47 - Fogo e Pólvora;

Essas alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo, como fogo e pólvora. Que num beijo se consomem. — William Shakespeare — Romeu e Julieta.

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Não havia luz. Não havia nada, exceto por uma poltrona velha, o couro rachado por falta de cuidados, no espaço amplo, no centro dele estava Jeon Jungkook. As mãos apoiadas nos braços rasgados do acento, o olhar fixado na janela sem enxergar o que se passa através dela — sua mente se assemelha a uma TV, o chiado zumbi em seus ouvidos, a tela chiando sem sinal algum, a pele fria demais ao toque, quase roxa.

E lá fora, o céu chorava mais uma vez.

Do lado norte daquele lugar as malas estavam encostadas na parede descascada, o cheiro de poeira era quase sufocante. Uma galeria abandonada que encontrou durante o desespero.

A garrafa de bebida barata que comprou estava vazia, o corpo parecia submerso em águas gélidas, não sentia nem mesmo a secura nos olhos por não piscar a minutos, ou às lágrimas que escorreram e secaram em seu rosto petrificado.

O estado catatônico se instalou quando chegou, a realidade como facas afiadas, cravaram em seu peito, quebrando seus ossos, fazendo-se sangrar aos litros. Sangrar sem de fato morrer.

Lembranças surgiram em meio aos chuviscos em sua memória.

Odiava todas elas.

Odiava si.

Sentia nojo da própria pele, de quem se tornou devido ao trauma que fora demais para suportar.

Mas agora o que faria? Ou melhor. Como faria?

Se embrenhando na escuridão, algo pútrido e faminto se arrastava, como uma besta há muito tempo enjaulada, tendo por fim a liberdade que tanto desejou. Jungkook sentia o mal se aproximando, acariciando sua pele com unhas pontiagudas e pele fétida, pedindo convite para tomar as rédeas da situação; ao primeiro piscar, voltou a realidade, e nesse ato ele aceitou.

Fez um acordo com o diabo.

O sorriso pequeno se formou em seus lábios secos e pouco rachados com pequenos resquícios de sangue. Trovões clareiam o céu escuro, como se soubesse de quem e o que tinha sido liberto.

Abrindo outra garrafa tomou o líquido acobreado no gargalo, em seu anelar direito, a aliança que era para ser do seu homem brilhava nos clarões e na luminosidade alaranjada dos postes de luz da rua — tantos anos jogados fora. Pensou.

Tantos planos tornaram-se pó. Tudo por um homem que achou conhecer e que no fim, era um carrasco que trouxe a pior dor para sua vida.

Mas tudo tem uma consequência, toda ação tem sua reação, e ele precisava reagir.

Estava na hora de voltar a si.

De gole em gole parecia ouvir o riso de Jimin, os beijos, os toques, cada estrutura que o compõe se recordava de sua alma gêmea, e isso doía tanto ao ponto de tirar-lhe o ar. De o deixar sem rumo.

Mais uma garrafa estava vazia, bêbado e desolado, Jeon ficou de pé, tentando manter equilíbrio e com o pouco que tinha arremessou uma garrafa contra a parede em seguida da outra, chorando, desejando mostrar ao mundo como estava ferido, como tudo era uma tremenda merda.

— Jimin. — Sussurrou, caindo de joelhos no chão sujo e de madeira gasta. — Por favor! Me ajude. — Implorou.

Deitou ali mesmo, sem saber do horário, a visão embaçada pelo álcool e o coração e sentimentos aos destroços. Pois, todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem as sente.

[...]

O plano que tinha em mente tinha grandes chances de dar absurdamente errado. Jungkook dormiu por apenas duas horas, acordou em um sobressalto, quase sem fôlego — banhou-se em águas quase congelante, visto que o local onde estava não possua energia, mas para seu alívio tinha água corrente no chuveiro pequeno de um banheiro decrépito.

Exercitar-se deixou seus músculos doloridos, pois tinha meses desde que fizera qualquer exercício para manter a saúde intacta.

Com roupas totalmente escuras juntamente com os coturnos de cano médio, Jeon colocou um boné em seguida uma máscara, ambos da mesma tonalidade do restante, as malas estavam invocadas, portando saiu da galeria para se instalar decentemente em algum hotel de baixo custo.

