44 - O Despertar;
"Apenas ponha a sua mão no vidro. Estarei aqui tentando puxar você. Você só tem de ser forte." Mirrors — Justin Timberlake.
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A memória é a capacidade de armazenar informações de modo que essas possam ser recuperadas quando buscamos recordá-las — um stress pós traumático tende a bloquear grande parte, pelo simples fato do cérebro sentir-se culpado e assim fazer o indivíduo esquecer-se de tudo que pode acarretar a lembrança do trauma ou dos envolvidos que contribuíram para essa magnitude de dor.
Jeon Jungkook mantinha-se inerte à realidade, foi posto em uma totalmente diferente, com um espectador fora do seu senso comum, fora de sua zona.
Sozinho naquela fortaleza de vidro, o garoto observava as árvores altas, analisando as diferentes tonalidades de verde enquanto a chuva desabava num céu acinzentado.
Não fazia ideia, mas o sonho que tivera na noite passada, durante uma tempestade torrencial, o deixou incomodado, levou aquilo como um ato misterioso que merecia ser desvendado, pois seu corpo sentiu familiaridade com aquela figura menor que si, borrada, que o tocou com tanto cuidado e sentimentos que ele sentia, mas que nenhuma delas era de fato voltada para o mais velho, dono daquela mansão, dono do cheiro em sua pele, do prazer que lhe dava.
O sexo excessivo era parte do trauma causado a meses atrás, o moreno não entendia as oscilações, não notava que quando sua mente tentava recordar-se daquela noite, seu corpo queimava, a fome desesperada por prazer era intensa ao ponto de fazê-lo chorar e desencadear crises de ansiedade e mudanças de humor — as evidências pareciam o acompanhar como uma sombra, a exatos duas semanas tem sentido um aroma diferente, suave como uma brisa fresca no verão, não conseguia ao certo discernir a fragrância, ao inalar, seu coração acelerava, as mãos tremiam e tudo perdia a força, perdia totalmente o sentido.
Ter a sensação de desconforto com a própria pele era algo que o levava ao incômodo, fazia semanas que sentia algo estranho — observava tudo como se aquela realidade tivesse sido criada apenas para acomodá-lo.
Mas porque?
Ou pior, para que?
Perguntas se amontoavam em sua mente tão fragilizada, tendo diversas lacunas que ele não conseguia descobrir os motivos ou como superá-los — lapsos de memória o confundiam, era um mar totalmente revolto, com correntezas intensas que o arrastavam para o fundo quando ele estava próximo da superfície.
Algumas gotas de chuva pingava em suas pernas nuas, umedecia o tecido preto de algodão da camisa grande, seus cabelos chegaram a altura dos ombros, levemente ondulados e nutrindo um cheiro gostoso e suave, encolhido no sofá na varanda, o chá havia esfriado pelo vento um pouco frio, ainda sim ele permaneceu ali.
Na escuridão mental, um sorriso rasgou a densidade sombria como uma luz, o autor daquele riso era desconhecido, conquanto, pegou-se sorrindo genuinamente; a vida tinha meios infalíveis de levá-lo a perecer, porém, possuía meios de levá-lo a razão, de empurrá-lo para realidade ainda que doa, oferecendo-lhe uma oportunidade de sair do calvário e finalmente desfrutar do paraíso.
Um lado azul, totalmente brilhante e intenso, prometendo tudo que ele pensou em não conseguir alcançar, infelizmente, todos os seus sonhos ao lado de um grande amor não é possível recuperar, mas Jungkook sabia em sua alma que precisava vingar a ausência de alguém.
E este alguém é Park Jimin.
Dono de todas as suas lembranças, de seus desejos, de seus planos. Ele merecia ser vingado.
Jungkook só precisava dar um passo para fora da bola de inércia na qual se envolveu pela dor ter o engolido sem piedade alguma.
Havia sido o tempo dele, apenas disso e ninguém tem o poder de julgá-lo, de condená-lo por esquecer Jimin quando ajoelhou-lhe naquele necrotério, quando deitou na ponte, quando naquela chuva diante aos amigos, aos sogros, implorou pela forma aos gritos — ninguém poderia julgar uma dor como aquela, tinham apenas de respeitar, pois era ele quem sentia, era ele que clamava pela morte quando o céu chorou pela perda de um inocente, de um jovem repleto de sonhos, que construía as escadas para chegar ao topo, para no futuro viver com seu amor e com ele ter uma família.
