➙ 𝐏𝐑𝐎𝐋𝐎𝐆𝐔𝐄 𝐓𝐇𝐑𝐄𝐄
Enquanto os irmãos encaravam o vórtex azul pairando sobre suas cabeças, o ambiente mudou bruscamente. Um segundo antes, estavam no gramado vasto da mansão de Sissy, e, num piscar de olhos, quase caíram sobre a mesinha no hall de entrada da Umbrella Academy.
A escuridão da noite foi deixada para trás, substituída pela familiaridade acolhedora da sala. O cheiro de livros velhos e a luz amarelada das lâmpadas arrancaram suspiros involuntários de alívio. Depois de tudo que haviam passado, parecia que, finalmente, as coisas estavam resolvidas.
Mas viajar no tempo tinha um impacto peculiar no corpo, e Celeste sentiu isso de forma mais intensa. Uma dor aguda pulsava em suas têmporas, um enjoo persistente a invadia - embora nunca vomitasse -, e a sensação de mal-estar parecia querer engoli-la inteira.
- Nossa! Caramba! - exclamou Diego, ofegante e ainda atordoado pela sua primeira experiência temporal.
- Tudo bem. Que dia é hoje? - Celeste perguntou, franzindo a sobrancelha. Será que tudo havia sido tão simples assim? Por dentro, ela rezava para não terem trazido o apocalipse de volta.
Cinco ignorou o desconforto no próprio corpo e, com um gesto quase protetor, pousou uma mão nas costas de Celeste enquanto largava sua maleta sobre a mesinha do centro.
- E aí, quando estamos? - Diego repetiu, ansioso, encarando Cinco. O olhar de todos estava fixo nele, como se aguardassem uma revelação dramática.
Um sorriso cúmplice apareceu no rosto de Cinco antes da resposta.
- Dois de abril de 2019 - anunciou. Sua voz carregava um misto de descrença e alívio. - Um dia depois do apocalipse.
O suspiro coletivo que ecoou na sala parecia carregar o peso de uma vida inteira. Celeste ficou boquiaberta, incapaz de formular palavras.
- Então a gente impediu ele! - gritou Allison, a alegria transbordando em sua voz.
- Ai, meu Deus! Acabou? - perguntou Vanya, atordoada, quase sussurrando. Sua incredulidade refletia o que todos sentiam: estavam vivos, e o mundo não tinha acabado.
- A gente teve sucesso em alguma coisa? - Klaus brincou, com seu típico tom zombeteiro. - Que incrível!
Celeste sentia como se estivesse em um sonho. Nunca imaginou que realmente venceriam. Seu maior desejo - uma vida tranquila ao lado de quem amava, sem o peso de um apocalipse iminente - finalmente parecia ao alcance. Um sorriso largo e quase incrédulo tomou conta de seu rosto. Antes que percebesse, atirou-se nos braços de Cinco, rindo e gritando:
- Conseguimos!
O abraço foi tão apertado quanto a felicidade que explodia dentro dela. Cinco, pego de surpresa, devolveu o gesto, segurando-a firme. Um sorriso vitorioso iluminou seu rosto enquanto girava Celeste no ar.
Klaus, animado com o clima de celebração, bateu palmas e declarou:
- Olha, não sei vocês, mas eu preciso de uma bebida!
Celeste desceu dos braços de Cinco, ainda segurando seu ombro, como se o contato fosse algo que ela não quisesse romper.
- A-ha! É exatamente disso que precisamos! - concordou ela, radiante. - Eu faço questão de te acompanhar!
Cinco lançou um olhar de soslaio para ela, ponderando se deveria lembrá-la de como bebida e Celeste costumavam ser uma combinação... vergonhosa. Mas, com um suspiro resignado, decidiu que apenas ficaria de olho. Não adiantaria tentar impedi-la.
- Precisamos beber várias coisas! - exclamou Klaus, levantando os braços teatralmente.
- Eu topo! - sorriu Vanya, contagiada pela animação.
Os irmãos começaram a se mover em direção à sala de estar, mas Allison hesitou.