O tempo estava úmido, céu cinzento mas com temperatura confortável, jogou os pertences no porta malas do carro de luxo que não era seu e logo deu partida para um endereço pouco afastado da cidade — seu próprio carro estava no pátio da delegacia, pensou diversas vezes em buscar, todavia, o plano que executaria não fazia jus a polícia e sim ao crime.

Taehyung mandara algumas mensagens, essas que não foram lidas e acumulava conforme o tempo passava, na companhia de um café altamente amargo e quente, Jeon seguiu o GPS, mantendo os olhos escuros na estrada, engolindo em seco ao recordar-se de tempos felizes, em uma dessas riu sôfrego, na época da faculdade ignorava Jimin a todo custo, chegou a ser grosseiro e por pouco não o feriu de modo agravante ao empurrá-lo com certa força e vê-lo cair no chão do refeitório — todos a volta observaram alarmados, outros riam e Park levantou envergonhado e magoado e desapareceu.

Foi na mesma semana do acontecido que o arrependimento e repreensões vindas dos amigos que seguiu para o setor de moda, procurou pelo dormitório alheio e o convidou para sair, recebendo nada além de um soco no rosto e uma porta na cara no mesmo segundo...insistiu tanto e por tal insistência o mais velho aceitou e a partir disso os sentimentos brotaram como flores silvestres em solo fértil, até o amor os envolver como um fio vermelho e o futuro se entrelaçar.

De memória em memória, foi arrastado para uma que ele amou.

Que foi quando pediu Jimin em namoro de uma maneira bastante incomum, porém louvável dependendo do ponto de vista.

O bar local com um nome pretensioso era como um ponto de encontro nas sextas feiras após as aulas cansativas e treinamentos dolorosos. Jungkook estava sentado desleixado na cadeira gamer preto e vermelho, o console entre as mãos, os dedos longos ágeis pelos botões durante uma partida on-line.

Em sua cama, Yoongi estava deitado, fingindo estar dormindo para não ser incomodado, Hoseok fazia carinho em seus cabelos, Jin preparava algo na cozinha pequena acoplada com uma pequena sala e Namjoon estava largado na poltrona lendo um relatório que segundo ele seria benéfico para o futuro, os óculos de aros finos e transparentes escorregam por seu nariz, a camisa de gola V e mangas curtas marcaram o peitoral largo e clavículas salientes.

— Já pensou em tudo para pedir o rabudo em namoro? — Jin perguntou ao voltar para o quarto e ver todos do mesmo jeito a minutos. — Jungkook? — chamou-o de novo, o mesmo estava concentrado demais para ouvir. — Coelho desgraçado e malcriado. — deu um tapa na nuca exposta, causando um susto brusco e na morte do seu personagem.

— Caralho.

— Olha a boca, moleque. Responda o que perguntei.

— O que perguntou?

— Já decidiu como vai pedir Jimin em namoro?

Yoongi resmungou descontente com o barulho, Jung logo tratou de o ninar de novo para que durma.

— Já sim. Esta tudo pronto. 

— Não nos faça passar vergonha, pelo amor de Deus. — reforçou. — O almoço está pronto. — seguiu até Namjoon, tirando o ipad de suas mãos. — Vamos comer.

Jeon desligou o videogame, pegando o celular para responder a Jimin que estava impaciente por falta de respostas. Juntos almoçaram, discutindo sobre trabalhos e mais trabalhos, enquanto Jung apenas ouvia e Yoongi fazia o mesmo, sem um pingo de paciência para argumentar.

Ao cair da noite, Jeon estava quase pronto, afivelou o cinto, encarando o tronco despido através do espelho, a calça preta marcava as coxas grossas, do jeito que o quase namorado gostava, vestiu a camisa social de cetim preto, deixando os botões abertos para expor o peitoral, dobrou as mangas até os cotovelos e sorriu satisfeito. A guitarra já estava pronta e guardada para ser levada, ansioso, passou o perfume rapidamente e saiu do dormitório.

Seus amigos já estavam lá, trêmulo, Jungkook subiu no palco para ajeitar tudo, conectando a guitarra para que nada desse errado e o som pudesse ser ouvido até do lado de fora do estabelecimento.

— Jimin chegou. — Anunciou Hoseok.

