1. 10 anos depois

Eu deveria estar feliz em voltar, por finalmente estar em casa e rever minha família, contudo, a tristeza pela morte de tia Genoveva era maior que qualquer uma dessas coisas. Também tinha o fato de não saber como minha mãe me receberia, afinal, foram muitas as tentativas para eu continuar na Inglaterra (como se eu tivesse uma gota de desejo de voltar).

- Você está trabalhando, com a vida feita aí, não tem o menor sentido voltar pra uma cidadezinha que não pode te oferecer nada.

Essas foram suas palavras diante da perda de sua cunhada e o reencontro com sua filha após 10 anos. Dizer que me senti um lixo é redundante, pois esse sempre foi o sentimento que ela fez questão de demonstrar. Afirmativas como: "você não me ama", "eu não sou sua filha" e tantas outras negações foram constantes nos primeiros 14 anos de minha vida. Após a morte de meu pai, aquele que sempre me amou, mamãe fez todo o arranjo necessário para que eu fosse estudar em Londres e viver longe dos que ela realmente amava, alegando o quanto me faria bem esquecer um pouco de todo sofrimento que eu estava submersa. Não tive tempo de pensar no quanto sentiria falta do meu irmão nem da minha avó, porquê em menos de 30 dias, ainda num luto terrível, eu pegava o avião pensando que minha vida acabava por ali.

- Pode ficar com o troco. Obrigada.

A casa na qual cresci não parecia ter mudado nada. O gramado aparado e úmido, a faixada amarelo clarinho... Me deparei com um déjà vu assim que subi as escadas para tocar a campainha.

- Minha querida! Que alegria ter você de volta!

- Vovó, que saudade!

***

- Eu imagino... Não a conhecia pessoalmente, mas seu pai sempre falou muito bem dela, do quanto ela foi uma mãe para ele.

- Uma mãe muito melhor que a minha, por sinal. Ela era maravilhosa, vovó.

- Meu bem, não fale assim. Sua mãe sempre pensou no melhor para vocês. Infelizmente ela é uma mulher sofrida, com muitos traumas que lhe impediram de expressar todo o amor que há em seu coração.

- Seus traumas a impediram de demonstrar seu amor por mim, não ao resto do mundo. Eu sei bem como é ser ignorada, como é receber ligações de sua mãe apenas em datas comemorativas. Dói vovó, dói muito. E... Eu simplesmente não entendo... Porquê ela não me ama? Porquê nunca fez questão de estar comigo?

Antes que cometa a insanidade de derramar uma lágrima sequer na frente de minha avó, levanto da cadeira e vou até a janela da cozinha. Me arrependo imediatamente de ter vindo. Nem a doçura daquela velhinha é capaz de amenizar a tristeza de uma vida inteira de rejeição materna. Começo a pensar em passar a noite em uma pensão e voltar para casa no dia seguinte quando uma caminhonete estaciona na entrada da garagem. Um homem alto, cabelos cacheados preso num coque bagunçado e olhos muito azuis desce do automóvel e anda despreocupado até a porta. Aquela visão me distrai e não ouço direito minha avó que continua falando alguma coisa sobre minha mãe. Ao perceber minha presença na janela, o rosto do homem vira um grande ponto de interrogação juntamente com o meu estranhamento. Ele parecia... Mas não... Estava muito diferente, aquela barba... Talvez um primo distante... Os olhos... Meu Deus! Era ele! Nos reconhecemos ao mesmo tempo e nossas caras de surpresa e alegria foram imediatas. Corri até a porta na vez que meu irmão já a abria e vinha apressado em minha direção.

- Augie!

- Cal!

Nos abraçamos por longos segundos e meu Deus... Como era bom aquele abraço familiar! Não o via desde que fui embora e o medo que antes sentira por nunca ter respondido suas cartas não fizeram parte daquele momento.

Meu irmão.

Eu tinha um irmão que me amava e me queria bem e infelizmente só conseguia ver isso agora.

Nos soltamos e seus olhos passearam por todo meu corpo. Não pude evitar de reparar em sua bela figura, e nossas risadas num misto de constrangimento e surpresa nos tomou.

- Uau... Cal, você... Está ótima! A Europa fez muito bem pra você!

- Faz. A Europa faz muito bem pra mim.

Soltei nossas mãos e guardei as minhas no bolso do casaco. Aquela sensação era estranha e eu não me sentia confortável com o quanto meu coração estava acelerado com aqueles olhos sobre mim. Minha alegria por rever meu irmão me deixava eufórica.

Aug beijou vovó no rosto e disse não saber que eu chegava hoje.

- Claro que não sabia, esse menino não para em casa!

- Também não é assim, vó!

Sua risada tinha gosto, cheiro e a visão do paraíso. Quanto mais eu o observava, menos enxergava aquele muleque de 17 anos que eu conhecia.

- Cal, vem comigo. Só vim trocar de roupa pra academia. Enquanto isso me conta sobre sua vida. Quero saber tudo sobre você.

Enquanto dizia isso, pegou minha mão e a beijou. Me puxou escada acima quase me fazendo tropeçar. Deixamos minha avó com um sorriso maravilhoso tomando seu café na cozinha.

Assim como Aug, seu quarto também sofrera as mudanças do tempo. Aparentemente, a bagunça era a mesma, no entanto, todo o resto era agora um ambiente cheio de personalidade pertencente a um homem adulto.

- Pelo visto, você se cansou dos posters da Angelina Jolie e Britney Spears.

- Digamos que agora sou mais eclético. Não caberia nas paredes todas as mulheres que eu desejo.

Dois sentimento estranhos e bizarros tomaram conta de mim: ciúme e desejo. Novamente senti o coração bater mais rápido, o estômago ficou apertado e minha vagina pulsava freneticamente. Augie me encarou dando mais ênfase nos meus lábios. Eu suava. Antes que pudesse ver quaisquer outras reações físicas de seu corpo, ele se virou e foi até seu guarda-roupa. Enquanto pegava uma camiseta, disse:

- Desculpe, Cal, mas é estranho vê-la como irmã. Você está muito diferente. Muito bonita... Vai me dar um trabalhão aqui, tô só vendo!

Sua risada era carregada de constrangimento. Após se virar e respirar profundamente, tirou a camiseta. Logo prosseguiu mais calmo e confiante.

- E então, me conta. Como você está lá no primeiro mundo? Trabalha com o quê? A última notícia que tive era que estava fazendo jornalismo.

Eu tinha que me concentrar em cada palavra, pois fazia um bom tempo que não ficava de frente à um homem tão bonito e desejoso. Ele era meu irmão, eu sei, contudo ainda não conseguia associar essa ideia à realidade.

- Sim, formei em jornalismo... h-há três anos e... Bem, eu... Estou terminando o m-mestrado em...

- Nossa, que bacana! Mestrado! Nerd heim, Cal?

Ele pisca pra mim e seus músculos me fazem querer desesperadamente tocá-lo. Enquanto ele veste a camiseta, fico hipnotizada pelo contorno de seus braços, as tatuagens no seu corpo, seu abdômen marcado, a cueca aparecendo e o volume de seu... Meu Deus, eu estou enlouquecendo. A porra daquele cara é meu irmão e eu só consigo pensar no quanto ele é gostoso.

- Augie, me desculpa, e-eu tô muito cansada e... Acho que podemos conversar mais tarde, tá?

Saio imediatamente daquele quarto maldito e me tranco no banheiro.

- Mas que merda tá acontecendo comigo?!?!

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[[[[ Este conto terá aproximadamente 5 capítulos. Postagens durante a semana! ]]]]

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