Capítulo 4 - Milagre

Era sete horas da manhã e a coreana já estava sentada à mesa, comendo uma sopa de algas e legumes meio aguada. Eun-ji, a governanta, tinha preparado o café da manhã com tanto carinho que Vanessa teve que comer antes de ir para a escola. A comida a deixou de bom humor até que Yeong-gi passou pela sala de jantar, fuzilando a filha com os olhos. Ele não lhe deu bom dia, nem falou um "oi". Apenas comunicou a governanta, que estava na cozinha, que ia demorar para chegar em casa e pediu que ela preparasse o jantar apenas para a filha.

Vanessa ficou o tempo inteiro calada, fingindo estar concentrada em comer. A respiração ficou entalada e assim que viu o pai sair pela porta, lembrou-se de que sabia respirar. Finalmente podia relaxar. Deixou os ombros caírem, permitindo-se agir como uma pessoa "normal". Ela abaixou a cabeça e encostou-a na madeira macica e gelada da mesa. As lágrimas começaram a escorrer e a coreana chorou tão alto que acreditava que a vizinhança podia ouvir. Porém, chorou sem medo, receios ou fiscalização.

Os minutos passaram e ela não conseguia parar de chorar. A verdade é que tinha muita dor acumulada e precisava descarregar e ela precisava mesmo chorar.

Eun-ji saiu do banheiro que ficava na cozinha dos fundos, e assim que ouviu o choro alto, correu até a sala de jantar. Quando viu o corpo de Vanessa chacoalhando por causa do choro descontrolado, apressou-se para sentar do lado dela. Então, depois de estar acomodada, com delicadeza e amor, começou a alisar os cabelos da coreana e tentou acalmá-la, mas não teve sucesso. Por isso, gritou por Yung-ji, guarda-costas pessoal de Vanessa e também seu filho. Assim que ele chegou, disse:

— Traga o Jeong-ho aqui, imediatamente!

— Mas Eomma — tentou falar, mas a senhora estava impaciente para ouvi-lo, e essa irritação piorou logo depois que ouviu Vanessa chorar mais alto.

— Só me obedeça, entendeu? Traga ele aqui, agora!

O homem de quase trinta anos fez uma reverência e deu as costas. A mansão que Jeong-ho morava ficava no mesmo condomínio de Vanessa. Por isso, Yung-ji correu como um louco para chamá-lo antes que ele saísse de casa para ir à escola. Nesse meio tempo, a governanta continuava tentando acalmar a crise que Vanessa Kim tinha.

— Criança... Não chore, por favor... Aigoo, sei que está difícil agora, mas vai passar, vai passar — falava, enquanto acariciava os cabelos dela.

Vanessa não disse nada e continuou chorando.

Desde criança a coreana foi treinada para ser forte. Precisava se esforçar mais do que os colegas, amigos ou conhecidos; não podia dar desculpas nem ter momentos de vulnerabilidade. O sucesso era alvo, mas a ideia que Yeong-gi criou para a filha consistia em um estilo de vida injusto.

Na verdade, as pessoas necessitam sentir suas emoções e devem ter a liberdade de se comportar como os seres humanos complexos que Deus criou. No entanto, para algumas pessoas, os mais fracos devem ser controlados pelos mais espertos e, no caso de Vanessa Kim, seu pai era mais "esperto".

E esse era o problema.

A bola de neve sempre estava em uma crescente descontrolada. A coreana não conseguia ter escolhas, e o que queria fazer era o básico para a sobrevivência de uma jovem prestes a se formar. Podia começar com a possibilidade de não receber o tapa na cara se caísse para o segundo lugar no Ranking da escola, ou com um simples "está tudo bem. Se você errou em responder o deputado na festa. Você deve melhorar e se esforçar na próxima vez". Mas isso não acontecia e a coreana não suportava mais.

Às vezes, ela só queria não ter nascido...

Vanessa Kim ficou quase vinte minutos chorando no colo de Eun-ji até que a porta da mansão foi aberta e Jeong-ho entrou por ela como um furacão. Quando a viu deitada no chão, com a cabeça na perna da governanta, simplesmente se jogou no chão a fim de chegar na amiga mais rápido e o tecido da calça que vestia deslizou pelo piso, o fazendo parar só quando esbarrou em Eun-ji.

— O que aconteceu? — Perguntou, enquanto analisava o corpo de Vanessa. — Foi ele, não foi?

A senhora abaixou os olhos, e ficou calada.

Jeong-ho respirou fundo.

Odiava o fato do Yeong-gi ser tão agressivo, odiava ver Vanessa machucada daquela forma. Odiava sua falta de capacidade para cuidar dela e não gostava daquele sistema ridículo, onde somente os pais tinham autoridade e podiam fazer dos filhos o que bem quisessem. Será que eles esqueceram que todos, incluindo os filhos, possuíam sentimentos?