Jeon olhou diretamente para a entrada, vendo-o cumprimentar os amigos, lindo demais para ser real. Ansioso desceu do palco, passando por alguns estudantes até chegar no loiro, puxando-o pela cintura, o virou rapidamente e o beijou.

— Oi.

— Oi, Kookie-ah. Está muito bonito. — elogiou.

— Você também. — Park usava jeans de couro junto a uma camisa vermelho sangue gola V. Estava de tirar o fôlego. — Fique com os meninos naquela mesa. — Apontou para uma perto do palco. — Tenho uma surpresa para você.

Sorrindo largo até os olhos não passarem de fendas, o loiro assentiu, dando outro beijo e indo até o lugar indicado. Jeon voltou a subir no palco, pegando a guitarra em tons de vinho e preto, posicionando-se diante do microfone.

— Boa noite pessoal. — saudou, todos se acomodaram onde podiam e fizeram silêncio. A luz terna, focou no palco, em tom vermelho o resto ficou na penumbra. — Não é a primeira vez que toco aqui, mas será a primeira em que farei para alguém muito especial. Um pedido que veio faz um certo tempo e apenas agora tive uma oportunidade para realizá-lo. Ressalto que: Não é uma música romântica, mas ele gosta, e eu amo fazer suas vontades. — Seus lumes fixam em Jimin, podia vê-lo na pouca luz, e sentia estar sendo observado por ele. — Essa é para você, Jimin-ah.

Os primeiros acordes começaram, o início de Friends da banda Chase Atlantic fez Jimin arrepiar, não apenas ele mas quem assistia, Jeon tinha presença, e sua voz era linda e memorável. 

Quando sua voz fez-se presente o mundo pareceu se calar, a entonação combinava com cada palavra dita, e a medida que seguia, o timbre se agrava e afina, em uma junção perfeita — os dedos ágeis dedilham as cordas, levando ao ápice o sentimento puro de quem aprecia tal música.

No fim, Jungkook mudou a música para o instrumental de Church, levando todos a gritos eufóricos e elogios dos mais baixo calão que era sinônimo de paixão e admiração de terceiros.

Assim que o silêncio perdurou, a voz ofegante e cansada soou:

— Aceita namorar comigo, Park Jimin? — tirou a guitarra, ajoelhou e tirou do bolso a caixinha de veludo vermelha, onde dentro, havia duas alianças de ouro branco, aros finos de tamanhos desiguais, o do loiro era o menor.

O futuro modelo chorava e gritava sim, todos aplaudiram de pé, conforme este correu até o moreno e o beijou apaixonadamente, as alianças tomaram seus respectivos lugares, em seus anelares e o restante da noite seguiu de comemoração e demonstração de amor.

Foi o selo para um futuro esplendoroso.

Voltando a realidade, Jeon não percebeu já ter chego no hotel, ficou tão absorto que agradeceu pelo maldito carro continuar o percurso automaticamente — desceu para pegar as malas, sentindo pequenas gotas de chuva caírem em seu rosto, esfriando uma pele quase fervente.

Após fazer o check-in, entrou no elevador, pressionando o botão do último andar, o hotel não era grande, porém extremamente confortável, oferecendo o necessário para melhor estadia.

Parado diante a porta envernizada, Jungkook encarou a numeração, 13 era seu número e o de Jimin, e isso aumentou a avalanche mortal e glacial dentro de si, suspirando profundamente entrou, deixando os pertences próximo ao aparador de vidro, tirou os coturnos antes de deixar a chave do carro junto aos documentos em uma tigela de vidro.

O cômodo era pequeno, a cama grande reside no centro da parede, pequenos móveis de ambos lados, comportando abajures e mumificado de ar — as cortinas pendiam no canto em lados opostos, as portas de vidro estavam fechadas, mostrando uma boa visão da cidade ao longe e vegetação em meio a estrada. Passou a odiar cores, portanto optou por um quarto onde tudo era preto cinza e branco.

Depois de outro banho, usava apenas uma calça de tactel cinza chumbo, o tronco despido ainda continha gotículas de água, os cabelos úmidos estavam soltos, pedira algo para comer, enquanto espera ligou dois notebook que portava consigo, deixando-os na escrivaninha, pegou todos os arquivos impressos, iria arquitetar tudo milimetricamente para nada sair errado, de algo estava totalmente consciente.

