Capítulo 7 - Sinto muito

— Oi, a que devo a honra? — disse, animado. Na ligação dava para ouvir o barulho do videogame que foi adicionado também na sala de jogos do prédio.

— Está ocupado? — falou, colocando o celular sobre a cama e colocou no viva-voz.

— Só jogando, mas diga. Do que precisa?

— Pode comprar uma passagem de avião para a Coreia do Sul?

Paulo soltou uma gargalhada de animação.

— Vai atrás da Vanessa, né?

— Sim...

— Tem todo meu apoio, ei, não! Pra esse lado não, ahhhhh! — gritou. Ao fundo deu pra ouvir a voz robótica dizer "game over". — Agora você tem cem por cento da minha atenção .

— Oi? — Gustavo falou, ao mesmo tempo que jogava algumas roupas que comprou no fim de semana em cima da cama.

Ele tinha acabado de chegar e correu para arrumar a mala. Mas, como não sabia se ia conseguir uma passagem para a Coreia naquela hora, precisou ligar para Paulo que também estava descansando naquele dia.

atenção...

— Preciso da passagem, consegue comprar? Faço a transferência quando estiver no aeroporto.

— Fica na linha, eu vou conseguir um assento na primeira classe!

Gustavo assentiu e continuou arrumando a mala. O resto da ligação foi concentrada em Paulo ligando para vários amigos ricos e influentes a fim de achar uma vaga no avião. Estava difícil de conseguir, por isso, escolheu encerrar a ligação a fim de pedir a ajuda do pai. Dez minutos depois, ele retornou com a resposta.

— Então? — perguntou, com o coração acelerado.

— O general Rafael conseguiu uma vaga pra você, mas tenho uma notícia ruim...

O médico se sentou e pressionou os lábios, com medo do que vinha pela frente.

— O voo só sai amanhã de manhã, então vai ter que esperar.

Gustavo soltou o ar pela boca. Se não pudesse ir naquele dia, não tinha problema, com tanto que conseguisse chegar à Coreia do Sul o mais rápido possível.

— Obrigado, cara. Você me salvou! — agradeceu, aliviado. — Mas pode me ajudar com outra coisa?

— Você não tem o endereço, né?

— Não! — mordeu o lábio inferior. — Nunca conversamos sobre endereços, então não faço ideia de como chegar lá.

— Pode deixar, isso eu consigo com a Rebeca, ela tem o endereço no e-mail.

Ele suspirou.

— Obrigado! — agradeceu novamente, se sentindo aliviado. — E Paulo, você consegue o contato de algum corretor de imóveis na Coreia do Sul?

— Uauu! — Comentou, batendo palmas. — Então já está pensando em morar, casar e ter filhos?

Gustavo riu. Ele era exatamente como a Rebeca.

— Não sei como está a situação na Coreia, então se eu precisar ficar lá por muito tempo, pelo menos vou ter um lugar confortável pra ficar.

— Okay, vou te enviar tudo isso em dez minutos!

— Obrigado!

A ligação foi encerrada e Gustavo se jogou na cama, ao lado da mala pronta. Estava mais perto do que nunca, até que enfim ia poder vê-la.

— Espero que esteja bem, senhorita Kim — ele disse, olhando a tela do celular.

O papel era uma foto que pediram para uma senhora tirar. Eles estavam no parque, perto do antigo prédio que morava. Vanessa sorriu e se apoiou em um pé a fim de depositar um beijo na bochecha dele. Gustavo sorriu e fechou os olhos, aproveitando o momento. A senhora tirou a foto bem nessa hora e ficou turva, mas ainda assim, tinha a essência deles. Era uma das fotos que mais gostava.

Ainda lembrando daquele momento, usou o polegar para tocar o rosto dela e deixou uma lágrima escorrer. Como sentia falta dela...

