Capítulo 30 - O preço da verdade
Vanessa continuou parada, pensando se deveria virar para confortá-lo ou correr para longe a fim de protegê-lo do pai. Porém, não teve tempo para pensar mais, pois ele finalmente saiu do abraço, e ficou em sua frente, segurando-a com os dois braços. Os olhos estavam vermelhos por chorar e as lágrimas continuavam saindo. As íris azuis esverdeadas estavam concentradas nela, e ele não desviou por um segundo.
- Eu pensei que nunca mais ia te ver - sussurrou. - Te procurei pelo hospital inteiro enquanto também estava correndo para encontrar a Melissa. O tempo ia passando e cada vez que eu via o ponteiro do relógio avançar, sentia meu medo aumentar. Eu pensei que... - ele parou de falar, e fitou-a por alguns segundos. Gustavo estava processando a ideia dela estar viva e, quando entendeu que era verdade, a puxou para um abraço apertado.
Enquanto a abraçava, levou uma das mãos até a cabeça dela e trouxe seu corpo para mais perto. Ele chorou ali e não fazia ideia do tamanho do medo que tinha sentido durante o dia inteiro, mas se deu conta enquanto a abraçava. A verdade é que Vanessa Kim tinha entrado em seu coração e fez dele sua casa. Gustavo Mark a amava, a amava com todo seu ser...
A coreana recebia o abraço sem relutância, afinal também temeu por ele enquanto corria contra o pai. Ela levantou as mãos e as repousou sobre as costas do médico, e dava tapinhas ali para confortá-lo.
- Eu não podia contar que estamos namorando, não podia pedir ajuda, e eu não tinha mais forças e só pude orar e pedir que você ficasse bem... - sussurrava, entre soluços. - Imaginei que estava lá fora, sozinha e com medo... Me desculpe, eu fui irresponsável por te deixar ir.
Vanessa quis lhe dar um beijo e dizer que também o amava, e que temeu por sua vida assim como ele tinha temido pela dela, mas isso só ficou em seus pensamentos. Ela sabia que os olhos de algumas pessoas estavam sobre eles, e que Ji-hoon ia voltar longo. Temeu pela vida dele e quando se deu conta do que estava fazendo, o empurrou com calma, para sair do abraço.
- Você tá bem? - ele disse, saindo do abraço e limpando o rosto. Em seguida, alinhou os cabelos dela e fungou. O médico começou a analisar o corpo dela, em busca de ferimentos e viu que ela não conseguia ficar em pé direito, por causa do tornozelo torcido. - Está com dor? Por que você não respondeu às minhas mensagens? O que aconteceu com seu tornozelo? Você já foi atendida?
Vanessa sentiu uma pontada no coração só por vê-lo tão preocupado. No entanto, como estava de frente para a ala de refeição do abrigo, pôde ver que o guarda-costas vinha em sua direção. A coreana desviou o olhar da multidão e mirou aqueles olhos azuis pela última vez e deu alguns passos para trás.
Gustavo arqueou a sobrancelha.
- Aonde você vai? - perguntou, segurando-a pelo braço.
- Para longe de você... - disse, se soltando.
- O quê? - ele uniu as sobrancelhas.
Ela não respondeu. Apenas deu as costas e foi em direção ao guarda-costas. Quando parou em frente ao coreano, pegou a garrafa de suco das mãos dele. Ji-hoon perguntou se estava tudo bem e quis saber quem era o homem que estava falando com ela. Vanessa lhe deu uma desculpa dizendo que era só um médico pedindo uma informação e tratou de sair de perto de Gustavo.
Gustavo continuou parado, vendo ela sumir no meio da multidão. Suas íris azuis esverdeadas tremeram e ele franziu o cenho. Uma lágrima escorreu o fazendo perceber que até suas emoções entenderam o que estava acontecendo. Os olhos permaneciam vidrados no caminho por onde ela passou, e o médico buscou entender o que a namorada estava tramando.
- Mas o que... - falou, bagunçando os cabelos.
Na primeira vez que voltou para o abrigo, o médico procurou por ela, mas não a encontrou. Ele também perguntou à residente Maia sobre o paradeiro da namorada, mas ela também não sabia, mas afirmou que Vanessa ainda não tinha entrado no abrigo. Gustavo temeu e sentiu que estava prestes a perder a cabeça e bagunçou os fios loiros.
Ele não podia confessar que eram namorados, pois, não sabia como Vanessa ia reagir se soubesse que revelou o segredo que ambos partilhavam. Também não podia parar de procurar pela Melissa, pois achava que as duas estavam juntas em algum lugar. Se encontrava em um beco sem saída. A briga de mais cedo foi a primeira que tiveram e ele ficou tão sem reação que ajudou a Melissa a fazer a live com a cabeça nas nuvens. Estava preocupado, precisava pedir perdão e em desespero, orava para que a namorada estivesse bem.
