Capítulo 36 - Presente

Assim que Any se foi Sara ficou uns instantes pensando e se perguntando se havia algum sentido naquelas últimas palavras proferidas pela jovem. Balançou a cabeça.

O que estava fazendo?

Pra quê ainda pensar e se perguntar sobre aquilo? Não tinha que fazer isso.

Era óbvio que a resposta era não. Não havia qualquer sentido naquelas últimas palavras proferidas pela babá. Porém, mesmo dizendo não, algo lá dentro de Sara lhe deixava na dúvida com relação a esse "não", lhe dando margens à possibilidade de talvez um "sim", que era claro que ela não admitia.

Mas por que a dúvida?

Seria possível surgir algo entre ela e seu rabugento chefe?

Mesmo não querendo nesse tempo em que já convivia com ele, a morena já conseguia vê-lo melhor do que quando o conheceu. O tempo se incumbiu de mudar um pouco a visão deturpada que fazia de Grissom.

Podia até afirmar agora, que seu chefe era bem diferente e melhor do que achava que fosse quando teve aquele primeiro encontro desastroso com ele.

Grissom nesses meses lhe mostrou ser uma boa pessoa e com isso aos poucos, Sara foi conseguindo ver isso.

Tinha que admitir, havia aprendido a compreendê-lo e às vezes, só às vezes até conseguia se dar bem com ele. Mas gostar? Era uma coisa que não sabia direito.

Ela deu um suspiro.

Sem querer seus pensamentos voaram outra vez ao que aconteceu e o que quase ia acontecendo entre eles no turno que passou.

Um sorriso imperceptível lhe escapou.

Grissom havia lhe surpreendido positivamente o turno inteiro com atitudes que ela jamais esperou que ele tivesse para com ela. Foi tudo tão surreal que a morena ainda custava a acreditar que de fato aquelas coisas aconteceram. 

Primeiro, ele veio lhe dizendo que se preocupava com ela, o que deixou-a sem ação. Depois veio a situação com David onde seu chefe foi tirar satisfações com o sujeito, mandou-o ficar longe dela e ainda o agrediu pra defendê-la, o que fez Sara se preocupar com Grissom ao pensar nas possíveis consequências que aquela agressão cometida poderia lhe trazer caso David resolvesse levá-la à seus superiores e aos superiores de Grissom o ocorrido. E por último, e o mais surpreendente de tudo, foi ele se aproximar dela com a intenção de beijá-la. Se não fosse Jim chegar naquele momento crucial, ela teria mesmo deixado o limão azedo beijá-la.

_Não!!

Sara pronunciou de súbito e em voz alta.

Mas algo naquilo que quase aconteceu lhe perturbava.

_Por quê quando ele se aproximou de mim, não consegui me afastar?

Ela mesma se questionou, massageando suas têmporas.

Essa questão martelou sua cabeça o caminho todo do trabalho pra casa. E por mais que tentasse achar uma resposta plausível pra essa pergunta, não conseguia. Era algo que Sara não entendia. E isso, porque foi algo que nem chegou a acontecer. Imagina se tivesse acontecido de verdade como não estaria?

Cansada de tanto pensar e se questionar pelo ocorrido e demais outras coisas, Sara deu um pulo da cama e foi até a grande janela de vidro de seu quarto. Viu que estava uma tarde fresca e agradável. Olhou em seu relógio de pulso e ainda faltavam umas horas pra ir trabalhar o que lhe daria um tempo pra aproveitar aquela tarde com uma bela corrida pelo parque.

Gostava de correr às vezes. Era como uma terapia que servia pra aliviar a tensão e espairecer sua mente em momentos em que se sentia sufocada como era o caso agora.

Talvez uma corrida naquela tarde não conseguiria fazer com que ela tirasse um pouco da cabeça não só o que havia acontecido no laboratório, como também, todas aquelas perguntas que lhe atormentavam a mente.

Foi à seu guarda-roupa, escolheu uma roupa apropriada e se dirigiu ao banheiro pra tomar um banho antes de ir.