— Sinto muito... — falou, agora tocando em seus cabelos. — Eu deveria ter percebido antes, deveria saber que você estava pedindo ajuda... — suspirou. — Mas estou indo agora, Jagiya, espere por mim.

Nesse momento, ele virou para o lado e apoiou o celular em um travesseiro. Foi desse jeito que adormeceu e acordou meia noite em ponto. Ainda sonolento, desbloqueou o celular para ver se Vanessa respondeu à mensagem que enviou às cinco da tarde e às dez da noite — quando acordou para ir ao banheiro — mas não havia sinal dela. Então, escolheu enviar a última mensagem.

Jagiya, — sussurrou, em coreano.Você está bem? Você está realmente bem? — respirou fundo e continuou, com a voz trêmula: — Eu queria ir até você, e foi uma tortura ficar longe, sem saber se está bem. No trabalho, em casa, tocando piano... Todos os momentos me levavam até você, porque de alguma maneira, Jagiya, você consegue mudar tudo! Muitas dúvidas não saíram da minha cabeça, porém, apesar dessas dúvidas estarem me consumindo agora, só consigo pensar em como você está. É por isso, Jagiya mais uma vez, outra longa pausa e soluços. Ele já estava encharcando o travesseiro.É por essa razão que escolhi te encontrar de novo, porque depois de pensar e tentar entender onde errei, descobri que meu maior pecado foi não te proteger. E a partir desse momento, nada mais será um problema... Porque vou te proteger...

Ele clicou em enviar. O áudio chegou à meia noite e sete. Gustavo voltou a dormir e só acordou de manhã cedo a fim de pegar o voo para a Coreia do Sul.

[...]

No aeroporto, Gustavo fez a transferência para Paulo e entrou em contato com a corretora de imóveis. A mulher que o respondeu pediu para ligar para ele a fim de conversarem melhor e ele concordou. Porém, antes de atender a ligação, a primeira chamada para o voo dele soou pelos alto falantes.

— Acabei de ouvir a chamada pra embarcar, podemos conversar quando eu chegar na Coreia — disse em inglês, e ficou em pé a fim de procurar o portão de embarque. Gravava o áudio para facilitar a conversa. — Eu só preciso que a casa seja em um condomínio específico. Não me importo com preços, só quero que seja lá. Vou te enviar o endereço nesse instante. Ah, eu também preciso que tenha um cacto na casa, um tipo específico.

O áudio foi enviado e Gustavo correu para embarcar. No avião, antes de decolar, ele enviou o endereço de Vanessa e também o tipo de cacto que gostaria que tivesse no jardim da casa, era um Mammillaria gracilis. Gostaria que tivesse essa espécie, pois o Magnos era dela e quando tudo se acertasse com a Vanessa, ia querer levá-la na casa para ver.

Vinte e seis horas depois, o médico pousou em solo Coreano. Ele baixou um aplicativo e pediu um táxi. A corretora já o esperava na mansão que ficava dentro do condomínio de mansões. A notícia boa que recebeu era que o casal que morava na casa quis vendê-la com tudo dentro, então não ia se preocupar com nada disso. Também descobriu que eles não tinham o tal cacto no jardim — é claro que era uma missão quase impossível — mas a imobiliária conseguiu comprar algumas mudas do tal cacto em um floricultura. Ainda eram pequenos e foram colocados em um jarro azul com detalhes brancos que combinavam perfeitamente com a flor que logo brotaria do cacto. Ele gostou da ideia e decidiu dar uma das mudas a Vanessa quando fosse vê-la mais tarde.

Meia hora depois, o holandês desceu do carro em frente a enorme mansão que agora era sua casa. O taxista o ajudou a tirar a mala do porta-malas e a corretora abriu a porta assim que ouviu o barulho do carro.

— Obrigado — ele agradeceu ao taxista e deu uma gorjeta bem generosa. Depois, segurou no puxador da mala e foi ao encontro da mulher.

— Seja muito bem vindo, senhor Mark! — falou em inglês. — Estamos te aguardando para assinar os papéis, vamos entrar?

