Capítulo 3 - Eu não Vou

Vanessa ainda estava na sala de vidro na companhia de seu melhor amigo quando o sinal tocou para a nova rodada de aulas.

— Você deveria ir pra casa, eu te dou cobertura... — Jeong-ho disse enquanto a ajudava a sair da sala.

Oppa, agradeço por sua ajuda, não sei o que faria sem você...

Ele sorriu, e tentou esconder a animação.

— Mas depois do que aconteceu ontem, é melhor eu obedecer o appa um pouco.

— E seu pé...

— Eu preciso ficar, nee? — ela deu um sorriso, sem mostrar os dentes.

Jeong-ho, mesmo relutante, concordou.

Ele a ajudou a chegar na sala de aula e sentou-se do seu lado. A aula foi acontecendo normalmente até que chegou a hora da avaliação ser aplicada. Em toda escola é comum ter avaliações para verificar se os alunos estão aprendendo. Porém, para Vanessa Kim, as avaliações eram apenas uma forma que o sistema escolar da Coreia tinha criado para fazer da vida dos estudantes um completo inferno!

Ranking, avaliações semanais, competição entre os alunos, privilégios para os estudantes com notas altas, memorização, aulas por mais de dez horas com pausas de dez minutos, cadernos de questões, folhas de respostas... Pais loucos pelo sucesso dos filhos, filhos sendo robôs dos pais e, pais comandando o sistema escolar. Esse era o mundo em que Vanessa vivia, ao menos era assim que ela o enxergava.

Bom, talvez a coreana só estivesse olhando as falhas do seu país enquanto fazia drama. A Coreia do Sul não era assim, os estudantes eram felizes, pois tinham pais legais - na maioria das vezes. Talvez, a visão que Vanessa tinha da escola, Coreia, família e de Deus só estivesse destruída, e provavelmente a culpa não era dela. Afinal, Vanessa Kim era uma vítima, mais uma vítima do mundo cheio de pecado.

Ela estava pensando nessas coisas quando seu professor bateu com a mão em sua mesa, chamando-a.

— Pegue o tablet, vamos começar a avaliação — ele falou, virando-se. O homem de mais ou menos cinquenta anos continuou andando até que parou em frente ao púlpito. Girou o calcanhar e ficou em frente a turma. — Será que vai ser dessa vez que a senhorita Kim deixará seu posto de primeiro lugar no ranking de melhor aluna da escola?

Ninguém respondeu nada, afinal, quem ousaria desafiar o professor?

— Boa sorte!

Que sorriso sínico, senhor Park... Ela pensou, sem tirar os olhos do professor. Só está sorrindo assim porque recebeu o suborno do appa, nee? Quero ver você continuar sorrindo depois que começar a corrigir minha avaliação... Vamos ver se você continuará com essa vida boa quando descobrir que não pode mais me obrigar a competir pelo ranking.

O professor percebeu que ela o encarava e sorriu. Vanessa retribuiu o sorriso e até lhe ofereceu um aceno de cabeça.

Finalmente, ligou o tablet e começou a responder às questões. Sabia todas as respostas já que tinha memorizado na noite anterior. Mas não se comportaria como um troféu ambulante para que seu pai fosse paparicado. Por isso, a medida que respondia, a cada três perguntas, assinava uma questão errada de propósito.

Depois que a avaliação acabou, as quatro e meia da tarde, as aulas foram encerradas e todos liberados. Vanessa ia para a casa do melhor amigo para ter uma aula particular com o professor dele. Ambos entraram no carro que o prefeito de Seul, pai de Jeong-ho, enviou. O percurso foi silencioso e quando chegaram na mansão do prefeito, seguiram até a biblioteca para comer um pouco e esperar o professor chegar.

— Quer comer outra coisa? — Jeong-ho perguntou depois que se sentou na poltrona enorme. Na mesa, em frente ao assento, estavam dois potes do lámen sabor galinha que eram os favoritos de Vanessa.

— Não... — disse, desgrudando os Jeotgarak de madeira que vieram junto com a embalagem. Em seguida, retirou a tampa de plástico que estava sobreposta em cima do pote e começou a comer, fazendo um barulho enquanto sugava o macarrão.

