestora cortou, colocando a maleta no chão com um gesto cansado. A marca do tapa de Celeste ainda estava estampada em sua bochecha, vermelha e dolorida. Ela soltou um suspiro e, em seguida, um sorriso forçado. — A questão é que todos vocês vão morrer hoje, hm?
— Ah, vocês não têm muita chance. — Diego debochou, soltando uma risada curta e cínica. Celeste e Cinco se entreolharam com um olhar de "lá vem confusão." — Sete de nós, duas de vocês.
— É, tem razão. — A gestora concordou com um sorriso sinistro. Ela trocou um olhar com Lila, que estava ao seu lado, pronta para qualquer coisa. Cinco e Diego deram alguns passos para trás, tentando se agrupar perto de Celeste, visivelmente apreensivos, mas com a sensação de que ainda podiam reverter a situação. — Vamos mudar isso.
No instante seguinte, a gestora estalou os dedos, e, como se fosse magia, o gramado ao redor deles foi tomado por uma infinidade de agentes mascarados e armados até os dentes. O campo foi transformado em um campo de batalha. Celeste sentiu o coração disparar de pavor. As armas estavam todas apontadas para eles, e a gestora, com um sorriso triunfante, parecia ter o controle total da situação.
Celeste não podia atacar. Não com mais de trezentas armas apontadas para suas cabeças. "É isso aí," ela pensou, resignada. "Vou morrer virgem. Que vergonha".
— Puta merda... — Celeste resmungou, a irritação transbordando em sua voz. Não conseguiu segurar o sarcasmo. — Você tem o talento de falar merda na hora errada ou é só o destino que gosta de te pregar peças?
Diego fez uma careta, sentindo-se culpado. Soltou um suspiro derrotado, como se tentasse se desculpar pelo momento inoportuno.
— Desculpa aí.
A gestora sorriu com um ar de vitória, e Lila parecia ter a certeza de que finalmente venceriam a batalha. Até mesmo os três estavam começando a acreditar que já estavam derrotados, como se fosse o fim de um pesadelo. Naquele instante, parecia que a vitória estava longe de ser possível.
— Já dá pra começar a confessar os próprios pensamentos ou tá cedo? — Celeste perguntou, e apesar de soar irônica, havia um fundo de sinceridade.
Ela estava tentando ser leve, mas a tensão no ar tornava tudo mais difícil. Queria dizer que Cinco ficava bem de cabelo bagunçado — e que agarrar a gravata dele fazia ela pensar atrocidades incomuns —, e que Didi nunca tinha sido um apelido carinhoso — era uma comparação ridícula com o Dadaísmo, que para ela era a personificação da idiotice na arte.
— Tá cedo. Não morremos ainda. — Diego retrucou, tentando se mostrar confiante, mesmo com a tensão no ar. — O que a gente faz agora? — Ele olhou para Cinco, esperando uma resposta. Cinco engoliu em seco, o peso da situação estampado no rosto.
— Ah, duas opções: lutar e morrer agora ou correr e morrer depois. Enfim, somos comida de minhoca — Cinco deu de ombros, a leveza no gesto contrastando com o drama da situação. Nenhum dos três estava mais confiante. Se entreolharam, tentando processar o que fazer em seguida.
— O que preferem?
— Eu prefiro viver mais uns minutinhos — Celeste falou rápido, balançando a cabeça. Os três estavam claramente nervosos, a afobação estampada em seus rostos.
— É, eu quero respirar mais um pouco com meus velhos pulmões — Cinco concordou, dando um sorriso cansado. Não deu tempo para Diego discordar e sugerir algo como "Celeste, acho que deveríamos lutar" ou qualquer coisa do tipo. A gestora cortou a discussão com um simples movimento.
— Ok. Vamos acabar logo com isso. — Ela soltou um suspiro, como se estivesse apenas cansada da conversa. Pegou o lenço vermelho do bolso, criando um silêncio dramático e quase desconcertante no ar. — E agora.
Ela ergueu o lenço acima da cabeça. Os três o observaram com uma sensação de inevitabilidade. Quando aquele pano tocasse a grama verdejante, eles sabiam que seria o fim.
— Corre!
— Vai, vai!
Os três dispararam, os corações batendo forte enquanto corria, os pés quase não tocando o chão. A adrenalina os fazia rápidos, mas também assustados. Eles sabiam que a situação tinha tomado um rumo sem volta. Os irmãos no celeiro nem sabiam o que estava acontecendo, mas quando os agentes ovacionaram, tudo ficou claro: o pano havia tocado a grama. Tudo estava perdido.
Homens e mulheres começaram a disparar sem piedade, atirando contra o trator de plantio, a casa, o celeiro… em tudo o que podiam atingir.
Os passos do trio se tornaram mais pesados à medida que o cansaço tomava conta. Era uma loucura. O medo corria solto, mas a adrenalina mantinha-os em movimento.
— Merda!
— Não vamos conseguir!
— Se segurem! Rápido! — Cinco berrou, tentando manter todos focados no que precisava ser feito. Celeste e Diego se entreolharam, mas não hesitaram. Confiaram nele. E de repente, se viram mais à frente no gramado, como se tivessem economizado alguns passos. Como se o tempo tivesse desacelerado por um segundo.
— Eu acho que vou vomitar — Diego resmungou, a sensação de náusea crescendo.
— A-ha! Finalmente alguém que me entende! — Celeste gritou, e apesar do caos, um sorriso irônico apareceu em seus lábios. Mas o barulho ensurdecedor dos tiros fez tudo sumir num piscar de olhos.
Eles se esconderam rapidamente atrás do trator, a lataria sendo constantemente perfurada pelos tiros que tilintavam a cada impacto. A proteção era mínima, mas no momento, era tudo o que tinham. Estavam ofegantes, as costas pressionadas contra a metal quente. O contraste entre o calor dos corpos e o frio do ambiente os fazia sentir como se o tempo estivesse escorrendo pelas mãos.
— E agora?! — Diego gritou, sua voz cheia de frustração e desespero. Ele olhou para Cinco, esperando por uma solução.
— Pula pra dentro da casa, Cinco! — Celeste gritou, desesperada. Cinco assentiu com um movimento rápido, ainda ofegante.
Cinco colocou a mão esquerda no joelho de Celeste e, com a direita, segurou o ombro de Diego. Ele soltou um suspiro, frustrado, ao perceber que seus poderes não estavam funcionando. Ele se concentrou, mas não havia resultado.
Celeste franziu o cenho, confusa.
— O quê? — Diego perguntou, também sem entender. Celeste tombou a cabeça para trás, sentindo-se derrotada.
— Merda, tô sem energia. Cansado!
Os sons dos tiros ficavam mais altos, mais próximos. Era como se os homens estivessem se aproximando. O barulho era tão ensurdecedor que eles tiveram que colocar as mãos nos ouvidos para tentar se proteger do som. Pensou, por um momento, se as coisas estavam tão ruins dentro do celeiro. O desejo de que ninguém tivesse sido pego naquela bagunça era quase insuportável.
— Vão! — Diego berrou. Resignado, ele olhou para os dois. — Eu dou cobertura.
Ele se levantou com determinação. Celeste tentou protestar, mas sua voz ficou presa.
— Diego, o que você t- — Ela tentou falar, mas a ideia de deixá-lo ir sozinho parecia absurda. Como ele poderia fazer isso? Mas ele não deu ouvidos. Sem hesitar, correu na direção dos agentes, os olhos fixos neles.
— Vão!
Cinco não perdeu tempo. Agarrou a mão de Celeste e, sem pensar duas vezes, puxou-a para a casa. Os dois correram em direção à segurança, atravessando rapidamente do trator para a varanda. Enquanto isso, Diego usava seus poderes para parar os projéteis no ar, criando uma barreira temporária que lhes deu tempo suficiente para se refugiar.
Mas assim que entraram na casa, a explosão aconteceu. Os projéteis, desviados, colidiram com o tanque de abastecimento do carro de Sissy, causando uma explosão considerável. O impacto foi suficiente para fazer os agentes parar por alguns segundos, estupefatos com o que acabara de acontecer.
Celeste e Cinco, assim que entraram na casa, estavam desesperados em busca de um lugar seguro. O som dos tiros tinha cessado por alguns segundos, mas logo começaram novamente. A pressão era insuportável, o medo de serem pegos a qualquer momento os fazia agir rapidamente.
— Debaixo da mesa, querida. Rápido! — Cinco berrou, a urgência em sua voz revelando o cuidado, como se fosse a última coisa que poderia fazer. A situação parecia desesperadora, e ele estava com aquele anseio de protegê-la desde que não haviam mais alternativas se não a possível morte pelo FBI.
Celeste correu para se esconder debaixo da mesa de jantar, empurrando a cadeira para o lado, e se abrigou, enquanto as balas rasgavam a parede da casa. Cinco se escondeu ao lado dela, ambos cobrindo as cabeças com os braços, tentando se proteger o máximo possível.
O som das balas ecoava pelo ambiente, quebrando as luminárias, as madeiras do revestimento e até o forro. Tudo ao redor parecia desmoronar, e o caos reinava dentro daquela casa.
Foi então que a luz azul, fraca e etérea, começou a invadir o ambiente. Celeste e Cinco não podiam ver direito, ainda protegidos debaixo da mesa, mas o brilho era inconfundível. Aquela luz era um sinal, algo que eles reconheciam: Vanya estava ali. Mas, apesar da clareza do poder, os tiros continuaram, interrompendo a visão do que estava acontecendo. De repente, uma onda de energia percorreu toda a casa, fazendo-os perder o equilíbrio sob a mesa. Celeste e Cinco se seguraram, confusos. E então, o som dos tiros cessou completamente.
— O que foi isso? — Cinco perguntou, os olhos arregalados, confuso e tenso. Celeste engoliu em seco, sentindo uma estranha mistura de alívio e receio. "Será que conseguimos? Finalmente?", pensou, ainda sem acreditar que a situação tivesse tomado aquele rumo.
— Tenho quase certeza que foi a Vanya. — Celeste respondeu, a voz tremendo ligeiramente.
Os dois saíram devagar de baixo da mesa, ainda em estado de choque. A tensão era palpável, e não podiam relaxar ainda. Uma armadilha, talvez? Um simples olhar pela janela poderia lhes custar a vida. Mesmo assim, deram uma espiada cuidadosa. Quando perceberam o que viam, o alívio foi quase tangível. Todos os agentes estavam mortos.
Porém, as duas primeiras figuras ainda estavam no centro, imóveis. Lila, com uma esfera azulada semelhante à de Vanya, mas com uma intensidade muito maior, mantinha a proteção. Aquela esfera parecia ser a chave para a sobrevivência delas.
O coração de Celeste disparou. "Como é possível?!"
E foi então que a tensão disparou ainda mais: Lila começou a levitar, uma habilidade que Celeste reconheceu imediatamente, algo idêntico ao que Vanya faria. A semelhança era inconfundível.
— Merda! — Celeste e Cinco resmungaram ao mesmo tempo, a frustração e o medo claramente presentes.
Outra onda de energia, tão rápida quanto a de Vanya, atravessou a casa, empurrando tudo pela frente. Antes, havia o desequilíbrio sob a mesa, mas agora, não havia tempo para voltar a se proteger. Cinco agarrou Celeste, tentando protegê-la de qualquer maneira. Quando a onda de força os atingiu, foi como se a própria casa fosse arrancada do lugar. Eles foram lançados com força contra a parede. Cinco, tentando manter Celeste segura, não conseguiu evitar o impacto. A onda de energia foi tão intensa que ele não conseguiu segurá-la, e ela se soltou. Ambos caíram desajeitados, batendo as costas contra a parede. O choque os deixou atordoados, tossindo e com a sensação de que haviam sido quebrados por dentro.
