Estresse | Isa Amorim

Estresse.

Correria demais. Hoje bati a porta do carro no carro do lado. Arranhou, olhei para a mancha branca no carro preto. Estava menos arranhado que a minha vida. Estresse. Hoje tive uma crise de nervos no mercado. Quem deixou essas pessoas andarem com carrinhos, sendo que elas não tem a mínima noção de mobilidade? Nervosismo. Desde quando essa cidade cresceu tanto. Eu nem lembrava a última vez que sai de casa, acho que foi a última vez que te vi. Eu saia de casa por você, eu ia ao mercado por voce. Estresse. Talvez o problema não fosse as pessoas com sua mobilidade ridícula, talvez fosse o fato de você não estar lá. Arranhão, não acredito que por bobeira vou gastar quase duzentos reais, tirando o transtorno de ter que explicar pro motorista do carro ao lado. Silêncio. É o que encontro toda vez que chego em casa. Onde está você? Estresse. Eu já nao estou aguentando esse zumbido na minha cabeça. Porque somos obrigados a viver em conjunto e dar satisfação. Minha vida tem pontos finais bruscos a todos os instantes. Ontem você estava aqui. Te vi de longe. Foi buscar o resto das roupas. Pensei em apressar o passo pra conseguir te dar oi. Desisti. Entrei na primeira rua que vi. Você não me viu. Na realidade acredito que você nunca me ve, nem quando estava comigo. Minhas mãos estão trêmulas. Foi tão demorado te conhecer e tão rápido te desconhecer. Estresse. Era divertido fazer compras com a sua mae, ela não tinha a mínima noção de mobilidade. Eu não tenho a mínima noção de mobilidade. Você tem. Será que eu estressava você da forma que me estressei no mercado? Eu deveria ter te perguntando se o problema era a minha mobilidade. Acho que esse era um dos pouco problemas. Pego o celular. Quero perguntar se o problema é a minha mobilidade. Disco seu número. Escuto chamar. Tum. Tum. Tum. Alou. O problema é minha mobilidade?. Nao, Que pergunta é essa?. Estou tentando achar uma explicação para a forma que você saiu da minha vida. O problema não é a mobilidade, é você. O telefone é desligado. O problema sou eu. Por isso me estressei. Por isso bati no carro do lado. Por isso você foi embora. Quero me deitar no chão aqui mesmo onde estou. Será que você ja parou pra pensar no desfalque que fez na minha vida? No meu ser? Estou te procurando com minhas mãos trêmulas. Você as empurra. Por que a casa parece ser tão solitária sem você? Vazio. Abro o guarda roupa. Seu casaco nao está mais lá. Eu havia pedido pra deixar o casaco. Não quero esquecer seu cheiro. Acho que estou enlouquecendo. Será que quando enlouquecer esquecerei sua existência? Me parece confortável a ideia de um dia te esquecer. Mas é assustador. Você me conheceu de todas as formas. Como eu posso te esquecer? Não posso. Sento no chão e encosto na parede. Esse era o horário que você chegaria em casa. É patético. Seis horas. O que está acontecendo comigo? Quero dar uma volta de carro. Lembro que bati o carro. Você falaria que foi só a porta, não tem porque eu não andar. Mas eu não quero. Eu que mando na minha vida agora. Pontos finais. Sinto sua falta. Onde eu estou. Não é culpa da mobilidade, é minha culpa.

Desculpa.

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