Jeong-ho continuou quieto, com os braços cruzados, enquanto via a melhor amiga se deliciar com a comida. Às vezes, esboçava um sorriso sutil no canto da boca e outras vezes, esquecia de piscar.

— Você não vai comer? — ela perguntou, virando a vasilha de plástico na boca para beber o caldo que tinha sobrado.

— Não... achei que tivesse com fome, os dois são pra você — disse e empurrou o outro pote em direção a Vanessa.

Ela voltou a comer e quando terminou, colocou os palitos de madeira na mesa. Por fim, virou para o melhor amigo que estava sentado com os braços ainda cruzados e sorriu.

— Obrigada, Oppa...

Ele fez uma leve reverência de cabeça e sorriu.

— E você até que é bonito olhando assim...

— Sou? — disse, arqueando a sobrancelha. Depois levantou-se e sentou no braço da poltrona que a amiga estava, ficando a centímetros do rosto dela. — O que fica bonito em mim?

Finalmente está acontecendo? Ela está notando coisas legais em mim? Ele pensou, olhando-a.

— Um... — levou as mãos até o queixo enquanto o observava. — Seu cabelo fica bonito assim, para o lado. E seus olhos brilham quando entram em contato com a luz do sol. E seu rosto é milimétrico, fora a testa que é larga. Se você for em um show de talentos na TV, será contratado, com certeza... Juntando tudo, fica bonito assim.

— Fico?

— Sim... — respondeu, sem rodeios. Levou os braços até os ombros largos dele e o trouxe para mais perto e comentou: — Quando estiver morando na Holanda, vou separar um quarto para você. Vou pedir ao arquiteto pra colocar seu quarto virado para o nascer do sol, assim, quando a gente jogar gobang enquanto acontece o pôr-do-sol, vou poder ver seus olhos melhor.

Jeong-ho deu um sorriso e abraçou-a.

— Obrigada por pensar em mim...

— Não estou pensando só em você, estou pensando nos meus futuros sobrinhos que vão me visitar porque o pai, — ela apontou para ele — terá piedade de mim e os levará para a Holanda nas férias.

Jeong-ho sentiu a água gelada invisível cair em sua cabeça e o sorriso iluminado se desfez lentamente... Para disfarçar a dor que sentia, perguntou:

— Por que tem que ser na Holanda?

— Porque, oppa, Deus disse que um dia eu vou sair da Coreia. Ele me contou que no futuro, vou encontrar meu marido lá. Então, a Holanda é importante. Preciso morar lá para encontrá-lo...

— Deus disse? — perguntou, esboçando um sorriso tímido.

Na verdade, Jeong-ho tinha um fundo de esperança; desejava que a amiga tivesse entendido a promessa errado. Preferia pensar que Deus não disse que ela ia conhecer o marido naquele país distante, mas que Ele os uniria lá. E assim, Vanessa não ia precisar morar na Holanda a vida toda para encontrá-lo. Fora que se a promessa tivesse essa versão, ele tinha uma chance de competir com o tal marido que ocupava o coração dela.

— É por isso que não vou me cansar de fugir daqui. Oppa, preciso ser livre... — seus olhos lacrimejaram e Jeong-ho percebeu que ela ia chorar de novo.

Ele a abraçou mais forte e alisou os fios negros e longos da amiga.

— Você quer orar agora? Lembra que ainda estamos em jejum, nee? Talvez Deus te dê mais força para se encontrar com a Holanda.

Ela assentiu. Os dois ficaram de joelhos e Vanessa começou a oração dizendo:

Appa... O Senhor não esqueceu do nosso combinado, esqueceu? — falou, sentindo as lágrimas escorrerem. Não conseguia falar sobre aquele assunto sem chorar, era quase impossível. — Appa... Por favor, não me deixe aqui, tá? Eu sei que meu pai é um monstro às vezes, que a Eomma quase nunca faz nada para me ajudar, que odeio todo esse sistema escolar. Entendo tudo isso, mas estou aguentando firme por causa do Senhor e por causa do Oppa.

