✹ 20 ✹
Perdão por qualquer erro de digitação e boa leitura!
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Acordei quando Victória deslizou para dentro do meu quarto sem bater na porta.
— Fiz chocolate quente.
— Não quero.
— Está bem cremoso.
Eu não ia falar de novo. Virei as costas para ela, encarando a parede branca com as pálpebras pesadas. E seus passos inabalados avançaram para a cama logo em seguida, o cômodo apenas parcialmente iluminado pela luz tênue do abajur. Respirei fundo – ou pelo menos tentei.
— Não é um bom dia, Vic.
— Eu percebi. — O colchão afundou quando ela sentou. — Foi Eva quem me ajudou a fazer, por vídeo chamada. Ela perguntou sobre você.
— Fala que eu morri.
— Bom, — suspirou. — é mais ou menos isso o que parece.
Eu estava gripada. Gripada de verdade: febre, tosse seca usual do cigarro se transformando em uma úmida e carregada, nariz completamente vermelho e olhos lacrimejando o tempo inteiro. Pelo menos a febre não estava tão forte, prevalecendo de noite e diminuindo durante o dia. Consequência de ter ficado hipnotizada pelos faróis do carro de Sandro sumindo no meio da noite enquanto o temporal caía sobre minha cabeça como se Deus dissesse: eu avisei. Até que o porteiro me implorou para entrar, segurando um guarda-chuva sobre nós.
— O que ela disse? — Eu esperava que tivesse soado tão desinteressado quanto tentei.
— Que quer conversar. E que nada do que tenha acontecido entre você e Sandro vai mudar a sua amizade com ela. Coisa perigosa de se dizer com seu nome no meio, mas se relacionar com você nunca foi para qualquer um. — Uma risada melodiosa.
E, de repente, havia um braço magro passando sobre mim e um queixo pontudo no meu ombro. Seus cabelos estavam úmidos, e eu podia ter saboreando o cheiro doce do seu creme caso meu nariz não tivesse se tornado inútil. Eu bufei.
— O que você está fazendo?
— Te abraçando.
— Não quero abraçar.
— Não me lembro de ter perguntado.
— E nem de quando eu falei que só era para entrar aqui em caso de emergência, né? — Mas eu inclinei minha cabeça na direção das unhas pontudas acariciando meu couro cabeludo.
— É hora de tomar banho, fedida.
— Eu já tomei banho.
— De manhã. Já são seis horas da tarde.
Choraminguei, não querendo encarar o mundo frio fora do casulo quente que eu tinha feito em minha cama.
— Já vou. — Menti. — Se você ficar muito perto de mim, vai pegar também.
— Não vou pegar nada, porque você já está bem melhor. E isso foi chuva. Agora senta aí. — Grunhi quando ela beliscou minha bunda. — Toma o chocolate. Está na hora de conversarmos sobre o fim de semana.
— Não estou afim de conversar. Vou falar para a sua namorada que você fica passando a mão em mim. — Resmunguei, mas fiz o que ela mandou, estremecendo quando a porcelana morna da caneca encontrou meus dedos. Minha cabeça parecia três vezes mais pesada, e meu corpo três vezes mais fraco. — Pode trazer meus cigarros?
— Não. Minha namorada, aliás, adoraria passar a mão em você também. — Ela se acomodou ao meu lado, agarrando um travesseiro e tomando um pequeno susto quando a cabeça de Oscar apareceu por entre as cobertas, os pelos desgrenhados e olhos grudando de sono. — Esse seu gato está em todos os lugares. Que porra ele é?
— Deus. — Acariciei a cabeça macia dele. — Não vou conversar até você me devolver os meus cigarros.
— Então alguém vai morrer muito solitária.
Eu morreria solitária de qualquer jeito.
— Victória, não tem mais graça. Já faz três dias. Me dê.
— Você sabia que basta setenta e duas horas para a respiração melhorar? Daqui um ano, a cor dos seus pulmões já começa a ficar rosa. Adeus, era gótica!
Fechei a cara, me concentrando o máximo que podia para manter uma expressão mortal com o nariz escorrendo e olhos inchados. — Eu não estou brincando, Victória. Não estou no momento ideal para você forçar uma reabilitação em mim.
— Esse é o momento mais ideal de todos os tempos. Me orgulho de dizer que estou me aproveitando de sua fraqueza para o seu bem. Quer fumar? Vá ao bar da esquina e compre cigarro. Quero ver você passar da porta.
Respirei fundo – pela boca.
— Eu odeio você. — Beberiquei mais um pouco do chocolate.
Victória sorriu abertamente.
— Então... como eu já sabia que você não iria colaborar no início da nossa conversa, juntei minhas informações antes. — Ela suspirou, o castanho dos olhos perdendo um pouco do brilho selvagem e ficando mais macios. — Sales descobriu, não foi?
