𝐈𝐍𝐂𝐎𝐌𝐏𝐄𝐓𝐄𝐍𝐓
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𝐂𝐇𝐀𝐏𝐓𝐄𝐑 𝐓𝐖𝐄𝐍𝐓𝐘 𝐎𝐍𝐄
𝐈𝐍𝐂𝐎𝐌𝐏𝐄𝐓𝐄𝐍𝐓
A VIAGEM DE Celeste e Cinco até a distante fazenda onde Vanya estava hospedada foi, apesar da pressa, surpreendentemente tranquila. O velocímetro marcava um pouco além do limite recomendado, mas no interior do carro reinava uma calma incomum. O calor entrava pela janela, o sol iluminava os rostos da dupla e a vasta paisagem ao redor parecia suavizar a tensão que carregavam.
Quando chegaram, foram recebidos por Sissy, uma mulher de aparência discreta e comportamento levemente envergonhado. Vanya falara bastante sobre ela. Para Celeste, Sissy parecia uma mulher forte, mas ainda assim simpática. Era loira, alta e magra, com uma postura esguia e olhos azuis marcantes. Observando o pequeno Harlan, filho de Sissy, Celeste notou que os olhos eram a única característica que ele compartilhava com a mãe. O resto dele era singular, certamente mais parecido com o pai.
Era tímido, peculiar. De alguma forma, lembrava Celeste de uma pessoa com espectro autista. Ela sabia que, naquela época, diagnósticos assim eram raros e negligenciados.
A estadia na fazenda foi breve. Disseram algo com: "Somos irmãos de Vanya, sabe onde ela está?". Assim que Sissy confirmou que Vanya não estava lá — havia saído com Carl, seu marido, e ainda não retornara —, os dois agradeceram e voltaram ao carro apressados. O tempo parecia um inimigo cruel, e a pressão era quase sufocante. Assim que entraram no veículo, Celeste deixou sua frustração explodir.
— Não acredito que a Vanya não tá na fazenda! — Ela praticamente gritou, batendo a porta com força ao se sentar. Cruzou os braços, enquanto Cinco, ao lado, parecia tão irritado quanto ela.
— Que merda. Isso só vai atrasar as coisas — resmungou ele, a voz baixa, mas carregada de tensão. Seus dedos tamborilavam impacientemente no volante, enquanto seus pensamentos pareciam fervilhar.
— Tem ideia de onde ela pode estar? — Celeste perguntou, os olhos fixos nele, cheia de expectativa. Cinco franziu a testa, girando a chave na ignição com um suspiro pesado.
— Vamos dar uma voltinha. — Ele deu de ombros, claramente sem um plano. — Quem sabe a gente encontra ela no caminho.
Celeste soltou um suspiro longo e frustrado, tentando acalmar os nervos em frangalhos. Olhou para o relógio e resmungou baixinho: "Maldita Gestora", as palavras saindo como veneno entre os dentes. Cinco, ao lado, parecia ainda mais abalado que ela. A atmosfera no carro estava densa, carregada de um silêncio quebrado apenas pelo rádio, que tocava "Can’t Help Falling in Love", de Elvis. A serenidade da música era um contraste cruel com o turbilhão de emoções que viviam.
A velocidade do carro aumentava mais uma vez, cortando o ar como uma flecha, enquanto os limites de segurança eram deixados para trás. Cinco mantinha os olhos fixos no asfalto, completamente concentrado, mas sua mente parecia correr ainda mais rápido do que o veículo. Ao lado dele, Celeste o observava com atenção, buscando qualquer sinal, por menor que fosse, da energia de Vanya.
— Você está nervoso — afirmou, sua voz soando mais como uma constatação do que uma pergunta.
Cinco desviou o olhar da estrada por um breve momento, como se tivesse sido puxado de um pensamento profundo. O silêncio no carro se tornou ainda mais pesado, quase opressor, antes que ele finalmente respondesse, engolindo em seco.
— Sim. — Admitiu, com uma simplicidade que carregava um peso esmagador. — Estou com medo, querida.
Celeste se endireitou no banco, alarmada pela confissão. Cinco raramente mostrava fraqueza, e vê-lo assim a deixou inquieta. Ele soltou um suspiro pesado, como se tentasse aliviar a ansiedade que o consumia, antes de continuar.
— Eu… voltei a matar só por isso. Não queria… eu prometi a mim mesmo que nunca faria isso de novo. E fiz. — Ele parou por um momento, sua voz tremendo levemente. — Se isso der errado, Celly…
A voz dele falhou, e ele respirou fundo, tentando reunir forças para continuar. Quando finalmente olhou para ela, mesmo que por apenas um instante, seus olhos castanhos estavam carregados de emoções que palavras não poderiam expressar.
Celeste sentiu o coração apertar. Estendeu a mão e pousou-a no ombro dele com firmeza, um pequeno sorriso tranquilizador surgindo em seus lábios.
— Vai dar certo. — Garantiu, sua voz soando confiante, embora internamente ainda lutasse contra suas próprias dúvidas.
Cinco apenas assentiu, quase mecanicamente, sem transmitir muita convicção. O ar dentro do carro parecia carregado, sufocante. Celeste percebeu que precisava mudar o clima antes que o peso da tensão os esmagasse.
— Podemos… mudar de assunto? — Sugeriu, inclinando-se levemente na direção dele, como quem pede permissão.
Cinco permaneceu em silêncio por alguns segundos, perdido em pensamentos, mas acabou concordando com um breve movimento de cabeça. Era uma abertura mínima, mas o suficiente para ela tentar aliviar o ambiente.
Ainda assim, Celeste hesitou. Não sabia exatamente o que dizer e, completamente improvisada, deixou escapar a primeira coisa que lhe veio à mente.
— Como era no apocalipse?
Cinco virou o rosto para ela, franzindo o cenho com uma expressão que dizia: sério isso?
— Você não tá ajudando. — Resmungou, a voz carregada de exaustão enquanto voltava sua atenção para a estrada. A simples menção àquele inferno fez seu estômago revirar.
— Desculpa. — Murmurou Celeste, o rubor subindo em seu rosto. Apertou as mãos no colo, frustrada por ter piorado o que já estava ruim.
Para sua surpresa, a tensão foi quebrada por uma risada baixa e inesperada de Cinco. Era o tipo de riso que escapava sem aviso, carregado de incredulidade.
— Você é péssima tentando ajudar, meu Deus. — Ele resmungou, mas havia um toque de diversão em sua voz.
Celeste começou a rir também, o som claro e espontâneo preenchendo o carro como uma lufada de ar fresco.
— Eu não sabia o que falar! — Defendeu-se, dando de ombros. Relaxou no banco, apoiando o cotovelo na janela enquanto tentava conter o riso.
"Ela é adorável mesmo", ele pensou. Cinco a observou de canto, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios. Por um momento, seus pensamentos ansiosos se dissiparam, e tudo o que ele conseguia pensar era em como ela era adorável.
— Ao invés de olhar para o passado, devemos olhar para o futuro. — Disse ele, com um tom misterioso, enquanto voltava a atenção para a estrada. — Me pergunte o que eu farei quando voltarmos.
Celeste arqueou uma sobrancelha, já se preparando para algo inesperado. "Lá vem", pensou, contendo um sorriso divertido.
— O que você vai fazer quando voltarmos? — Perguntou, fingindo casualidade.
O sorriso dele se alargou, e o brilho determinado em seus olhos a desconcertou.
— Vou comprar meu carro favorito, construir nossa casa e, depois… — Ele fez uma pausa dramática, apreciando o suspense. — Ou antes, não sei. — Corrigiu-se, sem perder o tom provocador. — Vou te pedir em casamento.
Celeste soltou uma gargalhada tão espontânea que fez o coração dele bater mais forte. Ela virou o rosto para a janela, tentando disfarçar o calor que subia até suas bochechas, mas não conseguiu evitar um sorriso enorme ao olhar para ele de novo.
— Tenho a impressão de que a última parte costuma ser surpresa, sabia? — Disse, com um brilho divertido nos olhos.
— Eu não consigo guardar segredo de você. — Respondeu Cinco, dando de ombros, como se fosse óbvio.
Por um instante, o mundo pareceu parar. Havia algo de único entre eles, uma conexão tão profunda que transcendia palavras. Enquanto Celeste sorria, Cinco pensou consigo mesmo: É por ela que vale a pena enfrentar qualquer apocalipse.
A leveza daquele momento durou alguns segundos até Celeste voltar a se concentrar em captar a energia de Vanya. Enquanto isso, Cinco, mais tranquilo, focava na estrada à frente. Estavam cruzando um entroncamento quando Celeste sentiu um súbito arrepio — um palpitar familiar.
— Freia! — Gritou de repente.
Cinco, alarmado, pisou no freio com força, fazendo o carro parar abruptamente. Ele olhou pela janela e viu outro veículo estacionar logo atrás deles. Reconheceu de imediato. Era Vanya.
Celeste não perdeu tempo. Soltou o cinto com pressa, abriu a porta e saiu do carro. O sol intenso bateu diretamente em seu rosto, obrigando-a a erguer a mão para proteger os olhos. Ela deu a volta no carro no mesmo momento em que Cinco descia também.
— O que estão fazendo aqui? — A voz de Vanya soou confusa, carregada de curiosidade e alarme. Ela se aproximou com hesitação, mantendo certa distância.
— Te procurando. — Celeste respondeu rápido, a urgência transparecendo em cada sílaba.
Vanya franziu o cenho, surpresa. Aquela abordagem parecia surreal para ela. "Assim do nada?", pensou.
— Vamos voltar pra 2019. — Cinco explicou, avançando um pouco em direção a ela. Seu tom era direto, a pressa evidente em cada palavra.
— Do que vocês estão falando? — Vanya perguntou, franzindo o cenho. A confusão era evidente em sua expressão, enquanto balançava a cabeça negativamente. Nada daquilo fazia sentido. Por que tanta pressa? "Por que voltar assim, de repente?", pensou, inquieta.