****

Nos fones de ouvidos uma música de batida acelerada. Nada de melodia suave! Isso só ia lhe atrapalhar e pensar no que ela tinha se imposto a esquecer no momento em que saiu de casa.

Sua corrida era acelerada com passos largos e rápidos. Já tinha dado umas três voltas em torno do parque e a vontade de dar mais três era grande, porém o cansado já era maior. Então ela parou e foi se sentar num banco vazio, um dos poucos por ali aquele horário.

Sua respiração ofegava e ela se deu conta de que estava fora de forma para aquele tipo de atividade. Também pudera, já fazia tempo que não dava uma corrida dessas. A última vez que aproveitou uma tarde pra fazer corrida ainda morava em Chicago. E já está em Vegas há meses e desde que pôs os pés ali, não se aventurou uma única vez em correr.

_Me veja uma água! - ela sinalizou para o rapaz há pouca distância em seu carrinho vendendo água de copo.

Uns segundos de espera e o sujeito já lhe entendia o côco e ela uma nota de dólar à ele.

Solveu pelo canudo uma quantidade generosa do líquido gelado e gemeu de satisfação. Estava deliciosa a água. Doce, gelada e refrescante.

De repente, ela viu um sujeito passar mais adiante e ele era parecido com seu chefe,mas não era ele. E sem que Sara quisesse já se via pensando no quase beijo com Grissom.

_Eu só posso tá ficando louca!

Balançou a cabeça pra espantar de sua mente seu chefe ranzinza que vinha lhe perturbar até em pensamentos.

_Melhor eu ir pra casa!

Longe dali... Grissom se arrumava para ir trabalhar. Tinha conseguido dormir, porem não o tanto que estava acostumado. As lembranças do quase beijo com sua subordinada implicante veio em seus sonhos fazendo-o despertar mais cedo e completamente atordoado, já que no sonho, eles não eram interrompidos e se beijavam de verdade. E diante disso, o supervisor nem se quisesse conseguiria dormir. Aquilo não saía de sua cabeça.

Acabou de se arrumar, pegou suas chaves, celular e o pequeno pacote que havia chego à sua casa horas antes e saiu mais cedo para o laboratório, pois tinha alguns papéis pra arrumar em sua sala.

Momentos depois enquanto ele chegava ao laboratório, Sara entrava em casa. A corrida que fez com o intuito de entreter a mente, não funcionou muito.

Durante uma boa parte até que chegou a funcionar, mas bastou ver aquele sujeito parecido com seu chefe lá no parque que o caminho todo até sua casa Sara não deixou de pensar em Grissom se aproximando dela pra beijá-la.

Engraçado, precisou apenas uma coisa que nem se concretizou pra desencadear nela um emaranhado de dúvidas e incertezas.

Sara foi direto à cozinha. Ao mesmo tempo em que ela entrava no cômodo pra beber mais um pouco de água, Any adentrava pela porta que dava para o quintal e trazia consigo alguns lençóis que tinha lavado mais cedo, os quais já estavam secos.

_Ei! Como foi a corrida? - perguntou enquanto via Sara abrir o armário pra pegar um copo pra se servir de água.

_Foi ótima! - mentiu e bebeu sua água de uma vez, sem parar. Só depois que acabou, foi que ela falou de novo. _E a Liv já foi buscá-la na casa da coleguinha dela?

A menina tinha ido brincar na casa da vizinha muito antes de Sara ter saído pra correr.

_Nem foi preciso. Uns minutos depois que você saiu à mãe da Sylvia veio trazê-la.

_E onde ela está?

_No quarto dela.

_Vou lá ver o que a minha coisinha está aprontando lá sozinha no quarto dela. - largou o copo dentro da pia. _Lava pra mim, por favor!

_Tá!

Sara saiu da cozinha e subiu até o quarto da filha. Ficou brincando e conversando um tempo razoável com a menina. Depois foi tomar banho e quando deu a hora, saiu para ir trabalhar.

Chegou ao laboratório e quase todos já estavam lá, apenas Warrick que faltava. Mas minutos depois o moreno também chegou. Logo após sua chegada, Grissom apareceu pra distribuir os casos.

