Capítulo 4: Chegada à fazenda
Os dias passam rápido e ainda não consegui encontrar algum equilíbrio em toda essa reviravolta na minha vida. O estúdio no terceiro andar tem sido meu refúgio e, embora me sinta mais conectada à minha música, um novo desafio se aproxima.
Há uma batida na porta e logo em seguida ela se abre.
— Minha querida, daqui a dois dias você viajará para a fazenda. O objetivo é que se familiarize com o ambiente e com as responsabilidades que virão com ela. Eu a acompanharei até lá, mas precisarei retornar para casa logo.
Quando ouço essas palavras, a sensação de ansiedade se torna mais forte. A realidade é essa e não há como fugir. O que me resta é aceitar.
As horas que antecedem minha partida são um turbilhão de preparativos. Amanda e Vitória, minhas primas, parecem eufóricas, embora não saibam exatamente qual é o papel da fazenda na minha vida. Elas tentam me animar com sugestões de passeios e coisas a fazer ao redor, mas nada disso me interessa no momento. Preciso me concentrar no que está por vir.
A viagem até a fazenda é longa e cansativa, e o clima quente e efusivo do Rio de Janeiro vai ficando para trás.
Durante o trajeto, meu padrinho me conta um pouco sobre a família do sr. Alonso Maranhão e a vida na fazenda.
Quando finalmente nos aproximamos da região, uma sensação de estranhamento toma conta de mim. Não é a cidade vibrante que eu conhecia, mas uma imensidão de terra e natureza, silenciosa e imponente.
O pequeno e encantador município de Vale Florido está situado no coração do sul de Minas Gerais, um lugar que se esconde entre as montanhas que formam a Serra da Mantiqueira. A cidade, com suas ruas tranquilas e coloniais, parece ter saído de um livro de história, com casarões de arquitetura portuguesa, ruas de paralelepípedos e uma natureza exuberante que a envolve por todos os lados.
É uma região onde os sons da vida cotidiana se misturam com o canto dos pássaros e o barulho distante de riachos que serpenteiam por entre as árvores.
A poucos quilômetros de Vale Florido, ao longo de uma estrada de terra batida que serpenteia pelas colinas ondulantes, fica a fazenda Dona Leopoldina.
Ao longe, é possível ver as vastas plantações de café que se estendem até onde a vista alcança, com as folhas brilhando sob a luz suave do sol. A fazenda ocupa uma área generosa, e a paisagem parece pintada à mão: montanhas verdejantes ao fundo, campos cobertos por fileiras organizadas de cafeeiros e, entre eles, a presença marcante dos imponentes cavalos, que pastam tranquilos em cercados próximos.
Meu primeiro impacto é a sensação de estar imersa em um espaço que parece intocado pelo tempo.
Visualizo a casa principal da fazenda ao longe, erguida em uma parte mais elevada do terreno. É uma construção imponente de estilo colonial, com grandes varandas que se estendem por toda a extensão da fachada. As paredes pintadas de branco, contrastam com o verde das montanhas e o azul do céu, criando um cenário bucólico e acolhedor. O aroma do café recém-torrado parece estar no ar, uma fragrância envolvente que se mistura com o cheiro da terra e da vegetação nativa.
À medida que nos aproximamos da propriedade, posso sentir o frescor do ar da serra, que parece mais puro e revigorante.
O terreno é acidentado, com várias trilhas que levam a áreas de cultivo onde os grãos de café são cuidadosamente selecionados.
Sou informada que a fazenda está imersa em uma rica herança familiar e cultural. Pelo entendi, a Fazenda Dona Leopoldina não é apenas um local de produção agrícola, mas também um refúgio onde as memórias e o legado de seus antigos moradores estão guardados, esperando ser descobertos por aqueles que estão prontos para entender o que ela tem a oferecer.