— Eu não tenho tempo pra explicar agora, mas consegui um jeito de voltar, tá? — Cinco respondeu, com seriedade. Seu tom transmitia urgência, e os olhos, carregados de ansiedade, encaravam Vanya com intensidade.
Ela estreitou os olhos, desconfiada.
— Temos meia hora. — Celeste olhou para o relógio de pulso e avisou, sua voz firme cortando o ar. Vanya soltou um riso seco, incrédula, enquanto um sorriso sarcástico surgia no canto de seus lábios.
— E os meus amigos? Eu não posso simplesmente deixá-los aqui. — Protestou Vanya, indignada. Para ela, aquilo era absurdo, quase cruel.
— Isso não importa agora, Vanya. — Celeste interveio, com um tom severo que cortava qualquer tentativa de argumentação.
Se os Blakes não tivessem traído Celeste no passado, talvez ela pensasse duas vezes antes de invalidar os sentimentos de amizade de Vanya. Ela sabia que aquilo era errado. Mas, naquele momento, salvar a linha do tempo era prioridade.
— Você não tem opção, tá bom? — Cinco aproximou-se dela, as palavras saindo rápidas e afiadas. — Se não vier com a gente, o fim do mundo vai acontecer. — Ele insistiu, quase suplicando, percebendo que Vanya não fazia menção de se mover.
— Tudo bem, então eles vão comigo. — Vanya deu de ombros, teimosa.
— Eles pertencem a essa linha do tempo. — Celeste rebateu, séria. A irritação crescia dentro dela. "Qual o problema dela?!", pensou, exasperada. Era óbvio que não podiam levar ninguém.
— Quem disse? — Vanya desafiou, cruzando os braços.
— Isso é óbvio. — Celeste deu de ombros, soltando um suspiro pesado. Sua paciência estava no limite. — Quer salvá-los? Tudo bem. — Sua voz adquiriu um tom irônico. Ela deu um passo à frente, encarando Vanya com firmeza, enquanto a irmã retribuía o olhar com rancor. — Vou te dizer como pode fazer isso: vem conosco e deixa eles viverem as vidas deles.
— A Sissy merece uma vida em que ela não tenha que fingir ser quem não é! — Vanya berrou, a indignação explodindo em sua voz. Cinco ergueu uma sobrancelha, surpreso com a intensidade. — E o Harlan? Tem nome pra isso que ele tem. Podemos ajudar ele!
Sissy nunca havia imaginado se apaixonar por outra mulher, mas aconteceu. E Harlan, com seus traços de um possível espectro autista, poderia ter um futuro melhor em 2019.
— Vanya! — Cinco tentou cortar a discussão, a irritação evidente. Mas ela continuou, inabalável.
— ...Uma mãe e o filho de oito anos não vão estragar a linha do tempo, Celly! Eles são insignificantes!
— Ninguém é insignificante. — Cinco respondeu, sua voz calma contrastando com a tensão crescente. Ele esfregou as mãos, tentando aliviar o nervosismo. Celeste olhou para o relógio, amaldiçoando o tempo que se esgotava rapidamente.
— Eles têm que ficar. — Celeste concluiu, a voz mais tranquila, mas ainda firme. O silêncio pairou pesado entre eles. Vanya, imóvel, continuava relutante, enquanto Celeste, sem esperar mais, começou a caminhar de volta para o carro. Cinco lançou um olhar significativo para a irmã.
— Vem. Vamos. — Disse, tentando persuadi-la. Mas Vanya permaneceu parada.
— Por que são vocês quem decidem isso? — Ela perguntou, com seriedade, forçando Cinco a parar no meio do caminho e virar-se para encará-la. Celeste continuou andando, como se não se importasse. Mas as palavras de Vanya não pararam por ali: — É por culpa sua, Cinco, que estamos presos aqui.
Celeste parou abruptamente. O impacto da acusação a fez girar nos calcanhares, voltando na direção de Vanya antes mesmo de pensar. Cinco soltou um suspiro pesado, exausto.
— Não culpe ele! — Celeste retrucou, sua voz transbordando irritação. A um metro de distância, ela parou, apontando um dedo acusador na direção da irmã. — Se ele não fizesse nada, a gente estaria morto agora! Graças a você! — A última frase foi um grito carregado de frustração.
Vanya revirou os olhos, impassível.
— Eles vêm comigo. — Reafirmou, intransigente.
— Vanya, não testa minha paciência agora. — Cinco falou entre dentes, tentando manter o controle. Ele passou a mão pelo rosto, numa tentativa de se acalmar, avançando na direção dela. Mas Vanya estava decidida, irredutível.
— Que engraçado. Eu ia dizer exatamente isso pra você. — Ela soltou uma risada irônica, como se tivesse acabado de vencer uma batalha.
Celeste apertou os punhos, sua mente já cogitando apagar a memória da irmã ali mesmo. "E acabar provocando outro apocalipse?", pensou, amargurada. Não havia saída. Vanya sabia que era essencial para o grupo, e isso lhe dava carta branca para desafiar qualquer decisão. Celeste revirou os olhos, frustrada, e começou a se afastar novamente.
— Eles que se entendam. — Murmurou para si mesma, irritada, enquanto se dirigia de volta ao carro.
A pele de Vanya começou a assumir um tom azulado, e seus olhos se tornaram completamente brancos, emanando um brilho intenso enquanto o poder crescia dentro dela. Uma luz quase sobrenatural iluminava o lugar, ofuscando até o forte sol de Dallas. Cinco reagiu imediatamente, o próprio poder pulsando em suas mãos, deixando claro que estava pronto para um ataque, caso fosse necessário. A tensão entre eles era palpável, como se o ar ao redor estivesse eletrificado. Cinco, firme e determinado, estava preparado para lutar se aquilo escalasse.
Mais afastada, Celeste observava tudo ao lado da porta do carro, a expressão carregada de preocupação e frustração.
— Tá. — Vanya deu de ombros, recolhendo seus poderes. Seus olhos voltaram ao normal, mas havia algo de falso em sua expressão, como se estivesse se rendendo apenas por conveniência. Celeste franziu o cenho de longe, soltando um longo suspiro.
— "Tá" o quê? — Cinco perguntou, desconfiado, ainda em alerta. Mesmo assim, ele também desativou os poderes, recuando ligeiramente. Celeste deu alguns passos à frente, tentando entender o que estava por vir.
— Vou com vocês. Mas antes, tenho que me despedir. — A voz de Vanya era firme, como quem dá uma ordem velada.
— Não temos tempo, Vanya. — Celeste retrucou, irritada. O tom dela era afiado, quase cortante. "Por que ela não consegue entender?", pensou, exasperada.
— Ou é isso, ou eu não vou. — Vanya respondeu de maneira casual, dando de ombros novamente, antes de virar-se e caminhar de volta para o carro.
Cinco olhou para Celeste, e ambos bufaram quase ao mesmo tempo, frustrados. Ela cruzou os braços, enquanto ele passava a mão pelos cabelos, claramente tentando manter a calma. Mas uma coisa ficou clara para os dois naquele instante: Vanya sempre teria vantagem, porque, no fundo, ela era a chave para o Apocalipse. Ela sabia disso — e usava a favor dela.
— É no beco! — Cinco gritou, sua voz carregada de irritação.
Vanya fez um sinal de positivo com a mão, despreocupada, antes de entrar no carro. Cinco a observou com uma expressão que misturava frustração e descrença.
— Não se atrasa! — Ele completou, a voz dura.
Assim que o carro de Vanya partiu, o silêncio tomou conta por alguns segundos. Celeste deixou escapar um suspiro pesado, enquanto Cinco cerrava os punhos, tentando controlar a onda de nervosismo que voltava a tomar conta dele.
— Que merda. — Ele murmurou, a irritação transbordando em cada palavra. Era óbvio que a sensação de perder o controle o consumia, e o que mais o frustrava era a percepção de que, no final das contas, Vanya sempre acabaria fazendo o que quisesse.
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Celeste e Cinco deixaram a estrada pouco depois de Vanya, mas a viagem foi um silêncio quase mortal. O ambiente carregado de tensão parecia refletir a sensação de que tudo daria errado, apesar da fachada de otimismo que tentavam manter. Em cerca de vinte minutos, chegaram novamente ao beco, teleportados por Cinco com a urgência de quem sente o peso do tempo. Subiram as escadas com pressa, as pernas pesadas pela ansiedade. Celeste pegou o documento fornecido pela Gestora, e Cinco segurava a maleta com a mesma apreensão. O beco estava quieto, e a expectativa os consumia.
Cinco olhou para o relógio.
9 minutos e 43 segundos.
"Cadê todo mundo?!", ele pensou, a irritação se espalhando. Olhou para Celeste, que caminhava de um lado para o outro, visivelmente atormentada.
Quando ouviram a voz de Luther, o primeiro a chegar, foi como se uma faísca de esperança tivesse acendido. O nervosismo deles diminuiu um pouco, como se o simples som de sua voz fosse o primeiro sinal de que as coisas poderiam dar certo.
— Oi. — Luther cumprimentou assim que chegou ao beco.
— Onde está a Allison? — Celeste perguntou, a preocupação evidente na voz. "Se todo mundo parou para se despedir, estamos ferrados", ela pensou, uma pontada de desespero em seu peito.
— Você é o primeiro. — Cinco riu nervosamente, quase incrédulo. O tempo estava correndo, e faltavam apenas oito minutos.
— O quê? Mas… — Antes que Luther pudesse se explicar, os três viram Klaus entrando no beco, cambaleando como se estivesse bêbado, mesmo estando completamente sóbrio. Algo estranho parecia acontecer com ele. Ben, em sua forma espectral, havia descoberto que poderia "possuir" Klaus para sentir a experiência física de estar vivo novamente. Coincidentemente, o dia em que Klaus cedeu seu corpo para Ben foi o mesmo em que decidiram voltar para casa. Klaus estava ali porque Ben, mais maduro, conseguiu conduzi-los até o beco. No entanto, Klaus estava longe de feliz. Tentava, inutilmente, afastar Ben de dentro de si, empurrando o que parecia ser uma força invisível.
