Capítulo 4 - Ottoke?
— Nee... — Dali falou, com voz de sono.
Vanessa sentou no sofá e passou as mãos pelos cabelos, os bagunçando. Ela nem sabia por onde começar. Acabou de chegar do "encontro" com o melhor amigo, mas estava mais confusa do que nunca e precisava ouvir os conselhos de Dali que, apesar de radical às vezes, eram bons.
— Vanessa? — Dali a chamou, do outro lado da linha. — Eu cheguei de um plantão nem tem meia hora e quando finalmente peguei no sono, você me acordou. Vanessa Kim, sabe como dormir é impor...
— Eu tive um encontro com o Jeong-ho! — Vanessa gritou, fazendo a amiga parar de falar imediatamente.
A coreana que estava do outro lado da linha, ficou muda por alguns segundos. Isso deixou Vanessa mais apavorada, mas ela continuou esperando, pois imaginou que a amiga estava pensando em uma resposta muito boa.
— Você saiu com o Jeong-ho? — Dali comentou, parecendo mais apavorada do que Vanessa. — Vanessa Kim, você saiu com o mesmo Jeong-ho que eu conheço?
— Nee... — respondeu, e suspirou depois. — Mas o pior está por vir. Está sentada?
— Eu estava dormindo, Vanessa...
— Kol...
— Fala. Logo...
— Nós fomos comer hoje, e o oppa estava lindo. Combinamos a roupa sem querer e atraímos olhares. Eu pensei que era isso, mas de repente o Jeong-ho foi cercado por meninas e...
— Cercado? Cercado por meninas? — Dali disse, como se estivesse duvidando do que acabou de ouvir. — Por que ele seria cercado por meninas dentro de um shopping?
— Eram fãs, Dali. Fãs!
— Então, ele foi a um encontro, mas foi cercado por fãs?
— Foi isso que eu disse — Vanessa falou, soltando o ar pela boca a fim de ignorar a lentidão da amiga com sono. — Dali, o Jeong-ho não me fez sentir borboletas no estômago. Nós saímos e conversamos e tudo foi como sempre... e sei que além do Appa, posso confiar nele pra contar tudo. Mas, Dali... Aish!
— Vanessa, fica calma — comentou e sentou na cama para pensar. Ela mais do que Vanessa tinha muito que refletir. No entanto, pensou que a amiga precisava ser aconselhada e ignorou o ressentimento que ficou depois da ligação.
Vanessa puxou o ar para dentro dos pulmões e soltou em seguida enquanto esperava a resposta.
— Você saiu com o Jeong-ho e apesar de ter ido ao encontro, sente que tem algo errado. E isso se deu porque não sentiu borboletas no estômago? Vanessa, está falando que só vai se relacionar com alguém se a lenda das borboletas acontecer com você?
— Falando assim parece bobo... — bufou. — Mas, eu desejei que o oppa fosse feliz com outra. E isso enquanto estávamos em um encontro! Ele segurou minha mão para correr e eu não senti nem um arrepio. Quando comia, ele foi... ele. O clima era o mesmo e...
Ela fez uma pausa e respirou fundo, sem conseguir crer no que pensou.
— E ele? — Dali a incentivou a confessar...
— E ele... ele...
— Ele?
— Ele só é meu melhor amigo... — confessou, desanimada. — Não acredito que confundi tudo. O oppa sempre agiu como antes e eu pensei que comecei a gostar dele. Acho que quis tanto retribuir o amor que ele me deu, mesmo quando nunca mostrei interesse. Pensei que comecei a gostar dele e finalmente ia retribuir esse amor, mas me enganei, Dali.
A médica, do outro lado do "mundo" suspirou. Ela pressionou os lábios e fechou os olhos, se concentrando no que falar.
— Então você não gosta do Jeong-ho?
— Acho que não... — choramingou.
— Sabe que quando achamos não é uma boa opção, nee? Você precisa pensar e decidir se gosta ou não dele pra aí escolher o próximo passo. Faça isso pra ser justa com você e com o oppa, Vanessa.
— Você está certa, unnie...
— Kol! Agora estou indo dormir...
— Dali! — Vanessa a chamou antes de a ligação ser encerrada.
— Nee...
— Eu... Eu não estou apaixonada por ele — confessou, decepcionada. — Agora tenho certeza disso. E espero que ele encontre alguém que o ame.
