Capítulo 41 - Um começo
Quis evitar teus olhos
Mas não pude reagir
Fico à vontade então
Acho que é bobagem
A mania de fingir
Negando a intenção
(..)
E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar
Me dê a mão
Vem ser a minha estrela
Complicação
Tão fácil de entender
Vamos dançar
Luzir a madrugada
Inspiração
Pra tudo que eu viver
Que eu viver
(Lulu Santos – Um certo alguém)
****
_O que disse? – ela abriu os olhos, encarando Grissom com certa confusão, pensando ter ouvido errado.
Ainda sobre ela, ele então abriu seus olhos e encarou-a.
_Eu disse que acho... Não, acho não... Eu estou gostando de você, Sara! - corrigiu sua frase antes soando duvidosa, pra fazê-la soar agora como uma certeza.
Isso não estava acontecendo, estava?, Pensou Sara.
_Você gostando de mim? Isso é brincadeira sua, não é Grissom? – Sara perguntou sem acreditar no que ele disse.
_Não, Sara.
Ele abandou seus questionamentos, medos, a lembrança de sua falecida esposa e as dúvidas, que eram muitas, e reafirmou o que sentia. Na tentativa de tirar aquela dúvida explícita que via nos olhos e na expressão de Sara.
_Como assim não?
A mulher sentiu seu coração vir até a goela e depois descer com tudo quando engoliu a seco. Tentou raciocinar direito após o que seu chefe disse, mas isso estava difícil.
_Olha, eu não sei como isso foi acontecer. Sinceramente não esperava que fosse voltar a gostar de alguém depois da morte da minha falecida esposa. E mais ainda, que essa pessoa de quem eu gostaria, fosse você posto temos uma relação um tanto difícil. Só que aconteceu e... Não posso negar que estou um pouco assustado com isso, porque eu não consigo parar de pensar em você. Eu te olho nos olhos como agora e sinto como se me perdesse e me encontrasse ao mesmo tempo, Sara. Nunca havia sentido isso.
Uma coragem desvairada se apossou dele e o fez dizer o que até então estava ali dentro de si e ele não via. De uma hora pra outra as palavras foram saindo naturalmente sem que ao menos ele as tivesse escolhido ou planejado que saíssem. Simplesmente elas saíram!
Em silêncio Sara o olhava e não conseguia falar nada. Ao contrário dele, as palavras pra ela haviam evaporado como fumaça. Estava muda e completamente desconcertada com suas declarações.
Em hipótese alguma pensou que fosse ouvir algo parecido sair da boca de seu supervisor, até porque, viviam às turras com uma relação montanha-russa onde ora se entendiam, ora brigavam. E agora, de repente, ele saí com uma dessas. Dentro dela uma confusão doida fazia festa.
Um celular tocou, era o dele. Grissom ouviu seu aparelho, mas não fez menção alguma de se levantar de cima de Sara pra atender a ligação.
_Não vai atender? – ela perguntou após o terceiro toque do celular.
_Não!
Ele estava mais interessado em continuar aquela conversa deles.
_Pode ser do laboratório.
_Depois retorno.
Ignorar por um mísero instante uma chamada de trabalho não ia lhe custar nada.
_Atende, Grissom!
Ela queria naquele momento que ele saísse de cima dela pra que pudesse sair dali também. Precisava ter um tempo sozinha pra assimilar melhor todas aquelas coisas que seu chefe lhe disse. Fora pega de surpresa com aquele tsunami de palavras e por aquele beijo que lhe fez viajar pra além da estratosfera.
O que ocorreu ali entre eles havia mexido com ela, de tal forma, que não sabia o que dizer e muito menos o que fazer a respeito, não por agora.
Grissom não queria, mas acatou ao pedido de Sara. Levantou-se da cama saindo dos braços de sua subordinada e foi atender ao celular que tocava insistentemente em cima da cômoda.
_Grissom! – falou ao atender.
Do outro lado da linha era Ecklie querendo saber sobre o caso que o supervisor foi investigar e o paradeiro dele que ainda não tinha dado às caras pelo laboratório. Grissom contou tudo o que o outro homem precisava saber. Assim que encerrou a ligação e virou-se em direção à cama, Grissom viu que Sara não estava mais ali deitada. Ouviu o barulho do chuveiro ligado. Ela estava no banho.