Celeste sentiu uma dor intensa nas costas, como se o impacto tivesse deixado um hematoma que iria doer por dias.
E então, de repente, Luther caiu do telhado, arremessado pela onda de força. O impacto foi tão violento que ele quebrou o telhado e o forro da casa. Seu corpo foi parar bem em frente à lareira de tijolos, com um estrondo que ecoou por toda a sala.
Celeste e Cinco se entreolharam rapidamente. O olhar de Cinco foi rápido, sem nem pensar em Luther. Ele sabia o que mais importava naquele momento: Celeste estava ferida. Sem hesitar, ele colocou as mãos nos ombros dela e a virou com cuidado. Quando tocou suas costas e ela soltou um resmungo de dor, ele soube que havia falhado em protegê-la.
— Ah, não… você se machucou. — Cinco resmungou, a voz cheia de preocupação. Para ele, aquilo foi como levar um soco no estômago, um peso imenso. Ela fez uma careta, mas parecia não se importar.
— Não. Eu tô bem. — Celeste respondeu, tentando minimizar o incidente. Na verdade, o que ela sentia não era nada grave. Era só um arremesso forte, nada demais. Mas, vendo o olhar de Cinco, ela sabia que ele se sentia culpado.
Cinco franziu o cenho, observando a garota. "Durona ela", pensou, mas, em seguida, soltou um sorriso pequeno, mesmo que estivesse sentindo uma culpa imensa por não tê-la protegido o suficiente.
Celeste, tentando aliviar a tensão dele, colocou a mão no rosto dele, num gesto reconfortante. Foi quando ouviram Luther resmungar na frente da lareira.
Os dois olharam rapidamente na direção do som e correram até ele. Celeste fez um bico ao ver o estado deplorável de Luther.
— Como você tá, grandão? — Ela perguntou, preocupada. Se agachou ao lado dele, afastando os fios de cabelo loiro da testa dele, um gesto carinhoso em meio ao caos. Luther fez um sorriso torto, ainda zonzo, com a dor da queda estampada em seu rosto.
— Acho que engoli minha língua — ele resmungou, fazendo uma careta. O impacto o deixara tonto, e ele soltou um suspiro derrotado.
— Luther, se tivesse engolido, não ia conseguir falar, seu idiota — Cinco rebateu, com a voz seca, mas um tom de preocupação nas palavras. Suspirou e então estendeu a mão para o irmão, tentando ajudá-lo. — Anda, levanta.
Luther concordou, aceitando a ajuda. Celeste se levantou, e então Cinco fez o mesmo com Luther, ajudando-o a se erguer. Quando ele levantou, deu dois tapinhas nas costas de Celeste, sujando-a com a poeira do corpo dele. Ela fez uma careta, visivelmente incomodada.
— O que foi que aconteceu? — Luther perguntou, confuso. Ele ainda tinha a lembrança da ex-namorada de Diego, mas tudo parecia muito distante, como se fosse algo de outro mundo. — Quem era aquela?
— Ela redirecionou a onda de energia da Vanya. — Cinco soltou o ar com um suspiro, claramente sem saber como reagir àquela situação.
— Eu sei. — Luther revirou os olhos, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Olhou para o irmão, esperando respostas que ele não podia dar. — Mas como?
— E você quer que a gente saiba disso agora, assim, de repente? — Celeste retrucou, a voz carregada de cansaço e uma pontinha de sarcasmo. Ela se apoiou no joelho, tentando aliviar as dores das costas, ainda sentindo os efeitos do impacto de antes. — Não temos bola de cristal, não.
— Eu tô com ela. — Cinco deu de ombros, como se isso fosse resolver alguma coisa. Luther suspirou, derrotado. — Não faço a mínima ideia.
E antes que a conversa pudesse continuar, o caos se instalou. Os tijolos da lareira se soltaram, caindo de forma descontrolada. Num segundo, pareciam prestes a cair em cima de Celeste. Cinco gritou:
— Celly, cuidado!
Ele a puxou com força para longe, mas Celeste perdeu o equilíbrio e quase caiu no chão. Se não fosse por Luther, que a segurou pelo braço com firmeza, ela teria ido ao chão. Cinco, que a tirou do perigo, acabou se tornando a vítima. Os tijolos despencaram sobre ele, fazendo um estrondo ensurdecedor. Celeste sentiu o coração quase parar, sua respiração ficou apertada. Ele estava desacordado, soterrado sob os escombros. A sensação de impotência foi esmagadora. E a culpa? A culpa foi ainda mais forte.
Ela se agachou rapidamente. Luther fez o mesmo, os dois tentando desesperadamente tirar os tijolos de cima dele.
— Cinco! — Ela gritou, sua voz cheia de desespero. Precisava ouvir uma resposta. Ele não podia dormir. Não depois de bater com a cabeça. Era extremamente perigoso.
Enquanto lutavam para tirar os tijolos, Lila apareceu, como se tivesse materializado ali. Como se tivesse os poderes de Cinco, por mais insano que fosse. Celeste nem teve tempo de questionar como ela apareceu. A única coisa que importava naquele momento era Cinco.
Luther a olhou rapidamente e se levantou, abrindo espaço para que a garota tentasse ajudar Cinco.
— Quem é você? — Luther perguntou, seu tom tenso e desafiador. Lila sorriu de forma sarcástica, um sorriso de quem já sabia que estava no controle da situação. Ela se aproximou, mas manteve uma certa distância.
— Alguém que quer matar o seu irmão. — Ela deu de ombros, como se fosse algo trivial. Celeste olhou para os dois, mas sua atenção estava completamente voltada para Cinco, que estava sendo retirado dos escombros.
— Ah, é compreensível. O Diego é meio complicado. — Celeste respondeu, distraída, enquanto começava a ver o rosto de Cinco.
— Eu tava falando do Cinco. — Lila retrucou, irritada. "Que gente burra", pensou, revirando os olhos. Ela soltou um suspiro, como se estivesse se preparando para algo ainda mais caótico. Luther deu de ombros, desinteressado.
— Ele também — Luther disse, erguendo uma sobrancelha, determinado. — Mas são meus irmãos, então acho que você tá meio sem sorte aqui.
Celeste finalmente conseguiu tirar os tijolos suficientes de cima de Cinco e o arrastou para um lugar mais seguro. Ele estava desacordado, a testa sangrando, mas ao menos agora estava fora do perigo imediato.
Enquanto isso, Luther foi direto para cima de Lila, desferindo um soco poderoso. Ela, no entanto, simplesmente o segurou com uma tranquilidade assustadora. Luther franziu o cenho, sentindo uma frustração crescente. Ele tinha superforça — como ela poderia estar resistindo a isso?
Com uma facilidade impressionante, Lila girou o braço de Luther, fazendo-o perder o controle. Pela primeira vez, ele estava sendo superado. Celeste, com o coração apertado e quase chorando de preocupação por Cinco, olhou para a cena com um desespero crescente. "Imitou a Vanya, o Cinco e o Luther... o que diabos ela é?", pensou, com um calafrio na espinha. A próxima seria ela. Se ela fosse parte da sequência, receberia uma rajada elétrica forte o suficiente para parar seu coração. "Tô morta", pensou, o medo apertando seu peito.
Ela tentava, freneticamente, dar leves tapinhas no rosto de Cinco, pedindo para que ele acordasse. Ele não respondia. Ela estava completamente desesperada. A pior coisa que poderia acontecer a alguém que tivesse batido com a cabeça era dormir… e tudo isso parecia culpa dela.
— Como isso é possível? — Luther rugiu, irritado. Ele estava usando toda a sua força, mas sentia que, de alguma forma, aquilo não era o suficiente. Por um instante, pensou que talvez ela tivesse o poder de anular os poderes dos outros, porque ele nunca se sentiu tão fraco. Seu ego, sempre imenso, estava começando a desmoronar.
— Cadê a autoconfiança, grandão? — Lila provocou, com um sorriso malicioso.
Num piscar de olhos, Luther foi arremessado para fora da casa. Seu corpo atravessou a parede de madeira e caiu pesadamente na neve fofa e gelada do jardim. Lila olhou para Celeste com um sorriso divertido, observando a garota desesperada ao lado de Cinco. "Ele não vai acordar", Celly pensou, pessimista. Engoliu em seco. "É culpa minha", refletiu, e então sentiu a raiva crescendo dentro de si. Ela percebeu que os tijolos nunca teriam caído se Luther não tivesse sido arremessado para fora. E entendeu que ele só havia sido lançado porque Lila estava ali. Ela sentiu uma onda de ódio por ela.
— Sua vez agora, "Sunshine". — Lila sorriu de forma perversa, seu apelido para Celeste fazendo o sangue dela ferver.
Celeste sabia que também tinha sua parcela de culpa por Cinco estar ali, desacordado. Mas Lila? Lila tinha uma enorme responsabilidade nisso.
— Não me chame assim. — Celeste disse, entre dentes, a raiva tomando conta de seu corpo. Ela estava disposta a fazer o que fosse necessário. Morreria se fosse preciso, mas faria Lila sofrer.
A energia em suas mãos estalou com intensidade. Lila sorriu, como se soubesse que um grande show estava prestes a começar.
Celeste foi a primeira a avançar, determinada. Ela sabia que, se se concentrasse, poderia anular qualquer ataque elétrico que Lila tentasse. Só precisaria de foco e rapidez para antecipar os movimentos dela. Estava pronta para a luta.
Lila foi a primeira a atacar, recebendo Celeste com um soco certeiro. Celeste se defendeu rapidamente com o antebraço, o impacto fazendo-a tremer um pouco, mas ela estava firme. No instante seguinte, seu joelho se ergueu com força, atingindo o estômago de Lila. Por mais ágil que fosse, Lila parecia meio desnorteada, o que deu à Celeste uma vantagem temporária.
Lila, furiosa, tentou atacar com um soco de cada mão, mas Celeste se esquivou com habilidade. Quando Lila conseguiu finalmente segurar um de seus punhos, liberou um jato de eletricidade. Celeste percebeu o movimento a tempo e usou sua própria energia para dissipar o ataque. A dor foi rápida e intensa, mas suportável; sua mão ficou dormente, mas ela resistiu.
Lila, vendo que o ataque não surtiu efeito, aproveitou a proximidade e girou o corpo de Celeste, tentando derrubá-la. Mas Celeste manteve o equilíbrio e, com rapidez, girou no chão, passando o pé por baixo de Lila. A jovem saltou para desviar, mas Celeste estava rápida demais, forçando Lila a dar uma cambalhota e cair no chão de costas. Lila ofegou, furiosa.
"Mas que diabos de sexto sentido é esse?", pensou, confusa. Era como se as visões de Celeste tivessem evoluído para algo mais, quase um sexto sentido. Isso a deixava desconfortável, a deixando zonza e irritada ao mesmo tempo. Às vezes, parecia que esse poder a ajudava, outras vezes, era sua própria ruína.
Celeste, sem hesitar, se ergueu rapidamente e pegou o ferro da lareira — aquele usado para mover a lenha e o fogo. Tentou desferir um golpe certeiro na cabeça de Lila, mas não conseguiu. Lila, com reflexos agora mais aguçados, desviou com facilidade, rolando para o lado e se levantando com um sorriso malicioso. Celeste estava com os olhos ardendo de raiva, mas Lila estava mais rápida.
Quando Celeste tentou atacar com o cotovelo, Lila recuou, empurrando-a com força. Celeste percebeu que um novo ataque elétrico estava a caminho e, num impulso, usou sua energia para se afastar rapidamente. Com uma corrida impetuosa, ela girou no ar, quase atingindo o rosto de Lila com os pés. Ela tentou socos, mas cada movimento parecia ser um fracasso. Lila estava se acostumando rapidamente ao sexto sentido de Celeste, tornando suas tentativas ineficazes.