Eles viam Klaus, tentando expelir algo de dentro de si, forçando com as mãos, resmungando: "Sai!"
— Bêbado? Sério? — Celeste ironizou, um sorriso escárnio no rosto. "Que bagunça!", pensou. Ela não sabia mais se sentia-se surpresa ou exasperada com a situação.
— Aí! Nós conseguimos! — Ben, agora no corpo de Klaus, exclamou com um sorriso estampado no rosto. Parecia completamente alheio à confusão em que estava.
— Como assim "Nós"? — Cinco questionou, com os olhos estreitados, desconfiado. Ele foi o único a perceber que algo estava muito errado. Klaus, aparentemente, não estava bêbado.
— E isso importa? — Celeste resmungou, com a paciência no limite. Ela olhou para Klaus, que continuava tentando tirar Ben de dentro de si, a expressão de pena misturada com frustração. — Ele tá todo confuso. É o Klaus. Nada do que ele faz me surpreende mais.
— Sai, sai! Sai de mim! — Klaus continuava resmungando, cada vez mais irritado. Para os outros, a cena estava se tornando mais que estranha. Ben, por sua vez, tentava desesperadamente comunicar-se com os irmãos, sua última tentativa antes de ser expulso do corpo de Klaus.
— Oi, Cel… — Foi tudo o que conseguiu dizer antes de ser literalmente expelido. Em um segundo, Klaus vomitou tudo o que havia ingerido, fraquejando e caindo de joelhos, completamente sem forças.
— É oficial. Ele bebeu pra caralho. — Celeste resmungou, cruzando os braços e lançando um olhar de censura para Klaus, seu rosto uma mistura de desaprovação e cansada aceitação.
— Eu não acredito nisso. Você tá aqui. — Luther estava visivelmente incrédulo. Ele enfatizou o "Você", como se fosse impossível acreditar que Klaus fosse o primeiro a chegar. Sempre foi o mais provável de chegar atrasado, e agora ele estava ali, pontualmente. Se soubessem que era Ben, talvez tudo fizesse mais sentido.
— Nós só temos mais sete minutos! — Cinco gritou, os nervos à flor da pele. O pânico e a frustração eram palpáveis em sua voz. O tempo estava se esvaindo.
Enquanto isso, Klaus se encolhia no chão, trêmulo e completamente perdido, ainda lutando contra o que sentia ser uma invasão do seu próprio corpo. Ele não sabia mais o que era real.
— Eu acabei de ter um sonho muito bizarro... — Klaus sussurrou, a voz trêmula e carregada de um sentimento profundo.
Celeste já não conseguia mais encontrar graça no estado deplorável de Klaus. Se não fosse a pressão do tempo, ela certamente teria se divertido com a situação, mas a ansiedade a consumia. O pessimismo já a dominava por completo; ela estava, de certa forma, aceitando que tudo estava prestes a dar errado. Enquanto Cinco resmungava, incrédulo e visivelmente ansioso, isso só aumentava a tensão em Celeste. Além da ansiedade, ela sentia um peso no peito por Klaus. Não conseguia deixar de se preocupar com ele, mesmo sabendo que os problemas ao redor estavam muito maiores.
Olhar a situação dos outros só aumentava deixava tudo mais complexo. Allison estava em combate com os suecos, que invadiram sua casa e agrediam seu marido, fazendo de tudo para impedir que eles voltassem para suas épocas. A luta era brutal e as chances de sucesso pareciam cada vez menores.
Diego, por sua vez, havia sido enganado de forma cruel pela segunda vez por Lila, que lhe ofereceu uma bebida com sonífero. Agora, ela o levava, inconsciente, para a Comissão, transformando-o em seu novo agente após conquistar o cargo de Chefe de Segurança. A manipulação de Lila não tinha limites, especialmente agora que sua mãe era a nova regente da Comissão.
A gestora parecia estar, finalmente, alcançando seus objetivos. Com a diretoria fora de seu caminho, ela tinha espaço para realizar seus sonhos, e todos ao seu redor tinham perguntas que precisavam ser respondidas.
Anthony, em breve, seria nomeado, finalmente conquistando o cargo de direção que sua esposa sempre sonhou. Mas algo o perturbava profundamente. Por que sentia que estava sendo falso? Por que essa sensação de receio que o corroía? Ele queria se olhar no espelho e ver o reflexo de um homem bem-sucedido, um homem que tivesse alcançado seu sonho. Mas, em vez disso, só via o reflexo de um traidor, de uma pessoa horrível. Aquela sensação de autodesprezo o assombrava desde que entrara para a Comissão, e antes de conhecer Amélia, ele se via como um homem vazio. Amélia, porém, o curou, o trouxe de volta para si mesmo, mas agora sentia que tudo estava desmoronando. Ele acreditava que conquistar a direção traria mais de Amélia para ele, mas, após tudo o que fizera, sentia ela se afastando aos poucos, deixando de ser parte dele.
— Só temos mais um minuto! — Luther gritou, Cinco chutou com força na lata de lixo. A frustração estava estampada no rosto de todos. Celeste, como sempre, dominada por seu pessimismo, sabia que tudo estava perdido. Vanya provavelmente já havia decidido fugir com Sissy e Harlan do marido homofóbico da loira, e Allison certamente seria um grande obstáculo.
— Gente, o que tá acontecendo? — Klaus resmungou, exausto. Sua voz estava fraca, como se toda a energia tivesse sido drenada dele. Afinal, era Ben quem sabia sobre o plano de voltar a 2019, e Klaus se sentia perdido no meio da confusão. Ele nem sabia por que Cinco estava tão apreensivo. — A gente vai a algum lugar?
— Era bem simples. Bem simples mesmo! — Cinco resmungou, surtando visivelmente. Ele andava de um lado para o outro, sua frustração transbordando. — A gente só tinha que estar aqui! Tinha que lutar contra um monstro do mar gigante? Não! Um exército de mutantes? Não!
— Não acredito nisso... — Celeste murmurou, incrédula. Olhou para o relógio: trinta segundos restantes. Os papéis em suas mãos pareciam cada vez mais pesados, como se estivessem esperando por um momento de paz para serem lidos.
— Era só estar aqui. Estava de bandeja! — Cinco continuou, sua voz carregada de raiva.
— Aí, reclama mais baixo, que minha cabeça vai explodir... — Klaus murmurou, com a voz cheia de dramatismo. Finalmente se sentou, as calças sujas de vômito, e uma careta de nojo estampada no rosto. Seu estômago estava se revirando, os sintomas de uma ressaca que ele não sabia como explicar. Cada grito de Cinco parecia ecoar em sua cabeça como um martelo. Cinco, claramente irritado, franziu o cenho.
— Me escuta, seu saco de vômito inútil! — Cinco gritou, se aproximando de Klaus. Ele apontou o dedo para ele com uma calma que soava completamente falsa, mas ainda assim aterrorizante. — Acabamos de perder a chance de salvar o mundo!
A maleta, agora, emitia sons parecidos com uma bomba prestes a explodir. Apitos repetitivos e ruídos que se intensificavam a cada segundo chamaram a atenção de Cinco. Sem pensar duas vezes, ele murmurou um "merda" e arremessou a maleta para o alto. Em um piscar de olhos, ela se teletransportou para 2019, sem nenhum dos irmãos. Cinco soltou um suspiro pesado, como se o peso do fracasso tivesse caído sobre seus ombros.
Celeste sentiu seu coração falhar por um momento. Seus ombros caíram, derrotados. A frustração a consumia por dentro. Luther, por outro lado, ainda acreditava que haveria uma solução. Ele fez uma careta, determinado a encontrar uma saída. Klaus, no entanto, parecia alheio ao que acontecia ao seu redor, sem demonstrar a mínima preocupação.
— Tava tão perto... — Cinco resmungou, olhando para o céu azul, sua voz carregada de uma tristeza profunda.
— Lá se foram nossas chances... — Celeste murmurou, os olhos baixos, a expressão sombria. Ela não tinha mais nenhuma ideia em mente e, por mais que tentasse, não acreditava que Cinco, com toda sua inteligência e criatividade, pudesse encontrar uma solução agora. A sensação de derrota era inescapável.
— Foi quase... — Cinco disse, a frustração em sua voz sendo quase palpável.
— E agora? — Luther perguntou, o cenho franzido. Ele estava perdido. As possibilidades haviam se esvaído diante deles, e enquanto Celeste e Cinco estavam tão convencidos de que tudo daria certo, Luther finalmente percebeu o quão grave a situação se tornara.
— Agora nada, Luther, tá? — Cinco rebateu, sua raiva crescendo enquanto andava de um lado para o outro, completamente à beira do colapso. — Faz as pazes com Deus!
Celeste suspirou, exausta. "Agora ele vai descarregar tudo", pensou. Não o culpava, mas sabia que a irritação de Cinco estava se tornando algo preocupante. Ele estava prestes a explodir de vez.
— O quê? Mas e a Allison e a Vanya? — Klaus interveio, fazendo uma careta, ainda se recuperando. Ele tocou a barriga, tentando entender a situação. — Elas não estavam com a gente?
— Danem-se as duas, tá? Elas deviam estar aqui! — Cinco gritou, sua paciência se esgotando. O desespero estava transformando suas palavras em uma explosão de frustração.
— Vem cá, e o Diego? — Klaus perguntou novamente, tentando se manter focado. Ele tentava entender o que estava acontecendo. — Ele é um jovem bem responsável, não é?
— Era pra ser — Celeste respondeu com amargor. "Que família confiável", pensou ela, ressentida.
— Deve ter acontecido alguma coisa com eles — Luther sugeriu, com um tom de preocupação, ainda tentando manter a calma. Era claro que ele se preocupava, mas não conseguia atingir Cinco.
— Dane-se o Diego, tá legal? Danem-se todos eles! — Cinco gritou, seu rosto contorcido pela raiva. Ele se virou para Luther, encarando-o nos olhos, e sua voz se tornou ainda mais cortante. — Eu tava bem melhor sozinho no apocalipse!