Depois de sair dos pensamentos, Jeong-ho tentou se conter e fez uma oração mentalmente, enquanto via Vanessa dormindo no chão. Em seguida, passou os braços por baixo do corpo dela e ergueu-a. Ele passou pela sala enorme da mansão, subiu a escada e seguiu até o quarto. Quando chegou lá, a colocou na cama, com a ajuda da governanta.

— Pode trazer o quite de primeiros socorros? — Perguntou, e sentou na poltrona que estava perto da cama.

— Sim, senhor Lee... — Ela respondeu e deu as costas.

Jeong-ho abaixou a cabeça e grudou as mãos uma na outra, pensativo. Fez a oração e deixou uma lágrima solitária escorrer.

Amava aquela menina tão teimosa e, mesmo que ela não tivesse percebido esse amor, faria o possível para estar ao seu lado mesmo assim. Afinal, não gostava da coreana com segundas intenções, esperando a retribuição dos sentimentos que tinha. Só a amava ponto! E se dependesse dele, continuaria do mesmo jeito até que Vanessa Kim escolhesse olhá-lo com outros olhos.

Tudo bem, qual jovem de dezessete anos que depois de se apaixonar, ficaria do lado da garota amando-a sem ao menos querer nada em troca? Amar era isso, não era?

Não.

Não para Jeong-ho. Amar Vanessa Kim, com a vida que ela tinha, e exigir que ela o amasse de volta era pedir demais. Não, não ia fazer isso.

— Eu vou te esperar... — Ele falou, ainda apoiando os cotovelos nas coxas, com a cabeça abaixada. — Eu sei que agora não é o momento, que você precisa de mim de outro jeito, mas quero ficar do seu lado esperando por você, Nari...

Eun-ji entrou na ponta dos pés enquanto ele falava e quando percebeu que Jeong-ho fez uma pausa para respirar, coçou a garganta o fazendo erguer a cabeça.

— Aqui está... — disse, fingindo não ter ouvido nada. — Pobre criança... Não merece passar por isso — comentou, depois que virou para dar uma última olhada em Vanessa.

— A senhora já pode ir, obrigado pela ajuda! — Jeong-ho disse, ficando em pé. Ele fez uma reverência curta e sorriu.

Eun-ji fez um aceno de cabeça e saiu do quarto.

O garoto sentou-se na ponta da cama e abriu a pequena maleta transparente. Em seguida, retirou da mesma uma pomada e outros objetos para cuidar do machucado da boca e das costas de Vanessa. À medida que cuidava dos ferimentos, suspirava, pensativo.

Ela não merece. É uma vítima e não merece. — Pensou, segurando o choro na garganta. Se pudesse, ia trocar de lugar com ela e, se conseguisse, trocava até de pai para que a coreana sentisse um pouco de amor. Mas isso, SE pudesse...

Quando terminou de fazer os dois curativos, ele puxou o cobertor pelo corpo dela e ia apagar a luz, mas ouviu-a se remexer na cama antes de sair.

— Obrigada... — Vanessa murmurou.

Jeong-ho aproximou-se da cama, puxou o cobertor mais para cima e passou a mão pelos cabelos dela, bagunçando-o em seguida. Por fim, curvou um pouco o corpo e depositou um beijo em sua testa.

— Descanse, Nari... Te vejo na escola amanhã — ele deu um sorriso sem mostrar os dentes.

Vanessa virou para o lado e voltou a dormir.

[...]

— Está se sentindo melhor? — Eun-ji perguntou, colocando uma tigela cheia de arroz em cima da mesa.

— Sim, obrigada por cuidar de mim ontem... — ela respondeu, sem tirar os olhos da mesa.

— A senhorita tem um bom amigo, ele ajudou mais do que eu — disse, terminando de colocar em cima da mesa todos os pratos deliciosos que preparou naquela manhã.

A coreana ficou em silêncio por alguns segundos com um olhar distante, até que falou, com aquela voz melancólica de sempre:

— Eun-ji...

Nee — a governanta respondeu, olhando-a.

— Gostaria de não ter nascido. Eu não saberia como é viver e, aliás, não saberia como é sofrer assim...

Aigoo, aigoo... — começou a falar, dando uns tapinhas nas costas de Vanessa. — Não diga uma besteira dessas, criança. A vida é uma dádiva e um dia você vai aprender isso. Poder viver é um grande milagre...

— Milagre... — Vanessa repetiu a palavra, depois de enfiar uma colher enorme de arroz na boca. — Milagre é o que eu preciso agora, Eun-ji.

A governanta não disse nada, apenas alisou o ombro da coreana e deu as costas.

Vanessa suspirou e olhou para a mesa enorme em sua frente e viu todas as cadeiras vazias. A mesa estava farta com tigelas de porcelana preenchidas com comidas tipicamente coreanas para o café da manhã. Mas, a fartura de comida não foi o suficiente para que Mi-Suk e Yeong–gi atrasassem a agenda lotada para comer uma refeição com a filha única. Na verdade, Vanessa Kim tinha família, mas, ao mesmo tempo, parecia órfã...

