Capítulo 3: Novas surpresas



Com o passar dos dias, os momentos de introspecção tornam-se mais frequentes.

Meu padrinho ainda não conversou comigo como prometera e várias fantasias angustiantes povoam minha mente.

A música, embora seja o meu alicerce, já não é suficiente para diminuir a angústia que sinto.

Mesmo com a mudança do piano para o estúdio no terceiro andar, que me trouxe privacidade, o peso das expectativas sobre os segredos do meu passado me envolvem como uma manta pesada.

Amanda, Vitória e a tia Vivian, desconhecedoras dos últimos acontecimentos, continuam suas rotinas agitadas, suas vozes e risadas muitas vezes se confundem com o zumbido incessante da cidade lá fora.

Por mais que tentem me incluir em suas conversas, a sensação de desconexão só cresce. Não sei mais como ser parte desse mundo que se tornou tão estranho.

A vida parece seguir sem espaço para minhas próprias inquietações e não tenho coragem de compartilhar o que sinto com ninguém.

É num desses momentos, sentada ao piano e tocando notas suaves para aliviar a mente, que sou interrompida por uma presença na porta do estúdio.

Levanto os olhos, um tanto surpresa.

Meu padrinho sorri para mim, mas seus olhos carregam um certo peso, como se estivesse prestes a dizer algo impactante.

— Minha querida Mariana — ele começa com a voz calma e serena que sempre me faz sentir protegida — precisamos conversar. Tenho algo a lhe contar, algo que mudará o rumo dos seus próximos passos.

Fico inquieta, o som das teclas do piano ainda ecoando na minha mente.

O que ele quer me contar? Será algo ruim? Estou preparada para ouvir o que ele vai dizer?

Ele se aproxima e senta-se ao meu lado.

O silêncio por um momento parece pesado, até que ele quebra a tensão com uma leve respiração.

— Eu sei que esta mudança está sendo difícil para você, Mari. A adaptação à cidade, a interrupção repentina da sua rotina na Suíça, tudo isso mexe com o nosso interior de uma forma que muitas vezes não conseguimos entender de imediato — ele pausa, como se ponderasse suas palavras.

Meu tio me olha, aguardando minha reação, mas o que ele diz a seguir me pega de surpresa.

— Existem situações que aconteceram no passado e que não foram nada agradáveis. Nunca ficou comprovado, mas seus pais e sua tia Lorena, minha primeira esposa e sua madrinha... bem, há suspeitas que a morte deles não foi acidental.

Meus olhos se arregalam...

— Todos esses acontecimentos foram traumáticos e você era muito criança para entender. Contudo, mesmo sem comprovação oficial, existe alguém que ainda pode oferecer perigo ao seu bem-estar.

Além dos olhos arregalados, também fico de boca aberta.

— Seu afastamento do Brasil foi com o intuito de lhe proteger. Mesmo com todos os cuidados que tive para mantê-la em segurança após o falecimento dos seus pais, bastou um pequeno deslize da minha parte e você passou por uma situação nefasta. Se eu já estava sem chão com a perda de tantos entes queridos, o ocorrido me desestabilizou por completo. Foi uma senhora que trabalhava em sua casa quem evitou que o pior acontecesse.

Um fio de voz saiu da minha boca.

— O que foi que quase aconteceu comigo?

Ali estava um homem arquejado pela dor.

— Isso não importa agora, minha querida. Não há necessidade de esmiuçar detalhes sórdidos se o mal foi evitado. Você era uma criança de cinco anos e nem deve ter percebido o risco que correu. Basta o peso que carrego em minha consciência há anos... o medo daquilo que poderia ter acontecido. O fato de não ter um suspeito identificado, de não poder condenar uma pessoa apenas por intenção, é o que mais me preocupa, o que sempre foi meu pesadelo... o perigo continuar à solta.

Lágrimas escorrem dos meus olhos que meu padrinho seca com as pontas dos seus dedos.

— O senhor, pelo menos, sabe o motivo de toda essa maldade? Aquele homem que me abordou no shopping é o culpado? Como ele pode ter me reconhecido após tantos anos? Saí daqui ainda criança!

Ele acena com a cabeça em sinal de positivo.

— Sim, suspeito que ele é o mentor de tudo isso. Vou passar o resto da minha vida lutando com as armas da justiça para provar que ele tem culpa. Apesar de todo meu conhecimento jurídico e de ótimos advogados criminalistas que contratei, prova alguma foi encontrada para enquadrá-lo na lei. E os motivos, minha querida, são inveja, ganância, ambição. Tudo o que ele sempre almejou e ainda não desistiu de conseguir, é tomar posse da sua fortuna. Ele não é um criminoso qualquer ou eu já teria conseguido provas contra ele. Ele é integrante de uma máfia, acobertado por pessoas poderosas. O fato de tê-la abordado no shopping faz parte de alguma estratégia. É como se ele tivesse me mandando um recado para deixar claro que sempre esteve informado de tudo sobre você. Tem olheiros por todo canto.