Celeste franziu o cenho. O coração dela bateu mais forte, e, embora soubesse que nada do que Cinco dizia deveria ser levado a sério naquele estado, suas palavras a atingiram de forma inesperada. Era impossível não se sentir um pouco magoada. Ela soltou um suspiro pesado, olhando para ele. Cinco nem ao menos olhava para ela. Ela interpretou a situação como um sinal de que ele não estava feliz com ela. Irritado, quem sabe. Ela se sentiu pior ainda, mesmo que estivesse entendendo errado.
— Cinco! Qual é! — Luther tentou acalmar, dando um passo à frente, visivelmente frustrado. Ele tentava lidar com a explosão do irmão, mas estava perdendo a paciência.
— Quer saber, Luther? Agora é cada irmão por si. Que tal isso? — Cinco retrucou, sua voz repleta de irritação. Levantando os braços dramaticamente, ele virou-se e entrou novamente na loja, criando uma tensão no ar que era quase insuportável.
Celeste e Luther se entreolharam, ambos perdidos. Nenhum dos dois sabia o que fazer em seguida, ainda absorvendo a tensão do momento.
— Nossa! O Cinco ficou... — Klaus murmurou, abraçando a si mesmo como se tentasse se proteger das palavras do irmão. — …muito cruel.
Luther soltou um suspiro profundo, a expressão decidida. Ele estava, finalmente, assumindo o controle da situação.
— Klaus, procura a Allison, tá legal? Vai ver se ela tá bem. — Luther pediu, e Klaus o encarou com uma expressão incrédula, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo.
— Eu? — Klaus murmurou, ainda surpreso com a responsabilidade que lhe era dada. Ele não acreditava que seria capaz naquele momento, mas, de algum modo, parecia ser a única opção.
Luther, então, voltou sua atenção para Celeste, que estava imersa em seus próprios pensamentos, focada em Cinco, sua preocupação evidente.
— E você... tenta acalmar o Cinco. Só você consegue essa proeza. — Luther disse, com uma leve expressão de confiança.
Celeste suspirou, exausta. A última coisa que ela queria era lidar com mais uma explosão de frustração de Cinco, mas sabia que precisava tentar. Ela não recusou. Em vez disso, deu uma breve confirmação com a cabeça e, sem mais demora, saiu do beco e voltou para a loja.
Enquanto isso, Klaus continuava resmungando para Luther, quase o convencendo a deixá-lo descansar enquanto o loiro ia atrás de Allison.
A garota subiu as escadas, completamente imersa em seus próprios pensamentos, o peso da situação apertando seu peito.
"Ele deve estar péssimo", pensou, a culpa tomando conta dela. "Ele não queria fazer aquilo, mas fez por nós. E agora… deu tudo errado".
Ao chegar no topo da escada, atravessou a sala e a cozinha, os passos ecoando em sua mente. Quando chegou ao fundo do corredor, hesitou diante da porta. Sabia que ele estaria frustrado, mas precisava ir. Com uma mistura de receio e determinação, ela finalmente abriu a porta.
Dentro do quarto, Cinco estava sentado na cama. O retrato de fotografias que antes pertencera a Elliot estava estilhaçado no canto, os vidros espalhados pelo chão. Ele tinha as mãos no rosto, a postura carregada de frustração. A raiva havia dado lugar à tristeza, e a decepção estava estampada em seus gestos.
Ela soltou um suspiro pesado, comovida. Seu coração apertou, mas ela não hesitou. Aproximou-se dele e, assim que chegou perto, Cinco a abraçou com força, ainda sentado, enquanto ela ficava de pé. Foi ali que ela percebeu: era sério. Cinco estava chorando. Algo raro. As mãos dele apertaram sua cintura com força, enquanto soluçava contra ela.
Ela retribuiu o abraço, deixando as mãos descansarem no rosto e nas costas dele, tentando transmitir o conforto que ele precisava. Passaram alguns segundos assim, ela murmurando palavras suaves como: "Vamos dar um jeito", "Você fez o que podia, querido", e "Eu sei que está chateado". Aos poucos, ele foi dissipando a irritação, embora a frustração ainda estivesse ali, visível em seus olhos.
Quando ele parou de chorar, olhou para ela, buscando algum consolo. Seus olhos tristes não escondiam que a raiva havia ido embora, mas a dor ainda estava presente. Celeste, com cuidado, passou os dedos pelos cabelos escuros dele, acariciando sua nuca com ternura.
— Eu… matei a diretoria inteira. — Cinco resmungou, a voz baixa, carregada de frustração. — Pra nada.
— Está tudo bem. — Ela respondeu de forma simples, tentando acalmá-lo. A tensão entre eles era palpável, mas ela não recuou. Sentia que ele precisava daquelas palavras, embora soubesse que ele não acreditaria nelas imediatamente.
— Não está, Celly. — Ele rebateu, sua voz mais cortante agora. — Voltei a ser um assassino.
Ela negou com a cabeça, incrédula com o que ouvia. Cinco o encarou com mais intensidade, esperando que ela entendesse a profundidade de sua dor.
— Estou nessa de salvar a todos há umas duas semanas. Entende? Isso… faz parte da minha vida inteira, praticamente. Não pedi nada difícil!
— Eu sei. — Ela concordou suavemente. Para tentar acalmá-lo ainda mais, ela se sentou no colo dele, para que ficassem frente a frente. Seus olhos se encontraram com os dele, e ela viu a dor neles. Ele ficou quieto, mas ela podia sentir a tensão se soltando aos poucos.
Cinco manteve-se impassível por um momento. Se estivessem em uma situação diferente, ele teria aproveitado aquele momento de proximidade. Em silêncio, ele passou a mão pela cintura dela, trazendo-a para mais perto, como se a sua presença fosse a única coisa capaz de aliviar o peso que ele carregava.
— Está frustrado. — Ela concluiu suavemente, e ele concordou, sem dizer uma palavra. — E eu entendo perfeitamente. Você… sacrificou muito dessa vez, e… deu errado. Mas não deve culpá-los. — Ela sussurrou, seus olhos nos dele, com um olhar terno, mas firme. Cinco olhou para ela, discordando um pouco, mas ela continuou. — Sei que eles devem ter seus motivos, e que, apesar disso, qualquer motivo que for, não vai ajudar a você ficar menos frustrado com tudo isso. — Ela deu de ombros, uma leveza nas palavras, mas sempre verdadeira. Mesmo sendo dura em algumas coisas, ele sabia que ela descrevia perfeitamente o que ele estava sentindo, e isso fazia ele sentir-se compreendido de uma forma que poucas pessoas conseguiam. Ela pegou o rosto dele entre as mãos, seus olhos encontrando os dela com uma intensidade perfeita.— Eu admiro sua coragem por todos nós. — Ela sorriu, e algo em seu sorriso fez a tensão nos ombros dele diminuir.
Cinco tentou sorrir de volta, mas a frustração ainda o impedia de fazer algo mais amplo. O que surgiu foi um leve movimento nos lábios, mas foi suficiente. E então, quando ela beijou o canto externo do olho dele, na ponta da sobrancelha, ele não pôde evitar um sorriso mais genuíno. Não era um sorriso largo, mas era real. Como se o peso de tudo tivesse diminuído um pouco.
Ela passou a mão pelos cabelos dele, ainda o abraçando. Cinco se aconchegou na curva de seu pescoço, e naquele momento, pensou: "Não sei como consegui sobreviver sem ela". Ele a agarrou mais fortemente, sentindo-se em casa.
— Queria poder voltar no tempo e dizer para nossas versões: "Tudo isso é uma perda de tempo. Vai dar tudo errado". — ela resmungou, sua voz baixa, mas carregada de um tom amargo.
Cinco ergueu as sobrancelhas, sua expressão se transformando. Ele se afastou rapidamente dela, como se tivesse visto um fantasma. Suas mãos tomaram seu rosto, e ele a encarou nos olhos com uma intensidade inesperada.
— O que foi? — Ela perguntou, sentindo que havia falado algo errado, mas, ao ver a reação dele, não sabia o que exatamente.
— Você é genial, meu Deus! — Ele exclamou, um sorriso crescendo em seu rosto. Ela franziu o cenho, ainda confusa com a mudança repentina. Então, ele a beijou suavemente nos lábios, um selinho rápido, mas carregado de significado. Ela sorriu, embora sem entender completamente o que estava acontecendo, como se tivesse ganho um prêmio. — Amanhã vamos conseguir. — Ele sorriu com mais sinceridade agora, e pela primeira vez em muito tempo, Celeste sentiu uma esperança renovada.
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A tarde havia chegado, e com ela, a visita do presidente a Dallas. Faltavam poucos dias para o novo apocalipse, e a cidade do Texas parecia cada vez mais lotada, à medida que o evento se aproximava. Para os moradores de Dallas, era uma honra, uma oportunidade única de presenciar um momento histórico — e sem nenhuma ironia. Os protestos anti-racistas estavam ganhando força, alimentados pela chegada do presidente, que poderia dar visibilidade à causa.
Na tarde anterior, Cinco permaneceu isolado em seu quarto, imerso em seus pensamentos. Celeste o visitou algumas vezes, levando biscoitos e tentando animá-lo, mas ele estava frustrado demais com a família — exceto com ela, Luther e Klaus, que surpreendentemente haviam chegado quando fora preciso — para comer ou se distrair com conversas. Ela entendia perfeitamente.
Ela e Luther passaram o tempo conversando, mas não havia muito o que fazer. Só Cinco tinha um plano em mente, mas nem a ela ele tinha contado. O plano era impensável, arriscado, até perturbador, algo que poderia colocar tudo o que ele havia feito até agora em risco. Era uma loucura.
Klaus, por sua vez, não retornara após o beco. Tinha ido em direção a Allison, como Luther lhe pedira, e o dia passou voando.