— Boa noite, Vanessa Kim... e boa menina. — disse, finalizando a ligação.
Vanessa ficou olhando a parede em sua frente por um bom tempo depois da ligação. Ela pensou em várias coisas, mas não conseguiu evitar a culpa. Queria muito amá-lo de volta, mas sempre o viu como o melhor amigo ou irmão mais velho. E apesar de se esforçar muito a ponto de criar aquela confusão mental, não era capaz de amá-lo como homem.
Decidiu orar sobre isso e teve paz depois que disse "amém". Pensou em confessar o que aconteceu para Jeong-ho, mas desistiu da ideia de manhã, quando ligou para ele a fim de se despedir por ligação.
O coreano ia voltar para o exterior e queria dizer "tchau" pessoalmente, porém, Vanessa estava envergonhada demais para encará-lo e também precisou ir trabalhar. Então, ela só disse que o amava e encerrou o ciclo da "paixonite" descontrolada.
[...]
Três meses depois...
— Fernando! — Vanessa gritou, enquanto corria.
— Oi, algum problema? — ele perguntou depois que parou. O médico segurava um tablet nas mãos e estava acompanhado de alunos de medicina.
O corredor do hospital estava vazio e Vanessa se sentiu mais confortável com isso. Ela parou de correr e respirou fundo. Fernando fez um sinal com a mão para os alunos e se aproximou dela.
"Você consegue, Vanessa Kim" — pensou, depois de vê-lo parar em sua frente.
— Eu sei que você não gosta muito de multidões, — começou a falar, envergonhada — mas hoje é a inauguração de um parque de diversões parecido com os de antigamente. Tem montanha russa, carrinho de bate-bate, carrossel e tudo mais... Tava pensando em te chamar, quer ir?
Fernando continuou quieto, parecia ter sido pego de surpresa e ela usaria isso a seu favor. Estendeu os ingressos e sorriu para ele. Em seguida, passou os dedos sobre a franja lateral que caiu e voltou a olhá-lo, à espera da resposta.
— Claro, também sinto falta desses parques — falou, dando uma piscada para ela e sorriu, depois pegou o ingresso e se virou para sair.
— Te encontro na entrada do condomínio às sete da noite, nee? — perguntou, tentando manter a animação controlada.
— Claro, até mais tarde! — disse, piscando novamente.
Quando o viu dar as costas, se virou também com um sorriso super largo nos lábios. As enfermeiras começaram a cochichar assim que a viram e isso foi suficiente para fazê-la voltar ao normal; dura por fora, mas pulando de alegria por dentro.
— Sim, eu tenho um encontro com ele! — comemorava, enquanto ia até à recepção para pegar seu tablet pessoal.
Vanessa estava muito bem. Apesar de estar na Coreia do Sul, parecia que o país não a afetava tanto, não como antes. Então, na companhia de Fernando, ela pôde se concentrar no que importava: salvar vidas.
Apesar de passar por uma "paixonite" meses antes, a coreana estava recuperada e não pensou mais em relações amorosas. Isso até começar a passar mais tempo com Fernando. As enfermeiras a incentivaram dizendo que faziam um belo casal e que ela deveria tentar. A coreana não podia negar que nos anos de faculdade sentiu algo por Fernando, mas nunca pensou em contar, principalmente porque ele namorava a Melissa. Mas agora era diferente, ele estava solteiro e destruído por causa de Melissa.
E se tivesse focando no amor errado? E se, Fernando Walk fosse ele, seu futuro namorado e quem sabe, marido?
Ela pensou em tudo isso e quando a empresa de uma conhecida montou o parque de diversões e lhe enviou os ingressos, pensou em tentar. No final, deu certo...
[...]
Vanessa nunca teve um encontro com ninguém e as saídas com Lee Jeong-ho não podia ser chamadas assim. Um encontro tinha que ser quando duas pessoas estavam interessadas uma na outra - mesmo que bem pouquinho - marcavam de sair para se conhecer um pouco mais. Então, não importava o lugar, os dois iam se divertir. E ela tinha um ENCONTRO DE VERDADE, ia sair com Fernando Walk!