Enfrentar Taehyung não seria fácil, não no sentido físico, mas devido ao seu mental abalado, descontraído e totalmente desequilibrado.

As horas passavam, os dedos ágeis correm rápidos pelas teclas, anotações e endereços feitos, um sorriso maligno brotou os lábios ressecados e pálidos, tudo estava pronto para dar a resposta que tanto ansiou e que Taehyung não tinha ciência.

[...]

Próximo da meia noite, o moreno caminhava pelas ruas desertas, as vestes negras quase o camuflando na escuridão onde não havia iluminação, os coturnos pesados faziam ruídos no asfalto úmido, a máscara e o boné junto ao capuz quase fazendo dele um assassino, um stalker. 

Caminhou por minutos até chegar ao edifício abandonado que era próximo a sua antiga moradia.

— Então foi assim que nos encontrou coincidentemente! — Sussurrou, sentindo a raiva aquecer-lhe o sangue.

Entrando no local seguiu para o elevador de serviço, horas antes tinha pego a planta antiga e atualizada do edifício, soube do motivo de ter sido evacuado e jamais habitado, não precisou de muito para compreender que Taehyung fazia a energia circular por um único ponto e este liga o elevador ao último andar, onde era acesso único e exclusivo a cobertura. Kim era esperto, demais, todavia, não contava que seria descoberto mais cedo ou mais tarde.

Conforme a caixa metálica subia, Jungkook redecorava tudo que descobriu sobre o mais velho, a morte da esposa, anos depois da filha, o lamento, disso sabia, ele havia contado.

Entretanto, não contou sobre o abandono das empresas multimilionárias em seu nome, ainda sim alguém comanda e ele apenas vistoria para que nada leve seu império à falência. Incontáveis mortes traçaram o caminho de Kim, todas as vítimas antigas e atuais seguiam o mesmo maldito padrão — um lobo em pele de cordeiro, isso era o mais velho.

Saindo do elevador, caminhou pelo corredor longo e estreito, a poeira tomava todo o tapete que tomou uma tonalidade vermelho fosco, as paredes continuam bem pintadas levando o mais novo a crer que ele mantinha impecável.

Diante a porta 666, não fizera cerimônia, tomou impulso e meteu o pé direito na porta, uma, duas, na terceira quebrou, arrebentou o trinco eletrônico, ofegante, Jeon entrou, não surpreso com o luxo que encontrou, com a decoração minimalista, tudo absolutamente impecável.

Quieto, seguiu para os quartos, achando o do diabo, ali não entrou, seu interesse estava na porta de aço, essa que demorou um pouco para hackear e anotar a senha. Pressionando os botões a porta destravou e rangeu, Jungkook conseguiu sentir o desespero que emana ali, o medo e o sadismo.

— Descanse em paz, Amber. — Sussurrou. Soube dela, leu sobre ela. E lamentou por isso.
Ninguém merecia viver em cativeiro em prol de um lunático com um ideal de merda.

Seus instintos investigativos o fizeram entrar no quarto dele, acendeu as luzes auxiliares e encontrou o computador, não mexeria pois sentia que não acharia nada que fosse lhe ajudar. Também não importava. Nada mais importava.

Jungkook ficou até duas da manhã, o suor umedeceu a camisa por baixo do moletom, foram litros e mais litros de gasolina. Quilos e quilos de pólvora espalhados por todos os pontos estratégicos. Terminou no saguão, com um isqueiro zippo preto na destra, acendeu a chama, jogando o objeto na pólvora, em segundos o fogo seguia percursos aleatório, consumindo tudo que tocava, tornando cinzas tudo que tocava.

Do pó vieste e ao pó retornarás. — Ditou, o timbre rouco e cansado, entornando um versículo bíblico, debochando em demasia.

Aquilo era seu ato de realização, uma promessa.

As chamas eram lindas de se admirar, como vasos sanguíneos, correndo desenfreados, dando cor e espantando a escuridão, não tardaria a chegada dos bombeiros para investigar o incêndio e viesse conter. Explosões devido ao gás reverberou por quarteirões de tão alto que havia sido.

Este é o início do fim.

:)

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