Agora, Celeste ainda dormia. A luz suave da manhã entrava pelas janelas. Cinco a abraçava como se ela fosse a única coisa capaz de acalmá-lo, tentando encontrar algum alívio em meio a tanta tensão. Era cedo.
Quando ela acordou, Cinco estava tão absorvido em seus pensamentos que não percebeu. Continuou acariciando delicadamente a orelha dela, como se estivesse se concentrando em cada pequeno detalhe. Ela estreitou os olhos, incomodada com a luz do sol. Ao olhar para ele, percebeu que Cinco estava claramente atormentado. Era óbvio que tudo aquilo estava sendo um peso insuportável para ele.
Ela soltou um suspiro, fazendo com que ele se desse conta de que ela havia acordado.
— Ah, não… — ela resmungou, apoiando-se nos cotovelos e se virando de bruços, observando-o.
— Bom dia.
— Não. — Ela fez uma careta, claramente entristecida, cansada. — Você ainda está preocupado.
Ele suspirou derrotado. Ela estava certa, como sempre. Mas não queria preocupá-la mais. Ele balançou a cabeça em negação.
— Não estou, não. — Mentiu. Se ela não o conhecesse tão bem, poderia até acreditar, mas ela viu através dele. Ela inclinou a cabeça para o lado, com uma expressão séria, como quem dizia: "Admita, Cinco". Ele a encarou com um olhar teimoso e, finalmente, cedeu. — Tudo bem. Só um pouquinho.
Ela suspirou, espreguiçando-se, arrumando os cabelos bagunçados e esfregando os olhos ainda sonolentos.
— Então vamos tentar algo logo. — Ela deu de ombros. — Seja lá qual for seu plano maluco, se terminar logo, a preocupação passa.
Cinco sorriu, motivado.
— Este é o seu jeito de se despreocupar?
Ela sorriu, convencida. Cinco levou a mão até o rosto dela, com um toque carinhoso.
— Não sei… você tem outra ideia? — Ela perguntou, com um tom malicioso, como se pudesse ler os pensamentos dele. Seus olhos castanhos brilhavam, dizendo exatamente o que ele queria ouvir. Cinco respondeu com um sorriso pervertido.
Ele beijou primeiro a bochecha dela, fazendo-a sorrir amplamente. Depois, com um toque suave, beijou a linha de seu maxilar. Nesse momento, ela entendeu perfeitamente. Como poderia recusar? Ela se afastou da posição de bruços e, de maneira natural, se acomodou sobre ele, o montando. Cinco sorriu, animado. Era um momento carinhoso, sem qualquer malícia. Afinal, o que poderia ser melhor para afastar as preocupações do que se entregar ao carinho e aos beijos? Eles eram a âncora um do outro. Nada poderia ser mais eficaz para acalmá-los.
A mão dele deslizou para a cintura dela, mantendo-a firme contra seu corpo. Celeste, então, finalmente selou seus lábios aos dele. O beijo foi irresistível, cheio de desejo, mas ao mesmo tempo suave. A mão dela desceu pelo abdômen dele, subindo em seguida até se infiltrar por dentro de sua camiseta. Cinco soltou um suspiro involuntário. "Porra, como eu amo isso", pensou, sentindo o corpo dela em contato com o seu.
Sem hesitar, ele deixou suas mãos subirem por baixo da blusa dela também, apertando sua cintura com mais intensidade. Os beijos se interromperam, dando lugar a pequenos selinhos, cada um mais carinhoso que o anterior.
— Chega. — Ela murmurou, com os olhos baixando timidamente. — Vamos salvar o mundo.
Cinco olhou para ela, sentindo o peso de suas palavras. Ele se sentiu mais confiante, mais tranquilo depois disso. Mas, ao mesmo tempo, havia outro problema. Um mais... físico. Ele baixou os ombros, derrotado.
— Vamos. — Ele concordou, forçando um sorriso.
Ela sorriu de volta para ele, deslizando do seu colo e indo em direção ao banheiro. Quando ela se afastou, Cinco, agora sozinho, olhou para o volume nas calças e se amaldiçoou em silêncio. "Foi só um beijo, porra, o que é isso?".
Celeste tomou um banho rápido, trocou de roupas por uma calça jeans azul escuro, seus tênis habituais e uma camisa xadrez de tons de azul claro, branco e preto. Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e, ao voltar para o quarto, percebeu que Cinco já não estava mais lá. Ele já havia se vestido e saído para a cozinha.
Ela saiu do quarto, sem muito entusiasmo, e seguiu até a cozinha. Quando chegou, viu Cinco novamente preocupado. Ele bebia água diretamente do bico da garrafa, como se fosse o último gole disponível. Celeste suspirou frustrada, fazendo uma careta ao vê-lo. Ela se escorou na parede da cozinha, observando-o com um olhar confuso.
— O que você tá fazendo? — Celeste perguntou, erguendo uma sobrancelha, a voz carregada de acusação.
Luther apareceu na cozinha, visivelmente recém-despertado. Tinha dormido no sofá na noite anterior e, ouvindo a movimentação na cozinha, decidiu ver o que estava acontecendo. Parou na porta, observando Cinco com uma expressão de pura confusão.
— Preciso estar hidratado — Cinco respondeu, dando de ombros, como se fosse a explicação mais lógica do mundo.
Celeste e Luther trocaram um olhar desconfiado. Celeste sabia que o plano de Cinco — seja lá qual fosse — era definitivamente arriscado. Mas o que hidratação tinha a ver com isso?
Para aumentar ainda mais a confusão, Cinco pegou um talco de bebê do balcão e começou a espalhá-lo pelo corpo — por dentro da camisa branca, por dentro das calças…
— Pra que todo esse talco? — Luther perguntou, ainda sem entender. Ele franziu o cenho, totalmente perdido.
— É pra ajudar com a coceira — Cinco respondeu, tentando falar entre os dentes. A preocupação dele era palpável.
— Meu Deus… — Luther resmungou, olhando para Celeste, que estava tão atônita quanto ele. — Ele tá ficando maluco ou…
— Acho que ele tá — Celeste murmurou, ainda sem entender o motivo de tanto preparo.
— O que está acontecendo aqui? — Luther perguntou, balançando a cabeça, como se o cenário não fizesse sentido algum. Mas então, sua mente rápida fez uma conexão. Ele lembrou que Cinco, na tarde anterior, havia dito algo sobre "Farei o impensável" para ele. Ele olhou para Celeste, como se tivesse finalmente encaixado as peças. — Você tem um plano.
Celeste resmungou baixinho, agora mais confusa ainda. Ela já desconfiava que Cinco estava tramando algo, mas ainda não havia pegado os detalhes para entender direito o que ele tinha em mente.
— Evitar a coceira e estar hidratado vão realmente resolver nossos problemas? — ela perguntou, com uma pitada de sarcasmo.
— Olha, é um plano desesperado — Cinco respondeu, visivelmente nervoso. — Mas já que nossos irmãos idiotas não conseguiram cumprir nem um simples prazo, não tenho outra opção.
Cinco soltou um suspiro cansado, parecendo mais imerso nos próprios pensamentos do que realmente preocupado com o que estava dizendo. Então, ele se virou e saiu da cozinha.
— Opção de quê? — Luther perguntou, agora completamente perdido. Ele saiu da cozinha também, seguido por Celeste, que estava tão ansiosa por respostas quanto ele. Os dois pararam na porta, lado a lado, esperando.
— Eu tenho que me encontrar — Cinco explicou, como se fosse algo simples de entender. — Acabei de chegar em Dallas há quinze minutos.
"Opa", pensou Celeste, agora começando a entender. Ela abriu a boca, incrédula. "Criativo. Era óbvio que mandariam ele para Dallas bem no dia da morte do Kennedy."
— Você está ficando maluco? — o loiro perguntou, ainda tentando processar o que estava acontecendo. Luther estava completamente perdido.
— Você trabalhava para a comissão... — Celeste sorriu, mas não parecia nada empolgada com a ideia. Aquilo não soava bom. Ela não gostava disso. Ainda assim, havia uma nova oportunidade no ar. Ela olhou para Luther, que continuava sem entender nada, e então explicou: — Ele chegou aqui recentemente pra garantir que o presidente morra. Para manter as coisas do jeito que têm que ser.
— Ah, espera aí! Então o seu velho eu está por aí! — Luther exclamou, finalmente pegando a ideia. Seu rosto ainda estava marcado pela preocupação e confusão, mas pelo menos agora ele começava a entender o que estava acontecendo.
Cinco estava no centro da sala, se alongando com concentração. Esticava o corpo, tocando a ponta do pé, e depois levantava os braços para esticar as articulações.
— Exatamente — Cinco disse, com um sorriso satisfeito.
— Mas o quê? Passeando por Dallas, por enquanto? Por que falar com você ajudaria em alguma coisa? — Luther perguntou, claramente confuso. Celeste, embora já tivesse uma ideia, permaneceu em silêncio. Cinco deu um sorriso perverso, como se soubesse que a ideia era arriscada, mas genial.
— Passeando em Dallas com uma maleta que pode nos levar pra casa — Cinco explicou, com uma satisfação que era quase palpável. Celly e Luther se entreolharam, totalmente perplexos.
— Não acredito! Cinco, você é um gênio! — Luther disse, claramente impressionado.
Antes que Celeste pudesse parabenizá-lo e dizer o quanto a ideia era, de fato, brilhante, uma dúvida a interrompeu. Ela cruzou os braços, franzindo a testa, mais confusa do que quando ele estava jogando talco no corpo.
— Ei, espera aí! Agentes da comissão podem entregar a maleta assim, numa boa? — ela perguntou, a voz carregada de ironia e uma pitada de frustração. — Pelo que eu me lembro, Hazel e Cha-Cha tiveram grandes problemas em perder ela.
— Esse plano tem dois problemas sérios — Cinco resmungou, visivelmente irritado. Celeste baixou os ombros em derrota, ouvindo com atenção. Cinco respirou fundo, claramente nervoso. — Primeiro, exatamente o que você mencionou. Eu sou um assassino treinado. Dizem que sou o mais perigoso assassino do contínuo espaço-tempo.