- Vou ligar para Claire - anunciou. Ela estava ansiosa para ouvir a voz da filha novamente, mesmo com o peso de ter deixado Ray no passado.
- Ah, vem brindar primeiro! - pediu Luther, segurando sua mão e guiando-a para a sala. Allison cedeu, mesmo relutante.
O clima era de celebração, um misto de alívio e euforia preenchendo o espaço. Tudo parecia perfeito, talvez até melhor do que antes.
No entanto, Diego parou no meio da sala, seus olhos fixos em algo diferente. A enorme pintura que antes exibia a imagem de Cinco agora mostrava Ben. A pose autoritária - o braço apoiado na poltrona e um olhar severo - contrastava com a vibração alegre do momento. Era um detalhe sutil, mas que carregava implicações maiores do que eles poderiam imaginar.
Celeste, mesmo com seu olhar atento, estava distraída demais para perceber algo estranho. Correu para a bancada de bebidas junto com Klaus, os dois rindo enquanto enchiam seus copos de tequila, claramente alheios ao ambiente ao redor.
- Por que tem uma pintura do Ben em cima da lareira? - Diego perguntou, casualmente, mas com um tom que carregava desconfiança.
Celeste não deu atenção, focada em sua bebida. Klaus, no entanto, franziu o cenho e cutucou o braço dela.
- Olha isso - disse, apontando para o quadro.
Ela suspirou, deixou o copo na bancada e caminhou até onde os irmãos começavam a se reunir na sala. Ao erguer o olhar para a lareira, arqueou uma sobrancelha, intrigada. "Por que diabos trocaram a pintura?" pensou. Gostava bastante do quadro antigo. Na verdade, gostava muito. Ainda conseguia lembrar do detalhe sutil do cabelo penteado de Cinco, algo que achava adorável. Embora admitisse que a nova obra, retratando Ben, fosse bonita, aquilo parecia... fora de lugar.
Antes que pudesse ponderar mais, seus pensamentos foram cortados por uma voz grave que ecoou pela sala:
- Sabia que vocês apareceriam um dia.
A frase, dita com a calma característica de Reginald, fez todos os irmãos darem um salto. Olharam para o sofá quase em uníssono e, para seu choque, perceberam que ele estava ali o tempo todo, sentado com a tranquilidade irritante que lhes era tão familiar, observando o quadro pendurado na lareira.
Ele se levantou lentamente, sem pressa, o olhar frio e analítico varrendo o grupo. Celeste sentiu o cenho se franzir automaticamente. Não era apenas o fato de ele estar vivo que a incomodava - embora isso já fosse suficientemente assustador. Era o fato de que ele parecia igual ao último dia em que o viram, com exceção de alguns fios de cabelo branco a mais. "Como isso é possível?" pensou, tentando juntar as peças.
- Pai? - murmurou Celeste, a voz saindo num sussurro quase hesitante.
Os irmãos trocaram olhares tensos, claramente desconfortáveis com o que viam. O clima leve e descontraído de minutos atrás desaparecera, dando lugar a uma tensão que fazia o ar parecer mais pesado.
E, para piorar, Celeste não estava nada bem. O mal-estar que ela atribuía à viagem no tempo não havia passado, e isso começava a preocupá-la. O estômago revirava, os braços e o pescoço coçavam de maneira insuportável, e uma sensação incômoda tomava conta dela, como se algo não estivesse certo em seu próprio corpo.
- Você tá vivo - murmurou Diego, incrédulo, os olhos arregalados.
- Por que eu não estaria? - rebateu Reginald, arqueando as sobrancelhas como se fosse a pergunta mais absurda que já ouvira. Ele cruzou as mãos à frente do corpo, sua postura rígida e confiante apenas aumentando a tensão no ambiente.
Luther tentou preencher o silêncio constrangedor com um sorriso nervoso.
- É... é, tem razão. - Sua voz era trêmula, insegura. - Eu só tô feliz porque estamos juntos e em casa outra vez.
Celeste, desconfiada, lançou um olhar para Cinco, que havia se aproximado silenciosamente. Ele a observava com preocupação, notando o suor que escorria por sua testa. "O que está acontecendo com ela? Nem está calor..." pensou, alarmado.