Assim que o supervisor entrou na sala, Sara e ele se olharam e foi inevitável não se lembrar de novo do ocorrido. Ficaram se fitando por segundos até que seus olhares se desviarem um do outro.

Mesmo não tendo se beijado, eles se sentiam desconfortáveis em se olharem por muito tempo, por isso depois dessa troca de olhares cada um evitou olhar para o outro.

Com dois casos naquele turno o supervisor dividiu a equipe em dois grupos, sendo que ele não ficaria em nenhum caso. Então ficaram: Nick e Warrick em um caso, e Sara, Cath e Greg em outro.

Questionado por Catherine do por quê não iria à campo já que ultimamente o mesmo tem sempre ido a campo com os demais, Grissom disse que tinha alguns relatórios pendentes pra revisar e outros pra arrumar. Depois de satisfazer a curiosidade da amiga respondendo sua pergunta, o supervisor e sua equipe seguiram pra fazer seus serviços naquela noite.

O turno ia passando e em sua sala, Grissom lia aqueles relatórios, ao mesmo tempo, pensava e ensaiava fazer um pedido de desculpas à Sara por sua atitude impensada.

Decidiu que lhe pediria isso no fim do turno quando fosse lhe entregar o que tinha comprado a Lívia pra que ela entregasse a menina por ele.

****

Fim do turno...

Parada em frente à porta da sala de seu supervisor, Sara hesitava em entrar ali, porém não havia outra escolha, tinha que entrar.

Quem manda apostar com Greg quem era o assassino do caso deles? - seu subconsciente zombou dela.

Acabou perdendo a aposta com o colega de trabalho e agora, sobrou pra ela entregar os relatórios dela e de seu amigo justo hoje que não queira fazer isso, que queria evitar proximidade com Grissom.

Paciência! Aposta é aposta, então tinha que pagar por sua derrota.

Respirou fundo, bateu na porta e quando ouviu seu chefe autorizar que entrasse, fez isso.

Ela notou seu olhar surpreso quando a viu. Caminhou até ele sob com seu olhar desconfiado e ainda surpreso lhe acompanhando a cada passo que dava.

_Vim entregar o meu relatório e o do Greg. - estendeu a pasta com os papéis pra ele assim parou diante de sua mesa.

Grissom franziu a testa estranhando aquele fato. Greg sempre entregava seus relatórios ele mesmo.

_Por que ele mesmo não veio fazer isso? - pegou os papéis da mão dela.

Sara cruzou os braços e nada satisfeita contou à ele o porquê daquilo.

_Nós fizemos uma aposta e como eu perdi, tive que trazer o dele. - ela tinha uma cara amarrada ao contar aquilo. Detestava perder, por isso sua insatisfação.

Grissom involuntariamente riu da cara que ela fez.

_Que foi? - o percebeu rindo.

_Nada não! - ele pensou em dizer que ela ficava engraçada com aquela cara amarrada, mas resolveu ficar calado. Não queria arrumar discussão com ela por isso.

_Já fiz o que tinha que fazer então vou voltar pra sala de descanso e esperar ir nos dispensar. - ela já ia se virar quando ele pediu.

_Não, espera!

Sara o olhou.

Grissom achou aquela à oportunidade perfeita pra conversarem e poder entregar o presente de Liv.

_Queria falar uns minutos com você.

Sara tinha quase certeza sobre o que ele queria falar, mas mesmo assim perguntou.

_Sobre?

_Aquilo que quase ia acontecendo entre a gente. Olha, eu não sei o que me deu. Não quero que pense que...

_Grissom, Grissom - ela ergueu a mão e interrompeu a fala do supervisor. _Vamos deixar isso quieto. E tentar esquecer o que quase aconteceu, ou melhor, não aconteceu.

Podia soar um tanto frio o que ela disse, mas Sara estava confusa demais com a forma como aquilo havia lhe afetado e lhe deixado, que talvez tentar esquecer, fosse a melhor solução pra parar aquela confusão toda.

_Vai ser difícil esquecer!!- murmurou o supervisor. Estava sendo impossível pra ele esquecer de algo que parece ter impregnado em sua cabeça. Mas o que ele não sabia, é que com sua subordinada acontecia o mesmo. Porém, ela mascarava isso bem.