Caminhou até a cama sentando-se nela e pôs-se a pensar no beijo e no que disse.
O que faria agora?
Não podia deixar as coisas assim depois do que houve e principalmente, do que disse. Esperaria, Sara sair pra terem uma conversa franca e sincera.
Sob à água abundante do chuveiro, Sara tentava agora organizar sua mente ainda atordoada pelos fatos ocorridos há poucos instantes. Relembrou cada palavra que Grissom lhe disse e honestamente, seu coração ficou balançado demais com aquelas declarações e principalmente, com o beijo trocado.
Céus! Que beijo!
Fez seu coração bater forte, seu corpo estremecer e sentiu como se borboletas voassem dentro de sua barriga no momento em que estava presa nos braços e aos seus lábios de seu chefe.
Pelo que se lembre nunca havia sentido com ninguém antes algo parecido com o que sentiu ao beijar Grissom, nem mesmo com seu ex-marido, que foi até agora o único homem que ela amou de verdade. Tocou seus lábios com a ponta dos dedos. Ainda podia sentir os lábios de Grissom pressionando os seus e sua língua serpenteando dentro da sua boca.
Será que todo esse emaranhado de sensações que sentiu ao beijar Grissom, queria dizer que, ela também gostava dele?
Se for levar em conta isso a resposta era sim. E no fundo ela tinha que admitir que mesmo não querendo, já haviam sentimentos de sua parte para com Grissom. Só ainda não sabia defini-los quais eram exatamente. Talvez, já soubesse depois de um beijão desses trocado. Entretanto não quisesse era reconhecê- los AINDA!
Acabou seu banho e saiu já arrumada do banheiro. Viu Grissom sentado na cama de frente pra porta do banheiro, como que esperando a sua saída dali de dentro.
_Precisamos conversar sobre... O que aconteceu. – ele adiantou-se em dizer. Não queria esperar. Tinha que ser ali e agora.
Sara balançou positivamente a cabeça. Ela também concordava que eles recusavam conversar. Porém, mesmo ciente dessa necessária conversa e disposta a tê-la, uma insegurança surgiu do nada na perita lhe deixando receosa quanto ao "papo" que estavam na iminência de ter.
A morena sentou-se na cama há certa distância de Grissom. Então, ele começou.
_Sara... – deu um suspiro nervoso. _Quero que saiba que... O que eu disse ainda pouco é tudo verdade. Sei que pode soar estranho, eu ter te dito todas aquelas coisas por conta do nosso relacionamento instável. Mas acredite em mim. Eu não diria o que disse se não fosse à verdade.
_Eu acredito em você! – balbuciou a frase.
_Mesmo?
_Sim!
Ele a encarou por segundos até desviar os olhos dela.
Ao longo desse tempo em que sua esposa já estava morta, Grissom sempre ouviu seus amigos e principalmente, Catherine disserem que ele deveria tentar encontrar outra pessoa pra refazer sua vida. Só que ele não queria e não se imaginava com outra, nem gostando de outra que não fosse Susan. Mas cá estava ele gostando da mulher mais complicada que já conheceu e que jamais esperava que fosse gostar.
Então se gostava dela, por que não tentar? Quem sabe, ela não o fizesse se sentir completo de novo? E assim meio se embolando nas palavras Grissom foi falando.
_Você, acha que nós dois... Poderíamos sei lá, tentar um... relacionamento amoroso?
Se era pra tentar algo com alguém depois da morte de Susan, então que fosse com Sara. Pois nenhuma outra mulher havia despertado nele o que sua implicante subordinada vinha despertando.
_Quê?? Nós dois juntos? Como um casal? – ela arregalou os olhos castanhos em surpresa.
Por essa ela não esperava! Melhor dizendo, nada ali era esperado por ela.
_Isso, como um casal. O que acha?
Loucura!
Quando iria se imaginar naquela situação com ele. Nunca! Essa era a verdade!