Tratou de acordar bem cedo. Levantou, cantou duas músicas para Deus, leu o terceiro capítulo do livro de Jeremias - pois estava fazendo ano bíblico - e começou os preparativos para sair. Porém, se deu conta que nunca tinha ido a um encontro e não sabia qual era a melhor roupa para se usar nessa ocasião. Então foi correndo até o guarda-roupa.
— Ottoke? Ottoke? — disse, separando as melhores roupas. Andava de um lado para o outro enquanto pegava os cabides e os colocava na cama. — Eu não acredito, Appa. Não acredito!
Após terminar de separar as peças, ficou parada olhando para aquele monte de roupa, ainda confusa.
— Appa... — perguntou a Ele, cruzando os braços — O que posso usar?
Vanessa Kim, mesmo aparentando ser pouco cristã e nada espiritual, era uma verdadeira faladeira quando se tratava de Deus. Acima de seu melhor amigo Jeong-ho, Jesus estava. Em geral, quando ficava sozinha, tratava-O tão naturalmente que às vezes o Yung-ji - seu guarda-costas - acreditava que ela conversava com alguém em pessoa.
Yung-ji não cria em Deus, mas por diversas vezes sentiu que ela era muito amada por Ele. Além disso, em muitos momentos encontrou a médica brigando no quarto e corria para socorrê-la, achando que alguém tinha entrado no local para lhe fazer mal. Porém, depois de quase ter um infarto para protegê-la, descobria que Vanessa só estava discutindo com o tal Deus. O fato é que a coreana mostrava uma de suas faces quando andava em público, mas só quem a tinha perto sabia que no fundo, ela era tão comum quanto qualquer outra jovem de sua idade e por ser comum, também se importava com a roupa que ia usar para ir a um encontro com o cara que estava "gostando".
— O que acha desse vestido? É preto... básico demais? — disse, erguendo a roupa junto com o cabide. Foi até o espelho e colocou o vestido em frente ao seu corpo para se ver melhor nele, mas achou morto demais e balançou a cabeça.
Uma hora depois, ela escolheu a roupa.
Preferiu usar um sobretudo branco, calças jeans e uma blusa rosa clara por baixo. Calçou um sapato simples, mas branco. Ela cacheou umas mechas dos cabelos com o babyliss e passou uma maquiagem básica.
No horário marcado, encontrou com Fernando na porta de casa e ele também usava um casaco branco. Vanessa sorriu, pois, iam achar que eram namorados e não se importava com isso.
O percurso até lá foi silencioso. Era estranho estarem juntos em um encontro, então foi difícil achar algum assunto. Preferiram ficar calados. Assim que chegaram na entrada do parque, tiraram uma foto com os ingressos na mão, sentados em frente a um carrossel com o tema da princesa da Disney, Rapunzel. Vanessa insistiu em andar nele, mas Fernando disse que preferia ficar olhando-a de longe. Ela se sentiu bem chateada, mas não podia obrigá-lo a fazer nada, principalmente entrar em uma fila com um monte de meninas e crianças para andar em um carrossel de princesa.
Assim que chegou sua vez, Vanessa correu para montar no cavalo do filme Enrolados e sorriu. Geralmente não saia com os pais, mas tinha boas lembranças com eles por causa do tal filme. Era antigo, mas gostava e se sentia feliz.
Como Rapunzel, se sentia presa em seu castelo enorme de pedras. Era protegida pelo pai que dizia que a amava, mas que como a mamãe Gothel, só pensava em si. Também esperava pela liberdade, pela maior idade, por um milagre que Deus em pessoa faria ou, quem sabe, por um príncipe que subiria em sua torre para ajudá-la a superar tudo, como foi com a princesa. Bem, era isso que queria, mas nem sempre as vidas seguem como em um conto de fadas e diferente da princesa da Disney, Vanessa Kim seguia a vida como prisioneira.
— Ei! — Fernando a chamou, acenando. Ele estava gravando e parecia ter percebido como ela ficou animada. Queria guardar os bons momentos e tratou de gravar tudo. — Está gostando? — perguntou em coreano.
Vanessa não ouviu muito bem, mas sorriu e fez um sinal de paz com os dedos. Fernando virou a câmera para si, sorriu e disse:
— É isso, pessoal. Voltem mais tarde para mais atualizações.
Após andarem na metade dos brinquedos, se sentiam mais à vontade para conversar. Fernando quis sentar um pouco para admirar o movimento, mas era só uma desculpa para buscar colocar as ideias no lugar.
