Capítulo 21 - Emoções à flor da pele


No final daquele dia, a chuva se foi e a manhã seguinte amanhece ensolarada. Podíamos voltar para a fazenda. No meu íntimo, uma tristeza se instala. A bolha de felicidade havia estourado e retomar a rotina significava encarar uma realidade irreversível: nada mais seria como antes. Nosso tempo juntos se tornaria escasso.

É a vida.

As aulas recomeçariam, a lida na terra continuaria.

Encontrar o Sr. Maranhão aguardando nossa chegada logo cedo é constrangedor. Não sei onde enfiar a cara, incapaz de encarar seus olhos.

Theo se adianta e abraça o pai, recomendando que pegue leve comigo. O velho vem  até mim, beija minha cabeça e me envolve em um abraço carregado de ternura.

— Você é a filha que a vida trouxe para mim e estou muito feliz que fará parte da família oficialmente. Vai se tornar uma Maranhão.

Lágrimas escorrem de nossos rostos. A emoção é intensa. Ele é o primeiro a se recompor.

— Já fizeram o desjejum? Dita! Traga comida para minha futura nora.

— Pai! O que foi que conversamos? — Theo argumenta, irritado.

Dita entra na sala com uma bandeja cheia de quitutes e um bule de café. Deixa tudo na mesa e vem me abraçar. Em seu olhar fica claro que já está ciente de tudo.

Grazadeus ocês tão in casa. Bençoi a todos. Patrão tava nirvusio com a demora docês. Nossisenhora, que trem mai bão que ocês vão casá. I numdemora vai chegá mais um pititinho.

Fico boquiaberta, sem saber o que dizer.

— Pronto! A fazenda inteira já sabe, né, pai? Já pediu ela em casamento para o Dr. Amparo em meu nome também? — Theo resmunga.

— Theo, mais respeito! Só comentei com a Dita e com o Jonas. Ninguém mais sabe.

Theo levanta as mãos para o ar, pedindo paciência.

O pai simplesmente o ignora.

— Vamos nos sentar para comer. Mari, você precisa se alimentar bem.

Daquele momento em diante, não temos mais sossego. Theo antecipa a ligação que faria à noite para meu tio, evitando mal-entendidos. É perceptível que Dr. Amparo já está ciente das novidades. Ele se mostra feliz, mas repreende Theo por não ter sido mais precavido. Assim, de um dia para o outro, minha vida mudou de rumo novamente.

O casamento é marcado para daqui a três meses. Sou engolida por uma avalanche de decisões para que esse evento possa se realizar em tão pouco tempo.

Escrevo no diário parte da letra de uma música que ouvi João Guilherme cantar:

"E a dor saiu, foi você quem me curou. Quando o mal partiu, vi que algo em mim mudou, no momento em que quis ficar junto de ti. E agora sou feliz, pois lhe tenho bem aqui."

Semanas se passam desde que a tempestade me levou para os braços do homem que me fez descobrir a extensão do amor. Meu mundo virou de ponta-cabeça. 

Apesar de não ser mais segredo para ninguém que estamos juntos, decidimos manter as aparências e evitar demonstrações de carinho em público. Nossos encontros acontecem sempre quando eu vou à terapia, pois não me sinto à vontade de estar com Theo no meu quarto ou no dele, dentro da casa de seu pai.

Os dias parecem voar em meio às minhas tarefas: a direção da escola, as aulas de música, as sessões de terapia, o treinamento de autodefesa, os arranjos para o casamento e, claro, meu relacionamento com Theo. Tudo exige minha atenção e eu preciso me dividir em várias "Maris" diferentes para dar conta de tudo.

Para quem vê de fora, minha vida parece um mar de rosas. Mas a verdade é outra. Estou feliz, sim, mas também exausta. Minha energia parece ser drenada a cada dia.

E isso afeta também o lado emocional.

Tanta coisa havia mudado em um tempo tão curto. Cheguei à fazenda há pouco mais de um ano, mas parecia que fora há uma década.