De repente, Lila girou no ar, sua perna direita se estendendo com um chute poderoso que acertou Celeste em cheio no rosto. Ela cambaleou para trás, cuspindo o sangue que havia saído de sua boca. "Vadia", Celeste resmungou, sentindo o gosto de ferro. Ela estava furiosa, mas ainda em pé.
Lila avançou, eletricidade estalando em suas mãos, mas desta vez, Celeste conseguiu abafar o ataque, embora estivesse ligeiramente desprevenida. Lila, impassível, avançou novamente, mas Celeste, com um impulso desesperado, se jogou para o lustre da sala. Usando-o como apoio, ela saltou para os ombros de Lila, mas não teve tempo de concluir o golpe. Lila, com uma agilidade impressionante, virou-se e fez Celeste cair de forma brutal no chão, sem cerimônia. A dor foi imediata. Sua cabeça bateu, e suas costas, já doloridas, ficaram ainda mais castigadas.
Ela olhou para trás, sentindo uma pontada de alívio ao ver que Cinco começava a recobrar a consciência, embora ainda estivesse zonzo e dolorido. Mas esse pensamento a desconcentrou, e Lila não perdeu a oportunidade.
Lila colocou o pé na garganta de Celeste, forçando sua traqueia a se apertar. Celeste lutou, tentando empurrar o pé para cima, para o lado, desesperada para respirar. Ela pensou, irônica: "Todo mundo ama meu pescoço. Que maravilha." Mas a situação era grave. Não conseguia se livrar da pressão. Até que viu um tijolo ao lado, ao alcance de suas mãos. Sem pensar, o pegou rapidamente e acertou com força na perna de Lila.
Lila tirou o pé da garganta de Celeste, desconcentrada. A dor na perna era intensa e, para sua surpresa, o sexto sentido não captou o movimento. Parecia que ele ainda não estava totalmente desenvolvido, e Celeste soubera como explorá-lo, mesmo que não fizesse ideia de como Lila o tinha.
Lila resmungou, irritada. Sua perna começava a sangrar, mas ela não parava. Celeste, com a dor crescendo em seu corpo, se levantou rapidamente, utilizando a sequência de golpes que raramente a acertavam. Lila, por sua vez, também não estava ganhando terreno. O tempo foi o suficiente para que Celeste pegasse o ferro da lareira novamente. Lila não percebeu, e Celeste acertou-a em cheio nas costelas, fazendo-a ranger de dor.
Antes de Celeste passar seu pé pelas pernas de Lila para derrubá-la, Lila saltou para trás. Ainda no ar, Celeste lançou o ferro em sua direção, mas Lila se moveu rápido demais, desviando do golpe. Ela caiu no chão, rolando pela defesa de antes, mas se recompôs rapidamente. A luta continuava, tensa e imprevisível, e Celeste sabia que não podia desistir.
— Consegui desvendar seu segredinho. — Celeste sorriu, irônica, girando o ferro da lareira na mão como se estivesse brincando, ignorando completamente que estavam em uma luta mortal. Lila franziu o cenho, visivelmente incomodada. — É só eu não saber o que estou fazendo, e você não consegue prever. Mamão com açúcar. Só preciso de um pouco de criatividade e-
— Quer calar a boca?! — Lila explodiu, irritada, interrompendo o discurso. Sem perder tempo, avançou com uma sequência de golpes rápidos, empurrando Celeste para trás. O raciocínio afiado de Celeste foi interrompido à força, e o embate ficou ainda mais intenso.
Foi então que Celeste cometeu um erro. Ela esqueceu que o ferro que segurava era um excelente condutor de eletricidade. Lila aproveitou a oportunidade e, com um movimento firme, segurou o ferro. Antes que Celeste pudesse reagir, uma corrente elétrica poderosa passou pelo metal, atravessando seu corpo como uma onda de dor aguda. Celeste gritou entre os dentes cerrados e tropeçou, perdendo o equilíbrio. Caiu pesadamente no piso de madeira.
Lila, implacável, se aproximou. Ela se agachou ao lado de Celeste, que lutava para recuperar o fôlego. A descarga elétrica havia sido devastadora, mas Celeste ainda tinha forças para resistir. Pelo menos, por enquanto.
Celeste sabia o que viria a seguir. E isso a aterrorizava.
Lila colocou uma mão firme no tórax de Celeste, liberando outra descarga elétrica brutal. Celeste sentiu o coração apertar, fisgar, como se fosse parar a qualquer momento. Ela tentou gritar, mas sua voz mal saiu, fraca e rouca, como um sussurro dilacerante. A dor era excruciante, irradiando de dentro para fora. Ela tentava abafar a eletricidade, mas estava fraca demais.
Lila, sem demonstrar qualquer remorso, arrastou lentamente a mão pelo tórax de Celeste, liberando pequenas descargas ao longo do caminho. Cada toque era como uma nova facada elétrica. Celeste queria gritar, mas não tinha forças. Preferia morrer do que suportar aquilo novamente. Lila, no entanto, parecia indiferente à agonia dela. Seus olhos estavam fixos em Cinco, que, ainda atordoado, observava tudo.
O sorriso presunçoso de Lila se alargou ao perceber o horror no rosto de Cinco. Ela estava no controle, vitoriosa. Sem dizer nada, se levantou e deixou Celeste caída ali, saindo pela abertura na parede que Luther havia criado mais cedo.
Celeste sentiu uma lágrima quente escorrer pelo rosto. A dor física era insuportável, mas o desespero de estar completamente vulnerável a corroía ainda mais. Cada respiração era um esforço. Seu peito parecia carregado por um caminhão.
— Celeste... — Cinco murmurou, sua voz embargada de preocupação. Seus olhos se arregalaram ao ver o estado dela. Ignorando sua própria dor, ele correu até Celeste, ajoelhando-se ao lado dela. Desesperado, tentava lembrar o que sabia sobre primeiros socorros para eletrocussões. Ele a deitou de lado com cuidado, tentando aliviar a respiração pesada dela.
— Você vai ficar bem, vai ficar bem... — repetia, mais para si mesmo do que para ela, enquanto passava a mão pelos cabelos de Celeste em um gesto que tentava ser reconfortante. A respiração dela começou a se estabilizar aos poucos, mas a dor ainda persistia. Seu peito doía como se tivesse sido esmagado, e qualquer esforço parecia suficiente para levá-la ao limite.
Ainda assim, havia algo na presença de Cinco que a acalmava. Ele fazia com que o insuportável parecesse suportável.
Mas o momento de alívio foi interrompido abruptamente. Lila voltou à sala com passos firmes, sua expressão carregada de desprezo. Ela estava pronta para mais. Mas desta vez, seus olhos estavam fixos em Cinco. Seu ódio por ele era palpável.
— Seu merdinha — resmungou, com desgosto evidente.
Cinco suspirou, resignado. Ele sabia que teria que deixar Celeste sozinha para lidar com a nova ameaça.
— Tá me procurando? — provocou, sua voz carregada de ironia. Antes de enfrentar Lila, lançou um último olhar para Celeste, buscando sua confirmação. Ela assentiu, com dificuldade, tentando demonstrar que ficaria bem sozinha. Ou pelo menos esperava que fosse assim.
— Vamos logo com isso. — Ele se teleportou para um ponto fora de vista, sendo seguido por Lila no mesmo instante. A batalha ainda estava longe de terminar.
Celeste respirou fundo, encarando o teto acima de si. Seu corpo inteiro doía como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Ela permaneceu ali por uns vinte segundos. Parada. Encarando o teto sobre si. Mas descansar não era uma opção. Com esforço, reuniu coragem e se levantou do chão. Sua família precisava dela. Cada passo parecia um desafio, os músculos protestavam a cada movimento. No entanto, aos poucos, seu corpo começou a obedecer. Ao tropeçar algumas vezes no gramado nevado, ela quase caiu, mas conseguiu se segurar. Finalmente, avistou o trator onde Diego havia ficado antes de se separarem.
— Socorro! — Diego gritava desesperado. O trator pesado estava pressionando sua perna, e ele parecia no limite. Um a um, os irmãos começaram a se reunir ali, como se tivessem combinado um horário para o caos. Ao ver Diego preso, Celeste tentou correr. "Tentar" era a palavra certa, já que mais de uma vez quase desabou na neve, usando os braços fracos para se salvar.
Os irmãos perceberam o esforço dela, mas estavam mais focados em Diego.
— Vamos! — Luther gritou, apressando os outros. Olhou rapidamente para Celeste, que parecia levar uma eternidade para cobrir uma distância tão curta.
— Rápido, gente! — Diego implorava, sua voz carregada de dor e desespero.
Sem perder tempo, Klaus disparou do lugar onde estava, Vanya se levantou da neve, e todos os outros — menos Celeste — chegaram simultaneamente para ajudar Diego.
— Por que demoraram tanto? — Diego resmungou, a voz rangendo de dor e irritação.
— Agora a gente já chegou, quer parar de reclamar? — Luther retrucou, impaciente.
Quando finalmente alcançou o grupo, Celeste não perdeu a oportunidade de alfinetar o comportamento errado do irmão.
— É, se preferir, a gente pode deixar você se esmagar sozinho, seu ingrato — resmungou, apoiando uma mão trêmula no trator enquanto tentava recuperar o fôlego. Cada esforço parecia custar o dobro de energia.
— Concordo! — disseram Allison e Klaus em perfeita sincronia, ambos claramente achando graça.
— Tudo nessa família tem que virar uma discussão? — Vanya perguntou, franzindo o cenho com exasperação. Soltou um longo suspiro, já cansada das brigas constantes.
Sem perder mais tempo, Luther ergueu o trator com facilidade sobre-humana, criando espaço suficiente para que Diego se arrastasse para fora. Felizmente, a neve havia amortecido parte do impacto, evitando algo pior. Diego saiu debaixo do veículo com um resmungo.
— Saiu? — perguntou Luther.
— Saí! — Diego respondeu, se afastando enquanto ofegava de dor. Depois, abriu um sorriso forçado e ergueu a mão para bater na de Luther. — Equipe Zero! Invencível.
— Tá bom, duas coisas — Allison começou, soando cansada. Ela fez uma careta, prendendo a atenção de todos. — Primeiro, por que diabos a Celeste demorou noventa segundos para atravessar dez metros de distância, e segundo...
— Eu quase morri lá dentro. — Celeste interrompeu antes que Allison pudesse continuar, sua voz carregada de irritação e cansaço. Sua confissão fez os irmãos explodirem em um turbilhão de perguntas preocupadas.
— O quê?!
— Do que você tá falando?
— A ex do Diego fez isso com você?
— Como? — As vozes se sobrepunham, cada um mais alarmado do que o outro.
— Vocês estão me dando dor de cabeça... — Celeste reclamou, massageando as têmporas. Klaus, como sempre, decidiu agir sem pensar. Ele colocou a mão na testa dela, como se estivesse checando febre. Ela o encarou com um misto de incredulidade e cansaço. — Eu não tô com febre, Klaus!
— O que foi? Não custa verificar. Ouvi dizer que meningite causa febre, fraqueza e...
— Meningite é doença rara, seu idiota! — rebateu, exasperada. Klaus recuou, fingindo estar ofendido, embora fosse óbvio que nada realmente o abalava. — Eu tomei um choque. É isso.
Os irmãos trocaram olhares de confusão.
— É bom, Celly? — Vanya perguntou, levantando as sobrancelhas com um ar de sarcasmo mal disfarçado. Era uma provocação, claro, mas havia um toque de brincadeira em sua voz.
Celeste suspirou, respondendo com o mesmo tom afiado:
— Eu teria tido uma parada cardiorrespiratória se não tivesse abafado a eletricidade, Paganini.