Ela pensou, enquanto comia, na solidão que sentia e mesmo assim, teve vontade de orar agradecendo a Deus por estar viva, mas não orou. Então, às sete e meia da manhã, ficou de pé e caminhou para fora de casa rumo à escola mais elitizada da grande Seul.

Na escola, encontrou-se com Jeong-ho e agradeceu novamente. E como um siclo, fez tudo de novo; estudou, comeu, estudou mais e foi nesse ritmo até o fim do dia.

[...]

A coreana chegou em casa às nove e meia da noite. Quando passou pela porta, encontrou os pais sentados no sofá, vendo o canal de notícias. Ela nunca quis ter nenhum super poder, achava coisa de criança. Mas naquela hora, desejou ter o poder de ser invisível. Porém, como nem tudo na vida eram flores, principalmente na dela, ouviu a mãe a chamando.

— Como foi na escola, Nari? — Perguntou, sem tirar os olhos da TV.

Mi-Suk era uma mulher bonita, no padrão de beleza coreana. Olhos redondos, cabelos sedosos, longos e preto. Nariz pontudo, queixo oval e pontudo ao mesmo tempo. Era magra, com pernas de porcelana e longas. A Voz era rouca, mas quando falava, mantinha aquele velho tom firme. Isso era bom, pois os advogados novatos a respeitavam, ou era puro medo mesmo.

Como advogada, era uma das melhores da Coreia do Sul. Na verdade, até os juízes temiam a grande Kim Mi-Suk. No entanto, todo esse poder só existia das portas de casa para fora. A mulher ouvia o marido, ouvia-o tanto que, para Vanessa, aquele respeito chegava a ser como idolatria. Suk quase não tinha voz dentro de casa, ou fingia não ter. Mas, quando ela chamava alguém, quer fosse pai ou filha, ambos deveriam responder sem pensar duas vezes.

— Nari, eu te fiz uma pergunta! — ela voltou a falar, virando-se para Vanessa, com impaciência.

Yeong-gi virou a cabeça para o lado a fim de olhar a filha pela segunda vez no dia.

— Sim, Eomma... — Vanessa finalmente respondeu depois de sair dos pensamentos. Ela até fez uma reverência e girou os calcanhares para sair da sala, mas os pés fincaram no chão quando ouviu a voz firme do pai a chamando.

— Nari... Você planejou isso tudo, não foi? Sua posição caiu dez colocações — disse, calmamente. Calmo demais. — Você quis me enfrentar, mas agora vai colher seus frutos, está me ouvindo? Daqui a quatro meses quando as aulas terminarem, você fará suas malas.

— Malas? — os olhos pequenos da coreana arregalaram e ela fitou o pai, confusa.

— Isso mesmo, malas. Você vai estudar fora do país, já que fez essa besteira. Tentei conversar com o senhor Park, mas com essas notas não poderá entrar em uma universidade aqui, não com prestígios. Park me disse que podia te recomendar para a universidade de Seul, mas... — ele esboçou um sorriso sarcástico — Esse seu erro até que não foi tão ruim e eu mudei de ideia. Falei com um amigo de Harvard, você foi aceita. Então, Nari, dê adeus a seus amigos.

— Mas, appa... — ela continuava em choque. Ficou tão confusa que soltou a alça da mochila e deu alguns passos para frente, parando em frente ao sofá que os pais estavam. — Appa, não é...

— Está decidido... — Yeong-gi interrompeu-a, virando-se para a TV novamente. — Aproveite o quanto puder.

Vanessa quis gritar, mas não podia. Ela começou a andar a passos largos até a escada, mas foi interrompida por sua mãe.

— Conversei com seu appa — começou a falar, virando-se para a filha de novo. — Pegue as passagens que estão em cima de sua penteadeira. Antes de começar as aulas, você vai para a Holanda de férias. Nós não podemos ir, mas aproveite. De lá, você será acompanhada por seu guarda-costas até Harvard. Aproveite, é um presente antecipado de sua Eomma.

Vanessa não respondeu.

Pediu para ir à Holanda de qualquer jeito, mas não pensou nas consequências dessa oração. Como ia ficar sem o Jeong-ho enquanto estudava longe por oito anos em um país distante? A oração perigosa que fez antes de dormir no dia anterior, era capaz de lidar com isso?

— Appa, me tire daqui e faça do Seu jeito... — ela orou silenciosamente, enquanto abafava o choro no travesseiro fofo.

Aigoo - É uma expressão usada pelos coreanos. Não há definição correta para ela, mas é utilizada para dar ênfase nas emoções. Mas se for para que você entenda o que a mãe de Vanessa quis dizer, ela estava utilizando o "Aigoo" como o nosso "meu Deus".

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.

Ahhhhhh meus amados, esse livro só tem suspresas. Agora a coitada foi mandada embora. Mas a Vanessa vai para a Holandaaaaaa. 

O que vocês esperam que aconteça?

Também estão loucos para saber como a Vanessa vai chegar ao Brasil? Quando vocês descobrirem vão surtar kkkkkk. 

Deixa sua estrelinha, vai ajudar mais pessoas a chegarem no livro. 

Até sábado as 13h. 

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