— Que renome… — Celeste ergueu uma sobrancelha, irônica. Ela trocou um olhar com Luther, que, embora estivesse sorrindo, ainda não estava completamente convencido do plano.
— Se me conhece, sabe que não vou encarar numa boa encontrar comigo mesmo. E também não devo entregar a maleta pra absolutamente ninguém — Cinco continuou, esfregando a palma da mão, nervoso e incrédulo com a situação. — Problema número dois... e essa é a cereja do bolo. Ninguém deve existir em proximidade consigo mesmo na mesma linha do tempo. Os efeitos colaterais podem ser desastrosos.
Celeste franziu o cenho, processando a informação. Claro, deveria ser insano encontrar-se consigo mesmo. Mas o que poderia ser tão catastrófico assim? Até agora, ela não tinha visto nada tão horrível. Ela sabia que, caso algo acontecesse e a versão passada de Cinco não tivesse feito tudo o que ele fez até aquele momento, o presente poderia se desfazer. Ela ficou ainda mais curiosa sobre os possíveis efeitos.
— Tipo? — ela perguntou, estreitando os olhos.
— Que efeitos colaterais? — Luther perguntou, tão perdido quanto ela.
— De acordo com o Manual da Comissão, capítulo 27, subseção 3b, os sete estágios de psicose do paradoxo são... — Cinco soltou um suspiro, como se já tivesse dito isso muitas vezes. — Estágio um: negação. Estágio dois: coceira. Estágio três: muita sede e urina. Estágio quatro: gases em excesso. Cinco: paranóia aguda. Seis: transpiração descontrolada. E estágio sete: raiva homicida — ele pontuou, erguendo os dedos conforme explicava cada estágio.
Celeste e Luther se entreolharam novamente. A situação era tão absurda que era quase cômica. Celeste soltou um sorriso ácido.
— O cinco e o sete você já anda bem acostumado, né? — ela sorriu, irônica. Cruzou os braços. Luther, ao lado dela, sorriu também. Mas, diferente dele, parecia genuinamente preocupado.
— É... eu vou ficar bem pior, se preparem — Cinco disse, com uma leveza que escondia o nervosismo.
— Eu não sei. Talvez não seja uma ideia tão boa — Luther comentou, nervoso. Para ele, Cinco já era difícil de lidar naturalmente. E com os efeitos dos Sete Estágios... ele estava realmente preocupado.
— É tudo ou nada.
— Tem certeza de que não temos outra alternativa? — Celeste perguntou, sua voz agora carregada de preocupação, sem a ironia de antes. — Tipo, invadir a comissão de novo pra pegar uma maleta — ela sugeriu, franzindo as sobrancelhas, claramente negando a ideia. — Podemos tentar pensar em outra coisa.
— Não temos tempo — Cinco resmungou, visivelmente tenso. — E agora a Gestora está no controle. Se eu voltasse lá, ela descobriria instantaneamente o que estou tramando. Seria suicídio, dessa vez.
— Sei lá. Você já tá meio estranho, pra ser sincero — Luther falou, claramente relutante com o plano desesperado. Ele fez uma careta, ainda preocupado.
— Luther, eu vou precisar da sua ajuda pra colocar esse plano em prática, tá? — Cinco disse, saindo do centro da sala com rapidez e colocando a mão no ombro do loiro. Luther ficou sem saber o que pensar, sentindo o peso da responsabilidade. Cinco olhou para Celeste, os olhos intensos. — E de você também, querida. Precisamos de vigias. Os dois.
— Vigias? — Celeste e Luther perguntaram em uníssono, as expressões de indignação e confusão marcadas em seus rostos. Era cômico ver a falta de confiança, mas ao mesmo tempo, um reconhecimento silencioso se formava entre eles. "Mas não temos escolha, né?" Celeste pensou. "Vamos bancar a babá."
— Exatamente.
— Como assim? Um parceiro? — Luther questionou, ainda mais confuso.
— Caso a psicose do paradoxo piore demais, preciso de vocês pra me ajudar a não perder o foco — Cinco explicou, com uma seriedade crescente. Ele ergueu as sobrancelhas, esperando que ambos entendessem a gravidade da situação. — O que quer que aconteça, o que quer que eu diga, a gente precisa daquela maleta.
Não demoraram nem dois segundos. Ambos se entreolharam, as mentes claramente trabalhando rápido, e então, concordaram:
— Tá bem, eu tô dentro.
— É, eu também.
Cinco assentiu com firmeza, convicto. Em seguida, saiu da sala de estar, descendo as escadas com rapidez. Celeste e Luther ficaram se olhando, uma preocupação mútua estampada em seus rostos. Era uma loucura, pra dizer o mínimo. O plano poderia dar certo — mas também poderia dar muito, muito errado. Era tudo ou nada. Dois extremos.
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O aroma doce de bebidas alcoólicas e menta preenchia o pequeno bar de Dallas, que exibia uma decoração tradicionalista. As músicas que tocavam por ali invocavam a cultura escocesa, e as paredes de tijolos, decoradas com quadros e pôsteres, criavam uma atmosfera aconchegante. Bandeirinhas dos Estados Unidos balançavam suavemente por todo o lugar, e as mesas de madeira simples e o balcão rústico tornavam tudo ainda mais acolhedor. Era estranho, mas de alguma forma animador para os três.
— Que lugarzinho legal — Celeste resmungou ao entrar, sendo a primeira, seguida por Cinco e depois Luther.
— Eu tenho que estar aqui — Cinco falou, esfregando as mãos, claramente desconfortável. Celeste olhou ao redor, tentando encontrar a outra versão de Cinco. Foi então que um homem chamou sua atenção. Como sempre, Celeste era observadora. Os cabelos da mesma cor do garoto ao seu lado e o nariz grego chamaram sua atenção de imediato. — Olha eu ali.
O Cinco mais velho estava elegante. Por volta dos quarenta e cinco anos, a barba bem feita contrastava com o nariz marcante que sempre tivera. Seus olhos azuis brilhavam, e o terno cinza, que era o uniforme padrão dos agentes de campo, o deixava impecável. O cabelo, levemente grisalho, estava cuidadosamente penteado para trás. "Ele fica adorável na meia-idade", pensou Celeste, sorrindo discretamente, antes de lançar um olhar para o garoto ao lado, que estava com o cenho franzido, claramente incomodado.
— Por que você está olhando tanto, hein? — Cinco perguntou, a irritação transparecendo na voz. A psicose do paradoxo parecia ter intensificado seu ciúmes.
— Você é bonitinho, ora. — Ela deu de ombros, sem se importar com o desconforto dele. Cinco soltou um suspiro incrédulo, embora, no fundo, estivesse um pouco aliviado por saber que ela gostava da sua aparência futura. Luther, ao lado deles, fez uma careta.
— Querem parar com isso?! Foco! — Ele resmungou, já cansado. Soltou um suspiro impaciente e então olhou para o irmão. — Por que a gente não pega a maleta e corre? — Luther sugeriu.
— Eu nunca deixaria isso acontecer — Cinco explicou, como se fosse óbvio. Celeste revirou os olhos, já começando a ficar impaciente com a lentidão de Luther para entender. Ele não tinha prestado atenção no caminho todo? — Somos treinados para proteger a maleta com nossas vidas.
— Tá.
— E esse é o paradoxo real. Onde a coisa complica. Eu tô arriscando minha existência só por estar no mesmo ambiente que eu mesmo — Cinco explicou, a voz carregada de indignação e nervosismo.
— Como assim?
— Luther, meu Deus! — Celeste retrucou, sem paciência. Já estava ficando irritada com a lentidão dele. Luther olhou para ela, buscando alguma explicação. — Dependendo do que a gente fizer, ele pode NÃO viajar no tempo. Sabe o que isso significaria? Se Cinco nunca tivesse voltado para nós em 2019, não estaríamos aqui agora. A história ia se desfazer por completo!
— Isso não é bom... — Luther murmurou, a expressão horrorizada tomando conta do rosto. Ele agora entendia o que estava em jogo, e o medo de tudo dar errado se espalhou por ele.
— A nossa melhor chance é conversar com ele. Convencer ele — Cinco concluiu, a determinação tomando conta do olhar. — Ele vai entender. Acreditem. Eu me conheço melhor do que... eu me conheço — ele disse, levando a mão até o pescoço e coçando-o nervosamente enquanto observava de longe a versão mais velha de si mesmo.
— Você coçou o pescoço. É o estágio dois da psicose do paradoxo — Luther observou, os olhos arregalados de preocupação.
— Não cocei, não. — Cinco negou rapidamente, tirando a mão do pescoço com um movimento brusco, franzindo o cenho. — Não cocei o pescoço.
— Você está negando — Celeste apontou, a cabeça inclinada de um lado para o outro, como se observasse um espetáculo bizarro. Se não fosse trágico, seria até hilário. — Estágio um, Cinco.
— Eu tô bem, tá legal? — ele falou entre dentes, nervoso. O tom de irritação evidente, mas a exaustão tomando conta dele. Soltou um suspiro e, quando voltou a olhar para a versão mais velha, engoliu em seco, apesar da determinação que ainda brilhava em seus olhos. — Vamos nos concentrar, pode ser? — falou, fazendo menção de se aproximar da outra versão.
— Espera — Luther o impediu, colocando a mão no ombro de Cinco. Cinco parou, confuso, uma pontada de irritação crescendo dentro dele. "Mas que diabos", pensou. Estava tão desorganizado emocionalmente que queria terminar logo com tudo aquilo. — É melhor um de nós ir primeiro.
— Por quê? — Cinco perguntou, irritado, querendo se livrar de toda aquela tensão.
— Porque você vai assustar ele — Luther argumentou, como se fosse óbvio. Celeste concordou com a cabeça, embora também preocupada. — Encontrar sua própria cópia adolescente? Ele vai surtar.
— Ele tem razão. — Celeste falou, com um meio sorriso. — Eu vou. Eu quebro o gelo.