O galo canta e desperto com dificuldade. Tudo o que eu quero é dormir por horas infinitas. Mas o dever me chama.

Levanto-me e sinto uma tontura, precisando sentar-me de novo. Será que peguei uma gripe? O tempo anda tão instável. Quando tento me pôr de pé outra vez, não sinto mais vertigem.

Depois do banho e de me arrumar, vou para o salão de refeições, onde Theo e o pai já tomam café. O aroma tão familiar me embrulha o estômago e saio correndo para o banheiro.

Quando me sinto aliviada da náusea e abro a porta da toalete, encontro Theo no corredor, os braços cruzados sobre o peito. Ele me analisa atentamente.

— Já mandei recado para o médico vir aqui. Vá se deitar e descanse. Ele deve chegar logo.

Se há algo que me tira do sério, é o fato das pessoas quererem "comandar" minha vida. Theo, então, é mestre nisso.

— Bom dia para você também, Theo. Quando eu sentir que preciso de um médico, eu mesma vou procurá-lo. Acordei indisposta. TODAS as pessoas passam por isso. Portanto, ligue e cancele essa consulta desnecessária. Tenho muito a fazer hoje e não posso perder tempo.

Ele permanece impassível. Com a voz controlada, coloca as mãos na cintura e abaixa o rosto, aproximando-se do meu.

— Você vai para o quarto com suas próprias pernas ou vou ter que carregá-la?

Ali ele passa todos os limites.

Enfrento-o, face a face.

— Sai da minha frente, Theo. Vai cuidar dos seus afazeres na fazenda que da minha vida cuido eu.

Mal tenho tempo de dar um passo, sinto-me suspensa do chão. Começo a bater as pernas para ele me soltar, o que se mostra inútil. Ele tem a força de um leão.

Carrega-me escada acima até me colocar na cama e depois fecha a porta.

Bufo de raiva.

Como posso amar esse idiota?

— Dê-me espaço que ficarei aqui deitado com você até o médico chegar.

Minha boca se abre em um "ó".

É muita petulância.

— Theo, você já ultrapassou todos os limites. Pode sair daqui e me deixar sozinha?

Ele empurra meu corpo na cama e se ajeita ao meu lado.

— Vem cá, professorinha brava, que vou fazer um cafuné na sua cabeça.

Mal tenho tempo de responder e ouço uma batida na porta.

Ele se levanta para atender.

Dita está ali com uma xícara de chá e avisa que o médico está a caminho Theo pega a bandeja e autoriza que o médico suba assim que chegar.

Ele me entrega a xícara e eu aceito, porque o líquido me apetece.

Enquanto tomo a bebida, simplesmente o ignoro. Depois da consulta, ele vai ouvir poucas e boas. Penso eu.

Só que o feitiço vira contra o feiticeiro, como diz o ditado, pois o médico pede alguns exames só para confirmar o diagnóstico: gravidez!

O impacto foi imediato. Meu corpo reage antes que minha mente processe. Pensamentos caóticos tomam conta de mim. Eu estava preparada para essa responsabilidade?

Meu estômago embrulha e não tenho tempo de chegar ao banheiro. Ponho todo o chá para fora ali mesmo, no chão do quarto, e a vertigem volta forte.

Theo me ampara e coloca-me na cama.

O médico prescreve um medicamento para enjoo e pede para que o teste de sangue seja feito o mais rápido possível para que eu inicie o pré-natal.

Ouço tudo que ele diz, mas minha mente se recusa a aceitar.

Pensamentos desconexos me afligem: como vou cuidar de tudo estando grávida? E se minha gravidez me impossibilitar de trabalhar, de dar minhas aulas de música? Quem vai cuidar dos meus alunos? Quem vai me substituir na direção escolar?

Santa Rita de Cássia, por favor, ajude-me.

As lágrimas despencam sem que eu tenha controle.

Nem percebo que o médico já fora embora e é Theo quem está ali me consolando, acariciando meus cabelos, sussurrando palavras doces no meu ouvido.

Adormeço nos braços dele.