Parecia até que estava em um sonho bem louco. Quis se beliscar pra ter certeza se estava acordada, mas o que Grissom iria achar de tal cena? Provavelmente que ela estivesse amalucada.
Em pensar que até pouco tempo atrás, antes dele ficar doente, ela mal lhe dirigia a palavra, e agora não só já havia feito isso, como também, havia trocado um beijo ardente e incrivelmente bom com seu chefe ranzinza. E mais ainda, ouvia dele declarações que nem imaginava ouvir. Era quase surreal o que acontecia pra ela.
Em silêncio Sara olhava para Grissom. O homem já se agoniava com aquilo. Fazia segundos que sua subordinada estava assim calada olhando-o. Cansado daquilo, ele se pronunciou novamente.
_Sara, fala alguma coisa. Mesmo que seja pra me xingar de louco ou qualquer outra coisa do tipo, por ter dito o que disse, mas diz algo. Não fica aí calada e me olhando desse jeito.
Ela tirou os olhos dele se pondo a fitar suas próprias mãos. Seus dedos batiam rápido em suas coxas como se elas fossem um tambor.
Um suspiro Grissom ouviu de Sara e sem olhá-lo, sua subordinada começou a falar pausadamente.
_Você é louco... maluco... sequelado... e com um parafuso a menos, limão azedo.
Ao final de sua frase ela olhou pra Grissom e um sorriso tímido escapou de seus lábios fazendo com que do seu chefe também escapasse outro sorriso tão tímido quanto o dela.
_Sou tudo isso?
_É, e mais outras coisas.
_Puxa, pelo jeito você morre de amores por mim, não é? – brincou.
Ela riu, mas depois seu semblante ficou sério.
_Grissom... – começou devagar. _Tudo isso que disse me pegou de surpresa. Não esperava ouvir essas coisas de você. Estou confusa com essa situação... É tudo tão surpreendentemente louco, que minha ficha tá demorando pra cair totalmente.
_Eu te entendo. Nós vivemos discutindo, aí do nada, eu te beijo e te digo essas coisas. Era de se admirar que não estivesse confusa. Eu também estou igual à você.
_Quando começou a sentir isso por mim? Eu nunca fiz nada pra despertar isso em você, pelo contrário, só fiz coisas pra te irritar.
_Isso é verdade, você fez tanta coisa pra me irritar, mas se eu disser que não faço idéia de quando isso começou, acreditaria?
_Hum... Não!
_Mas é verdade. Pode parecer loucura, mas isso aconteceu sem que eu ao menos percebesse. – suspirou. _Você é a primeira mulher depois da morte da Susan que despertou o meu interesse e que gosto mesmo com nossos constantes desentendimentos.
Senhor! Cada vez mais ela ouvia o inesperado.
_Se algum tempo atrás me perguntassem se eu achava possível, você e eu juntos, na mesma hora diria que não haveria possibilidade alguma disso acontecer. Mas, hoje, não descarto mais isso. E gostaria de tentar pra ver se nós daríamos certo. Só que pra isso preciso saber de você se sente algo por mim ou se estou nessa sozinho?
A pergunta veio à queima-roupa.
E agora? Tinha que dizer algo, mas o quê? A verdade? Mas qual era a verdade?
Dentro de Sara um furação varria tudo.
_Sara? – chamou vendo que ela não falava.
_É, bom... – apertou os lábios um no outro e respirou fundo antes de continuar. _Sinceramente, eu não sei o que sinto de verdade por você, mas admito que você vem mexendo comigo. E agora, depois de todas essas declarações que fez, mexe ainda mais. Só que, nós dois juntos não vai dar certo.
_Por que não?
_Porque vivemos brigando e discutindo quase o tempo todo um com o outro.
_Correção, você vive brigando e discutindo comigo por qualquer coisa, moça.
_Claro que não, Grissom!
_Claro que sim, Sara!
_Não!
_Sim!
_Já disse que não!
_E eu digo que sim. E só pra constar, você já está discutindo comigo.
Os dois riram do que ele disse.
Era verdade, ela já estava começando uma discussão com ele. Sempre ou quase sempre era ela mesmo quem começava, mas seu chefe também em algumas ocasiões era o que começava as brigas deles.
