Capítulo 11 - Sua má sorte


Fernando se despediu de Vanessa e ela ficou sozinha, sentada na sala de descanso.

Algumas coisas passaram por sua mente naquele momento. Para a médica Vanessa Kim, o que vivia no Brasil estava além de um inferno! Mal chegou ao país e já percebeu que começou um relacionamento sem amor, além disso, foi maltratada por muitos funcionários, pois diziam que ela só começou a trabalhar por nepotismo. Ou eles só estavam irritados por vê-la namorando o Fernando quando, sabiam que a Melissa estava sofrendo. A coreana sentia saudade de casa, da comida que o melhor amigo preparava e do mau temperamento de Choi Dali. Queria voltar a atender os pacientes que confiavam nela como profissional e sentia muita falta dos residentes que a tratavam com respeito, sem se importar se Yeong-gi era ou não dono do hospital Kim.

— Quem vocês pensam que são? — reclamou, batendo com a mão no sofá.

Pela manhã, em seu devocional, aprendeu que os que são nascidos em Jesus devem buscar a paz acima de tudo, mas não estava disposta a seguir aquele ensinamento.

— Melissa Caller, quem você pensa que é para manipular minha vida assim? Como eu a odeio! — ela murmurou e ficou em pé. A coreana começou a andar de um lado ao outro com os braços cruzados. Suas bochechas ficaram rosadas e as sobrancelhas estavam mais unidas. — Ela sempre consegue destruir minha paz e faz isso sem o mínimo de esforço. Manter a paz, com ela por perto é impossível... Aish!

A coreana respirou fundo duas vezes e ficou parada, olhando para a estante de livros em sua frente. Então, concentrada neles, viu a raiva se dissipando, dando lugar a angústia e tristeza. Parecia que tudo que fez durante aqueles anos, tentando viver a vida sem dar lugar ao rancor foram jogados no lixo.

Melissa Caller, a culpada de todo mal e sofrimento que tinha.

Os olhos pequenos e puxados da coreana começaram a arder e em cinco segundos ela começou a sentir as lágrimas escorrendo pelo rosto. Eram finas, quentes e salgadas ao mesmo tempo, e Vanessa conseguiu segurar as outras lágrimas por pouco, pois, minutos depois, já tinha deixado o corpo cair com tudo no sofá ao mesmo tempo que a cachoeira dos olhos jorravam. A coreana até tentou engolir o choro, mas falhou miseravelmente quando os fez parar na garganta.

Ela colocou as mãos no rosto e chorou sem parar.

Aigoo... — dizia, ao mesmo tempo que chorava. No peito havia uma pressão sem igual, e a vontade de chorar só aumentava quando ela lembrava que nunca teve controle sobre a própria vida. A dor e lágrimas aumentavam assim que, a pequena coreana, se dava conta que apesar de ter ar nos pulmões, nunca soube o que é viver de verdade. — Aigoo... Essas são as lágrimas de uma derrotada... — Falou, rindo e chorando ao mesmo tempo. Ria da própria miséria, e chorava pelo mesmo motivo.

No entanto, assim como todos, ela também estava a mercê de ouvir uns conselhos duvidosos e foi em seu momento de fracasso que os ouviu:

"Mas quem ela pensa que é? Sou uma médica renomada. Todos querem trabalhar comigo e me respeitam no exterior. Por que ela acha que pode ficar com tudo? Quem lhe deu o direito de ficar?"

Escolhas, são as escolhas que constrói quem todos serão, e a partir delas, o caráter é modelado. Quer sejam boas ou ruins, trarão consequências que algum dia a humanidade vai ter que lidar. Mesmo lendo a bíblia, Vanessa Kim carregava um coração dilacerado e foi usando sua dor que certo alguém resolveu incentivá-la a escolher erroneamente.

"Por que só eu tenho que sofrer?" — ele soprou, incentivando-a a decidir. — "Nepotismo? Aish... Ela e todos precisam entender que não sou a mesma de antes. Não vou chorar escondida quando meus inimigos riem de mim, na minha face. Aigoo, nepotismo. Foi o meu talento e ela deve saber disso!"