Quando acordo, não tenho ciência de quanto tempo dormi. Sinto-me como se tivesse tido um pesadelo. O quarto está na penumbra e estou sozinha.

Meus olhos vagueiam pelo cômodo e lentamente me recordo do que aconteceu.

Eu estou grávida!

E agora?

Discuto mentalmente com meus pensamentos.

É, Mari, você sabia que a chance disso acontecer era grande! Você se fez de forte quando era apenas uma possibilidade e agora, que a realidade bate a sua porta, não adianta espernear.

Nem completei vinte anos e já vou ter um bebê? Será que eu tenho condições de ser mãe? Como farei para cuidar dele sem abdicar da minha vida atual?

O rosto de Theo vem à minha mente, assim como as lembranças de nossos atritos antes do médico dar a fatídica notícia. Ele percebera o que estava acontecendo comigo de imediato quando senti o mal-estar.

Uma mistura de sensações me invade... medo, angústia, raiva... será que não tenho direito a uma vida rotineira e calma? Tudo tem sempre que mudar a todo momento?

Ouço o ruído da porta se abrindo e vejo o rosto do sr. Maranhão.

Ele tenta sorrir ao ver que estou acordada, mas a preocupação está estampada em seu semblante.

Entra devagar no quarto, aproximando-se da cama.

— Como está se sentindo, Mari?

Poderia despejar nele todo aquele turbilhão que me vai na alma, mas me lembro que isso não fará bem para a sua saúde. Não posso descontar nele as consequências dos meus atos.

— Estou melhor, obrigada!

Ele se mostra aliviado.

— Quer comer algo? A Dita preparou uma canja com pouco tempero para você.

Pego meu celular e olho as horas. São duas da tarde. Como posso ter dormido tanto.

Minha barriga rouca.

— Sim, vou tomar uma ducha e desço para tomar a sopa.

— Não quer que traga aqui para você?

Ele sempre é tão carinhoso comigo. Nunca impõe sua vontade... bem diferente do filho.

— Acho que sair um pouco do quarto me fará bem.

certo. Farei companhia para você à mesa.

Assim que chego à sala de refeições, ele se levanta, abraça-me e puxa a cadeira para eu me sentar.

Em seguida, a Dita entra com a sopeira e me serve. Ela não diz nada, mas sua mão aperta meu ombro em um gesto de carinho e apoio.

Estou tão sensível que tenho que segurar a emoção.

A comida está deliciosa e meu estômago não a rejeita, felizmente.

Sr. Maranhão se mantém em silêncio, respeitando o momento em que me alimento. Sei que ele me observa preocupado. Acho que ele se sente mais responsável por mim do que se fosse meu pai biológico.

Termino meu almoço e olho para ele, que sorri de imediato, feliz por eu não estar mais passando mal.

— Quanta confusão eu trouxe para sua vida, meu amigo? Não paro de lhe dar preocupação.

Ele balança a cabeça em não concordância com o que disse.

— Não trocaria um dia da minha vida de antes de você chegar pelo que vivo agora, com sua presença, minha filha. Você chegou e trouxe o brilho do sol novamente para meu coração. A vida é sempre cheia de surpresas e obstáculos a serem superados, mas tudo fica mais suave quando se tem alguém ao nosso lado, alguém a quem se pode amar e confiar e sabermos que esse sentimento é recíproco. De um jeito torto e sofrido, a vida nos uniu. É porque tinha que ser assim. Já estava escrito. A mesma coisa acontece com você e Theo.

Fico emocionada com suas palavras, mas mal tenho tempo de responder.

A voz de Theo se faz ouvir.

— Já está falando mal de mim para a professorinha, pai?

Sr. Maranhão ri.

— Lógico, eu não tenho mais ninguém de quem reclamar — retruca o velho senhor.

Theo ignora a alfinetada e se aproxima de mim.

Beija o topo da minha cabeça e alisa minha face com carinho.

— Está melhor, professorinha? Estou feliz que tenha se alimentado. Amanhã cedo vamos até o laboratório fazer os exames. Depois vamos até uma clínica para você conhecer a médica que vai acompanhar sua gravidez.