— Nossa, foi muito divertido, não acha? — Vanessa disse, sentando no banco de madeira do parque. Em seguida, abriu a embalagem do algodão doce e tirou um pedaço. — Aigoo, como isso é bom!
Fernando sorriu. Sim, ele estava gostando mesmo de como o encontro ia. Mas depois de olhá-la, desviou o olhar e abriu a garrafa de água, dando um gole depois. Porém, quando voltou a encarar Vanessa, percebeu que sua bochecha estava suja e riu.
— O que foi? — ela disse, tirando a atenção do doce em suas mãos.
— É que tem um negócio na sua bochecha... — ele riu de novo. Depois apontou para o rosto dela a fim de mostrar o local sujo...
— Saiu? — perguntou, passando a mão pelo rosto.
— Sim!
O médico brincava com o frasco jogando-o de um lado ao outro no ar enquanto tentava ser mais rápido que a gravidade, mas logo ela caiu no chão. Vanessa riu alto quando percebeu que o objeto havia estourado esguichando água para todos os lados. Se via em um filme super romântico, onde aconteciam coisas aleatórias para que o futuro casal se unisse mais, ou simplesmente para que pudessem ter boas lembranças do passado. Ela gostou disso, mas voltou a realidade e com a mão, tentou limpar os pingos de água que salpicaram seu casaco branco. Fernando fez o mesmo, mas em segundos começaram a rir da gafe.
No entanto, estava tão frio que logo a graça foi se perdendo. Juntos, decidiram encerrar a noite.
Na volta para casa, conversaram mais e escolheram os parques mais divertidos. Eles estavam mais à vontade e gostavam disso. Por fim, assim que chegaram ao condomínio, Fernando parou na porta da casa de Vanessa, que ficava ao lado da sua e disse:
— Obrigado pela noite, Vanessa Kim — comentou, fazendo a saudação coreana.
Em encontros comuns, com pessoas do "mundo", na maioria das vezes a despedida acontecia com um beijo ou quem sabe iam para outros momentos... Mas, com eles era diferente. O ar estava mais gelado e de repente sentiram como se estivessem participando de um ato de traição bem grande e isso mesmo quando nenhum dos dois estavam comprometidos. Vanessa começou a sentir alguma coisa por Fernando, mas ainda assim de um jeito que não conseguia explicar, era estranho.
— Uau! Você aprende rápido! — falou, se referindo a saudação coreana que ele aprendeu com ela.
— Tive uma boa professora!
O silêncio veio os fazendo ficar sem reação, mas isso mudou assim que Fernando se aproximou e a abraçou. Ficaram ali por quase dois segundos o médico quebrou o silêncio, dizendo:
— Obrigada pelo encontro, Vanessa. Me diverti muito.
— Também me diverti. É bom não falar sobre agulhas, cirurgias e pacientes por um tempo. Me lembra que tenho uma vida...
Ele sorriu, entendendo o que ela queria dizer.
— Você é outra pessoa. A Vanessa Kim que conheci não ia dizer isso.
Ela deu de ombros e disse:
— Eu só cresci, Fernando.
Ele sorriu, orgulhoso. Então, decidiu que era hora de finalizar a noite e falou:
— Boa noite! — ele sorriu e acenou ao mesmo tempo. Por fim, girou os calcanhares e começou a andar.
— Boa noite! — falou, se preparando para entrar em casa.
Ao perder ele de vista, Vanessa pôde soltar o ar que estava preso nos pulmões. Queria mais encontros como aquele para já! Não sabia como podia ser legal sair com alguém que gostava...
Enquanto pensava nisso, a coreana percebeu uma movimentação bem estranha na frente do apartamento. Avistou Yung-ji caminhando de um lado para o outro e entendeu que tinha alguma coisa errada...
—
Ottoke - Usado para expressar aflição como "E agora?" ou "O que fazer?"
Unnie - Expressão usada por mulheres para se referir a mulheres mais novas.
Kol - Ok, certo, isso...
Ahhhh mais um capítulo pra vocês. E aí, alguém já torce pela Vanessa e Fernando ou não superaram o casal Vanessa e Jeong-ho?
Confesso que ainda não superei 🥺
Deixa aqui sua 🌟
Me conta o que está achando do livro.
Bjss, vejo vocês na Quinta-feira às 19h. ☺️
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