Capítulo 10: O despertar


A luz suave do amanhecer entra pela janela do quarto onde me encontro, ainda com os olhos fechados, tentando reconhecer a realidade que começa a se formar em minha mente.

Sinto-me tonta, como se tivesse sido arremessada para longe de mim mesma, mas algo em meu peito me diz que estou segura.

— "Sinhazinha tá acordando, patrão!", escuto alguém falar distante.

Reconheço logo a voz da Dita e sinto sua presença perto de mim, o que me deixa mais tranquila.

Com um esforço, abro os olhos e o rosto da minha amiga aparece na minha frente, com um sorriso suave, cheio de alívio.

Ela segura minha mão com tanto carinho, como se tivesse medo de eu sumir de novo.

— O que aconteceu comigo, Dita? — Pergunto, com a voz rouca e fraca. Lembro-me vagamente do toque estranho e do pânico que me deu quando aquele homem me agarrou.

Dita suspira fundo, toda aliviada por me ver acordada.

— Foi um trem danado, minha menina. Ocê dismaio dispois que foi... pega na braçadeira. O Juca, aquele fio de Satanás, tava bebum e fez um troço que não devia, num sabe? O Theozinho quando viu, grudou o cabra pelo cangote e encheu ele de porrada. O patrão expulso o cabra da festa, junto com a entojada da irmã. Mandou o fio leva as tralhas embora. Truxeram ocê pra cá e chamaram o dotor.

Ainda me sinto um pouco tonta, mas não comento nada para não preocupar minha amiga.

— Está tudo bem, Dita. Só estou um pouco fraca.

— O patrão foi avisa o dotor que ocê abriu os zóios. Ocê necessita de sustância. Vou cozinha uma canja para a sinhazinha.

Nesse instante a porta do quarto se abre e Dr. Maranhão adentra junto com outro homem que julgo ser o médico.

O doutor examina meus sinais vitais e conclui que estou bem. Foi apenas um colapso nervoso devido ao assédio que sofri. Ele recomenda que eu faça uma consulta com um psicólogo para tratar possíveis traumas do passado.

A princípio fico confusa com essa recomendação, contudo, o sr. Maranhão esclarece parte do assunto após a saída do médico.

— Mari, que susto nós levamos. Lamento muito você ter passado por uma situação tão... tão... abominável. Já avisei o Laércio e ele está a caminho daqui. Nunca perdoarei o Theo por ter sido tão irresponsável a ponto de trazer uma tralha daquelas para dentro da nossa casa.

Sinto uma sensação de alívio misturada com raiva.

Recordo-me do rosto de Theo durante a festa, mas fico sem saber o que pensar dele. Aquela cena da mulher o beijando...

Ele estava ali, pertinho de mim, mas não fez nada para impedi-la. Causou-me muito constrangimento e ele nem ligou. Era como se quisesse me afrontar de propósito.

— E agora, o que vai acontecer? — Pergunto, tentando me levantar, mas meu corpo ainda está todo dolorido e tenso.

Ele me ajuda a sentar e pega um copo d'água para mim.

— O doutor disse que você precisa descansar mais um pouco. — Adverte-me com carinho.

— Por que o doutor me aconselhou a fazer terapia? O que o ocorrido tem a ver com meu passado?

Sr. Maranhão se mostra muito reticente. Seu rosto demonstra uma raiva contida, que procura disfarçar ao falar comigo.

— Durante o tempo em que esteve desacordada, talvez por conta da febre emocional que a acometeu, você delirou muito, dizendo coisas desconexas que não estão relacionadas com seu presente.

— Que "coisas" eu disse?

Ele olha para baixo balançando a cabeça.

— Não sou eu a pessoa certa para conversar sobre esse assunto com você. Quando o Laércio chegar, ele poderá explicar tudo. Acredito que esteja na hora de você saber sobre alguns fatos ocorridos na sua infância.

Percebo que terei que aguardar a chegada do meu padrinho para ter mais informações e resolvo mudar de assunto.

— Onde está o Theo?

O rosto daquele senhor, a quem considero quase como um pai, torna-se vermelho.

— Expulsei-o daqui. Enquanto viver, não quero mais vê-lo nem pintado de ouro. Agiu como um irresponsável trazendo aquelas pessoas de caráter duvidoso para a festa. Colocou você e a todos nós em risco. Conseguiu estragar a noite.

— Não diga isso, sr. Maranhão. Não quero que se afaste do seu filho por minha causa. Concordo que aquelas pessoas estavam totalmente fora do contexto da festa, mas não acredito que o Theo imaginasse que o amigo teria uma atitude tão desrespeitadora. A Dita me contou que ele foi me defender e bateu no tal do Juca.

— Isso não alivia o lado dele. Não estou afastando meu filho só por sua causa e não é a primeira vez que isso acontece. Porém, espero que seja a última. Meu coração de pai nunca desejou isso, mas nem todas as árvores dão bons frutos. O Theo é outro que deveria fazer terapia. Ele sempre teve um gênio forte, mas após a morte da mãe, algo se quebrou dentro dele. Ele não soube lidar com o luto.

Uma batida e a porta se abre, interrompendo nossa conversa.