Reginald não pareceu minimamente tocado pela tentativa de Luther de aliviar a tensão. Seu olhar frio varreu o grupo mais uma vez antes de declarar:
- Em casa? Essa não é sua casa.
A frase caiu como uma pedra, fazendo os irmãos engolirem em seco. Celeste sentiu um calafrio percorrer sua espinha, como se toda a felicidade e alívio da viagem anterior tivessem sido arrancados num instante. O que quer que estivesse acontecendo, estava apenas começando - e não parecia ser algo bom.
- Do que está falando? - Allison perguntou, arqueando uma sobrancelha, a voz carregada de desconfiança. Ela abriu a boca para continuar, mas as palavras não saíram de imediato. Foi preciso reunir coragem para terminar, como se já soubesse que estava errada. - Essa é a Umbrella Academy.
- Errou de novo. - A resposta de Reginald foi tão direta e cortante que parecia carregar um peso invisível. Todos os irmãos se entreolharam, confusos.
Cinco engoliu em seco, seus olhos se estreitando em desconfiança. Ele deu um passo à frente, pousando a mão nas costas de Celeste em uma tentativa de confortá-la. Para sua surpresa, ela se afastou bruscamente, irritada. Ele franziu o cenho, sentindo uma pontada de preocupação. Por um momento, estava mais incomodado com a rejeição dela do que com a situação surreal envolvendo Reginald.
- Esta é a Sparrow Academy - declarou o pai, com a habitual frieza que fazia o sangue de todos gelar.
Os irmãos franziram o cenho quase ao mesmo tempo, como se tivessem ensaiado a perplexidade. "Essa rejeição do nada?!" era o pensamento que atravessava a mente de cada um. Como ele podia agir assim com eles? Nada fazia sentido. Algo estava definitivamente errado.
Então, um som ecoou pelo mezanino. O rangido da madeira os fez girar rapidamente, seus olhos buscando a origem do barulho no andar superior. A tensão era palpável, e o nervosismo parecia diminuir sua capacidade de pensar com clareza. Celeste, já em um estado deplorável, mal conseguia manter a concentração.
Seis figuras apareceram no topo da escada, suas silhuetas obscurecidas pela luz natural que entrava pelas janelas. A cena parecia tirada de um filme de suspense. Os irmãos ficaram paralisados, esperando desesperadamente por uma explicação lógica. Mas a lógica parecia ter abandonado o ambiente há muito tempo.
E então, passos ecoaram pela escadaria. Mais duas pessoas desciam, com uma calma que beirava o irritante. Quando a primeira figura entrou no campo de visão, os irmãos prenderam a respiração
- Ô, pai, quem são esses babacas? - perguntou o homem, com um tom casual que só tornava a situação mais absurda.
Era Ben. Benjamin Hargreeves. O irmão que, na primeira linha do tempo, havia morrido tragicamente durante uma missão. Ali estava ele, vivo e bem. Mas... diferente. Seu semblante era mais duro, mais sério. Ele parecia um estranho, uma versão alternativa que não se encaixava na memória de nenhum deles.
Logo atrás dele, outra figura começou a descer as escadas. Quando chegou ao pé da escadaria, a semelhança com Celeste era inegável. A nova chegada estava suada, paranóica, claramente irritada e desconfortável - um espelho perfeito do estado atual de Celly, com exceção de que aquela versão desconhecida era coberta por cicatrizes horrendas.
A Número Oito sentiu um calafrio. Era como se estivesse vivendo o que Cinco experimentou em 1963, ao encarar outra versão de si mesmo. Aquilo era, simplesmente, aterrorizante.
"Temos visita?", perguntou a outra Celeste, em libras. Havia algo paranoico em sua postura.
Os irmãos congelaram, trocando olhares que refletiam puro choque. Era como se estivessem presos em um pesadelo, mas sabiam, no fundo, que aquilo era bem real.
- Merda - disseram todos em uníssono, o som preenchendo o silêncio opressor da sala.
Não se acanhem! Votem e comentem!
revisão concluída ☑️💚
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