Sinto-me desolada com as informações que recebo. Meu peito dói e tenho dificuldade de respirar.

— E o que eu farei de agora em diante, tio? Ficarei trancada em casa, impossibilitada de sair por correr risco?

Suas mãos seguram as minhas para me dar um suporte.

— Por hoje você já teve o suficiente... é uma história muito pesada para uma jovem de apenas dezoito anos. Quanto às suas indagações, eu tenho uma proposta a lhe fazer. Demorei alguns dias para conversar com você, pois estive em contato com alguns amigos para encontrar uma solução que seja boa para você e a deixe longe do perigo.

Meus lábios tremem ao tentar balbuciar a pergunta.

— Do que se trata, tio?

— Você passará um tempo na fazenda de um grande amigo meu, um local distante daqui, onde poderá viver com liberdade e ser feliz. Lá você estará em um ambiente mais de acordo com aquele onde viveu por muitos anos e, claro, continuará com seu piano e a sua música.

Minhas palavras falham por um instante e fico me questionando. Uma fazenda? De onde surgiu essa ideia de que será bom para mim?

— Não acredito que o senhor vai me afastar de novo da única família que tenho... que terei que ir para um lugar estranho para viver com pessoas desconhecidas. Onde fica essa fazenda? — Consigo finalmente me expressar, minha voz carregada de confusão.

— Diga-me, tio, por que uma fazenda? Nunca ouvi falar desse lugar antes. Por que tenho que viver longe de vocês?

Ele sorri com suavidade, seus olhos profundos, como se refletissem o peso de muitos traumas.

— A fazenda lhe fará muito bem, Mari. Tenho certeza de que você será tratada como uma filha por meu amigo, Alonso Maranhão. Não posso contar mais agora, mas vou estar sempre próximo de você e ajudá-la em tudo o que precisar... O que posso lhe assegurar é que lá você encontrará uma liberdade que aqui não será possível. Você estará segura e poderá exercer até uma profissão, como ser professora de música. A professorinha da fazenda que ensinará crianças a tocar piano como você. No futuro, quando você tiver com uma vida mais estabilizada, essa parte do seu passado, que ainda não conhece, poderá ser revelada. E até lá, se Deus me permitir, a justiça será feita e seus pais, onde estejam, poderão descansar em paz.

Essas palavras me causam uma sensação estranha, como se algo dentro de mim estivesse sendo despertado, algo que eu nem sabia que existia. Um segredo que foi escondido de mim. Como eu poderia não saber disso? Minha curiosidade, agora misturada com um leve temor, começa a tomar conta de mim.

— Você está me enviando para lá sozinha? — pergunto, minha voz soando mais cautelosa do que eu gostaria.

— Sim, Mariana. A experiência será importante para o seu crescimento. E se você sentir que precisa de ajuda, pode contar comigo. Eu estarei em contato com você o tempo todo. Mas a fazenda será o melhor lugar para você encontrar o seu destino. — Ele coloca a mão sobre a minha, um gesto de conforto.

Eu não sei o que pensar. Ir para essa fazenda distante daqui. Eu, uma jovem de apenas dezoito anos, sozinha, sem ter conhecimento do meu passado, de coisas que ainda não compreendo. O medo e a curiosidade estão entrelaçados e embora eu não saiba ao certo o que me aguarda, sei que não posso fugir dessa viagem.

— E quando partirei? — pergunto, sentindo o peso da decisão.

— Na próxima semana. Prepare-se. Encare esse desafio como uma jornada de autoconhecimento. Um passo em direção a um futuro melhor.

Enquanto meu padrinho se despede e sai do estúdio, eu fico ali, sentada ao piano, as mãos tremendo levemente sobre as teclas.

Minha vida está prestes a mudar novamente. Eu não sei o que encontrarei na fazenda, mas sei que meu destino está se entrelaçando com um passado obscuro.

À noite, no silêncio do meu quarto, abro meu diário e escrevo:

Há mistérios que eu desconheço e segredos sobre minha própria família que estão prestes a emergir, ameaçando virar meu mundo de cabeça para baixo. Algo muito maior, que me obrigará a confrontar o passado e a descobrir verdades sobre minha própria vida que não consigo imaginar.





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