O rosto de meu padrinho aparece pedindo licença para entrar.

Os amigos se abraçam calorosamente e percebo que ambos têm os olhos lacrimosos.

— Vou deixá-los conversarem a sós. Tenho alguns assuntos urgentes da fazenda para resolver. Pedirei a Dita que traga um lanche para você e a canja para a mocinha.

— Agradeço a gentileza, Alonso.

Antes de sair do quarto, sr. Maranhão se vira para nós.

— Mais uma vez me desculpe Alonso, por não ter conseguido evitar o ocorrido. — Ele sai sem esperar pela resposta.

Meu padrinho se aproxima de mim e deposita um beijo carinhoso na minha testa.

— Como está se sentindo, querida?

— Um pouco fraca, dolorida e muito confusa. Espero que o senhor possa esclarecer as minhas dúvidas. Por favor, tio, sem mais segredos! Não sou uma criança que não possa conversar sobre assuntos delicados. Como poderei reagir a situações que venham a acontecer sem ter conhecimento do que se passou comigo?

— Entendo seu ponto de vista, Mari. Não dá mais para adiar essa conversa, por mais desagradável que seja, principalmente por ser algo que ainda não consegui resolver na justiça. Essas memórias confusas de sua infância e o mistério envolvendo seu afastamento do Rio fazem parte de um segredo que pouca gente conhece, pois alguém perigoso ainda está à solta.

Sinto uma sensação de vulnerabilidade e uma angústia que aperta meu peito ao ouvir as palavras de meu padrinho.

Começo a cogitar se quero mesmo saber a verdade.

Os flashes de memória que tive ao ser agarrada por Juca foram como um resgate de momentos dolorosos da minha infância e estão relacionados com os perigos que meu padrinho nunca revelou.

Estou muito apreensiva.

A sensação ao ser tocada me transportou, por alguns segundos, para outra realidade, um tempo e um lugar onde eu me sentia perdida e indefesa. As imagens vieram à tona como fantasmas, que o meu subconsciente preferiu manter no passado.

Havia algo de familiar naquelas mãos que me agarraram naquela noite, algo que despertou um pânico latente. Nas imagens fragmentadas que começaram a surgir, eu me vi, ainda criança, em um lugar escuro, escondida em um canto de um quarto. A figura de um homem, a sensação de algo errado e um medo inconsciente, latente, para o qual não tenho uma explicação lógica. Esses momentos da minha infância estavam enterrados profundamente, mas agora, com a ameaça de Juca, vieram à tona.

É como se uma porta tivesse se aberto e eu não conseguisse fechá-la. A sensação de que algo está prestes a acontecer, toma conta de mim. O que meu padrinho nunca me contou? Por que ele insistiu tanto para que eu viesse para a fazenda, para tão longe de tudo? Por que senti um mal-estar inexplicável quando encontrei aquele desconhecido no shopping do Rio?

Hoje Dr. Amparo iria me contar toda a história.

Outra batida na porta afasta de minha mente as ponderações.

Dita entra no cômodo com uma enorme bandeja contendo um lanche para meu tio e a canja que ela preparou para mim.

A conversa fica adiada por mais alguns minutos a fim de nos alimentarmos. Não havia me dado conta de quão faminta eu estava.

Mariana, minha querida... — Ele se levanta e coloca nossos pratos na bandeja que está na mesa do quarto. Depois torna a se sentar na cadeira ao lado da cama

Seus olhos me observavam com carinho, mas sua testa está franzida.

— Está sem sentindo melhor depois de se alimentar? — Ele me perguntar.

Aceno que sim com a cabeça. Minha voz parece presa na garganta.

— Eu sempre soube que um dia essa conversa teria que acontecer, mas não imaginava o quanto difícil seria.

Ele me observa em silêncio por mais um momento, os olhos pesando sobre mim, como se buscassem uma resposta dentro de si.

Então, com um suspiro pesado, ele se levanta e vai até a janela, observar o horizonte.

Sua voz está mais grave quando começa a revelar o segredo antigo.

— Quando você era criança, as ameaças ao seu redor eram inúmeras. Houve uma situação em específico, que foi muito mais atroz do que qualquer coisa que possa imaginar. Foi tão funesto e apavorante, que você criou um bloqueio em sua mente e, de forma consciente, não consegue recordar. Sua vida corria risco e a única maneira que encontrei de protegê-la foi afastá-la do Rio. Eu fiz o que pude para que você não soubesse a verdade sobre esses fatos. Não era um assunto que uma criança inocente pudesse entender. Você já estava sofrendo com a falta de seus pais, que morreram em um acidente de avião que nunca foi corretamente esclarecido.

Eu o observo. Ele está de costas para mim. Minha mente tenta processar suas palavras. Eu desconfiara que meu passado estava envolto em mistério, mas nunca imaginei que pudesse ser assim tão grave. Algo que não podia ser revelado até que eu tivesse maturidade para entender.

— Mas quem queria me fazer mal? — Pergunto, tentando compreender aquele quebra-cabeça. — O que aconteceu comigo, tio?

Ele se vira lentamente para me encarar e posso ver a dor nos seus olhos. Ele está relutante em falar, como se aquilo fosse um fardo pesado demais para carregar. 

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