A dor em seu ápice o leva a viver de formas inimagináveis, preso em sua carne, adoecendo por motivos que não reconhece.
Como um instinto, Jeon saiu da sacada, tirou a camisa e vestiu roupas confortáveis e escuras, encontrou um guarda chuva grande e transparente e saiu do quarto, descendo a escada e seguindo até a garagem, pegou qualquer chave que estavam numa gaveta e procurou pelo veículo, um Tesla branco, foi ali que ele entrou, passando os dedos pelo volante, buscando a familiaridade para dirigir — o motor ronronou, caso Taehyung volte, veria o bilhete que deixou avisando apenas que tinha saído para dar uma volta.
Manobrando o veículo, pegou a estrada pequena que o levaria para fora da propriedade até a estrada de volta para cidade.
Enquanto dirigia com calma, forçava as memórias, procurava por aquelas malditas correntes para quebrá-las — tomando a estrada, retornou a cidade, a chuva batendo contra o vidro e o calor no interior o acolhia junto ao cheiro de veículo novo, nem se preocupou em retirar o plástico do banco ou do painel, apenas quis ir, sem saber onde.
Deixou sua mente e corpo guiá-lo.
Em poucos minutos parou o veículo no acostamento, ao lado de um prédio simples mas que ao vê-lo trouxe mais familiaridade e sensações únicas, que para uma pessoa traumatizada era curiosa e diferente. Reunindo forças abriu a porta, abriu o guarda chuva e desceu, ajeitando o casaco antes de trancar o veículo, dando a volta para entrar naquele lugar que aqueceu seu peito, fez doer mas ainda não o sufocou — na portaria, o porteiro olhou-o incrédulo, assustado até.
— S-Senhor Jungkook?
— Quem é você? — perguntou assustado, sua fisionomia era frágil quase quebradiça e o senhor de meia idade percebeu que aquele ali não era o policial sorridente e feliz que viu a meses atrás.
— Meu nome é Benjamin, o senhor mora aqui, pensei que não voltaria. Esteve viajando? — sondou.
— S-sim. — mentiu. — O senhor teria as chaves reservas do meu apartamento? O perdi durante o retorno.
— Claro. Aguarde um instante.
Ali ele aguardou, o porteiro notou a confusão mental e um olhar vazio, havia recebido um pedido do delegado, então mandou mensagem rápido antes de pegar as chaves e entregá-las.
— Último andar, apartamento 113.
— Obrigado. — seguiu para o elevador.
Nervoso, sentia a palma das mãos úmidas, o coração acelerado e a falta de ar que era a evidência explícita da crise de ansiedade — saindo do elevador, procurou pela numeração, dentre tantas portas de madeira cinza, encontrou a sua, trêmulo encaixou a chave e girou, engoliu em seco e empurrou a porta, sendo recebido por uma avalanche de sentimentos, dos genuínos aos malditos.
Um passo para dentro daquele imóvel fez seu corpo gelar instantaneamente, as lágrimas escorreram por seu rosto antes de procurar pensar no motivo — tudo estava revirado, vidros quebrados, objetos danificados e móveis fora do seu habitual lugar, havia uma faixa amarela da polícia que impedia a invasão ou ao menos avisava de que aquele lugar não era para qualquer um ultrapassar.
Jungkook só percebeu quando viu a faixa caída a seus pés, largando o guarda chuva seu peito subia e descia e os passos dessa vez foram apressados, correndo até o quarto, como um soco no estômago, o policial caiu de joelhos para aquela desordem, aquele caos tão parecido com seu interior, tão semelhante a sua ira.
— O q-que está a-acontecendo c-comigo? — gaguejou, pressionando a palma direita contra o peito como se pudesse pegar seu coração e procurar onde a dor estava.
O pânico lhe subiu à garganta, os cacos de vidros da janela destroçada cortaram sua mão esquerda, o cheiro veio abraçá-lo, aquele cheiro gostoso o fez chorar ainda mais — sua mente foi bombardeada de recordações de uma só vez, numa velocidade desesperada que trouxe o grito que fora tão reprimido, o luto que por meses foi aprisionado em sua mente tornando-o alguém que jamais seria, que nunca havia sido.
— M-meu Deus! — murmurou, engasgado com seu próprio eu.
