49 - Momento Mori;

Conheço a dor. Sei de suas consequências, e mesmo assim, estou aqui. Para realizar o meu pior medo.  — Yasmim Santos.

🔪

Acordar no chão frio e desorientado foi o ápice de um estado horrendo e medíocre.

Piscando várias vezes até a visão se estabilizar, Taehyung franziu o cenho pelo gosto amargo em sua boca, pelo peso no estômago que o impedirá novamente de ingerir qualquer alimento.

Cambaleando ficou de pé, tentava se lembrar onde deixou o celular, todavia, sua vontade era de deitar por dias a fio — no quarto a cama permaneceu do mesmo jeito, pareceu sentir o cheiro de Jungkook no ar, talvez nos lençóis emaranhados ou tudo não passava de um fruto podre de sua imaginação.

Precisava analisar os acontecimentos de ontem, algo não se encaixava. Algo estava errado, como uma peça de xadrez esquecida no tabuleiro, mantendo ambos jogadores sem movimentos, sem previsões de como aquele jogo iria acabar.

Tirando as roupas e as jogando no cesto antes vazio, Taehyung ligou o registro, mantendo a cabeça baixa, observando a água escorrer pelo ralo, alguns fios de seus cabelos grudam na testa lisa — sua mente voltou para a madrugada, para a forma como se perdeu naquele corpo, se permitiu ao afogamento naquele mar sombrio que eram os olhos de Jungkook.

Voltou um pouco mais e deixou o restante correr, nisso o sorriso quadrado se formou em seus lábios ressecados.

— Ele me drogou. — gargalhou. — Que coelhinho danado. — manteve o sorriso.

O banho foi encerrado em minutos, a higiene foi feita às pressas, tinha coisa para fazer e cada passo tinha de ser bem feito. Não podia errar absolutamente nada.

Vestindo as roupas em suas tonalidades escuras, Kim deixou o quarto e seguiu para o último do corredor, este que se mantém trancado para impedir olhos curiosos do garotinho policial. Ali, acendeu as luzes auxiliares, abrindo o armário de madeira e tirando dali uma taurus preta 9mm — vestiu o par de luvas de couro preta, e pegou outro celular que deixava dentro da gaveta da cômoda. Em minutos soube onde Jeon estava, afinal, ele queria ser encontrado e por isso não o impediu de achá-lo.

Amá-lo era um erro.

Um erro que infelizmente não pode prever. parado naquele quarto quase desprovido de móveis, Taehyung estava sentindo na pele a sensação da morte, as garras ansiosas para dilacerá-lo. Os lumes escuros queimavam, não era fogo que havia ali, mas algo frio ao ponto de queimar a pele e derreter até não sobrar nada, como prata líquida. Deixando o quarto seguiu a passos largos pelo corredor até as escadas, descendo degrau por degrau, absorto em sua loucura silenciosa, padecendo.

Enchendo o copo de cristal com uísque irlandês, não evitou que as lágrimas escorresse, a pressão maldita que sentia poderia esmagar seu coração. A sensação dolorosa do engano era horrível comparado ao que terá de fazer dali algumas horas.

Jamais se atreveria a agir a luz do dia, a escuridão era melhor, o momento em que trancafiava o pouco de humanidade que tinha para permitir que os demônios de sua mente tomassem total controle da situação.

O líquido acobreado queima sua garganta, o aquecendo de dentro para fora. Silêncio era o que tinha, vazio era o que lhe restou no fim.

Tudo que viveu com Jungkook foi fruto de um ideal que não existia, que era questão de tempo das amarradas estourarem e toda realidade pesar por todo seu mundo devasso e sombrio. Ameaçando destruir o próprio inferno na qual foi jogado quando criança e que demorou anos a fio para tornar-se rei.

O prédio virou cinzas, nada sobrou. Kim não fazia ideia de como se sentir com aquilo, era apenas um refúgio, não era importante, porém aquilo foi apenas o jeito de Jungkook de informá-lo que sabia.

Que descobriu finalmente quem foi o autor de todo o seu sofrimento. Do que havia perdido.

Outro fato que o preocupava era Yoongi, o homem que ainda lhe era uma incógnita, mas que se mostrou letal ao matar todos os homens que foram pagos para exterminá-lo — se viesse a sobreviver, teria de ir embora, para onde odiava e tinha as piores lembranças.