Ele confirmou com a cabeça e sorriu.

Lá dentro, o médico deu de cara com uma casa luxuosa e elegante. Os tons eram azuis e branco, algo bem parecido com seu antigo apartamento no Brasil. Um tapete de veludo cobria a maior parte da sala, e um sofá confortável estava no centro. A TV foi colocada na parede e havia prateleiras grandes atrás do sofá para colocar livros ou decorações; do lado da sala ficava um espaço com uma mesa de doze lugares e suas cadeiras de madeira em tons de azul. Parecia que tudo foi pensando para ele e Gustavo sorriu, admirando o lugar.

Enquanto reparava nos detalhes, percebeu no chão da sala de estar as mudas do cacto e sentiu o coração se encher de paz, pois lembrou das conversas que teve com Vanessa em relação ao Magnos.

— Vamos sentar? — a mulher disse, o fazendo voltar para a realidade.

Eles conversaram sobre valores e o contrato. A mulher mostrou a casa para ele e avisou que no dia seguinte alguns jardineiros seriam enviados a fim de plantar os cactos no jardim da mansão. Gustavo concordou e pediu que separasse uma muda. Então, em menos de uma hora os papéis foram assinados e ele se viu sentado no sofá da sala.

— Eu preciso de um banho — disse, suspirando. — Mas esse sofá é tão macio que... — fez uma pausa para bocejar.

Era dia dezenove de dezembro de 2037. Gustavo sabia que se dormisse, talvez fosse acordar no dia seguinte, e não ia ter tempo de comprar um presente de aniversário para ela e, pensando em fazer as duas coisas, baixou um aplicativo coreano de compras online. Ficou navegando por alguns minutos até que encontrou o presente perfeito! Ele comprou e quando encerrou, pegou no sono ali mesmo.

O médico estava tão cansado que só acordou dez da noite com o celular tocando, era o entregador. Ele saiu, atendeu o homem e pegou a pequena caixa. Em seguida, foi para o quarto e tomou um banho. Também escolheu orar e meditar na bíblia para se preparar para o dia seguinte.

Finalmente estava acontecendo...

[...]

— Me perdoe... — falou, alisando as costas de Vanessa, ao mesmo tempo que chorava com ela. — Me perdoe por ter demorado demais.

Vanessa balançou a cabeça, negando. Ele sentiu uma pontada no coração.

Conseguiu dormir bem na noite anterior e preparou os presentes. Quando estava chegando na frente da mansão, viu um homem no portão. Ele pediu para entrar e por um milagre, o homem abriu os portões. Gustavo se deu conta da confusão, então correu até a casa.

Agora entendia porque Deus permitiu que fosse até ela, mas também se sentia muito triste por vê-la abatida. Partia seu coração.

— Você veio no tempo certo... — ela respondeu, soluçando.

O holandês abraçou-a mais forte, sabendo que a frase foi apenas uma forma de amaciar seu ego. Também pensou no que ela acabou de dizer. O tempo realmente curava todas as dores? Se fosse verdade, por que algumas pessoas, mesmo depois de viver muito tempo, continuavam machucadas? Se fosse verdade, por que sua pequena coreana ainda sofria por feridas que foram abertas no passado?

Gustavo então lembrou do segundo C-dorama que assistiu, um chamado "Adeus Minha Princesa". A personagem principal estava sofrendo emocionalmente. Ela buscava esquecer de tudo, mas não conseguia. Em uma tentativa desesperada, acabou buscando encontrar o lago do esquecimento. Depois de encontrar sua localização, a menina se jogou nele. Ela conseguiu esquecer a dor, mas o sofrimento acabou voltando um tempo depois, como se o efeito do lago fosse passageiro! Então o C-drama o fez entender que, o tempo não cura tudo, e o lago do esquecimento não existe! A resposta para a dor se resume em uma palavra: superar.