Porém, tudo mudou quando a Rebeca contou que a coreana já estava a salvo no abrigo. Assim que viu Fernando correr para a saída a fim de salvar a Melissa, caminhou em busca de Vanessa e de longe, a viu girar o corpo e prender o cabelo em um coque alto. Ele soltou o ar pela boca e sentiu os olhos encherem de água.
Gustavo, aos olhos de muitos, era um bom médico e um dos melhores seres humanos para se conviver, e de fato, ele era. Mas, como qualquer um, errava feio e quando esses momentos aconteciam, se culpava mais do que deveria. Ele tinha boas desculpas para dar quanto ao seu comportamento nos últimos dias com relação à namorada... Mas a mágoa não some quando se tem porquês, a dor não vai embora quando existem motivos por trás de nossas ações, e o tempo não volta só porque queremos. Gustavo Mark errou e sabia disso.
A vendo se afastar, compreendeu que deveria ter demonstrado mais, falado mais e em algumas situações, feito menos...
- Vanessa, espera! - gritou, correndo até ela. Estava decidido a não permitir que um erro acabasse com a relação que era tão pura. O médico segurava no pulso dela e seu toque suplicava para ela não ir. - Como assim você vai para longe de mim? Vamos conversar, por favor?
Às vezes, uma pequena ação muda tudo. Para Gustavo, perguntar o porquê fez diferença, e para Vanessa, fez mais.
- Gustavo, me deixe ir... - falou, suplicando com o olhar.
Ela não podia ficar, Ji-hoon só se distanciou um pouco a fim de procurar um lugar para ficarem. O pai tinha sangue nas mãos e não hesitou em matar alguém inocente para conseguir realizar sabe se lá qual objetivo. A coreana lutou muito para protegê-lo e não podia mais brincar com a vida das pessoas que se importava.
- Não, Vanessa... - ele respondeu, agora a segurando pela mão, depois alisou a palma dela e a olhou com intensidade. - Eu não vou deixar você ir, nós precisamos conversar.
- Depois, Gustavo - respondeu, fazendo um esforço sobre humano para dizer aquilo.
Queria tanto que as coisas fossem mais fáceis, mas naquela altura, compreendia que não podia mais brincar. Se Ji-hoon soubesse que ela tinha um namorado, ia contar ao pai e Yeong-gi ia dar um fim no holandês, pois ele era "uma pedra" no seu caminho para usar a Vanessa como gostaria. Ela não podia arriscar...
Além do mais, tinha compromissos com a leoa que existia dentro dela. A leoa rugia em desespero para que Vanessa Kim a libertasse. Rugia para se desprender das correntes que a mantinha presa nos reflexos das próprias versões. Ela precisava sair, e o único meio era o qual escolheu. Apesar de doloroso, a coreana tinha certeza de que no final, ia fugir como uma leoa feroz e forte, afinal, essa era sua verdadeira versão.
- Vanessa, será que você pode parar de fugir?
- Depois, Gustavo... - ela puxou a mão, antes que fosse mais difícil sair de perto dele.
Ji-hoon, o guarda-costas, a encontrou e observava tudo em silêncio. Ele sabia mais do que Vanessa pensava.
- Mais tarde conversamos, Gustavo. Eu preciso sentar - ela disse, virando, mas antes de continuar andando, olhou para ele novamente. - Não venha atrás de mim.
Vanessa não quis conversar naquele instante por dois motivos:
1 - Não estava com cabeça para explicar o que estava acontecendo com ela;
2 - Precisava continuar no papel de filha obediente para descobrir a verdade.
Gustavo viu Vanessa andar ao lado do guarda-costas. Ele chutou o ar e passou as mãos pelos cabelos, bagunçando todos os fios e não fez questão de ajustá-los depois. Estava frustrado, cansado, com medo e fome... Só precisava de um momento de paz, mas isso estava longe de acontecer. Ele agachou no chão e respirou fundo...
- Por quê? - sussurrou, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. Ele estava agachado no chão fitando o lugar por onde a namorada foi. - Por que tive que errar com ela? Por que sou o culpado daqueles olhos brilhantes estarem acinzentados?
Gustavo soltou o ar pela boca e bagunçou os cabelos mais uma vez, de leve. Pensou que estava fazendo tudo certo, mas errou. A coreana precisou dele e quando deveria erguer as mãos para ela, simplesmente as ergueu para outra pessoa. Melissa tinha a família e o Fernando para protegê-la, mas sua pequena coreana só podia contar com uma pessoa, e a mesma lhe deu as costas. Ele entendeu que foi longe demais e precisava orar mais sobre os limites de ajudar alguém. Deveria saber que sua prioridade era ela...