_Culpa sua que me provoca. - ela lhe retrucou.
_Não vou discutir com você. Vamos voltar ao nosso assunto de antes?
Ela fez o que ele pediu e com certo cuidado falou.
_Olha, Grissom, eu acho que tentar algo seria complicado.
_Vamos fazer assim então. Antes de tentar algo vamos nos conhecer.
Ele estava mesmo disposto a tentar com ela como jamais esteve com outra mulher exceto Susan anos atrás.
_Mas nós já nos conhecemos, Grissom.
Aquela história de "se conhecerem" não fazia muito sentido pra Sara sendo que há meses eles já convivem diariamente no laboratório.
_Não nos conhecemos de verdade fora do ambiente de trabalho. E eu quero conhecer a Sara fora do laboratório, sem as constantes ironias, sarcasmo e sem que tenha sempre quatro pedras na mão quando se dirigir a mim. Assim como quero que me conheça fora do laboratório.
_Sem seu azedume?
Ele riu.
_Sim! E se não der certo, não deu, mas pelo menos ao final de tudo, vamos ter mudado nossas opiniões um sobre o outro e nos daremos bem melhor do que agora, pode ter certeza. O que me diz, aceita?
Ela ponderou o que ele disse e achou que talvez fosse um bom jeito de tentar.
_Eu não sei se dará certo, mas vou aceitar. – sorriu sem jeito e ele retribui o sorriso com outro. Depois devagar se aproximando dela, o supervisor lhe deu um beijo no rosto, quase perto da sua boca.
O contato fez Sara estremecer na hora.
Aquele era o começo pra eles! Com certeza!
****
Na estrada de volta pra Vegas, eles foram conversando. Quando saíram da pousada pararam em um lugar pra tomar café e ali trocaram confidências. Grissom contou a Sara coisas dele que ela não sabia. Disse que tinha um cachorro, que gostava de andar de montanha-russa, que adorava Shakespeare e com surpresa ouviu dela, que também gostava do escritor e de seus poemas poemas. O supervisor ainda revelou que adorava cozinhar, que não era muito fã de fazer exercícios físicos e muitas outras coisas. Sara também fez o mesmo e lhe confidenciou coisas a respeito de si mesma. Disse que ao contrário dele, não gostava muito de cozinhar, adorava às vezes correr à tarde no parque perto de sua casa. Contou também, que gosta muito de ir ao cinema, de ler, que tinha um pouco de dificuldade de acordar e mais outras coisas. Estavam se conhecendo, compartilhando informações sem brigas e sem provocações, e estavam gostando de descobrirem como o outro era de verdade.
****
_Sua casa! – desligou o carro ao estacionar em frente à casa dela.
Ela tirou o cinto que lhe prendia ao banco e depois encarou Grissom.
_Nos vemos a noite? – ele perguntou enquanto ela o olhava.
_Não!
_Por que não? – não entendeu aquela resposta dela
_É a minha folga hoje. Esqueceu?
_Esqueci! - não havia reparado no quadro de avisos. Passaria a fazer mais isso a partir de agora pra ver se alguma de suas folgas coincidiriam com as de Sara. _Então só nos veremos amanhã?
_Exatamente!
_Posso te ligar mais tarde?
_Pra quê?
_Pra falar com você, pra quê mais seria?... Posso?
_Hum... - Ela fechou um olho fazendo uma careta engraçada enquanto avaliava seu pedido e pensava na resposta. _Tudo bem, pode! - concordou segundos após pensar.
_Então eu te ligo.
_Okay! Agora deixa eu descer do seu carro pra que possa ir embora pra sua casa também. Tchau, Grissom! – ela lhe deu um beijo no rosto como ele havia feito com ela quando aceitou seu pedido de tentarem.
_Tchau, Sara!
Ela desceu do carro e antes de ir, se apoiou na janela do passageiro pra lhe dar um aviso:
_Se cuida... Limão azedo! – riu e se foi.
Grissom ficou apenas observando-a até que Sara entrou em casa.
_Sua maluca! – riu e deu a partida no carro.
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