— Tá bem, tá bem — Cinco concordou, estalando os próprios dedos na tentativa de dissipar a ansiedade. — Ver você vai deixá-lo perplexo demais para ser grosseiro. — Ele franziu o cenho. Então, lembrou-se da psicose do paradoxo, e de como, mesmo assim, ele possivelmente seria grosseiro.
Ou melhor, estar sob o efeito da psicose diante da garota que ele gostava há anos certamente faria a outra versão pirar por dentro. Seria estranho ver o "Cinco mais velho" tentando não transparecer o caos emocional enquanto se esforçava ao máximo para não deixá-la preocupada ou, pior, envergonhar-se. Na verdade, com o nível de intimidade que o outro Cinco — o mentalmente mais velho — já tinha com Celeste, estava nem aí para passar vergonha.
Celeste, já decidida, se afastou dos dois. Caminhou hesitante até o balcão, os passos lentos, quase como se estivesse pesando cada movimento. "O que diabos ele vai pensar?", ela resmungou mentalmente. Não fazia ideia de como ele reagiria. "Talvez perplexo, quem sabe?”. "Vai tentar fingir que não está surtando com a psicose", ela pensou, sorrindo ironicamente.
Cinco estava tão imerso nos próprios pensamentos que não percebeu a presença dela ao seu lado. Estava concentrado em sua bebida, e a perna balançava inquieta sob a mesa. Celeste, nervosa, hesitou por um momento antes de tentar quebrar o gelo. Cinco, por sua vez, bebeu mais um gole e perguntou, ainda sem perceber quem estava ali.
— O que você, como mulher, gostaria de ouvir, caso... a pessoa com quem você teve um lance, pra dizer o mínimo, tivesse desaparecido por um bom tempo e simplesmente voltasse de repente? — Ele perguntou, ainda fixado na bebida, parecendo profundamente preocupado com o futuro. Ele sabia que era uma mulher ao eu lado, e precisava urgentemente de conselhos. Mesmo assim, ainda não havia olhado para o lado para perceber que ela ela quem estava ali. Celeste soltou um sorriso, incrédula. "Isso realmente está afetando ele, hein?", pensou.
— Eu com certeza não gostaria que falasse mal do meu café. — Ela resmungou, dando de ombros. Cinco reconheceu a voz de imediato. Ele deu um salto na banqueta, assustado. Quase se levantou, como se tivesse levado um choque. Olhou para a garota ao seu lado com uma expressão de quem não acreditava no que estava acontecendo. Não ouvia aquela voz há trinta anos.
— Celly? — Ele perguntou, a voz falhando, confuso. Ergueu a mão, tentando tocá-la, mas hesitou, como se aquilo fosse algo impossível de acreditar. "Como é possível?", pensava, incrédulo, tentando processar o que estava vendo.
Cinco a olhava com um brilho nos olhos. Não era só um brilho de admiração, mas também de medo e preocupação.
— O cabelo grisalho te caiu bem, sabia? — Ela disse, tentando dar o melhor sorriso possível para esconder o nervosismo que a consumia. Cinco ficou boquiaberto. Ela estava... elogiando-o?
— Como foi que você...
— …"voltou"? — Celeste completou a frase com naturalidade, erguendo as sobrancelhas, como se estivesse imersa na conversa. — Ah... longa história.
— O que…
— Felizmente… tem alguém familiar aqui que adoraria te contar essa longa história e... pedir sua ajuda, sabia? — Ela perguntou, com um tom manipulador, tentando deixá-lo desconcertado o suficiente para fazer tudo o que ela queria. Embora, no fundo, estivesse insegura. Mas com a psicose do paradoxo, nada disso deveria funcionar.
— Quem que adoraria contar o quê e... — Ele começou a perguntar, mas a voz falhou novamente. Estava emocionado demais para conseguir formar as palavras direito. Ele ficou ali, apenas olhando para ela, até perceber que duas figuras haviam surgido de trás da coluna do estabelecimento. Foi quando Luther, com um sorriso caloroso, disse:
— Oi, irmão.
A confusão de Cinco só aumentou. Agora, a versão dele, fisicamente com dezesseis anos, estava ali, encarando-o intensamente. Ele engoliu em seco, completamente perdido. Seus pés moveram-se instintivamente, tentando proteger a maleta sob a mesa, como se isso fosse a coisa mais importante de todas.
— E aí, estranho — Cinco cumprimentou de longe, o mais velho mentalmente, sua voz carregada de desconforto, como se o simples fato de estar naquela situação o deixasse tenso.
Apesar de toda a confusão e da tensão no ar, com a versão fisicamente mais nova o encarando com um ciúmes mortal, Cinco, o fisicamente mais avançado, não conseguia tirar os olhos de Celeste. Ele estava paralisado. Confuso. Perplexo.
— Puta merda — a outra versão murmurou, ficando ainda mais pálido. O suor começava a escorrer, a psicose já dando sinais claros de seus efeitos.
O Cinco fisicamente mais velho baixou lentamente a mão que estava perto do rosto de Celeste, que já estava visivelmente incomodada com toda aquela situação absurda.
— Você… — Ele murmurou, tentando puxar assunto, mas estava tão perdido que mal conseguia reunir forças para falar. Foi quando o Cinco mais velho mentalmente o cortou, furioso.
— Pode ir parando por aí, tá legal?! — Ele gritou, com raiva crescente, a psicose deixando seu ciúmes ainda mais intenso. Ele avançou na outra versão, apontando o dedo para ele e ficando bem na frente de Celeste, que bufou, cansada. "Lá vamos nós", ela pensou, já entretida com o caos. Luther, assustado, correu para perto dos dois, sem saber bem o que fazer. — Eu sei o que você está pensando, e não vai vir de graça pra cima da minha namorada!
— Sua namorada?! Eu sou você!
— Alguns dias antes — Cinco deu de ombros, claramente irritado. A situação só estava ficando mais tensa, com a versão mais jovem (mentalmente) de Cinco visivelmente incomodada.
Foi então que, para piorar ainda mais o clima, uma atendente do bar se aproximou. Ela tinha cabelos escuros e cacheados, com a pele morena, e uma expressão de gentileza no rosto.
— Com licença… este senhor está te incomodando? — Ela perguntou ao Cinco fisicamente mais novo.
— O quê?! — Luther resmungou, incrédulo. O Cinco mais velho fisicamente se adiantou, dizendo irritado:
— Claro que não.
— Ele está, sim! — O Cinco mentalmente mais velho falou, quase em um grito. — Está querendo roubar minha namorada-
Antes que a situação ficasse ainda mais ridícula, Luther rapidamente avançou por trás de Cinco e tapou sua boca, tentando calá-lo. Ele deu um sorriso constrangido para a atendente, como se estivesse tentando remediar o desastre.
— A-ha... Peço perdão por isso... — Luther murmurou, claramente envergonhado. Celeste, por outro lado, estava completamente desacreditada.
A atendente, sem saber como lidar com a situação, acabou se afastando. Quando Luther finalmente soltou o Cinco mais jovem, Celeste não perdeu tempo e o repreendeu imediatamente.
— Está ficando maluco?! — Ela resmungou, batendo levemente no braço de Cinco. O Cinco mais velho fisicamente, mesmo com o efeito da psicose, deu uma risada contida. — Ela ia achar que você é um pedófilo!
— Se isso significasse tirar ele da minha frente... — O Cinco mais velho fisicamente resmungou, com um sorriso perverso. — Eu não me importaria.
— Já chega os dois!! — Luther gritou, irritado. Ele estava farto das provocações incessantes, e isso também estava deixando Celeste irritada. Os dois Cinco cruzaram os braços ao mesmo tempo, em um movimento quase coreografado, o que arrancou um sorriso de Celeste. O absurdo da situação estava começando a ser tão cômico quanto preocupante.
Os dois se encararam com tanta intensidade que parecia que estavam prestes a se atacar — o Cinco mais novo em aparência, principalmente, por causa do ciúmes.
Percebendo que eles já estavam totalmente fora de controle e não estavam tomando iniciativa alguma, Celeste decidiu intervir. Ela desceu da banqueta, decidida.
— Vamos nos sentar — ela ordenou. Os dois Cinco nem se moveram. — Escolham a mesa.
— Quero sentar em uma mesa longe dele. — O Cinco "mais velho" falou, com um olhar desafiador.
— Isso não. Juntos. Todos nós. — Celeste explicou, já visivelmente cansada.
Os dois rolaram os olhos, mas, após um momento de hesitação, escolheram a mesa do centro. Sentaram-se em extremos opostos, de frente um para o outro. Celeste se sentou à direita do Cinco mais velho, enquanto Luther ficou do outro lado, com os olhares preocupados. A tensão entre os dois Cinco era palpável.
Luther, tentando quebrar o clima de desconfiança entre os dois, falou, sorrindo sem saber bem o que dizer.
— Isso é bacana, né? — Ele comentou, tentando suavizar a situação ao perceber que ambos estavam suando, claramente incomodados. Ele sorriu de forma nervosa, sem saber como continuar. Celeste, com um suspiro, concordou com a cabeça, tentando apoiá-lo. — Nós quatro, juntos assim.
— Não — ambos responderam em uníssono, e Celeste fez uma careta. "Que homem difícil", ela pensou. Ela deixou as mãos sobre a mesa, entrelaçando os dedos, sem saber o que mais dizer. Cada palavra que ela dizia parecia só aumentar a tensão entre os dois e afastar o Cinco "mais jovem" de se focar no plano, por pura raiva e ciúmes.
Foi então que, após uma pausa desconfortável, o Cinco mais jovem mentalmente perguntou, estreitando os olhos e claramente confuso:
— Alguém me explica por que estou bebendo uma caneca de cerveja com o meu eu mais jovem?
— Mais velho, na verdade — Celeste corrigiu, sua voz firme, mas com um toque de leveza.
O Cinco fisicamente mais velho estreitou os olhos, desconfiado, e murmurou:
— É?