Vanya riu, apesar da preocupação, e os outros soltaram risadinhas nervosas.
— Próxima pergunta? — Celeste concluiu, tentando ignorar a exaustão enquanto os irmãos tentavam processar tudo o que tinham acabado de ouvir.
Allison finalmente se lembrou de que havia sido interrompida.
— Alguém viu o Cinco? — perguntou, sua preocupação estampada no rosto.
— Tá lutando com a Lila — respondeu Celeste sem hesitar. Ela era a única que havia visto os dois desaparecerem juntos. Soltou um suspiro cansado, e Luther arqueou as sobrancelhas, como se algo importante tivesse lhe ocorrido.
— Aliás, a sua ex-namorada tem o poder do Cinco — Luther comentou, olhando para Diego ao seu lado. Celeste franziu o cenho. "Acho que não é bem isso", pensou, mas decidiu guardar sua opinião. Não era hora de palpites incertos.
— A vagabunda usou meu poder, e eu fiquei sufocada — Allison reclamou, cruzando os braços, claramente irritada.
— Eu nem preciso dizer o que ela fez comigo, né? — Celeste interveio, retórica. O olhar que os irmãos trocaram deixou claro que todos já haviam entendido: Lila havia eletrocutado-a.
— E ela destruiu metade da fazenda com uma onda de choque. Coisa mais batida. — Klaus acrescentou, ainda se queixando de dor.
Vanya, aparentemente imperturbável, apoiou-se no trator de forma casual, como quem faz um comentário sem grande importância.
— Se ela faz tudo o que a gente pode fazer, talvez seja uma de nós.
Os irmãos se entreolharam, o silêncio pesado enquanto a ideia se infiltrava.
— É… — Luther soltou uma risadinha nervosa, achando a sugestão absurda. Mas logo seu sorriso se desfez ao perceber que talvez Vanya estivesse certa. Sua expressão ficou séria.
— Não! — Diego protestou imediatamente, como se negar fosse suficiente para afastar a ideia.
— Nada a ver — Celeste concordou com um resmungo cético. Eles tinham nascido no mesmo dia em 1989, e agora, se encontravam em 1963. Mas a Comissão estava envolvida, querendo ou não. Afinal, Lila era filha da gestora. A ideia era absurda, mas não impossível.
— Não tem como — Luther reforçou, tentando afastar a dúvida.
— Olha, é uma conclusão razoável — Allison ponderou, dando de ombros com uma expressão pensativa.
— Mas só existem sete de nós — Klaus interveio, confuso.
— Talvez seja hora de aceitar que pode haver mais por aí — disse Vanya, com uma simplicidade que contrastava com o peso da declaração. Parecia já ter feito as pazes com a possibilidade.
Celeste bufou, exasperada.
— Alguém realmente está surpreso? Nosso pai nunca contou a verdade sobre nada.
Diego hesitou, sua voz saindo em um tom quase inseguro.
— Mas... ela não é nossa irmã biológica… né?
O silêncio que se seguiu foi quase sufocante. A resposta era óbvia: nenhum deles era biologicamente relacionado. Mesmo assim, Celeste não pôde deixar de sentir uma pontada de dúvida.
Luther quebrou o momento com uma pergunta prática:
— Tá bom. Se ela consegue espelhar nossos poderes, isso significa que tudo o que fizermos, ela pode copiar, certo?
— Exatamente. — Celeste respondeu de forma direta.
— Mas ela só consegue espelhar um poder de cada vez, não é? — Klaus questionou, estreitando os olhos.
Essa simples possibilidade reacendeu algo entre eles. Talvez, só talvez, houvesse uma chance de derrotá-la.
— Tem certeza disso? — Allison perguntou, a preocupação evidente em sua voz, enquanto o grupo refletia sobre suas chances.
「· · • • • ⛈︎ • • • · ·」
Assim que Cinco se teleportou junto com Lila para o celeiro de Sissy, o cheiro de animais e feno invadiu suas narinas. O espaço era amplo, com caixas de madeira empilhadas de forma desorganizada. As lâmpadas penduradas tremeluziam, enquanto a luz natural se infiltrava pelas frestas entre as tábuas. Ele olhou em volta, impaciente. Queria que aquilo acabasse logo. Precisava voltar para ajudar Celeste.
Não que ele soubesse exatamente como ajudar. Ela nunca havia passado por algo assim antes, e ele não conseguia evitar o pensamento de que a culpa era sua. Demorara demais para reagir, e agora tudo estava desmoronando.
O conflito entre ele e Lila já parecia começar antes mesmo de qualquer ataque. A mulher surgiu à sua frente segurando uma frigideira — um toque de trapaça que a fazia sorrir com malícia. Ela fingiu que arremessaria o objeto, forçando-o a se teleportar. Mas quando ele reapareceu atrás dela, a frigideira já estava em movimento. O impacto na lateral de sua cabeça foi brutal.
Ele caiu no chão, rangendo de dor enquanto o latejar em sua cabeça aumentava. "Frigideira? Sério? Como se tijolos já não fossem o bastante", pensou, irritado.
— Puta merda… — murmurou, pressionando a testa com a mão.
Sem perder tempo, Lila o imobilizou, pressionando o pescoço dele com o coturno sujo de terra. Cinco tentou empurrar a bota, ofegando, mas a força dela o mantinha preso.
— Não é gostoso, né? — Lila zombou, a voz carregada de sarcasmo. Cinco quase revirou os olhos. Ele havia feito o mesmo com ela dias atrás, e agora parecia estar pagando pelo que fez. — Sua namoradinha passou pela mesma coisa enquanto você estava debaixo dos tijolos. — Ela sorriu perversamente, seus olhos brilhando de malícia. — Que patético.
O sangue de Cinco fervia, mas sua voz saiu rouca e entrecortada:
— Come merda e morre.
Ele colocou toda a força que tinha nos braços, empurrando a perna dela de lado. Lila tropeçou e caiu, lhe dando a brecha para se levantar. Ainda se recuperando, ela o observava, enquanto Cinco esfregava o pescoço e ajustava a postura.
— Anda! — ele resmungou, impaciente, com os punhos cerrados e o olhar carregado de fúria. — Tá esperando o quê? Vamos acabar com isso logo.
— Não vai ser rápido — Lila retrucou, sua voz carregada de amargura. Com respiração pesada, ela se levantou, ajustando o cabelo curto com um gesto brusco. — Você vai sofrer pelo que fez.
— Eu não faço ideia do que você tá falando — Cinco rebateu, arqueando uma sobrancelha, confuso e irritado. Ele não tinha paciência para enigmas agora.
— Ronnie e Anita Gill. — A voz dela veio dura, cada palavra carregada de dor e raiva. Seus punhos cerraram ao lado do corpo, mas seu olhar transparecia algo mais do que ódio, havia uma mágoa profunda ali.
— Continuo sem entender. — Cinco olhou para ela, exasperado, como se estivesse lidando com uma criança teimosa.
— 93, East London. Você amarrou eles e atirou na cabeça.
As palavras dela bateram como um raio. Fragmentos de memória começaram a surgir. Ele lembrou-se das cordas apertadas nos pulsos de um casal, deitados no chão enquanto imploravam por suas vidas. A gestora estava lá, sorrindo com seu costumeiro desdém, enquanto ele puxava o gatilho. O sangue escorria pelo carpete amarelado, manchando um retrato de família na cômoda próxima: o casal e uma garotinha.
Cinco piscou, a mente girando. "O que esses floristas têm a ver com ela?" A conexão entre eles ainda parecia um quebra-cabeça incompleto, mas agora uma suspeita incômoda começava a tomar forma.
— O casal florista... — Cinco murmurou, a ficha finalmente caindo. Seus olhos se estreitaram, e o tom de perplexidade em sua voz era evidente. — Eram seus pais.
Lila, parada diante dele, respirava pesadamente. Seus olhos brilhavam, mas não de alegria. Era raiva e dor misturadas, prestes a transbordar.
— Eles nunca fizeram nada contra ninguém — ela respondeu, a voz embargada e cheia de mágoa. — Não mereciam morrer assim.
— Mas...
— Não mereciam! — ela interrompeu, firme, os punhos cerrados.
— Tá certo, tá bom? Eu matei eles — Cinco admitiu, sua voz mais baixa agora. Ele deu um passo involuntário para trás, quase como se quisesse criar distância da própria culpa. — Mas eu matei muita gente ao longo dos anos. Era o meu trabalho. Nunca foi pessoal.
— "Nunca foi pessoal" uma ova! — Lila soltou uma risada amarga, cheia de desdém. — Eu já matei, e acredite, sempre, sempre é pessoal.
— E é por isso que você não serve pra ser assassina — Cinco rebateu, dando de ombros. Era como jogar gasolina no fogo, e ele sabia disso.
O rosto de Lila queimou de fúria, e ela avançou, sacando uma faca escondida sob as roupas. Cinco estreitou os olhos, mantendo-se em guarda.
— Vai mudar de opinião — ela rosnou, dando um passo à frente.
Ele recuou, calculando rapidamente o próximo movimento. No entanto, um pensamento sarcástico atravessou sua mente. "Que mulher ingênua... tão óbvio"
— Se quer culpar alguém, culpe a Gestora. Ela falsificou a ordem — Cinco disse, a voz firme, mas sincera. Por mais que não suportasse Lila, isso era algo grande demais para mentir.
Lila hesitou, mas manteve a faca erguida.
— Mentira! Eu vi o documento. A.J. Carmichael assinou, e você executou.
— Lila, escuta o que eu tô dizendo, tá? — Cinco insistiu, a paciência escapando por entre os dentes. — Foi a Gestora quem me deu a ordem. Ela foi junto comigo, algo que nunca fazia. Você trabalha na Comissão. Sabe que os executivos não vão em missões. — Ele deu um passo para o lado, mantendo o olhar fixo no dela. — Mas naquele dia, ela foi. Pergunte-se por quê.
O impacto das palavras de Cinco foi como um soco no estômago para Lila. Seus olhos vacilaram, mas ela continuou segurando a faca com força, como se isso pudesse manter sua convicção intacta.
— Você não vai me confundir.
— Eu nunca soube o que ela queria na época… — Cinco murmurou, mais para si mesmo do que para ela. Seus olhos se perderam brevemente nas memórias que se formavam. — ...mas agora tudo faz sentido.
O silêncio que se seguiu foi opressor. Lila olhava para ele, lutando contra as revelações. A ideia de que sua "mãe" poderia ser responsável pela morte de seus pais biológicos era insuportável. Ela queria negar. Precisava negar.
— O quê? — A voz dela saiu baixa, trêmula, quase um sussurro. Ela queria que ele dissesse novamente, que rasgasse a verdade sem piedade. Talvez assim ela pudesse processar a dor.
Cinco respirou fundo.
— Ela não tava nem aí para os seus pais, Lila. Na verdade, ela queria você.
Os olhos de Lila arregalaram-se, mas nenhuma lágrima caiu. Ficaram ali, presas, enquanto a verdade a consumia. Sua voz finalmente saiu, embargada:
— Por quê?
Cinco fechou os olhos por um instante, as lembranças invadindo sua mente. Ele se lembrou do sangue escorrendo pelo retrato de família, das palmas satisfeitas da Gestora, e do sorriso calculado enquanto seus olhos pousavam em um brinquedo esquecido na mesa. Ele se lembrava dela arrastando um móvel pesado, revelando uma garotinha encolhida, abraçando os próprios joelhos em silêncio. Lila, então com três anos, olhava apavorada, o vestido cobrindo seu pequeno corpo como um escudo inútil.
Aquele momento voltava agora com peso dobrado. A garotinha amedrontada estava ali, crescida, o encarando com o mesmo olhar — mas agora misturado com ódio. Ele abriu os olhos e percebeu o movimento na porta do celeiro. O restante dos Hargreeves havia chegado, seus semblantes carregados com as descobertas que flutuavam no ar.