Não respondi, encarando o líquido marrom entre minhas mãos. Oscar se espreguiçou entre os lençóis antes de se arrastar aos meus travesseiros para deitar outra vez.
Ela continuou: — A primeira coisa que pensei foi: como ele descobriu algo que nunca foi segredo? Porque até Elias e Nora sabiam disso.
Meus ombros caíram.
— Ele escolheu acreditar em mim. — Murmurei, lembrando-me da decepção pesando suas palavras e feições. — Ele achou que era só fofoca e resolveu acreditar em mim.
— E você obviamente nunca tocou no assunto. — Ela deu um peteleco na caneca em lembrança, e eu a levei em direção à boca com uma careta para mais um gole. — O que você pretende fazer agora?
— Nada. — Dei de ombros. — Ele me odeia. Ele estava, tipo, muito puto.
Victória franziu o cenho.
— Que horas isso aconteceu?
— Na madrugada de domingo para segunda. Sandro parou na frente e me chamou para conversar, já bastante estressado quando desci. Ele também cheirava a bebida.
— Meu Deus, ele te acordou para terminar com você.
Franzi o cenho. Soava mais humilhante do que parecia.
— Nunca nem tivemos nada para terminar.
— Vocês definitivamente tiveram algo, porque você está um caco e não é só gripe. A mãe da Bruna vive falando que quando algo nos deixa muito triste, nossa imunidade abaixa e temos mais chances de ficar doente. Lembra o que aconteceu quando você e Elias romperam? No dia seguinte, você estava deslumbrante. Explique isso.
Era fácil: — Eu fiquei com raiva do Elias, e a raiva sempre me deu gás. Não estou com raiva agora, estou triste por Sandro e me sentindo uma vadia de merda.
— Mas tenho certeza que vocês vão se entender logo.
Me estiquei para colocar a caneca na minha escrivaninha com um suspiro.
— Você não faz ideia do quão profundamente isso pareceu atingir ele.
Victória revirou os olhos, abanando a mão em descaso.
— O orgulho de homem é do tamanho do sol, é normal. Mas no final do dia, eles estão sempre caidinhos pela lua.
— Essa foi a coisa mais brega que já ouvi na vida.
E franzi o cenho para essa visão de Sandro. Não parecia apenas orgulho. Eu já vi Elias chorar por orgulho – foi até em relação à Sales, na nossa imensa briga por ele ter se interessado em mim na foto de alguma colega e Elias começou a chorar depois de dar um chilique –, e foi bem diferente.
Toda vez que eu fechava os olhos, me lembrava das linhas brilhantes umedecendo seu rosto. Eu mesma já havia chorado um monte, envergonhada e arrependida, as lágrimas queimando como ácido na minha pele febril.
— Ele nunca vai me perdoar.
— Vai sim. Vai dizer que você não perdoou Elias?
Ergui as sobrancelhas em incredulidade. — Não mesmo.
— Ok, ok. Mas olha como é diferente: o que houve com Elias foi uma traição a longo prazo, sabe Deus quanto tempo durou, enquanto esse desentendimento entre você e Sales foi algo de antes mesmo de vocês se envolverem. Tudo mudou depois. Ninguém esperava se apaixonar.
Eu engasguei.
— Não estamos apaixonados.
— Você estão apaixonados.
— Não estamos, não.
— Ok, continue dizendo isso a si mesma. Logo vai poder protagonizar aquele filme Como Perder um Homem em 10 Dias. Pelo menos tenta fazer dar certo, Natália.
Fechei a cara. Eu tentei. Eu havia tentado de novo, indo contra todos meus traumas e trazendo-os à tona.
— Não viu que já deu tudo errado?
Victória bufou, se levantando.
— Falar com você é como tentar fazer uma pedra se mover com a força da mente. Não me espanta seu psicólogo ter pedido férias tão longas.
Cruzei os braços. — Não tem graça.
— De qualquer forma, já testei minha paciência o suficiente para descobrir que não tenho muita e...
— Você só percebeu isso agora?
Victória estalou a língua, afofando os cachos em frente ao meu espelho.
— O que estou tentando dizer é que independente do que aconteça entre você e o Sandro, vocês vão se entender. E que eu sinto muito pela sua mãe. Acho que grande parte do seu estado atual é por ela também.
Se ela estivesse se referindo a metade dos meus traumas, sim.
— Não sinta pela morte de alguém por mim.
— Ela era sua mã...
Eu enrijeci. — Ela não era minha mãe coisa nenhuma. Ela era nada, sempre será nada.