— Eu sou você, quatorze dias mais velho. — Cinco explicou, a seriedade no tom contrastando com a tensão que pairava no ar entre os dois. Eles não paravam de se fitar, como se estivessem prestes a se atacar a qualquer momento. O clima estava ficando difícil até para Celeste Luther controlar. "Qualquer coisa, eu posso apagar um deles, né?", ela pensou, com uma ideia cada vez mais tentadora.
— Tenho pelos pubianos mais inteligentes que você. Isso não faz sentido. — O Cinco fisicamente mais velho retrucou, com um tom irônico que tentava disfarçar a irritação.
— Eu posso explicar. — O outro Cinco deu de ombros, um sorriso perverso se formando nos lábios. — Sabe, daqui a uma hora, na praça, antes do presidente ser morto, você vai violar o contrato com a Comissão. Eu sei que está pensando nisso. — Ele estreitou os olhos. — Todos aqueles anos no apocalipse... você nunca parou de se preocupar com a nossa família. E, no fundo, nunca deixou de desejar reencontrá-la — ele sussurrou, a última parte como uma verdade crua. Ambos olharam para a garota ao lado, que ficou desconcertada, sem saber o que dizer. O silêncio no ar era palpável, até o Cinco fisicamente mais jovem voltar sua atenção para a outra versão, com um olhar quase acusador. — Então hoje, você vai fazer algo a respeito. Vai tentar viajar para frente, até 2019. Mas vai cometer um erro no salto e acabar nesse corpo de adolescente. Preso. Para sempre. Pequeno. Adolescente! — ele resmungou, as palavras saindo de sua boca como uma lâmina afiada, carregadas de raiva e frustração.
— Ta bem… — a outra versao murmurou, ainda cética. Estendeu as mãos sobre a mesa, entrelaçando os dedos, exatamente como Celeste havia feito antes. — Mesmo que eu acreditasse nisso, o que querem que eu faça? Não salte?
— Não! — Celeste corrigiu, a voz mais alta agora, com uma pontinha de desespero. Ela se inclinou sobre a mesa, a preocupação estampada no rosto. — Você precisa saltar. Se não fizer isso, todos nós vamos deixar de existir!
— O que eu preciso... é que salte corretamente. — Cinco explicou, os olhos apertados com uma urgência grotesca, como se a vida dele dependesse disso.
— Expliquem direito.
— Da primeira vez, eu fiz o cálculo errado — o Cinco mentalmente mais velho resmungou, frustrado consigo mesmo. Ele revirou os olhos, irritado. — Foi assim que acabei nesse corpo. Mas agora... agora eu sei o cálculo certo.
O Cinco fisicamente mais velho, agora com um interesse visível, se inclinou para frente, aproximando-se perigosamente de Cinco, o olhar perverso como uma lâmina prestes a cortar.
— E qual é?
— Eu vou dizer com prazer… — Cinco sorriu, manipulador, com uma expressão de quem estava saboreando cada palavra. — ...em troca dessa maleta que você tá segurando embaixo da mesa.
É, você volta a 2019 como planejou, mas dessa vez, com a conta certa. Assim, continua sendo um homem adulto. — Luther afirmou com um sorriso de quem achava que tinha uma vantagem. Ele parecia realmente acreditar que o outro aceitaria. — Em troca, ficamos com a maleta da qual você não vai mais precisar.
— A linha do tempo será restaurada, e o paradoxo se resolve — Cinco completou, dando de ombros, como se estivesse apenas concluindo um simples cálculo.
— Todo mundo continua existindo... feliz para sempre. — Celeste finalizou, concordando com a cabeça, um sorriso ligeiro brincando nos seus lábios. O silêncio tomou conta da sala. A outra versão parecia estar refletindo, ainda indecisa.
— É muita coisa para absorver.
— O que você acha? — Celeste perguntou, ansiosa. Seus olhos estavam fixos na versão mais velha de Cinco, tão ansiosa quanto ele e Luther, esperando uma resposta. O outro Cinco estreitou os olhos, nervoso, como se a tensão no ar estivesse quase palpável.
— Eu acho… — ele respondeu, o tom calmo como uma tempestade prestes a se formar. O silêncio, carregado de expectativa, deixou todos tensos. — …que preciso mijar.
Sem cerimônia, ele levantou-se da mesa, segurando a maleta com um nervosismo impressionante. Foi direto para as portas do banheiro ao fundo do estabelecimento.
— Belas palavras — murmurou Celeste, irônica, com um sorriso de deboche nos lábios. — Me deixou até tocada.
Cinco estava um caos por dentro. O coração disparado, suor escorrendo pelo rosto, e o estômago revirando como se algo vivo o consumisse por dentro. A sensação era sufocante. Estava no olho de um furacão mental, a psicose do paradoxo o envolvendo por todos os lados. O ambiente parecia mais pesado a cada segundo, e o fato de dividir o espaço com ele mesmo tornava tudo ainda mais sinistro. Se os sete estágios do paradoxo já soavam assustadores na teoria, vivê-los era um pesadelo multiplicado por três.
— Apesar de tudo isso, acho que as coisas até que correram muito bem — disse Luther, com um sorriso satisfeito.
Celeste assentiu com a cabeça, ainda relutante em concordar. Tirou um lenço do bolso de sua camisa xadrez e passou na testa de Cinco, que estava ao seu lado. Ele, no entanto, mal registrou o gesto. Seu olhar estava cravado na porta do banheiro, para onde sua outra versão havia ido. O cuidado dela era notado, sim, mas qualquer fagulha de alívio era abafada pela paranoia crescente que o consumia.
— Não, tem alguma coisa errada. — Sua voz saiu firme, mas desesperada. — Tem alguma coisa errada com tudo isso. Eu não confio nele!
Celeste parou o que estava fazendo, estreitando os olhos com curiosidade. Sua expressão era metade confusa, metade divertida.
— Mas ele é você — disse, dando de ombros, um sorriso zombeteiro brincando em seus lábios.
— Por isso mesmo! — Cinco exclamou, a preocupação escorrendo de cada palavra. Estava sendo sincero. Ele deu de ombros e respirou fundo, mas a inquietação era evidente.
Celeste suspirou e guardou o lenço no bolso, como se já estivesse acostumada a lidar com suas reações exageradas.
— Vai dar tudo certo, tá? — Ela tentou confortá-lo com um tom mais doce, embora suas palavras não parecessem alcançar.
Luther, sem dar muita atenção ao diálogo dos dois, se levantou. Achou prudente verificar a demora da outra versão e seguiu para o banheiro.
— Mas não está dando certo! — Cinco retrucou, impaciente. Sua voz soava mais exasperada a cada palavra. Ele se virou para Celeste, claramente irritado, os olhos cheios de um ciúme irracional. — Está vendo o jeito que ele te olha?! Eu vou matar aquele nojento-
— Ele… é… você! — Celeste repetiu, pausando cada palavra como se estivesse explicando para uma criança. Sua expressão de incredulidade era quase cômica. — Tá entendendo que não faz sentido você ter ciúmes dele?!
— Claro que faz! Ele é um metido — Cinco rebateu, cruzando os braços como uma criança birrenta. Ele se ajeitou na cadeira, com uma indignação tão genuína que Celeste não conseguiu evitar abrir a boca, surpresa. — Além disso, ele quer roubar sua atenção. Minha atenção. Moleque irritante!
— Moleque? — Celeste arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo com o comentário. — Ele é só quatorze dias mais novo que você.
— E isso já é o suficiente para ser irritante! — Cinco argumentou, como se isso resolvesse tudo. — Viu o que ele sugeriu? Achou que queríamos impedir que ele pulasse! Ele é completamente insano. Não confio nele.
Celeste soltou um longo suspiro, visivelmente exausta. Tamborilou os dedos na mesa, tentando pensar em algo para apaziguá-lo. Sem sucesso, apenas segurou as mãos dele entre as suas. A temperatura elevada e o suor nas mãos dele a fizeram fazer uma careta involuntária, mas ela manteve o contato. Cinco, por sua vez, suspirou, um pouco mais calmo.
Antes que pudessem continuar a conversa, a outra versão de Cinco voltou, seguido de Luther, que parecia mais pálido do que o habitual.
— Tudo bem? — perguntou a versão mais jovem, segurando a maleta com firmeza. — Combinado.
— Vai aceitar a proposta? — Celeste perguntou, ainda segurando as mãos do Cinco mais velho. Um sorriso de esperança iluminou seu rosto.
A outra versão lançou um olhar desagradável para a proximidade entre eles, mas se limitou a responder:
— Sim. Mas temos que correr. Kennedy está a caminho. — Ele suspirou, com um ar de urgência. — Menos de uma hora até a hora do show.
— Por que, de repente, você ficou tão ansioso pra ir lá? — Cinco perguntou, soltando as mãos de Celeste com uma calma calculada para não ofendê-la. Ele se levantou, as palmas das mãos firmemente apoiadas na mesa, encarando o outro com desconfiança.
— Relaxa — a versão mais jovem respondeu, tentando parecer tranquila, mas soando falsamente casual. — Você está ficando paranoico.
— Ah, eu tô? — Cinco rebateu, sarcástico, o olhar afiado como uma lâmina.
A tensão entre os dois era palpável, e a atmosfera ficou ainda mais desconfortável quando ambos começaram a soltar flatulências — um dos charmosos sintomas do paradoxo. A situação era trágica: dor de barriga, suor excessivo e duas versões de uma mesma pessoa à beira de um colapso mental.
— É melhor irmos logo — Celeste decretou, levantando-se e sinalizando para Luther acompanhá-la. Seja lá o que ele havia conversado com o outro Cinco no banheiro, ela queria desesperadamente saber.
Luther concordou e saiu na frente, seguido por Celeste, o Cinco mais velho e, por fim, o Cinco mais jovem. Era uma pequena procissão de pessoas resignadas, duas paranoicas e duas curiosas. O cenário era tão absurdo quanto preocupante.
Espero que tenham gostado do capítulo, votem e comentem! 🫶
revisão concluída ☑️💚
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