- Eu preciso consertar isso, mas depois... - falou, levantando do chão.
Ele foi em busca dos seus pacientes para ver como eles estavam.
Nesse meio tempo, Vanessa continuava sentada em um pequeno banco de madeira, mais afastada das pessoas. Ela mantinha os olhos fixos em um ponto aleatório do abrigo e pensava em várias coisas, enquanto bebia chá gelado, mas saiu do transe quando ouviu Evelyn, mãe de Melissa, chamar pela filha.
A coreana levantou o olhar e viu a médica entrar no abrigo acompanhada de Fernando. Vanessa soltou o ar, aliviada.
- Tudo bem... preciso continuar com essa encenação - pensou, ficando de pé.
O tornozelo doía mais e ela teve dificuldade para ficar em pé. Mas ignorou o fato e tampou a garrafa a entregando ao guarda-costas em seguida.
- Se você ouvir gritarias, não vá até lá procurar por mim.
- WAE? - Ji-hoon disse, confuso.
- Por que eu quero assim... - respondeu e deu as costas, indo em direção a Melissa.
Por qual motivo ela deveria continuar com aquela encenação, já que Melissa estava bem? A resposta é simples; Yeong-gi não era uma pessoa tão boba, como certas pessoas pensavam. Um simples vídeo não seria suficiente para ele, então Vanessa quis se certificar de que tudo estava indo perfeitamente bem.
Ao se aproximar de Melissa, fechou os olhos por alguns segundos para se preparar. Depois, os abriu e falou:
- Que cena mais linda... Então quer dizer que o Fernando foi mais rápido do que um furacão e tsunami, juntos? Nossa, isso é possível? - deu uma risada seguida de palmas leves. - Mas que pena, deveria ter pego os dois.
- Sua cobra! - Melissa Caller gritou, e avançou no pescoço da coreana. - Você me amarrou lá para morrer afogada, Vanessa!
- Que pena que não morreu, né? - riu. - Não foi você quem me contou que gosta de mar? Tem morte melhor que essa, Melzinha? Você e ele, unidos para sempre!
- Qual é o seu problema, em? - Melissa apertou o pescoço dela com mais força.
Vanessa a olhou nos olhos, sem medo. Ela viveu tantas coisas que ter medo de Melissa era a última sensação que ia ter. A médica apenas se concentrou no que fazer, pois, sabia que Ji-hoon a observava de longe.
- Melissa, para com isso! - Gustavo pediu.
Vanessa, com certa dificuldade, virou para ele e sentiu dúvida. A preocupação era com ela ou com a indefesa Melissa Caller? Ela não precisou responder, pois a resposta veio da boca dele.
- Fazer isso só vai te tornar a cópia dela. Larga ela, moça da praia - ele completou, assim que segurou os braços de Melissa com cuidado.
- Era com ela, então... - Vanessa pensou, segurando o choro.
Não, não era com Melissa. Ele disse aquilo pensando muito bem, afinal, sabia que a namorada estava estranha demais para se comportar daquele jeito. Então, escolheu atuar com ela a fim de descobrir depois o que estava acontecendo. O holandês precisou dizer aquilo também porque ninguém sabia que estavam namorando e a coreana com certeza não ia querer que ele a protegesse na frente de todos.
- Gustavo, não se intrometa, por favor! Ela vai ver só. Eu é que vou te largar lá fora para morrer, isso sim!
- Melissa! - Gustavo se aproximou novamente, com medo de que as duas se machucassem. - Solta ela. Olha, estamos à beira de um colapso! Todo mundo está apavorado aqui. Estávamos preocupados com você e agora você já está bem. Mas não é assim que se resolve as coisas. Vai, moça da praia, deixa ela ir...
A youtuber parou de encarar Vanessa, que estava prensada contra a parede e olhou para Gustavo, que continuava parado do seu lado.
- Vou te soltar só por causa do Gustavo - falou e tirou as mãos do pescoço de Vanessa.
A médica alisou o pescoço e se recompôs. Pareciam ser sacrifícios demais para quem não merecia, mas às vezes o amor e misericórdia são dados a quem "não merece".
- Você deveria ser mais grata, Vanessa! - Melissa gritou, com raiva.
Nesse momento, a coreana levantou o olhar e a fitou.
- Grata? Eu? - riu, sentindo a raiva começar a ficar forte. - Grata a quem? A você que destruiu minha vida?
- Eu não destruí coisa nenhuma! - Melissa aumentou o tom da voz. - Mas você deveria ser mais grata a Deus, isso sim! Porque mesmo que eu tenha errado naquela época, e RECONHEÇO IS...
- Ah, então você reconhece? - Vanessa a interrompeu. - Que pena, não aceito seu reconhecimento, Melissa.