Pronto!

Chegou o ditador.

Respiro fundo, pois não estou a fim de discutir e não quero aborrecer meu futuro sogro.

— Tudo bem — respondo suscintamente.

Sr. Maranhão percebe que o clima entre nós não está muito bom e sugere que Theo me leve para tomar um ar na varanda. Segundo ele, observar a natureza só faz bem.

Sentamo-nos lado a lado nas poltronas confortáveis. Ele segura minha mão esquerda, levando-a até seus lábios e beijando-a demoradamente.

Continuo sem me manifestar, pois aquele turbilhão de emoções que sinto na sua presença ainda está sem controle.

— Amanhã também quero passar na joalheria para escolhermos um anel de noivado para você e encomendarmos as alianças.

Não consigo me conter. Nem eu entendo o que está acontecendo comigo em relação a ele.

— Não quer comprar também uma coleira para colocar no meu pescoço?

Ele me fita e sorri.

— Continua brava, professorinha? O que ficaria lindo nesse seu pescocinho é um colar de diamantes. Vou providenciar um. Quero presentear a mãe do meu filho.

Respiro fundo antes de abrir a boca.

— Theo precisamos conversar sério sobre como me sinto. Eu te amo, quero me casar com você, teremos um filho, mas...

Ele não desgruda os olhos dos meus.

— Mas... — ele repete

— Você não é meu dono. Não pode impor sua vontade como sempre faz. Seremos um casal, mas temos nossas individualidades. Tenho direito de decidir sobre minha vida, sobre meu corpo. Se discordarmos em algo, conversaremos para chegar a um consenso. O fato de eu estar com um filho seu no meu ventre, não me torna "sua propriedade". Isso é inaceitável para mim e pode ser um empecilho para que nosso casamento dê certo, se você não conseguir me respeitar como um ser pensante, com condições de fazer as próprias escolhas.

Ele me escuta calado e sem aquele ar de zombaria. Demora algum tempo até me responder.

— Peço que me perdoe, Mari. Sei que tenho um jeito muito autoritário, difícil de lidar e mal percebo quando estou extrapolando os limites. Nunca senti por alguém um amor tão grande como eu tenho por você e toda esse clima de insegurança que a ronda, os perigos que estão nas sombras, deixam-me preocupado e ativam todos os meus escudos para mantê-la sob proteção. Sinto-me impotente, ao mesmo tempo, porque sei que não tenho como blindá-la de todo mal. Agora, com uma criança a caminho, meu filho, estou ainda mais vulnerável. Não sei se conseguiria sobreviver se perder você e o bebê.

Suas palavras me emocionam e caio em um choro convulsivo. Não consigo controlar essa vontade de chorar a todo momento.

Ele me abraça sem dizer nada. Apenas acaricia meus braços me transmitindo paz. Mantem-se quieto, enquanto eu esvazio a caixa de d'água que se rompeu.

Ficamos ali sentindo o prenúncio do verão. A brisa quente da tarde a balançar as folhas das árvores já floridas pela primavera.

Adormeço em seu peito e sinto quando ele me segura em seus braços, carregando-me para o quarto.

Ele me deita com cuidado na cama e me cobre. Percebo que vai me deixar ali e seguro em seu braço.

— Theo, eu preciso de você, do seu calor. Fica aqui comigo um pouco mais.

A presença dele agora me acalma.

A noite chega...

Theo ainda está ao meu lado na cama, pensativo.

Meu toque chama sua atenção. E ele me fita.

— Oi, amor, sente-se melhor? — pergunta de um modo carinhoso.

Sorrio e o beijo.

— Sim, estou bem e com fome. Você já jantou?

Ele bate a ponta do dedo no meu nariz.

— Dita trouxe um lanche para mim, mas já faz um tempo. Vamos descer... você precisa se alimentar bem.

Ele alisa minha barriga e depois a beija.

Aquele gesto me emociona e me seguro para não chorar.

Preciso conversar com o médico para saber como controlar esse sentimentalismo. 


Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top