Os pensamentos entraram em seu coração e ela deu um lugar especial para que pudessem se sentar. Então, limpou as lágrimas e ficou em pé, em seguida, ajeitou a roupa e saiu da sala. Porém, parou bruscamente quando ouviu o Espírito Santo dizer que não deveria ir. Lembrou do que aprendeu pela manhã e várias passagens bíblicas vieram a tona, mas a velha Vanessa Kim surgiu e ela foi impulsiva.

— Eu preciso me defender... — dessa vez, a própria Vanessa falou, concordando com um certo alguém.

Cinco minutos depois, estava dentro da sala, em frente a Melissa.

— Qual é o assunto, Vanessa? — ela perguntou, séria.

Vanessa continuou olhando-a. A raiva a consumiu por completo. Ouviu o Espírito Santo pedir para sair dali, mas o coração tinha recebido mais uma cicatriz naquela manhã e não estava disposta a esquecer a dor.

— Não vai me dar as boas-vindas, Melissa? Cheguei aqui há praticamente um mês e nem você, nem seus amigos falaram comigo. É esse tipo de recepção que mereço? — reclamou, rodeando-a.

— Faça-me o favor, Vanessa! — Melissa disse descruzando os braços. — Você dá tanta importância às opiniões das pessoas a ponto de ligar para isso? — ela riu debochando. — Não seja por isso, seja bem-vinda. Mais alguma coisa?

Vanessa sorriu e sentou na cadeira acolchoada que estava posicionada de frente para Melissa. Em seguida, cruzou as pernas e repousou as mãos em cima dos joelhos.

— Muito obrigada! — disse, fazendo uma reverência exagerada.

— Já que não tem mais nada para falar, vou embora — Melissa deu alguns passos em direção a porta.

Vai embora? — Vanessa pensou, irritada. — Ela sempre quer ser a última a falar. Nunca me deu ouvidos e mesmo quando fingia me ouvir, a conversa voltava para suas opiniões. Ela acha que pode sair sem que eu termine? QUEM. ELA. PENSA. QUE. É?

A coreana viu Melissa caminhar em direção a porta, mas correu até ela e a segurou pelo braço.

— Escuta aqui sua médica mimada! — começou a falar, séria. Sim, estava passando dos limites. Sim, sabia que deveria parar. Não, não ia parar por aí. — Sua história bobinha com Fernando já acabou, entendeu? Aquele beijo de mais cedo só foi para deixar claro que você não tem mais chances, entendeu?

— Você é maluca? — Melissa puxou o braço que ainda era segurado por Vanessa com força. — Cresce, criatura! Se você tem certeza de que acabou, por que essas ameaças? — a médica riu e tombou a cabeça para trás. — Pelo visto, não confia em Fernando, né? Ah, não, deve ser falta de confiança em si mesma.

Vanessa sentiu uma pontada no coração depois de ouvir a última frase. Ela realmente não confiava em Fernando, sabia que a qualquer momento ele voltaria com Melissa e ia se sentir uma idiota! E nem entendia porque estava falando sobre aquela relação falsa, mas se seu pai soubesse que tinha fracassado até em um relacionamento, seria seu fim. Não podia se comportar como uma inútil, não podia!

— Estou avisando, Melissa Caller — disse voltando a segurar os braços dela o apertando com as unhas. Viu a cara de dor que a médica estava fazendo, mas sentiu prazer.

Você nem imagina o tamanho da dor que eu senti por sua causa! — pensou, segurando firme no braço de Melissa. — Eu sofri e derramei muitas lágrimas. Essa cara de dor nem se compara ao que sinto! Está doendo? Vai doer mais! — a coreana fez questão de fincar as unhas na pele de Melissa para vê-la se contorcer de dor.

— Não chegue perto do Fernando, me entendeu?