— Porque você é uma de nós — Celeste respondeu, interrompendo o silêncio com uma franqueza quase brutal.
Lila virou-se para eles, o rosto congelado entre incredulidade e medo. O olhar de Celeste era sério, mas havia algo reconfortante em sua presença. Cinco, por um momento, soltou um suspiro discreto de alívio. Celeste estava de pé, visivelmente exausta, mas viva. Isso era o suficiente… por enquanto.
— A Gestora te roubou, Lila — Diego insistiu, a voz amarga. Ele parecia determinado a fazê-la entender a verdade, mesmo que fosse doloroso. — Igual nosso pai babaca fez com a gente.
— Não é a mesma coisa — Lila rebateu, os olhos vacilantes e a voz trêmula. Ela estava sendo engolida por tantas revelações de uma só vez.
— Tem razão. Ele não mandou matar nossos pais — Diego respondeu com um dar de ombros, o tom carregado de sarcasmo. — Escuta, Lila. Você nasceu em 1º de outubro de 1989. No mesmo dia que todos nós.
Aquela frase parecia atingir Lila como um golpe. Ela apertou o punho que segurava a faca, tentando manter o controle.
— Se afastem! — berrou, avançando alguns passos com agressividade. Seus movimentos eram instintivos, defensivos, mas desesperados. Celeste recuou um passo, enquanto os outros se sobressaltaram.
— Ei! Para! — Diego pediu, as mãos erguidas em rendição.
— Ô, ô, ô, espera aí! — Klaus exclamou, incrédulo, o tom meio teatral.
— Calma! — Cinco interveio, franzindo o cenho. A paciência já era pouca, mas ele precisava que aquilo acabasse sem mais complicações.
Lila os ignorou e fixou o olhar em Diego, a mágoa pulsando em cada palavra:
— Eu confiei em você. Te dei um emprego, te apresentei pra minha mãe... e você fugiu de mim!
Diego respirou fundo, tentando manter a compostura.
— Só porque eu queria salvar o mundo! — retrucou com seriedade. Mas, apesar de sua justificativa ser válida, para Lila aquilo ainda soava como traição. — Ela tá te usando, Lila. A Gestora.
— Você tá errado! Ela me criou. Ela me ama! — Lila rebateu, mas sua voz começava a falhar, como se ela mesma não acreditasse completamente.
Antes que Diego pudesse responder, Luther entrou na conversa.
— Tá, quer saber? — Ele começou, atraindo a atenção de todos. Seus irmãos já sabiam que ele diria algo piegas, mas ainda assim o silêncio caiu sobre o grupo. — O amor não devia doer tanto assim.
O comentário teve o efeito oposto ao esperado. Cinco revirou os olhos, e Celeste soltou uma gargalhada debochada.
— Ah, é?! — zombou, dando um tapa leve no braço dele.
Lila aproveitou o momento para debochar também, levando o dedo à boca e fingindo que ia vomitar.
— Argh! — exclamou com teatralidade, torcendo o nariz.
Os outros bufaram ou riram, enquanto Luther afundava na vergonha, as orelhas ficando vermelhas.
— Tá, eu tentei! — ele disse, erguendo as mãos em rendição.
— E foi péssimo! — Celeste retrucou, afiada.
Cinco, impaciente, cortou o clima de brincadeira:
— Ele tá certo. A gente tem que matar ela. — Sem perder tempo, fez menção de atacar Lila, mas Diego rapidamente o segurou.
— Ei, Cinco! Para! — Diego grunhiu, puxando-o para trás. Cinco lançou-lhe um olhar furioso, claramente frustrado. Ele queria resolver aquilo de uma vez. — Eu resolvo isso.
Diego se virou para Lila, os olhos fixos nos dela.
— A verdade é que ela é perigosa — disse, a voz mais baixa agora, mas não menos intensa. — E você tem medo do que ela vai fazer com todo aquele poder. Foi por isso que me levou pra Comissão. Porque, no fundo, você sabe que eu entendo. Eu sei muito bem como é amar gente perigosa. A diferença... — ele fez uma pausa, encarando os irmãos brevemente. — É que eles também me amam.
Lila sentiu algo apertar em seu peito. Cerrando os punhos, ela tentou se agarrar à ideia de que a Gestora a amava, como sempre acreditou.
— Cala a boca! — gritou, mas sua voz não tinha a força de antes.
Diego se aproximou, devagar, até ficar frente a frente com ela. A faca tremia em suas mãos, mas ela não a abaixava.
— A única coisa que ela ama é o poder — Diego continuou, olhando direto nos olhos dela. — No minuto que você não for mais útil, ela vai te trair. E lá no fundo, você sabe disso.
Lila tentou se manter firme.
— Você não me conhece, Diego. — Sua voz soava mais fraca agora, mas seus olhos ainda estavam fixos nos dele, como se buscassem algo.
Diego deu um passo à frente, quase encostando na faca.
— Ah, não? — Ele arqueou uma sobrancelha, o tom desafiador, mas também cheio de compaixão. — Eu sei que nós podemos ser sua família. Se você quiser.
Por um momento, Lila hesitou. Seus olhos percorreram o grupo: Cinco, Celeste, Luther, Klaus... e, por fim, Diego. Ela queria odiá-los, mas, de alguma forma, aquela ideia de pertencimento a balançava. Sobretudo quando olhava para Diego, o homem que, apesar de tudo, a fazia sentir algo que ela nem sabia nomear.
O amor. Um sentimento absurdamente poderoso. Ele pode te elevar às alturas ou te afundar nas profundezas da própria sanidade. Cinco sabia bem disso. Não tinha dúvidas sobre o que sentia por Celeste, e a prova estava na forma como seus olhos pareciam magnetizados por ela, incapazes de se desviar por mais de alguns segundos.
Vê-la ali, no celeiro, vestindo a mesma roupa de quando havia se declarado para ele, o fazia feliz por lembrar daquele momento. Mas essa felicidade vinha misturada com um peso esmagador. Cada detalhe a lembrava de como ele a havia ferido, de como os anos de solidão deixaram marcas nela. "Eu a fiz esperar por mim por quinze anos. Depois, por mais seis", pensava. Quantas vezes mais ele a deixaria sozinha? Quantos anos ainda roubaria dela com sua obsessão por salvá-los do apocalipse? Era sempre isso, sempre o fim do mundo separando os dois. Esse objetivo inabalável, essa luta constante, sempre os afastava de tudo o que podiam ter como casal: um casamento, uma família, uma vida.
Naquele momento, vê-la brincar distraída com as mãos e tocar as manchas de sangue seco no casaco rosa lhe dava uma breve sensação de paz. Mas essa paz evaporou em questão de segundos quando a Gestora entrou no celeiro, carregando consigo o caos e destruindo tudo o que Cinco amava.
Os tiros ecoaram pelo espaço, rápidos e precisos. Uma sequência cruel de disparos de metralhadora tirou a vida de todos os presentes no celeiro — menos Lila.
O peito de Cinco foi perfurado. O estômago de Celeste foi atingido. A adrenalina inundou seus corpos, anestesiando a dor por um instante, mas o choque da perda os atingiu como um golpe. Seus olhos se arregalaram. Os corpos cederam ao chão. Cinco sentiu o gosto metálico do sangue invadir sua boca, um lembrete amargo de que tudo havia dado errado. O fracasso estava escancarado diante dele.
Celeste, por sua vez, levou a mão ao abdômen, onde a dor latejava. Sua roupa já estava encharcada de sangue, mas ela não chorava. Estava em paz segundos atrás, e agora, ali estava, caída. O fim parecia inevitável. Ainda assim, antes de partir, ela buscou por ele. Olhou ao redor, vendo os corpos de sua família. Todos mortos. Exceto Cinco. Sua mão trêmula tocou o próprio casaco, e seus dedos voltaram vermelhos de sangue.
Somente Lila permanecia ilesa.
Cinco lutava para respirar. Não podia morrer ali, não agora. Eles haviam estado juntos por apenas dezoito dias. Isso não podia ser o fim. Ele se forçou a se arrastar pela palha seca, deixando um rastro de sangue no chão enquanto sua força de vontade o movia. Ele precisava chegar até ela. Mas, ao olhar para Celeste, ele sabia. Ela estava partindo mais rápido do que ele. Seus olhos estavam abertos, mas o brilho neles começava a desaparecer.
Celeste não teve tempo de realizar seus sonhos. Nunca conseguria fazer faculdade de jornalismo, nem morar numa casa grande com quem amava. Nunca poderia adotar um gato preto ou um cachorro esperto. Nunca teria a chance de formar uma família com Cinco.
E Cinco? Ele nunca pôde tê-la de verdade. Nunca pôde viver ao lado dela como sempre sonhou. E agora, encarando a morte de perto, tudo parecia culpa dele.
— Cinco... — ela sussurrou, a voz fraca como um sopro.
Ele chegou até ela, o corpo pesado demais para se erguer. Segurou sua mão com força, ambas sujas de sangue, como se isso pudesse impedir o inevitável. Não conseguia chorar, mesmo que o desespero o consumisse. Era como no apocalipse. Seus olhos recusavam-se a aceitar o que estava acontecendo diante deles.
Então, ele a viu. A Gestora entrou no celeiro, o rosto estampado com um ar triunfante. Tudo o que Cinco fez parecia ter sido em vão. Ela havia vencido.
Celeste, com os últimos resquícios de força, tocou o rosto dele. Seus dedos frágeis e trêmulos acariciaram sua bochecha de um jeito que sempre o confortava. Mas não era para beijá-lo. Não dessa vez. As palavras que vieram em seguida o devastaram.
— Olhe para mim. — Sua voz era um fio de vida. O sangue escorria pela boca enquanto uma lágrima solitária descia pelo rosto dela. Mesmo assim, ela tentou sorrir para ele, um sorriso que mais parecia um consolo. — Quero morrer olhando para você.
Cinco sentiu o ar faltar de novo. Durante o apocalipse, ele dizia a si mesmo que a morte dela não era sua culpa. Ele não estava lá para salvá-la. Mas agora... Agora ele estava. E mesmo assim, havia falhado.
— Não... não, não, não... — Ele resmungou, desesperado, puxando o rosto dela para mais perto. Mas seus olhos estavam vazios agora. Celeste não piscava mais. Ela havia partido.
Cinco tocou o rosto dela, ainda quente, mas marcado pelo desespero da morte. Ele a puxou para perto, recusando-se a acreditar.
— Celly... Por favor... querida... — Ele sussurrou, como se suas palavras pudessem trazê-la de volta.
A Gestora, ao fundo, soltou um som zombeteiro, arqueando as sobrancelhas com falsa comoção.
— Ó... — Ela fez um bico teatral, como se estivesse realmente tocada. Depois, virou-se para Lila, que estava em silêncio.
— O que o Cinco disse é verdade, né? — Lila perguntou, a voz carregada de incerteza. Seus olhos buscavam respostas na mãe adotiva, temendo que elas fossem tudo o que ela temia.
A Gestora sorriu, aquele sorriso prepotente e cheio de escárnio.
— Querida, eu só preciso saber se podemos superar isso e voltar a ser uma família feliz. — Seu tom era quase irônico.
Lila fechou a expressão, agora mais determinada.
— Eles são minha família — respondeu, convicta.
A Gestora a olhou com decepção, como se ela não servisse mais a seus propósitos.
— Você me ama? — Lila perguntou, a voz embargada.
O silêncio da Gestora foi a resposta. Lila, então, apertou a faca em sua mão. Tinha um plano.