Deixando a mansão, entrou no carro e deu partida logo em seguida, tinha horas até encontrá-lo. Jungkook deixou instruções, e por enquanto seguiria com aquilo, o deixaria pensar que venceu, quando na verdade o mais velho sempre estaria um passo à frente.

Dirigindo sem rumo algum, a destra agarrada ao volante conforme o olhar inexpressivo se mantinha atento à frente — o tempo não estava dos melhores, o frio congelante anunciava o inverno tardio. A fome apertou o estômago, nem mesmo o álcool foi capaz de inibir mais uma vez, estava faminto a dias e não se dera conta. Estava cansado há dias e recusou-se a dormir decentemente.

Seu estado era crítico. Era lastimável.

O sol se erguia preguiçosamente, os raios solares iluminam os edifícios altos, aos poucos tomaria as ruas úmidas — conduziu o veículo até uma cafeteria, estacionando na vaga antes de sair. Adentrando o ambiente quente o cheiro de café fresco atiçou ainda mais a fome que sentia, seguindo até o balcão fez seu pedido e procurou se acomodar na mesa ao lado da parede de vidro fume, removeu as luvas, as deixando no bolso do casaco pesado na mesma tonalidade das vestes interiores.

— Seu pedido. — a atendente informa, tirando-o dos devaneios.

Seu coração saltou do peito ao ler o nome no pequeno crachá preso a camisa, podia ser um meio do universo de debochar da sua miserável existência. O mesmo nome de sua filha.

Maldito seja.

— Obrigado. — Encarou o pequeno prato ao lado da xícara branca contendo café fumegante. — Não pedi por essa torta de morango.

— É cortesia. Nosso café está completando mais um ano de funcionamento, então estamos dando doces como cortesia aos clientes novos e antigos. — a voz era melodiosa, como vento fresco numa manhã de primavera.

Seu demônio interior ganiu em ânsia por aquela vida, faminto pela aura suave e vibrante que a garota que não passa dos dezoito exalava. No entanto, não tinha tempo para aquilo.

A algo maior em jogo.

— Entendi.

— Bom apetite e volte sempre. — deu-lhe as costas e seguiu seguiu atender outros que chegavam.

— Não pretendo voltar. — Sussurrou, tomando o café amargo e ignorando totalmente o doce próximo.

A expressão fechada se manteve para o lado externo da cafeteria, observando pessoas, observando os veículos e o curso da vida de cada um ali. Como eram frágeis, como eram inúteis perante a pessoas de grande porte social. A vida era tão ridícula quanto.

Deixando uma quantia generosa na mesa, deixou o local às pressas, entrando no carro de luxo e saindo o mais rápido possível. Tinha mais um lugar para ir antes de tudo explodir e destruir tudo ao seu redor.

Em uma hora estava na praia, encostado no capô, tirou um cigarro da carteira, colocando o filtro entre os lábios, acendendo e dando uma longa tragada — o som do mar era calmo, confortável, alguns casais passeiam por ali, outros apenas corriam em seus exercícios diários. Taehyung soltou a fumaça, observando se dissipar lentamente, ele ali era como a escuridão em carne e osso experimentando a luz pela primeira vez.

Os sapatos caros pisam na areia macia, a cada passo se aproximava ainda mais da água fria, parou antes que se molhasse. Um sorriso pequeno brotou de seus lábios, aquela leveza que sentia era devido as condolências do próprio ceifador para consigo, relembrar momentos felizes era difícil. Doloroso. E nisso ele se lembrou de uma época que jamais pensou que viver um sonho poderia levá-lo a sucumbir em um pesadelo eterno.

SEOUL — COREIA DO SUL

VERÃO — 08:35 A.M

SEXTA FEIRA.1988

O sol começou a raiar desde às seis da manhã. Às cinco, Taehyung estava acordado, era um garotinho esperto, enchia sua matriarca se orgulhava e também sua babá, seu pai também, mesmo que não fosse o maior exemplo de demonstração de afeto.

Quietinho desceu da cama, pois havia se recusado a permanecer em uma que mais parecia seu antigo berço do que uma cama, pois segundo ele, aos quatros anos de idade, ele já era um homem feito e inteligente.