Victória me olhou por um segundo como se nunca tivesse me visto. Eu desviei meus olhos para baixo, sentindo um músculo em meu maxilar saltar quando ela se aproximou novamente, e não os subi quando suas mãos seguraram meu rosto.
— Tem um poço sem fundo de raiva aí dentro. A única pessoa que isso prejudica é você. — Beijou a minha testa e me abraçou. — Mas eu te amo mesmo assim.
Eu amoleci um pouco nos seus braços.
— Já posso ter meus cigarros de volta?
✹
— Estive pensando.
— Medo. — Patrícia murmurou do banco de trás, mas eu apenas rolei os olhos e me fiz de surda.
Era Victória quem estava no volante, mascando um chiclete rosa que combinava com o enorme casaco de lã e unhas pontudas. Eu só a deixei dirigir meu carro porque ainda me sentia meio zumbi. Fui obrigada a usar um moletom branco de veludo porque os meus aparentemente não eram quentes o suficiente, mas mantive os jeans escuros e botas de combate.
— Se Sandro ouviu os boatos e não acreditou, quem foi que fez ele mudar de ideia? — Batuquei as unhas pretas reluzentes que Vic fizera ontem. — Não acho que tenha sido um dos trigêmeos, porque senão eles teriam dito antes.
— Nem Eva, ela está por fora de tudo. — Concluiu Victória.
— Teria que ser alguém que a palavra vale alguma coisa para Sandro.
— Isso exclui Elias e Nora da lista também. — Ressaltou.
Patrícia bufou. — É esse o tópico de conversa de vocês em todas as manhãs?
Eu mal a ouvi.
— Mas ainda teria que ser alguém que não quisesse nos ver juntos. Sandro passou o fim de semana fora, sem dar sinal de vida. Depois ficou me perguntando se eu queria saber onde ele estava. Se algo aconteceu, foi durante esse meio tempo.
— Sim, você até disse que ele cheirava a bebida.
— Uhum. E, ah. Rubi não era ex de Flores, Vic. Ela era ex de Sandro.
Victória desviou o rosto da estrada para erguer as sobrancelhas perfeitas para mim em um rápido segundo.
— O que?
— Não é da minha cabeça. Eu tinha conversado com Eva antes de viajar e ela disse que a ex dele era uma louca e se chamava Rúbia.
— Louca o bastante para mandar o Flores ficar plantado em frente ao nosso apartamento até você chegar?
Encolhi os ombros, massageando meu pescoço.
— Foi o que aconteceu. É muita coincidência para não ser verdade, e sem isso não tem sentido.
— Pera, pera, pera, pera, pera. — Patrícia se inclinou entre nossos bancos, agarrando os supostes da cabeça de cada um. — Aquele maconheiro esperou você na porta de casa? Que merda é essa? Um filme de perseguição?
— O que essas vadias fazem por homem é desesperador. — Victória murmurou.
Enfiei a cabeça nas palmas das mãos quando tudo começou a fazer sentido, menos a parte de Rubi ter conexão com um dos clientes do traficante de Sandro, porque eu estava com muito medo de somar um mais um.
— Você — Patrícia enfiou o dedo no meu ombro. — vai falar com o seu namoradinho para ele controlar a ex dele, e eu estou pouco me fodendo para todo esse drama. Já engoli muito sapo para a gente poder conviver, mas um drogado rondando nosso apartamento é demais.
Funguei, erguendo a cabeça quando senti o solavanco da lombada do estacionamento da faculdade. — Vou sim, não se preocupe.
A surpresa das duas por eu não ter lutado foi palpável, mas eu estava cansada demais daquilo tudo e não queria colocá-las em confusão. Meus dedos estavam tremendo quando puxei minha mochila enquanto Victória estacionava, e eu não conseguia parar de bater meu pé no chão – eu precisava dos meus cigarros.
Eu oscilei ao sair do carro, segurando o teto com força e colocando a mochila nas costas. Patrícia e Victória vieram logo depois, mas a última estancou no lugar de repente. Franzi o cenho, pronta para olhar na direção em que seus olhos haviam arregalado, mas ela cravou as unhas no meu braço em aviso.
— O que? — Perguntei, minha mente erguendo os piores cenários possíveis.
— Não olhe agora, mas...
— Aquele ali é o cara de quem vocês estavam falando? — Patrícia se aproximou, olhando para o mesmo ponto atrás de mim, e fez uma careta quando os olhos desceram para um ponto bem ao lado. — Ela é a...?
Me esquivei da mão de Victória, o coração a mil, e me virei para encarar a cena. Mas acho que nada teria me preparado para aquilo, que me atingiu como um soco no estômago e me fez dilatar as narinas para respirar com força.
Era Sandro e Nora se beijando na frente de todo mundo.
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Como sempre, não esqueçam de votar e comentar o que estão achando! Até mais!
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