Enquanto isso, Cinco permanecia ao lado de Celeste, imóvel. Ele ainda não havia chorado. Não conseguia. Seus olhos estavam secos, mas sua alma estava despedaçada. Mesmo com a visão clara diante dele, ainda parecia impossível acreditar que Celeste estava morta.
Cinco olhou para as duas figuras perto da entrada do celeiro. Lila segurava a faca com firmeza e tentou atacar sua mãe adotiva, mas o som de novos tiros reverberou no ar. O barulho foi tão repentino que Cinco deu um salto, o coração disparado. "Depois desse dia, vou odiar disparos de arma", pensou, mas logo corrigiu, amargo: "Depois desse dia? Não vou viver muito além disso".
A visão de Lila caindo no chão, ensanguentada, confirmou o que ele já temia. A Gestora havia matado-a também.
— Que será, será... — disse a Gestora, dando de ombros e caminhando pelo celeiro com aquele ar de superioridade irritante, cuidando para não tocar nos corpos. Seus olhos brilharam de prazer ao ver Cinco, ainda agarrado às mãos de Celeste. — E você ainda tá vivo. Que sortudo! Conseguiu ver como tudo se resolveu.
Então, Cinco viu o cano da arma ser apontado para ele. Um frio cortante percorreu seu corpo. "É o meu fim", pensou, estranhamente tranquilo. Tudo o que desejava agora era encontrar Celeste no céu para pedir desculpas. Mas, num golpe de lucidez amarga, percebeu que não poderia estar com ela. Se o céu e o inferno existissem, estariam destinados a destinos opostos. Celeste era boa; ela merecia o céu. Ele? Nem de longe.
Com os olhos fechados, esperando pelo disparo final, apertou a mão de Celeste uma última vez. Levou os lábios até as costas da mão dela e a beijou com delicadeza, como se isso pudesse confortá-lo de alguma forma.
O som do disparo ecoou. Forte. Definitivo.
Mas ele ainda estava vivo.
Cinco abriu os olhos, confuso. Sangue respingou em seu rosto e manchou o corpo de Celeste. Diante dele, a Gestora caiu morta no chão. Cinco tentou se levantar, mas suas forças falharam. Ele só conseguiu observar o atirador.
Era Anthony.
Ele entrou no celeiro, analisando o massacre com um olhar pesado. Por um momento, parecia não perceber que Cinco estava vivo.
— Vi kom för sent. — Murmurou Anthony, irritado, enquanto franzia o rosto em desgosto. Ao seu lado, o último dos suecos permaneceu frio, observando os corpos com uma impassividade assustadora.
— Att rädda dem var hans plan. Inte min.— respondeu o sueco, o tom tão gelado quanto sua expressão. Seus olhos vagaram pelo celeiro até se fixarem em Cinco. — Din fiende är kvar, Anthony.
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Cinco sentiu o coração disparar. "Merda"
Anthony seguiu o olhar do sueco e finalmente viu Cinco. Ele estava pálido, respirando com dificuldade, e ainda agarrava a mão de Celeste. Mesmo à distância, Anthony reconheceu a garota. Ela havia sido como uma filha para ele.
Anthony parou, sentindo uma onda de culpa e náusea. Nada disso deveria ter terminado assim. Ele abandonara os planos de Amélia para se vingar da Gestora no final, mas, se soubesse que no incio sua escolha ceifaria a vida de Celeste, nunca teria se envolvido.
Sem pensar muito, ele atravessou o celeiro, ignorando os corpos no chão. Quando se aproximou de Celeste e Cinco, sua expressão era um misto de incredulidade e amargura.
— O que você fez? — sussurrou, sua voz carregada de dor.
A frase foi como um soco no estômago de Cinco. Ele odiava Anthony, desprezava cada parte daquele homem. Mas as palavras o atingiram porque ele sabia a resposta: "Foi minha culpa. Eu sei".
Anthony se agachou ao lado de Celeste. Sua mão tremeu ao tocar o rosto dela, ainda quente. Seus olhos analisaram a cena, absorvendo o horror do momento.
Cinco finalmente teve coragem de abrir os olhos. Anthony o encarava com um olhar tão carregado de decepção que era quase insuportável.
— Eu vim até aqui... — disse Anthony, com amargura na voz. — …só para salvá-la.
Ele se levantou, os ombros caídos sob o peso da culpa, e olhou para o sueco impaciente à porta.
— Jag kommer inte att kunna göra det mot honom — disse Anthony, a voz falhando.
O sueco franziu o cenho, surpreso com a hesitação.
— Att inte veta att Celeste älskade honom — completou Anthony, antes de virar o rosto, incapaz de encarar Cinco novamente.
O sueco bufou, impaciente, e caminhou até Cinco. Pegou a arma carregada de Anthony e apontou diretamente para o garoto. Anthony saiu do celeiro sem olhar para trás. Para ele, Cinco merecia morrer, mas não tinha forças para ser o carrasco.
Cinco sentiu o cano da arma fixar-se nele. Enquanto encarava a morte mais uma vez, as memórias vieram como um redemoinho. Ele viu Celeste sorrindo para ele, ouviu sua risada, lembrou-se dos pequenos momentos que compartilharam. O mundo se fechou ao redor dessas lembranças. Era tudo o que restava.
Cada toque, cada sorriso deslumbrante, o jeito como ela sorria, constrangida, enquanto lia aqueles livros absurdamente melosos. O bico raivoso quando as coisas não saíam do jeito dela. Os comentários afiados que sempre o faziam revirar os olhos... e aquela mania de segurar sua gravata como se tivesse o controle de tudo.
Cinco sentiu um aperto insuportável no peito. "Eu a amo tanto... e estraguei tudo."
Mas, em meio à dor, um lampejo de determinação brilhou dentro dele. Ele teve um momento de clareza. Talvez houvesse uma chance. Talvez, só dessa vez, ele pudesse consertar tudo. As lembranças, que antes eram apenas um lembrete doloroso de sua falha, agora o impulsionavam a tentar.
Não precisa terminar assim, ele pensou.
As palavras de outros momentos vieram à tona, como conselhos que, até então, ele tinha ignorado:
"— Você é o gênio que disse pra gente voltar no tempo, né? — Luther havia reclamado uma vez. — Você jogou a gente aqui!"
"— Talvez seu apetite seja grande demais pras duas habilidades, — Reggie havia aconselhado com sua frieza habitual. — Comece pequeno. Segundos, não décadas"
Com a respiração pesada, Cinco fechou os olhos e concentrou cada fragmento de energia que ainda tinha. Seu corpo começou a brilhar com uma névoa azul pulsante, revelando o esforço titânico necessário para executar sua habilidade.
O tempo começou a se desdobrar.
Anthony, que acabara de sair, voltou a entrar no celeiro. O sueco seguiu o mesmo caminho. A Gestora, caída no chão em uma poça de sangue, voltou a ficar de pé, como se a bala nunca tivesse a atingido. Lila também se levantou, e cada ferimento que havia ensanguentado o lugar começou a desaparecer.
Cinco sentiu o impacto do poder atravessando seu corpo como uma lâmina, mas não podia parar agora.
Ele viu Celeste. Os olhos dela, antes apagados, começaram a brilhar novamente. O casaco rosa, que antes estava encharcado de sangue, agora se limpava. Os projéteis que haviam atravessado o corpo dela e dos outros se dissolveram no ar, como se nunca tivessem existido.
Era como se o tempo estivesse correndo para trás em câmera lenta, desfazendo cada erro, cada tragédia.
Atravessando o celeiro, Cinco sentia a dor física e mental se intensificarem, mas a necessidade de salvá-los era maior. Ele continuou, com os olhos fixos em um único objetivo: trazer tudo de volta. Celly, sua família, o futuro que ele havia perdido.
E dessa vez, ele não aceitaria falhar.
「· · • • • ⛈︎ • • • · ·」
Cinco observava Celeste com um olhar carregado de carinho, mas sempre que ela o pegava olhando, ele rapidamente desviava os olhos, como se se envergonhasse de ser visto. Então, com um movimento rápido, usou seus poderes para se teleportar até perto da porta do celeiro. Celeste ergueu uma sobrancelha, confusa. Ela estava ao lado de Klaus, o suficiente afastada da porta para não ver tudo, mas próxima o suficiente para perceber que Cinco parecia inquieto. De repente, os olhos dele se encheram de sofrimento. Ele passou as mãos pelo uniforme da academia, como se não conseguisse acreditar no que estava acontecendo.
Celeste franziu a testa. "O que diabos está acontecendo?" pensou, observando-o com mais atenção. Enquanto isso, todos ao redor pareciam encarar a situação com desdém, como se nada estivesse errado.
Ela olhou para Klaus, que distraidamente brincava com as mãos, totalmente alheio ao discurso de Diego. Quando voltou sua atenção para Cinco, ele estava olhando fixamente para ela, e o brilho nos seus olhos parecia crescer. Ele parecia perder o ar, exatamente como na primeira vez em que conversaram após seu retorno. Celeste sentiu uma onda de inquietação. Uma necessidade urgente de entender o que estava acontecendo. "O que é isso?!"
— …Eu sei que podemos ser sua família, se você quiser — disse Diego, voltando sua fala para Lila.
Nesse momento, uma figura inesperada apareceu. Antes que Celeste pudesse reagir, Cinco se moveu rapidamente e tomou as armas das mãos da mulher que acabara de surgir. Era a Gestora. Celeste franziu o cenho, desconfortável. "Nos esquecemos dela", pensou, incrédula. "Que deslize maravilhoso". Todos pareciam tão confusos quanto ela, surpresos com a chegada repentina da mulher.
Cinco segurou a arma com firmeza e a apontou para a Gestora. Ela levantou as mãos em rendição, mas seu sorriso cínico não podia esconder a irritação. Seus olhos então se fixaram em Lila, cuja expressão refletia dor, uma dor visível e triste.
— É verdade, não é? O que o Cinco disse — Lila perguntou, os olhos marejados, encarando sua mãe adotiva. A Gestora manteve-se impassível. Celeste soltou um suspiro frustrado. Não entendia como Lila ainda não aceitava algo tão óbvio. — Me responde! É verdade?
— Olha… — a Gestora começou, tentando mais uma vez desviar da verdade.
Mas antes que ela pudesse terminar sua mentira, o som de um disparo cortou o ar. Celeste se sobressaltou, seu coração disparou. "Que merda é essa?!" Klaus, ao seu lado, encolheu as mãos, visivelmente assustado. No silêncio mortal que se seguiu, a Gestora caiu no chão.
Celeste abriu a boca, tentando emitir algo, qualquer coisa, mas nada saiu. Ela olhou para Lila, que estava com a mão na boca, aterrorizada, seus olhos arregalados de medo. Ninguém sabia de onde o tiro tinha vindo. O atirador ainda não havia se revelado.
Todos ficaram atônitos, tentando entender o que acabara de acontecer. Mas como se a situação não pudesse piorar, Lila correu em direção à maleta da mãe.
— A maleta! — gritou Celeste, empurrando Klaus para o lado e tentando se mover, mas a confusão a impedia de passar pelos irmãos. Eles ainda não haviam compreendido o que Lila queria fazer.
Luther, surpreendendo a todos, reagiu com rapidez. Ele tentou se jogar sobre Lila, mas Diego o impediu.
— Não! — gritou Diego, impedindo-o de avançar.
Num piscar de olhos, Lila sumiu com a maleta. Mas, antes que ela desaparecesse por completo, Diego trocou de lugar com ela, deixando Luther em cima dele, sem entender o que havia acontecido.
Celeste suspirou, incrédula. "Que família leiga. Sempre me surpreendendo", pensou, irritada. O barulho vindo da porta do celeiro fez todos se virarem abruptamente.