Com os pés descalços andou devagar até a porta e a abriu, seguindo pelo corredor até o quarto de sua babá; a porta estava entreaberta, por isso tratou de entrar, carregando consigo seu boneco enquanto os cabelos escuros como ébano estava bagunçado e a carinha franzida de sono — observando-a na cama, deu a volta, subiu e cutucou seu nariz.

Um gesto que passou a fazer para se identificar depois de perceber o quanto o sono da mais velha era leve.

— Acorda, tia.

A mulher abriu os olhos e conteve o susto, o rostinho do moreninho estava quase colado ao seu, os olhos castanhos totalmente atentos e um sorrisinho travesso nos lábios rosados.

— O que o senhor está fazendo acordado a essa hora? — Sentou na cama e o colocou em seu colo, ajeitando os fios rebeldes dos cabelinhos do garotinho.

— Hoje é dia das mamães. Me ajuda a fazer café para a mamãe?

— Claro. Espere só um pouquinho.

— A senhora tem filhos? — Perguntou curioso.

— Não. Mas você é como se fosse meu filhotinho. — Depositou um beijo nas bochechas coradas e gordinhas.

— Então é seu dia também.

A mulher sorriu, descendo da cama, deixando que o menininho se aninhasse nos lençóis, pois sabia que ele iria esperá-la. Em poucos minutos, Hana retorna, pegou-o no colo e voltou ao quarto para arrumá-lo, ajudando-o a tomar um banho, escovar os dentinhos e a vestir roupas que ele mesmo escolheu.

Na enorme cozinha começaram os preparativos. Bolo de laranja, torradas e geleia, café fresco, pães de leite, tudo que segundo ele sua mãe adorava. Organizando a mesa, com tudo já pronto, Taehyung correu escada acima para chamar a matriarca, entrando com cuidado no quarto e indo até o lado direito da cama enorme, tocando o nariz alheio e esperando que acordasse.

— Bom dia, mamãe. Feliz dia das mamães. — saudou, dando um beijo no rosto dela.

— Bom dia meu amor. Obrigada. — o puxou, cheirando o pescoço branquinho, sentindo a pele macia. — Está cheiroso, acordou bem cedo não é ?

— Preparei tudo que a senhora gosta. A titia Hana ajudou, acordei ela primeiro.

— Eu imagino. Espere mamãe se arrumar e já vou.

— Tá bom, te espero lá na cozinha.

Saiu correndo de novo, os pezinhos agora cobertos pela meia não fizeram barulho no piso, nem mesmo acordou o pai que continuava dormindo devido a quantidade de bebida que havia tomado durante grande parte da madrugada enquanto trabalhava no escritório.

Quando a senhora Kim apareceu, a cozinha cheirava a doce, era confortável e transpirava paz e harmonia — Taehyung estava sentado na cadeira, segurando um buquê de flores de rosas brancas que colheu no jardim, sua babá também havia recebido.

— Que bela mesa você preparou, filho.

— Gostou mesmo? Titia Hana ajudou bastante.

— Vejo que sim. — olhou para a funcionária. — Obrigada, Hana.

— De nada, senhora Kim. Taehyung teve a ideia, apenas o ajudei. — piscou para o menininho sorridente.

— Fiz isso na escolinha, mamãe. — entregou um cartão e uma rosa feita de papel sulfite colorido com giz de cera.

— "Para a melhor mãe do mundo." — leu. — Que lindo, obrigada. Mamãe está muito feliz.

— De nada. — semicerrou os olhinhos. — Mamãe, está roxo aqui na senhora. — apontou para a marca próxima ao olho direito.

A mais velha sorriu enquanto os olhos se enchem de lágrimas, não ousou responder, apenas mudou de assunto, ofertando mais bolo e suco fresco para que o filho não fixasse isso na cabeça e fizesse mais perguntas.

Hana sabia, ouvia a briga, ouvia os objetos serem quebrados... sabia da fúria do patrão para com sua esposa, infelizmente tinha conhecimento de que a mulher fazia de tudo para que Taehyung não ouvisse absolutamente nada sobre o quão ferida era durante a noite.