_O que disse?

_Nada demais. Você tem razão. Vamos  esquecer o que quase aconteceu.

Sem conseguir entender, Grissom sentiu um pequeno desconforto dentro de si ao concordar com aquilo.

_Bem... era só isso?

_Não!

Ele se levantou da cadeira e foi até a estante de sua sala. E sendo seguido por um par de olhos castanhos curiosos, pegou uma sacola colorida e cheia de desenho de bichinhos. Com aquilo em mãos, Grissom foi até Sara e parou bem diante da mesma.

_Gostaria que entregasse isso à sua filha. - estendeu à ela a sacola de presente.

Era inexplicável pra ele como a filha de Sara havia lhe conquistado tanto, que se pegou comprando um presente à garotinha.

Sem que percebesse ou ao menos imaginasse, Lívia já estava se tornando especial pra Grissom.

Sara franziu a testa sem entender nada.

_Pra minha filha?

_Isso mesmo. Espero que não se importe de eu ter comprado esse presente pra ela.

_O que é isso? - pegou a sacola da mão dele.

_É uma coleção de minilivros pra crianças da idade dela.

Navegando na internet em busca de novos livros para a sua vasta coleção que mantinha no escritório de seu apartamento, o supervisor encontrou um relançamento de uma coleção de livretos sobre animais de todas as espécies. Na descrição do produto dizia que os livretos tinham uma linguagem de fácil entendimento para as criança. Além dos livretos ainda vinha junto um CD-ROM interativo e uma cartela de adesivos coloridos com os diversos bichinhos que faziam parte dos livretos. Assim que bateu os olhos nisso, imediatamente, o supervisor se lembrou de Liv e não pensou duas vezes em comprar aquilo pra presentear à menina.

_Vi num site e me lembrei da sua filha. Ela adora animais, então achei esse presente seria ótimo, além de muito útil pra ela, ainda mais nessa idade em as crianças estão adquirindo conhecimento constantemente.

Sara sorriu ao imaginar a festa que Liv faria ao ver aquilo. Chegou a ficar surpresa com o gesto de Grissom. Pelo visto, ele gostava de verdade de Lívia  pra fazer tal coisa.

_Puxa obrigada!

_Não precisa agradecer. Faço porque gosto dela. - confessou sem jeito.

Sara pensou que não era justo ela entregar aquilo então...

_Toma! - estendeu de volta a sacola com o presente pra Grissom.

_Por quê? - sem entender ele pegou da mão dela o presente, já achando que Sara não estivesse aceitando aquilo.

Só que pra surpresa dele, Sara lhe disse:

_Você quem deve entregar isso pessoalmente, já que foi você quem comprou.

Ele arregalou os olhos. Estava aparvalhado com a atitude dela e Sara quase riu disso.

_Tem certeza? - Grissom parecia não acreditar que ela estivesse falando sério.

_Absoluta. Além do mais, tenho certeza que a Liv vai gostar de te ver de novo. Vire-mexe, ela me pergunta sobre você.

Grissom sorriu ao ouvir isso. Ele também gostaria muito de ver a menina de novo. E se não perguntava por ela pra mãe, era porque receava receber uma resposta atravessada da mesma. Mas vontade não lhe faltava pra ficar vire-mexe querendo saber de Lívia.

_Então daqui à pouco, eu passo na sua casa pra entregar a Liv isso.

_Não. Acho melhor passar antes de vir para o laboratório. É que a Liv vai sair só de tardinha da escola. Hoje terá um monte de atividades para as crianças lá. Então.

_Se é assim...Tudo bem. Eu passo lá antes de vir trabalhar.

Eles ficaram em silêncio se olhando até que ela resolveu falar.

_Bom, ainda quer me falar mais alguma coisa?

_Não, era só isso mesmo.

_Ok, então. Vou indo. - ela apontou pra porta atrás de si.

_Não. Espera! Será que pode avisar aos outros que já estão dispensados?

_Claro, aviso, sim! É... até mais tarde.

_Ate!

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