— Me solta, sua louca! — Melissa gritou de volta. Em seguida, puxou os braços com força. Isso foi suficiente para fazer as unhas compridas e fortes de Vanessa saírem arranhando sua pele, deixando uma marca branca sobre algumas partes de seu braço. — Olha só o que você fez! Cresce, Vanessa!

Vanessa viu Melissa sair correndo pela porta e ficou anestesiada por alguns segundos. Viu a cara que ela fez, mas a ignorou e continuou. Por um momento, a dor que a brasileira sentia lhe deu prazer. Quando viu o sangue escorrer do braço dela, não se importou, pois pareceu pouca coisa. No entanto, assim que Melissa saiu da sala e deixou o rastro de sangue no piso branco, Vanessa se deu conta da gravidade do que fez.

Ainda confusa, andou até a cadeira que estava sentada e deixou o corpo. Em seguida, permitiu que o ar saísse pela boca e começou a chorar. Levou as mãos até o rosto e deixou várias gotinhas de lágrimas saírem por seus olhos uma após a outra. A imagem do braço de Melissa vinha em sua mente e agora que a adrenalina sumiu, se sentiu mal.

— Eu... eu — dizia, ao mesmo tempo que chorava e encarava as mãos com resquício de sangue. — Eu... Não foi... Eu...

As lágrimas repousavam em cima da calça que usava e à medida que batia em si mesma, e foi nesse instante que ficou com raiva de si. Nenhuma barata ou inseto nojento; nunca viu o sangue deles e nunca usou aquelas mãos que foram consagradas para salvar, com a intenção de machucar alguém. Porém, se deixou levar pela raiva e perdeu o controle. E apesar de estar em pânico, o que tinha feito, foi feito.

— Eu... joguei tudo no lixo? — sussurrou, unindo as mãos. A coreana, com a intenção de se machucar, começou a desferir socos leves na coxa. À medida que se batia, sentia mais raiva e a força aumentava. Ela via os pingos dos olhos escorrerem sem parar, mas nem deu atenção para aquilo.

Você é idota, Nari!

Seja mais inteligente, Nari.

Você é inútil!

Eu não vou permitir que você se comporte assim, sorria direito.

Quanto mais um certo alguém sussurrava em seus ouvidos, mais ela dava atenção àquelas mentiras e as tomava como verdade.

Ela continuou se socando e não ouviu quando a porta da sala foi aberta. Gustavo Mark a viu e não pensou duas vezes em ajudar. Ele correu e se ajoelhou em frente a Vanessa, depois segurou os pulsos dela no ar começou a falar:

— Ei, para com isso! — implorou, enquanto a olhava.

— Me solta, Gustavo! — gritou, tentando se livrar dele, mas Gustavo era mais forte. Ela deixou o ar sair pela boca e o fitou, com raiva. — Por que está aqui? Me solta!

— Eu vou te soltar se você me contar o que está acontecendo...

Vanessa levantou a cabeça e olhou para ele. Gustavo estava mais bonito naquele dia e tinha cortado o cabelo, mas não muito. O perfume que usava exalava pela sala inteira e Vanessa gostou do cheiro. Por alguma razão, sentir seu cheiro e olhar para seus olhos claros sempre lhe trazia conforto e paz, e não foi diferente naquela ocasião.

Como será namorar o famoso Gustavo Mark? — se perguntou, fitando-o. — Ele é assim com todo mundo ou é só... e se um dia fomos... Um dia... — ela sorriu, mas desfez o sorriso em seguida. — Não posso pensar nisso. Eu namoro o Fernando e... aish, o Fernando. O Fernando... A Melissa, as pessoas desse hospital... O appa.

A coreana abaixou a cabeça enquanto suspirava e voltou a chorar. Mas dessa vez, recebeu conforto, pois Gustavo não fez perguntas e ali mesmo, de joelhos em frente a ela, ergueu os braços e a abraçou.

Ele era um completo estranho, mas era o estranho que correu até ela quando precisava. Era a pessoa que, mesmo sabendo de sua má fama, foi em sua direção. Ele era a pessoa estranha que alisava com carinho seus fios negros e a mostrou mais amor do que a maioria do hospital.