Kim sorriu triste para o que pensou ter esquecido, mesmo pequeno ele tinha conhecimento, todavia era apenas uma criança, com sonhos, esperanças e amor imensurável por sua mãe. Ter a capacidade de jamais esquecer nenhum momento de sua existência era uma benção mas também uma maldição, essa que vem pesando cada vez mais.

Sempre fez o possível para dar orgulho aos pais, deixar sua mãe feliz ao ponto de esquecer os péssimos momentos que vivia junto do marido. Jogando o cigarro na areia, respirou fundo, enchendo os pulmões de ar, mantendo a concentração para o que faria dali algumas horas.

O fim de um ciclo doentio e fervente.

Este era seu momento mori, lembrar-se de que iria morrer. De que era apenas humano e que uma hora ou outra a morte viria para ele, não importando de qual forma, se iria sofrer ou seria indolor, de qualquer forma o futuro ainda era uma incógnita, o presente era certeiro.

Voltando para o carro, entrou, enfiou a chave na ignição e manobrou para sair da vaga, retomando seu percurso em alta velocidade, seu celular vibrou no banco do passageiro — pegando o aparelho engoliu em seco, o video sem áudio, de apenas dez segundos mostrava sua mansão em chamas, os vidros estourando conforme as labaredas lambiam cada centímetro, reduzindo tudo ao pó. Em seguida do vídeo uma mensagem.

Seu castelo de cartas está diminuindo.

[ 10:20 a.m ]

— É o que vamos ver, coelhinho. — trocou a marcha e pisou com força no acelerador.

[...]

O carro parou na estrada estreita de terra, Kim desceu do carro, vendo apenas um campo vasto do lado direito e do esquerdo árvores ocultando um grande porto de areia, a arma continuava no cós da calça social, o vento congelante chegou a queimar seu rosto. Seu corpo tenciona, se arrepia com a figura de Jeon a dois metros de distância, parado, encarando-o da forma que sabia ser de raiva, de ódio e sede de vingança.

A luminosidade vinha apenas dos faróis do carro esportivo. O céu escuro sem estrelas, sem lua, sem absolutamente nada, era uma imensidão sombria e mortal.

Taehyung começou a rir à medida que Jeon se aproximava, quando estava a centímetros de distância, ele pode ver a face irada do policial, mas também pode ver a mágoa, a traição e principalmente o engano, ambos se encaram em silêncio. Um silêncio caótico e violento.

Kim o olhou com indiferença, ainda que sua mente gritasse e seus demônios o ferissem, bramindo por sangue, pela morte e pelo sofrimento. — seu olhar intenso se fixa no mais novo, o sorriso brotou novamente de seus lábios e sua voz se fez presente quando o vento rugiu como um animal.

— Oi, Jungkook. — o timbre grave e rouco repleto de perversidades trouxe ainda mais raiva ao outro que cerrou as mãos em punho. — Levou bastante tempo, não é? Mas tenho de admitir... — caminhou lentamente ao redor do mais novo até parar a sua frente, a proximidade era o suficiente para sentir o cheiro alheio, o calor e o tremor. — ... você conseguiu ser o meu melhor oponente.

Jeon ainda não proferiu uma só palavra, o abalo emocional era avassalador, sentiu a fraqueza tomar seu corpo, a consciência palpável de que tudo era mesmo real, que mesmo implorando aos céus para que fosse mentira, infelizmente não era.

A morte encarava a vida.

Ansiando para ceifá-la.

O mundo era cruel. O destino ainda pior.

E Jeon Jungkook estava diante do homem que fingiu ser alguém que não era. Se apaixonou pelo homem que trouxe a pior dor que duraria para sempre.

E Taehyung estava diante do homem que fez a paixão brotar em um corpo que apenas sobrevivia, jamais sentia algo bom que não fosse o desejo de tirar vidas inocentes.

E ali estavam diante de um impasse. Ambos pareciam paralisados diante ao mar de revelações, sem saber o que fazer.

A resposta é apenas uma.

Um deles iria morrer essa noite.

E quem sobreviver, terá de lidar com todas as consequências que pensariam toneladas, ao ponto de lhe conceber a primeira tentativa de suicídio.

:)

Penúltimo Capitulo 👀

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