Meu padrinho me conta que a fazenda é famosa pela produção de cafés especiais, cujas variedades são cultivadas com uma dedicação meticulosa, algo que é palpável no cuidado que os trabalhadores têm com cada planta. Nas plantações, a paisagem é pontuada por pequenas árvores que dão sombra aos cafeeiros, e em certos pontos, há pequenas construções de madeira que servem como locais para o processamento dos grãos.
Mais adiante, um pouco afastado das plantações, ficam os estábulos e os campos onde os cavalos da raça Manga Larga Marchador pastam e se exercitam.
Meu tio diz que o som de seus cascos no chão de terra se mistura ao som das folhas movidas pelo vento. O campo onde eles são criados é amplo, com cercados largos e bem cuidados.
Enquanto nos aproximamos, ao longe, um ou outro cavalo pode ser visto galopando com a graça e elegância típicas da raça, sua pelagem brilhando sob o sol.
O céu límpido traz uma sensação de liberdade e o clima ameno da região, com brisas frescas, cria um ambiente de tranquilidade absoluta.
Noto que a vegetação ao redor da propriedade é composta por matas de araucárias e outras árvores nativas, o que contribui para essa sensação de imersão na natureza.
A sensação que tenho, quando entramos na fazenda, é que o ritmo da vida parece estar desacelerado. Não há pressa, nem barulho excessivo.
Trabalhadores da plantação de café seguem seu curso, cuidando da colheita, atentos às necessidades do solo e da planta.
Meu tio comenta que os empregados, em sua maioria, moram na cidade de Vale Florido, mas alguns residem na fazenda com suas famílias. Pessoas com um profundo respeito pelas tradições do campo e pela terra que cultivam. Eles são parte da história da fazenda, assim como os cafezais e os cavalos, que têm sido uma paixão da família por gerações.
Quando estacionamos em frente à casa sede, já passam das quatorze horas.
Havíamos parado no caminho para almoçar, mas o aroma de comida que adentrou minhas narinas fez meu estômago roncar.
O cheiro de café também é muito agradável ao olfato.
A casa da fazenda é muito diferente da mansão do Dr. Amparo no Rio de Janeiro.
Uma construção grande, antiga, robusta, com paredes grossas, que exalam uma aura de história. As paredes são brancas e há uma dezena de janelas e portas pintadas de azul.
Próximo à entrada há um lago rodeado de palmeiras e para chegarmos à varanda de entrada há uma escada de pedra com uns dez degraus. O sobrado fica no alto, destacando-se de forma imponente no meio da vegetação.
O som do vento e o farfalhar das folhas são os únicos ruídos que ecoam no ambiente.
Ao entrarmos, somos recepcionados por uma mulher de aparência simples e muito simpática, que se apresenta de forma simplória com o nome de Dita.
— "Vamo" entrando, "dotor" Amparo e sinhazinha Mariana. "Cês" são "di casa". O patrão já vem "recebe ucês" — Sua voz suave e singela não deixa espaço para constrangimentos.
Segundos depois, um vozeirão se faz ouvir.
— Laércio, meu amigo, a quanto tempo não nos vemos!
Um homem alto e robusto, vestido com uma camisa branca e uma calça com suspensórios, dá um abraço apertado em meu padrinho acompanhado de uma palmadinha na bochecha, que é retribuído pelo amigo.
É perceptível o querer bem entre eles.
— Alonso Maranhão, você não envelhece! Os ares do campo são mesmo milagrosos. Ou será que o segredo da juventude está no café?
Os dois se põe a rir.
— Um pouco dos dois, meu grande amigo. E como vai a família na Cidade Maravilhosa?
— A mesma correria de sempre... muito trânsito, barulho, vida agitada... deixe-me apresentar a minha afilhada Mariana Andrade.
Estou tão distraída observando o entrosamento de ambos, que me assusto quanto escuto meu nome.
— Que "bella ragazza", Laércio! Muito prazer, senhorita Mariana. Quero que se sinta em casa. Fico muito feliz em saber que vou contar com sua companhia. Já soube que é uma musicista e eu sou um aficionado por boa música.