- Que seja, Vanessa. Que seja! Eu só sei que tentei te ajudar, mesmo que tenha sido de um jeito nada convencional. Pelo menos tentei! Você teve toda a ajuda de Deus para mudar seu passado, mas continuou assim, vivendo como se ainda fosse prisioneira do seu pai. Para com isso, Vanessa. Os erros de outra pessoa não podem ditar como vai ser seu futuro e nem quem você é! Naquela época, eu só estava tentando ajudar.
- É verdade, - Vanessa pensou - Eu tive a ajuda de Deus, e é por ser outra pessoa que estou, do meu jeito, tentando arrumar essa bagunça que o appa fez. Mas é claro, ninguém vai perceber porque a Vanessa Kim é a má. Espero que um dia você descubra a verdade, Melissa Caller.
Ela podia dizer tudo isso, mas de novo, escolheu continuar com a encenação.
- Ajudar? Você não me ajudou, Melissa. Nem um pouco! - disse, calmamente.
- Tá, mas eu tentei, okay? Será que pode ao menos ver isso?
Vanessa ficou em silêncio. Sim, agora ela via.
- Mas agora, me culpar por tudo de ruim que te aconteceu foi demais! E pior, matar uma pessoa inocente só por vingança foi pior ainda, Vanessa. O que você pensa que está fazendo? Está se vingando de mim? Não, não está! Olha, o sangue da Kézia vai cair sobre você, me ouviu?
- Por que deveria cair, se não tenho culpa? - retrucou, mentalmente.
- Tá, tá bom. Já chega, Melzinha... - desta vez, Fernando segurou Melissa pela cintura com cuidado, pois ela com certeza avançaria em Vanessa novamente.
Gustavo, por sua vez, também estava segurando Vanessa pela cintura antes que juntas começassem uma briga. Melissa foi levada para um lado e Vanessa para o lado contrário. Gustavo a guiou, segurando em sua cintura, até um banco distante dali. Ele a viu sentar e soltar o ar, como se toda aquela briga tivesse consumido suas energias...
- Vanessa, nós podemos conversar? - perguntou, assim que sentou ao lado dela.
- Eu não tenho nada para falar com você. Porque não vai ficar com seus amigos? Ou melhor, vai lá ver como a pobre e indefesa Melissa está... - respondeu grosseiramente, segurando o desejo descontrolado de chorar.
Gustavo a fitou; ele precisava de respostas. A pessoa que estava observando naquele exato instante não era a verdadeira Vanessa Kim, mas o que estava acontecendo com ela para voltar a se comportar daquela forma? Brigas, lágrimas, gritarias, uma morte e uma tentativa de homicídio... Não, aquela pessoa não era sua namorada e ele ia descobrir o que estava acontecendo.
- Não precisa fingir ser má na minha frente, eu sei que esse não é seu verdadeiro eu, Vanessa. Já pode tirar a máscara... - ele cruzou os braços, esperando que ela tirasse as camadas.
- Que máscara, Gustavo? Não tem máscara nenhuma! Essa que você está vendo - apontou para si. - É meu verdadeiro eu. Má, uma pessoa muito má!
- Foi você que matou a Kézia?
- Foi! - disse rapidamente, sem olhá-lo.
- Eu não acredito.
- Você não acredita? - deu um sorriso de canto. - Acha mesmo que me conhece tão bem assim para julgar se sou ou não capaz de fazer alguma coisa?
- Acho!
- Mas achou errado, Gustavo! - ela levantou e se virou, pronta para andar, mas Gustavo segurou em seu braço com cuidado. - O que pensa que está fazendo?
- Me diz, Vanessa - a fitou e implorou, através do olhar, que ela contasse a verdade. - Você realmente matou aquela menina indefesa?
Vanessa permaneceu parada, em silêncio.
- Vanessa, você matou aque...
- Não... - antes de terminar a frase, sentiu um nó se formar em sua garganta, como se fosse um aviso, mostrando que ela não deveria dizer a verdade. Mas sabia que ele merecia saber a verdade, então decidiu terminar o que começou a dizer: - Não, Gustavo. Eu não a matei...
-
"A raízes firmadas no compromisso com a leoa que existe dentro de mim, na promessa que às vezes a permitiria rugir fora de mim. Mas a leoa tem me cercado, fuje feroz para que eu a liberte. Ruge para se desprender das correntes que a mantém presa nos reflexos das minhas versões que imitam outras versões externas; e aquelas versões que imitam outras versões externas de outras pessoas. Quantos leões não estão enjaulados por aí pelo mundo externo que os aprisionam? Tecnicismo, automatismo, indústria cultural, pressão, isolamento, mídia, controle: sociedade que constrange o rugido dos felinos em declínio. " - Parafraseando a escritora Kathyelly Almeida.
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