Porém, superar a dor leva tempo, e com o passar dos dias a dor é vencida, e a ferida deixa de doer. Vanessa Kim precisava de tempo e ele gostaria de ajudá-la a superar tudo mais rápido.

— Me desculpe... — continuou dizendo, chorando. — Você não deveria estar sozinha, eu deveria ter insistido.

Vanessa suspirou.

Ele a fez sair do abraço, segurou seus ombros com as duas mãos e mirou dentro de seus olhos. Ficou assim por alguns segundos e pensou em como sentia saudade daqueles belos olhos castanhos. Por fim, sorriu de canto para ela e limpou as lágrimas que ainda escorriam por suas bochechas.

— Vai ficar tudo bem, Jagiya... — dizia, passando o polegar por suas bochechas. — Vai ficar tudo bem...

A coreana suspirou, satisfeita por tê-lo por perto. Então, continuaram abraçados por alguns minutos até que Vanessa caiu no sono.

Omo! — Eun-ji falou, se aproximando deles. — Quem é você? Por que está com a Nari? Saia, saia de perto dela, seu tarado! — a senhora gritava em coreano, deixando Gustavo completamente desesperado.

Ele segurou as costas de Vanessa com uma mão e com a outra, remexeu no bolso do sobretudo. Após achar o que queria, ergueu uma espécie de placa transparente e a balançou no ar. A senhora desconfiada, chegou perto dele, mas não tanto, apenas o suficiente para puxar o documento de suas mãos. Então, grosseiramente, a governanta deu dois cliques na tela transparente do documento. A foto de Gustavo apareceu e logo abaixo estavam informações importantes:

Nome: Gustavo Mark.

Nacionalidade: Holandês.

Idade: 27 anos.

Data de nascimento: 15/12/2010

Profissão: Médico e pesquisador.

Número de identificação mundial: 0087453.

Situação: Regular.

Eun-ji levou as mãos até o peito, aliviada. Em seguida, apontou para o elevador da sala que estava com as portas abertas. Gustavo franziu o cenho, confuso.

— Venha! — ela falou em coreano, o puxando pelo braço.

Gustavo entendeu o que a senhora queria e carregou Vanessa no colo. Ele ficou em pé e caminhou logo atrás da governanta. Juntos, entraram no elevador. A mulher apertou no botão do terceiro andar e ficou calada.

— Por aqui... — disse, quando viu as portas finalmente abrirem.

Ela caminhava apressada e seu andar era engraçado. Os cabelos curtos e brancos estavam cobertos por uma boina que parecia fazer parte do uniforme da governanta, e o laço do avental que foi feito às pressas por ela, estava desamarrando. Gustavo seguia seus passos em silêncio, reparando apenas nesses detalhes. Enquanto andava, dividia a atenção entre Vanessa e o enorme espaço da mansão.

A mansão era grande; cabiam três casas enormes dentro dela. Os móveis eram atuais, com a marca de uma empresa coreana. O jeito que cada móvel se conectava com o designer agradava os olhos e Gustavo sorriu, lembrando de como Vanessa falava da casa que cresceu. Infelizmente, por ser inverno e metade da entrada está coberta de neve, ele não pôde ver as enormes árvores de cerejeira que ela tanto sentia falta.

— Entre, entre — Eun-ji disse, trazendo o médico para a realidade. A senhora entrou no quarto de Vanessa e correu para ajeitar a cama a tempo. — Coloque aqui... — dizia em coreano, apontando para uma parte da cama.

Gustavo, mesmo sem saber falar em coreano perfeitamente, entendeu o que ela quis dizer e deitou Vanessa na cama. Por fim, desdobrou o cobertor que a senhora estendeu e cobriu a coreana, com cuidado.

E agora? — pensou, olhando o corpo delicado de Vanessa deitado na cama. — O que planejei está longe disso... — murmurou baixinho, passando as mãos pelos cabelos bagunçando-os e soltando o ar pela boca. Antes que percebesse, a governanta puxou uma cadeira e colocou do lado da cama.