Poderia ser qualquer pessoa, mas Celeste imediatamente reconheceu quem era: Anthony. "Filho da puta", pensou, seu sangue ferveu de raiva. "Ele matou a Gestora? Não pode ser!". Ela cerrou os punhos, incrédula e furiosa.
Anthony colocou a pistola na cintura e ajustou o cinto utilitário com um sorriso de prazer estampado nos lábios. Como se estivesse se vangloriando, murmurou:
— Bra jobbat. Den här tiken manipulerade mig som en docka!
Cinco, ainda perto da porta, levantou a metralhadora que antes estava com a Gestora e apontou firme para Anthony.
O sangue de Celeste estava a ponto de ferver. Ela viu de relance os cabelos platinados de uma figura ao lado de Anthony, e como um pressentimento, teve certeza de que ele estava acompanhado. Mas, naquele momento, sua ira era implacável, nada a faria parar.
— Saiam da minha frente! — resmungou ela, empurrando os irmãos, determinada.
Com uma força quase imbatível, ela atravessou o celeiro. Em apenas dois segundos, Anthony percebeu quem era. Antes que pudesse reagir, ele recebeu um soco tão forte no rosto que chegou a cuspir sangue.
A família Hargreeves deu um salto. Aqueles que ainda não conheciam Anthony não faziam ideia do quão traiçoeiro ele havia sido com Celeste.
— Seu babaca maldito! — Celeste gritou, a raiva transbordando.
Allison, com sua habitual proteção de irmã, a puxou para longe.
— O que você está fazendo?! Ele está armado!
— ME LARGA, ALLIE! — Celeste gritou de volta, se debatendo. Nem a força de Allison foi suficiente para segurá-la. Ela se soltou, pronta para avançar novamente em direção a Anthony.
Cinco não impediu. Ele sentia que, de algum modo, Anthony merecia aquilo. Mas, ao mesmo tempo, ele ainda segurava a arma com firmeza. O Sueco, ao lado de Anthony, observava a situação impassível. Ele sabia que não era para matar ninguém. Não depois de Anthony ter falado tão bem de Celeste.
Quando ela avançou para agarrar a gola da camisa de Blake, ele a puxou para seus braços. Foi algo desesperadamente aconchegante, um abraço que a imobilizou enquanto ela se debatia de raiva.
Celeste ainda estava relutante. Não queria perdoá-lo de jeito nenhum, não depois de tudo o que ele havia feito. Mesmo assim, Anthony e o Sueco olharam para Cinco, que ainda estava com a arma em punho. Cinco olhou para a arma e, naquela situação, sabia que o melhor a fazer era abandonar as desavenças e deixar as coisas irem embora.
— Chega — Cinco disse finalmente, largando a arma e desistindo de todas as lutas incessantes.
Anthony e o Sueco se entreolharam, como se procurassem aprovação um no outro. Afinal, o Blake já havia desistido daquilo há muito tempo. O Sueco pensou, lembrando da morte dos seus irmãos e decidindo que o perdão parecia ser a melhor opção no momento. Deixar de vingar aqueles que você ama, de fato, era um ato nobre.
— Allt bra — o Sueco disse, concordando com a cabeça. Anthony o agradeceu com um olhar silencioso, tentando desesperadamente acalmar Celeste. Ela estava tão tomada de ódio que mal lembrava que poderia matá-lo a qualquer momento. A raiva a cegava, como sempre.
O Sueco deu as costas, cansado. Olhou para a Gestora morta, lembrando-se de que fora ela quem lhe dera aquele emprego maldito na comissão. Se ela nunca tivesse oferecido aquilo, quem sabe ele ainda teria seus irmãos vivos. Ele a odiava com todas as forças, e Anthony, certamente, também.
Quando o Sueco saiu, Cinco soltou um suspiro pesado. Havia conseguido.
Cinco então puxou Celeste dos braços de Blake, que a segurava com tanta força que ela não conseguia se soltar. Mesmo assim, Celeste não daria o braço a torcer. Ela se desvencilhou do abraço — que, para ela, cheia de rancor, não tinha sido nada reconfortante — e foi relutante para o lado de Cinco. Anthony os observava de uma forma diferente. Antes, ele via Cinco como um monstro. Agora, talvez, ele visse suas ações como algo que ele teria feito por Amélia.
— Eu quase peguei ela. Por que você me impediu? — Luther esbravejou, irritado. Os dois ainda estavam ridiculamente no chão. "Que cena", Celeste pensou, franzindo o cenho. Mesmo depois de tudo, ela ainda percebia que Cinco não estava bem.
— Porque… — Diego respondeu, fazendo todos o olharem, esperando sua explicação. Então, ele sorriu, um sorriso bobo e sincero. — …eu a amo.
Celeste revirou os olhos. Ela estava tão desgostosa com a presença de Anthony que, se Cinco dissesse alguma sacanagem em seu ouvido, ela ainda faria careta.
Luther ajudou Diego a se levantar, e todos olharam para Anthony, como se ele fosse um enigma a ser decifrado. Claro, isso exceto Diego, que o conhecia bem, e Celeste, que havia falado muito dele antes de ser traída.
— Vem cá… — Klaus começou, ainda meio relutante. — Quem era aquele cara?
— Agente da Comissão — Celeste respondeu, exausta. Olhou para Anthony com os olhos estreitos e desconfiados. — Que, pelo jeito, cultivou uma amizade bem agradável com esse traidor imundo. — Ela quase cuspiu as palavras. Anthony engoliu em seco.
Antes que os irmãos pudessem fazer mais perguntas, a voz de Sissy ecoou pelo celeiro em um grito de ajuda:
— Socorro!
Os irmãos se entreolharam, exceto Cinco e Celeste, que permaneciam fixos em Anthony, observando-o atentamente.
Vanya rapidamente desceu as escadas para o porão do celeiro, com os outros irmãos seguindo-a, esvaziando o local com uma pressa animadora para Celeste. Ela bufou, irritada. Como Anthony ainda estava ali? Aquele soco não havia sido suficiente?
— Eu preciso falar com você, pequena — Anthony falou, sua voz amarga, carregada de arrependimento. Os olhos dele a olharam com uma suavidade que, por um segundo, fez Cinco acreditar nele. Celeste fez uma careta de desgosto. "Eu vou matar esse merda se ele não sair da frente", pensou, irritada. — Eu me arrependi… profundamente.
Cinco olhou para ele. Lembrou-se da raiva que sentira quando viu que ele havia deixado Celeste morrer antes. Engoliu em seco, então deu duas batidinhas carinhosas no ombro dela.
— Converse com ele, querida — Cinco disse, determinado.
Celeste o olhou como se tivesse ouvido uma piada, mas não retrucou. Ouvir não significava perdoar. Não para ela. Ela concordou, ainda contrariada. Cinco saiu do celeiro, indo para a rua. Precisava de ar nos pulmões.
— Você tem dois minutos, e espero que não use todo esse tempo — Celeste falou, amarga, cruzando os braços e esperando com impaciência.
Anthony a olhava como um pai tentando se desculpar. Ele pigarreou, como se escolhesse as palavras com cuidado.
— Eu… acho que devo começar do início — ele começou, respirando fundo. O assunto era doloroso para ele. — Eu já trabalhei para a Comissão.
Celeste quase soltou um riso de escárnio. "Como ele sempre escondeu isso?! De mim? De Thomas e Sammy?!", pensou, irritada, mas, mesmo assim, ouviu com atenção.
Os próximos um minuto e quarenta e dois segundos foram suficientes para Anthony falar apressadamente — tentando respeitar o limite de tempo imposto por Celeste — sobre Amélia. Ele contou como se conheceram — ela no setor burocrático, ele como agente de campo. Explicou sobre o sonho que compartilhavam da diretoria e sobre o desgosto profundo que nutria por Cinco. Falou sobre a visita da Gestora à sua casa, dias antes, e a proposta que o fez lembrar de Amélia a ponto de quase acreditar em uma mentira: se fizesse parte da diretoria, ela voltaria a fazer parte de sua vida.
— Eu achei que… voltando para a diretoria, quem sabe, Amélia fizesse parte de mim novamente — sua voz vacilou. Ele respirou fundo e olhou para a porta do celeiro. Mesmo que Celeste não admitisse, ela estava se comovendo. — Mas então… depois de toda aquela matança na diretoria… eu percebi que trapacear nunca foi do feitio dela. Percebi que estava terrivelmente enganado — sussurrou, o arrependimento transparecendo. — Percebi que, ao invés de eu ter mais dela dentro de mim, tudo isso só me afastou do que ela me ensinou. Fui consumido pela ganância e me corrompi com uma farsa que eu mesmo criei.
Celeste deu um passo à frente. Ver Anthony falar tão abertamente sobre Amélia tocou seu coração de forma inesperada. Ela engoliu em seco, reconhecendo que ele não queria ter feito o que fez. Ou talvez fosse apenas seu infame senso de dar segundas chances aos outros falando mais alto.
— Me desculpe pelo que fiz, pequena. Por favor — ele pediu, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Celeste. Ela olhou para ele com atenção. — Se… se não quiser me perdoar, eu vou entender, mas-
E de repente, Celeste o abraçou. Não era um abraço reconfortante, ainda havia mágoa, mas o perdão estava ali, quase inevitável. Todos merecem uma segunda chance, pensou. Para Anthony, aquele abraço foi como o de Amélia, um gesto capaz de libertar todos os problemas que o aprisionavam. Celeste se tornou como uma filha para ele, e, apesar de ser perdoado, ele sabia que jamais conseguiria se perdoar.
Quando se afastaram, Celeste refletiu por um momento, ambos imersos naquele silêncio confortável. Ela falou, com um sorriso tímido:
— Eu te perdôo, Tony. — Ela deu uns tapinhas nas costas dele e começou a se afastar.
Anthony a observou, enquanto ela se distanciava, indo em direção à porta.
— Pode ficar por aqui até escurecer e conversar um pouquinho com o Cinco! — Ela gritou, já longe o suficiente para que ele a ouvisse. Anthony esboçou um sorriso. Era como se as coisas finalmente estivessem se consertando. Ela acreditava que ainda havia espaço para desculpas.
Celeste o deixou no celeiro, sozinho, refletindo sobre suas ações. Quando saiu, viu Cinco sentado nas escadas da varanda de Sissy, olhando para o horizonte. O vazio em seus olhos parecia o mesmo de alguns minutos antes. As mortes, a dor, tudo parecia tão distante e ainda tão presente. Celeste baixou os ombros, sentindo-se derrotada. Era como se precisasse falar com ele, por algum motivo. Ela caminhou lentamente em direção a ele.
Quando Cinco a viu se aproximar, não esperou que ela se sentasse ao lado dele nos degraus. Ele se levantou e a abraçou com uma força quase sufocante.
Celeste ficou confusa, mas algo dentro dela disse que aquilo era necessário. Ela envolveu os braços ao redor dele, retribuindo o abraço, como se ele precisasse daquilo mais do que ela. Cinco a abraçava com a força de quem tem medo de perder tudo. Ela abriu a boca, buscando palavras para confortá-lo.
— Você pode me contar o que aconteceu. — Ela sussurrou, a voz suave, só para ele ouvir, mesmo estando sozinhos.
Aquele abraço, para ele, foi tudo. Celly começou a acariciar a nuca dele, num gesto silencioso que dizia: "estou aqui por você"
Celeste era uma observadora nata. Tinha um palpite certeiro sobre o que ele havia passado, mas não queria pressioná-lo.
— Prometo te contar… em breve — ele disse, a voz trêmula. Cinco engoliu em seco, permanecendo ali, abraçando-a com toda a força que ainda lhe restava.