Gustavo Mark era a pessoa estranha que sempre a sustentou, mesmo de longe, mas agora a sustentava de perto, bem de perto.

[...]

Vanessa andava pelo corredor em direção a sala do seu paciente. Pela manhã chorou nos braços de Gustavo Mark, mas assim que melhorou, fingiu que nada tinha acontecido e saiu correndo da sala enquanto Gustavo gritava:

— Eu vou atender um paciente, te encontro na sala mais tarde. Vanessa, beba uma água e volte, okay? Vanessa!

Ela fez o que o médico recomendou e conseguiu melhorar. Buscou não pensar muito no que aconteceu e resolveu voltar ao trabalho. A sala era a de número trezentos e vinte e ela estava quase lá. Estava animada para encontrar a Sophia, pois a cirurgia que fez com o Gustavo no dia anterior correu bem, mas ainda precisavam esperar para ver como o cérebro da paciente ia reagir depois da retirada do tumor. Mas Vanessa ficou mais animada em vê-la porque a jovem lhe transmitia paz. Sempre que ia no quarto dela, voltava feliz e cheia de ânimo e ânimo era o que a coreana mais precisava naquele dia.

Assim que chegou perto do corredor, viu Gustavo parado em frente a sala, analisando o prontuário de Sophia. Ela lembrou que chorou em seus braços e quis sair correndo de novo, mas lembrou da paciente e continuou andando em frente.

— Senhorita Kim? Está se sentindo melhor? — falou, vendo-a parar perto do balcão da recepcionista daquele andar.

— Vanessa Kim, você pode me chamar assim — respondeu, dando um sorriso de canto. Estava grata pela ajuda que recebeu, então ele já podia chamá-la pelo nome. Ela pegou o tablet que estava em cima do balcão e andou em frente a porta do paciente. — Estou bem, obrigada por perguntar. Já podemos entrar.

A coreana fez menção de andar e esticou a mão para pegar na maçaneta, mas Gustavo a parou no meio do caminho e ficou em frente a ela.

— É sobre ela que eu gostaria de falar. Enquanto você estava fora, ela apresentou complicações e veio a óbito...

Vanessa deu dois passos para trás.

Mwo? — falou, confusa. Em seguida, olhou para o prontuário e fitou Gustavo novamente. — Aneurisma cerebral? A Sophia estava bem ontem a noite.

— Sinto muito... — ele disse, fazendo uma reverência. Vanessa não sabia onde Gustavo tinha aprendido a saudação coreana, também não entendia como ele aprendeu que quando alguém morria na Coreia, a saudação virava um sinal de respeito a pessoa, mas estava grata por ele saber disso.

No entanto, isso não foi o suficiente para fazê-la se recuperar da surpresa ruim. Então, a coreana puxou o ar para os pulmões e sentiu uma lágrima escorrer. Ela passou as mãos pelos cabelos e umedeceu os lábios, também abriu a boca e fechou-a em seguida. Sabia que tudo era possível, que a Sophia podia viver ou não, sabia que não era uma heroína com super-poderes só por ser médica. E, apesar de saber, não se conformava.

A coreana deu alguns passos para trás, colocou o tablet em cima do balcão, ignorou os olhares curiosos das enfermeiras e girou os calcanhares. Ela correu pelo corredor.

— Senhorita Kim — Gustavo a chamou. Ele não sabia como, mas se importava mais com ela do que com qualquer outra pessoa. Também não sabia como começou, mas era o que sentia. Via Vanessa como uma mulher forte, apesar dela chorar bastante em sua presença. Mas também a via como alguém que ele precisava proteger, cuidar e até...

A médica ignorou a voz dele e continuou correndo, porque apesar de aprender que ele podia sanar sua dor temporariamente, também era necessário chorar. Ela correu sem rumo, enquanto pensava na má sorte que andava tendo naqueles últimos meses.

Mais um — pensou, ao mesmo tempo que caminhava — Eu perdi mais um...

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