Jeong-ho sorriu nesse momento, sem esconder a alegria que sentiu por conseguir fazê-la ver que Deus ainda conseguia colocar pessoas boas do seu lado. Nesse caso, a pessoa boa era ele e gostaria de ser aquele que a faria feliz para todo o sempre.

Appa... — ela continuou a falar deixando a cabeça repousar no ombro do melhor amigo, enquanto chorava. — Não se esqueça de mim aqui, por favor?

Nesse instante, Vanessa ouviu-O responder em auto e bom som:

"Eu não Vou, filha".

Ela sorriu e sentiu que o próprio Deus havia descido até ali para abraçá-la, confortá-la e para mostrar que não tinha se esquecido dela. E de fato, Ele não tinha.

[...]

Vanessa passou pela porta enorme da mansão e sentiu o calafrio. Ela respirou fundo e apertou a alça da mochila de couro que carregava nas mãos. Depois, passou pela sala e começou a subir as escadas para ir para o quarto, mas foi interrompida quando ouviu o pai a chamar.

— Nari, venha aqui, por favor...

Ela quis ignorar a ordem, mas fez burradas demais para ignorá-lo. Então, girou os calcanhares e seguiu até a poltrona que o pai tinha sentado.

Nee?

— Do que se trata isso? — perguntou, estendendo o tablet.

Vanessa soube no exato momento que viu o olhar destruidor do pai que suas notas foram reveladas.

— Eu te fiz uma pergunta, Nari. Me responda! — gritou, jogando o tablet no chão o fazendo quebrar imediatamente.

— Não sei do que se trata — ela respondeu, ainda apertando a alça da mochila que segurava.

Estava sendo muito ousada, mas já tinha ido longe demais para voltar. Ia sair daquele lugar!

— Não se faça de desentendida, Nari! — Yeong-gi gritou, e caminhou até Venessa. Ele a segurou pelo braço. — Acha que meu dinheiro nasce em árvores? — perguntou, chacoalhando-a.

Vanessa soltou a alça da mochila devido ao susto que levou quando seu pai começou a balançá-la com mais rapidez. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e não conseguia mais seguir a regra ridícula de não chorar.

— Você fez de propósito, não foi?

Ela não respondeu.

— Não foi? — gritou e apertou com mais força os braços dela. — Eu não preciso de uma filha inútil, está me ouvindo?

Vanessa sorriu de canto, sentindo a raiva tomar conta de seu corpo. Sabia que se arrependeria de dizer as próximas palavras, mas ia falar mesmo assim. Tinha passado toda a infância daquele jeito, só obedecendo. Mas chegou a hora de começar a pensar em si ou ia enlouquecer!

— Os filhos precisam ser úteis para os pais? Eu preciso fazer o que você quer o tempo inteiro? É só um ranking, appa... — perguntou, olhando-o nos olhos.

Yeong-gi a soltou com certa severidade o que fez com que Vanessa caísse no chão, tombando no abajur que estava em cima da mesa. Ela sentiu as costas baterem na quina da mesa e logo em seguida percebeu que algo escorria pelas costas. Mas mesmo sentindo uma dor quase que insuportável, não ousava gritar.

— Você não é qualquer filha, Nari. É minha filha e nasceu para ser útil para mim, está me ouvindo? — disse, aproximando-se dela. Depois agachou no chão e segurou-a pelo queixo. — Levante-se e vá dormir. Amanhã vou tentar resolver esse problema que você causou, então me espere na escola.

A coreana abaixou a cabeça e cerrou os punhos.

O pai se distanciou do local sem perguntar se o ferimento nas costas doía. Mas infelizmente, Vanessa estava acostumada com aquela frieza. Por fim, a coreana fechou os olhos e respirou fundo. Às lágrimas escorreram como se fossem águas que saem das cachoeiras.

Appa... Por favor, não se esqueça de mim aqui... Não me esqueça aqui.

Eomma - mãe

Gobang - Jogo de tabuleiro típico da Coreia.

Nee - Sim, em coreano.


Ahhhhhhhh mais um capítulo pra vocês.

Agora sim, Nari ou melhor, Vanessa está em um caminho sem volta.

Estão animados com o livro?

Ainda odeiam Yeong-gi? 🤡

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