Ela não iria interromper aquele abraço, não até ele estar pronto. Não tinha ideia do quanto ele precisava disso. Quando finalmente se separaram, ela percebeu que o rosto dele estava molhado. Cinco limpou as lágrimas, envergonhado. Não se importava de chorar na frente de Celeste, mas se amaldiçoava por estar derramando lágrimas mesmo depois de tudo ter se resolvido. Por um instante, se chamou de fraco. Mas então, entendeu: ele não era fraco. Era Celeste que tinha a capacidade de torná-lo vulnerável, de abrir seu coração sem que ele se desse conta.
Antes que pudessem trocar mais palavras, um barulho familiar cortou o silêncio do gramado. Alguém estava chegando com uma maleta. O som, embora discreto, fez os olhos de Cinco se estreitarem, reconhecendo-o imediatamente.
Os três olharam para o gramado. Lá no horizonte, duas figuras surgiam: um homem baixo e uma mulher alta. Quando Celeste olhou para trás, viu Diego saindo do celeiro, claramente impaciente.
— O que vocês estão fazendo? — Diego perguntou, fazendo uma careta. Cinco colocou as mãos nos bolsos, já pronto para soltar um comentário ácido.
— Namorando — disse, dando de ombros. — Você saberia como é, se não tivesse espantado a Lila com sua loucura.
Diego fez uma careta, e Celeste segurou o riso. Ela olhou para Cinco, um olhar de repreensão silenciosa, como se dissesse: "Lila agora é assunto delicado. Cale a boca!"
Cinco revirou os olhos, mas Celeste, tentando restaurar o clima leve entre eles, falou, animada:
— Vamos atender as visitas e ser educados.
Os três se levantaram, caminhando lado a lado pelo gramado, mas sem pressa. Cinco, carinhosamente, colocou a mão nas costas de Celeste enquanto atravessavam o espaço, ainda à distância dos visitantes, mas ele já os reconhecia.
— Herb. Dot — ele cumprimentou, balançando a cabeça com um gesto de respeito.
Herb, o homem baixo, devia ter metade da altura da mulher ao seu lado. Dot, com seus cabelos crespos e pele negra, tinha uma presença marcante. Evidentemente muito mais tímida que o homem. Quando Herb avistou os três, riu com entusiasmo, e Celeste, com um sorriso divertido, já imaginava o tipo de pessoa que ele era — alguém evidentemente animado.
— Oi! Tudo bem, amigão? — Herb perguntou, sorrindo enquanto trocava um aperto de mão estiloso com Diego.
— Tudo bem?
— Que bom ver vocês — Cinco sorriu de volta, genuinamente contente. Para ele, ver alguns rostos conhecidos era sempre um alívio.
Herb e Dot viraram-se então para Celeste, observando-a com curiosidade e respeito.
— Oi — ela disse, um pouco envergonhada pela atenção.
Herb e Dot trocaram olhares rápidos antes de voltarem a olhar para ela.
— Quem diria... a Número Oito — Herb sorriu, impressionado. — Nunca imaginei que lhe conheceria, querida Celeste. O Cinco vivia falando de você!
Celeste sentiu o estômago dar uma leve reviravolta. Ela sorriu de forma um pouco prepotente, estendendo a mão para cumprimentá-los.
— Ah, falava? — ela perguntou, levantando uma sobrancelha. Cinco revirou os olhos, seu gesto de implicância cotidiana. — Só as coisas boas, eu espero.
— Ah, sim. Vivia dizendo que voltaria para você. Não sei como realmente ficamos surpresos quando ele quebrou o contrato da primeira vez — Herb deu de ombros, rindo. — Acho que não levávamos ele a sério, e então, o que ele disse, ele cumpriu.
— Eu sou um homem de palavra, Herb — Cinco respondeu, com um sorriso cheio de si, observando Celeste se divertir.
Herb e Dot se entreolharam, mas logo lembraram-se do motivo de estarem ali.
— Eu não acredito — Herb comentou, fazendo uma careta. — Será que...
— ...ela morreu dessa vez? — Cinco completou, curioso.
— Morreu — Celeste respondeu sem cerimônia. Herb soltou um suspiro, surpreso. Ele levantou as sobrancelhas, como se pensasse: "Dessa vez, com certeza. Eu espero".
— Agora que a gestora morreu, o que acontece com a Comissão? — Cinco perguntou, intrigado. Ele franziu o cenho. Sem a diretoria e sem a gestora, ele realmente não tinha ideia do que aconteceria. Diego e ele trocaram um olhar rápido.
— Bom, é que na verdade...
— Vai, conta pra eles — Dot incentivou, sorrindo alegremente.
— Temos que eleger uma nova diretoria — Herb explicou. — Mas, até lá... ah... me escolheram para presidente interino — ele disse, fazendo Dot bater palmas, animada com a conquista do colega de trabalho.
— Fala sério! — Diego sorriu com a notícia. Ver Herb tomando algum espaço, para os dois, que o conheciam há mais tempo, era no mínimo emocionante. — Parabéns, Herb. Maneiro!
— Eu estou nervoso.
— Vai se sair bem — Cinco afirmou com confiança, sorrindo encorajadoramente.
— Obrigado — Herb respondeu, claramente envergonhado com tantas parabenizações.
Antes que Cinco deixasse a oportunidade escapar, ele olhou por cima do ombro de Herb, vendo as inúmeras maletas.
— Herb, precisamos de um favor — Cinco comentou, ainda um pouco inseguro sobre o pedido. Ele sabia que Herb era legal, mas, quem sabe... talvez ele não os deixasse na mão. Ele não estava muito empolgado com mais regras ou com a possibilidade de ser perseguido novamente.
— Claro, qualquer coisa — Herb respondeu prontamente.
— Uma maleta. Pra voltarmos pra casa, pra nossa época — Cinco disse, sem rodeios.
Herb estreitou os olhos, gostando do pedido. Ele sorriu, virando-se para encarar o gramado repleto de agentes e maletas, com uma energia quase contagiante. Era o tipo de pessoa que sentia prazer em ajudar os outros.
— Você escolhe — ele disse, apontando para o local.
Celeste olhou para Cinco, esperando que ele deixasse ela pegar a maleta. Algo nela queria fazer isso, e ela não sabia exatamente o porquê, mas sentiu que seria algo interessante. Como se os olhos deles compartilhassem uma comunicação silenciosa, Cinco deu de ombros.
— Pode fazer a honra, Sunshine — Cinco disse, dando-lhe total liberdade para escolher a maleta.
Celeste correu pelo gramado, parando de maleta em maleta, até que encontrou uma que lhe chamou a atenção — era mais chamativa, com uma lista de tinta rosa no centro, que certamente não havia sido proposital. Ela ergueu a maleta, sorrindo triunfante, enquanto olhava para os outros, uma mistura de vitória e alegria estampada no rosto.
「· · • • • ⛈︎ • • • · ·」
⛈︎彡𝐃𝐮𝐚𝐬 𝐡𝐨𝐫𝐚𝐬 𝐚𝐩𝐨́𝐬 𝐨 𝐟𝐢𝐦 𝐝𝐚 𝐛𝐚𝐭𝐚𝐥𝐡𝐚.
O breu da noite cobria tudo ao redor, mas a fraca luz que emanava da casa de Sissy dava à rua um ar aconchegante. O céu escuro parecia pesar sobre o cenário, tornando a atmosfera melancólica, especialmente porque todos sabiam que logo retornariam para casa, para suas épocas.
Sentada na larga escadaria da casa de campo, Celeste olhava as estrelas com um ar de serenidade, mas sua mente estava a mil, pensando em tudo o que faria quando voltasse para 2019. As lembranças do presente misturavam-se com os planos do futuro, e cada pequeno detalhe a fazia sorrir internamente.
Antes de ela estar ali sozinha, porém, as escadas haviam sido o palco de uma conversa bem peculiar. Cinco e Anthony, os principais responsáveis por ainda estarem no ano de 1963, tinham passado horas conversando, o que fez com que o resto da família se entediasse rapidamente. Aquela conversa entre eles parecia ter sido o lugar onde o perdão finalmente floresceu, como se, em meio a assuntos aleatórios, a tensão entre ambos fosse suavizada.
Até mesmo o típico papo de pai para genro foi puxado, mas Celeste não estava lá para aproveitar as piadas. Ela perdeu a chance de ouvir Cinco falando sobre eles, sobre o apocalipse, o tempo perdido, as "quinze mais seis" longos anos de espera dela, verdadeira idade da garota, e o motivo dela ter chegado àquele ano com apenas dez anos fisicamente.
E quando Anthony foi se despedir, ela presenciou algo histórico: ele chorou da saudade que teria dela, algo que ele jamais teria mostrado em outras circunstâncias.
Celeste estava absorta nesses pensamentos quando foi interrompida pelo som de passos descendo as escadas. Luther apareceu primeiro, seguido pelos outros irmãos. Cinco estava com os documentos de Celeste Hale em mãos, tendo-os pegado assim que percebeu que ela os esqueceria. Era como se a missão de voltar para 2019 fosse apenas mais um detalhe para ele, mas não para ela.
— Todo mundo pronto? — Cinco perguntou, com sua calma habitual.
— Vambora! — Diego respondeu animado, a empolgação visível em sua voz.
— Vem, Celly — Cinco chamou, segurando a mão de Celeste com um toque firme e gentil, conduzindo-a até o círculo que os irmãos já formavam.
Cinco estendeu o documento para ela, e Celeste o agarrou rapidamente, temendo que o vento da viagem o arrancasse de suas mãos. A única vez que ela tinha viajado com uma maleta foi no plano traiçoeiro da Gestora, e, se os teletransportes de Cinco já a deixavam tonta, com a maleta era dez vezes pior.
Os irmãos se alinharam, lado a lado, se preparando para a viagem no tempo. O ar estava carregado de antecipação.
— Tá bem — Cinco falou, começando a ajustar a maleta, fazendo um gesto para abrir e iniciar a viagem. Mas antes que pudesse dar o passo final, foi interrompido por Klaus, que saiu correndo da roda com um "Espera aí!" resmungado.
Celeste revirou os olhos, irritada com a demora.
— Vamos logo, panaca! — ela gritou, já sem paciência.
— Pago cinquentinha pra deixar ele aqui — Diego murmurou no ouvido de Cinco, fazendo Celeste soltar um sorriso traíçoeiro. Ela apertou ainda mais a mão de Cinco, sentindo a tensão no ar.
— Estamos cogitando ir sem você! — Celeste gritou novamente, com um tom ameaçador. Klaus deu um salto, correndo de volta à varanda com um chapéu de cowboy na mão, com medo de ficar para trás.
— Prontinho! — Klaus gritou, finalmente de volta, com o chapéu sobre a cabeça.
Os irmãos, finalmente lado a lado, se aproximaram uns dos outros, sentindo o momento da viagem se aproximar. O vórtex começava a se formar.
A maleta foi aberta com um estalo elétrico, soltando uma descarga que iluminou a área ao redor. A eletricidade gerada foi suficiente para iniciar o processo de teletransporte, e, enquanto a energia zumbia no ar, o vórtex foi se expandindo, engolindo todos eles.
Com isso, as pessoas conhecidas, as memórias construídas e os laços que haviam sido formados desapareceram no turbilhão do tempo, enquanto eles eram transportados para outro lugar, outra época, deixando para trás tudo o que haviam vivido.
Socorro esse capítulo tá gigantesco.
Enfim! Terminamos a season two!
Agora se preparem para a terceira (que eu já estou cheia de ideias)
Enfim, espero que tenham gostado!
O cast e prólogo valerão como postagem semanal, portanto, o primeiro capítulo sai (no mínimo) no próximo domingo!💗
Talvez eu fique inativa por uma semana! Estou dando meu melhor pra continuar a história, porém está sendo de fato cansativo com a rotina que estou tendo
Assim que eu conseguir, voltarei a normalidade.
Boa semana, leitores! votem e comentem!🔅
revisão concluída ☑️💚
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