— Você pode sentar — ela apontou para o assento.

— Não precisa... — negou, balançando as duas mãos.

Aigoo! — Eun-ji murmurou, indo até ele. Depois, o puxou pela mão e o fez sentar na cadeira.

Gustavo achou graça do jeito da idosa; tão mandona quando Vanessa. Ele também percebeu que apesar de Eun-ji não ser a mãe da coreana, havia semelhanças entre elas. O jeito que davam ordens, as expressões confusas, a maneira que falavam e gesticulavam. Enfim, podia dizer que eram parentes, se não soubesse a verdade.

O médico reparava nisso ao mesmo tempo que observava Eun-ji abrir várias gavetas, remexer aqui e ali até que deu um gritinho comemorando. Então, ela correu até Gustavo e estendeu um porta-retrato. Depois de pegar o objeto, ele virou a tela para cima, fazendo a foto aparecer como um passe de mágica. O sorriso foi instantâneo.

— São vocês — Eun-ji disse em inglês.

Gustavo sorriu de novo. Os olhos brilharam ao ver a foto que tiraram no dia que começaram a namorar. Como estavam felizes, ele lembrou, pressionando os lábios para conter o sorriso exagerado que se formou. Mas foi em vão.

— Posso ficar? — ele perguntou, em coreano. Sim, era bom em dizer algumas frases na língua.

Eun-ji riu alto, colocando a mão na boca depois de perceber que podia acordar Vanessa.

O coreano é péssimo! — Ela pensou, balançando a cabeça e rindo.

Enfim, depois da chacota, a senhora confirmou com a cabeça e saiu do quarto, os deixando a sós. Pela segunda vez, Gustavo olhou para a foto, mas dessa vez quis chorar.

— Como fui imbecil! — disse, passando a mão no rosto. Ele levantou a cabeça e olhou para Vanessa que dormia tranquilamente. A vontade de chorar aumentou e ele só quis encontrar um lugar para se esconder. — Eu te fiz esperar... Pensei que estava querendo ficar longe de mim, mas você só não podia ficar ao meu lado.

Nesse momento, com cautela, levantou da cadeira e caminhou até a beirada da cama. Ele sentou na ponta da mesma e encarou Vanessa. Respirou fundo, sentindo a decepção atingir o coração em cheio.

— Sinto muito, Jagiya... — sussurrou, alisando os cabelos dela.

"Tudo que dizemos será inútil, se não for confirmado pelo que fazemos".

As ações podem se esconder no cotidiano, mas sem elas, as palavras são vazias. Por quase um ano, falou com todas as letras que a amava, mas não percebeu que não tinha as ações necessárias. E foi Deus que o ajudou voltar a si, foi Ele que o fez acordar para vida e perceber que sozinho, era inútil lutar. Foi o Senhor que passou a conhecer mais ainda que o levantou, sustentou, e o fez parar de viver apenas de palavras. Era disse que precisava.

— Você é tão preciosa... — disse, alisando o rosto dela com as pontas dos dedos. — Sinto muito por te deixar esperando — fez uma pausa para limpar as próprias lágrimas. — Mas a partir de hoje, não vou mais a lugar algum, senhorita Kim.

Depois de falar isso, viu Vanessa abrir os olhos. Eles ficaram se analisando por alguns segundos, seus olhares diziam tudo ao mesmo tempo que não diziam nada.

— Sabe... — ela falou, quebrando o silêncio.

Gustavo segurou em suas mãos e mordeu o lábio inferior.

Já sabia que sua pequena coreana não pretendia dizer tudo tão facilmente. Porém, no avião, ele passou tempo lendo a bíblia e recebeu orientações de Deus sobre o que fazer quando chegasse à Coreia do Sul. O holandês recebeu o alerta de que sua coreana ia afastá-lo, mas Deus o disse que se persistisse, no final, tudo correria bem. No entanto, Gustavo Mark só não sabia o tamanho da bola de neve que ia ter que lutar.