Sinto-me acanhada com todos aqueles elogios, mas percebo a intenção do anfitrião de me deixar à vontade. Parte da minha ansiedade se desfez com aquela acolhida.
— Muito prazer, senhor Maranhão. Pode me chamar de Mariana ou Mari, como preferir.
— Mari! Soa suave como você.
Sinto meu rosto esquentar com o elogio e devo estar vermelha, pois ambos os homens dão risada.
— Vamos entrando. Vou pedir para levarem suas malas para os quartos. A Dita, que vocês já conheceram, é minha ajudante, meu braço direito... e o esquerdo também. Ela vai mostrar os aposentos para vocês se refrescarem da viagem para depois tomarmos um café da tarde.
Quando chego ao quarto, no andar superior, minhas malas já estão lá. O aposento é uma suíte grande e muito bem mobiliada. Há móveis antigos que são peças magníficas mesclados com a modernidade: televisão de plasma, frigobar, ar-condicionado. A toalete é espaçosa, moderna e contém até uma banheira com hidromassagem.
Não poderia estar mais bem acomodada. Fico a cogitar se todos os quartos são iguais a este ou se fui privilegiada com o melhor cômodo da casa...
A janela do quarto tem uma pequena varanda voltada para a mata, onde vários ipês florescem com suas flores amarelas.
Refresco-me rapidamente e desço para o andar térreo.
Ao adentrar o salão de jantar, um aroma acolhedor e familiar preenche o ambiente. O café da tarde está mais do que delicioso: pães caseiros, queijos frescos, frutas tropicais e uma infinidade de bolos simples, mas de sabor indescritível.
A mesa está posta de forma cuidadosa, como se cada detalhe tivesse sido pensado para proporcionar uma experiência de calor humano e acolhimento.
Sr. Alonso Maranhão e meu padrinho já estão sentados, e, ao verem minha entrada, ambos sorriem.
— Que bom que se refrescou, Mari. Agora, podemos conversar com mais calma. — diz o anfitrião com sua voz grave e acolhedora. Ele parece tão à vontade, tão seguro de seu espaço, como se o lugar fosse uma extensão de sua própria alma.
Sento-me à mesa e Dita, com sua simplicidade encantadora, começa a servir as bebidas e os petiscos. A conversa entre os dois homens logo se retoma e posso perceber que o laço entre eles é mais do que uma amizade de longa data; há uma cumplicidade que transcende o tempo e as distâncias.
— A fazenda tem mudado um pouco, mas, como você pode ver, o coração do lugar permanece o mesmo. Sempre procurei preservar a tradição, sem deixar de inovar quando necessário — explica sr. Maranhão, enquanto toma um gole de café.
— Eu noto isso. A energia aqui é outra. Uma tranquilidade que falta na cidade, sem dúvida — comenta meu padrinho, olhando pela janela que dava para a vasta plantação de café.
Enquanto eles conversam, não posso deixar de observar a harmonia entre os espaços e as pessoas na fazenda. Cada movimento de Dita, cada olhar lançado pelos empregados que passavam pela sala, tudo indica uma sensação de pertencimento, de uma família estendida que cuida não apenas da terra, mas também uns dos outros.
— Mari, tenho certeza de que você vai se sentir em casa aqui. O que mais me agrada nesse lugar é que ele não é apenas um espaço de trabalho, mas de convivência. Aqui, tudo se encaixa — diz sr. Maranhão com um sorriso sereno, como se falasse de algo muito pessoal. — Eu gostaria que você se sentisse como uma filha, se possível. Esta casa será sua também. A fazenda será sua também.
As palavras dele me tocam profundamente e um calor estranho se espalha pelo meu peito.
Ele fala de forma tão tranquila, mas com uma intensidade que eu não consigo compreender completamente. Como se ele soubesse o impacto que sua generosidade teria sobre mim.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top