— Eu trouxe um presente, mas não tive como entregar. — disse, se preparando para ficar em pé. — Eu vou buscar!

Vanessa segurou nas mãos dele e o fez parar.

— Não faça isso, Gustavo — sussurrou, abaixando o olhar.

— O quê?

— Vamos parar por aqui...

Ouvir que deveriam ficar distantes de novo era muito difícil e, apesar de ter certeza de que tudo ia se resolver, ele ainda foi capaz de sentir a dor aguda no peito. Seria mais doloroso do que pensou.

— Está dizendo que devo ir?

Nesse momento, Vanessa o olhou nos olhos.

— Estou dizendo que devemos parar!

— Por que eu tenho que parar, senhorita Kim?

— Você sabe qual é a tradução da palavra Woori? — disse, engolindo em seco.

— Não me atrevi a pesquisar...

Vanessa umedeceu os lábios e se ajeitou na cama.

Woori quer dizer "nós" ou "nosso". Essa é a tradução mais grotesca, mas essa palavra tem um significado enorme para nós, coreanos. Passamos por muitas coisas e chegamos até aqui, com um único lema: seremos como um só povo. Tudo bem... — ela respirou fundo, tentando escolher as melhores palavras. — Nós somos duas nações agora, Coreia do Sul e Norte. Mas um dia, fomos nós, fomos Woori...

A cada palavra que ela dizia, o médico sentia a palpitação aumentar.

— Por que você está me dizendo isso agora? — falou, sentindo os olhos encherem de água.

— Gustavo... Um dia, assim como a Coreia, o nosso "nós" existiu. Mas, precisamos parar aqui. Não vamos voltar, não vai existir a unificação da Coreia, assim como isso — apontou o dedo para os dois. — Não pode se repetir...

— Por que? — perguntou, sem conseguir desviar a atenção dos olhos dela, que também estavam cheios de água. — Por que você está dizendo isso agora? Eu te trouxe o cacto e...

— Por favor — ela o interrompeu, chorando. — Não torne isso mais difícil. Por favor, pare...

O médico apertou as mãos dela e abaixou a cabeça. Entre o choro, respiravam fundo na tentativa de acalmar seus corações, mas era inútil.

— Eu não vou desistir de você, Vanessa. — respondeu, fitando-a. — Fiz isso uma vez, mas não voltarei a fazer. Sei que está com problemas. Você é cabeça teimosa e não pretende me contar o que está planejando. Mas, Vanessa, não me obrigue a te seguir também. Eu estou decidindo te amar, você não tem o direito... — ele parou, fechou os olhos e as lágrimas ganharam força para escorrer para fora dos olhos. Por fim, respirou fundo e continuou: — Você não tem o direito de tirar isso de mim. Eu decido se devo ou não parar de te amar...

Então, levantou e se aproximou da cabeceira da cama, onde a coreana repousava a cabeça em um travesseiro. Ele fungou, soltou as mãos dela e limpou o rosto.

— Você não precisa tentar sozinha... — ele estava a poucos centímetros da coreana. Conseguia sentir a respiração quente dela chegar na ponta do nariz e fitando-a percebeu que as lágrimas que ela estava derramando eram sinceras assim como as suas. — Descanse, senhorita Kim. — falou e depositou um beijo em sua testa.

Então, o holandês deu as costas e começou a andar, mas antes de ir, viu o porta-retrato em cima da cadeira e girou os calcanhares.

— Também é minha foto favorita... — apontou com a cabeça para o porta-retrato em cima da cama.

Vanessa ficou vermelha imediatamente, mas ele sorriu, em seguida, voltou a andar para fora do quarto.

Tudo que dizemos será inútil, se não for confirmado pelo que fazemos — Jhonatan Edwards

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