Mas daquela pessoa, o dono daquela voz, daquele jeito, daquelas mãos pequenas e a forma como o amou, como permaneceu consigo em todos os momentos possíveis.
O nome não lhe vinha à mente de pronto, pela visão periférica, pouco nublada pelas lágrimas grossas, encontrou uma foto, reunindo forças estendeu o braço e o pegou, virando para ver a imagem eternizada, Jeon Jungkook sentiu todo o peso do luto, toda aquela dor das memórias, do seu corpo veio a tona.
E o nome gritou em sua mente, a voz aveludada quebrou aquela tempestade e o fez ouvir, como se ele estivesse bem ali.
Jeon gritou de volta, mostrou a dor de novo.
— JIMIN! —o sofrimento pode ser ouvido por todos os cômodos e corredor daquele último andar.
O despertar veio, numa faca dolorosa e afiada cravada em seu peito, fazendo sangrar tudo aquilo que o trauma fez esquecer, sua mente tentou poupá-lo, não obteve êxito, apenas adiou o inevitável, adiou aquele tormento.
Preso por todas aquelas emoções, sentimentos e memórias, Jeon não ouviu passos vindo, muito menos foi tocado — parado no batente da porta do quarto o delegado o viu de novo, do mesmo jeito que meses atrás, não permitindo a aproximação de nenhum dos dois policiais que o acompanhava.
Em meio às lágrimas e martírio, Jungkook riu, gargalhando, olhando a foto de um Park Jimin sorridente agarrado a si enquanto segurava o certificado de conclusão do ensino médio. O riso assustou os ali presentes, dando um aviso aos oficiais os dispensou para ir logo depois.
O moreno de repente ficou quieto, apenas os ombros mostravam levemente que ainda estava desperto e respirando — num ato rápido ficou de pé, a mão ferida manchava a foto de sangue quente, virando-se, o delegado de um passo para trás, colocando a mão na arma por reflexo.
Aquilo não era Jungkook.
Em corpo sim, mas em mente não.
Era pior, e o mais velho não sabia de fato quem era, ou que versão era aquela.
Este passou pelo homem, deixando o guarda chuva e saindo dali, deixando tudo para trás de novo, voltando ao carro, sendo banhado pela chuva fria por poucos segundos.
O oficial não o seguiu quando saiu do prédio correndo, a tempo de ver o Tesla já no fim da rua — lamentou pelo garoto mais uma vez e pediu a Deus para que ele não se machucasse naquele retorno tempestuoso à realidade.
As horas não eram conhecidas pelo mais novo, o choro alto abafada a chuva, dirigiu de volta quase em alta velocidade — aquela culpa explosiva o machucava. A imagem do corpo em seus braços o deixou frio, a música que cantou enquanto ninava Jimin, tudo o veio e a dor de cabeça ameaça seu corpo a desligar por algumas horas. Segurou ao máximo, quando chegou, largou o carro na entrada e correu cambaleando para o calor da casa, tirando o casaco e a camisa, sentindo o sufoco, a falta de ar.
Estava numa crise severa de pânico e ansiedade, deitado no piso gélido, Jungkook se encolheu, tentando amenizar aquele peso infernal que lhe roubava tudo — chorando ele chamou por Jimin, a voz não saia.
Jungkook não percebeu quando desmaiou, muito menos quando foi tirado do chão por braços fortes e quentes e levado ao quarto.
Na bíblia é dito que a verdade nos liberta, é um fato consumado, porém, o que isso desencadeia chega a ser sobrenatural — a vingança que lhe devora, a raiva que guia e a dor como uma espada para um anjo furioso.
Ou melhor, um demônio sanguinário e sedento, como uma besta enjaulada, impedida de ter liberdade.
Jungkook voltou a consciência.
E estava furioso e faminto.
[...]
Ao abrir os olhos, sentou na cama, a visão embaçada aos poucos clareou, mostrando o quarto amplo, e a escuridão do lado de fora. Tomando um banho e vestindo roupas quentes, analisou o quarto, o cheiro de Taehyung e a confusão que só precisava de um tempo para se ajustar — na gaveta do móvel ao lado direito da cama, o menor abriu a primeira, não achando nada, mas na segunda encontrou, a caixinha aveludada, ali a aliança.
A aliança que por anos guardou para o momento que infelizmente não se concretizou.
A aliança de noivado de Park Jimin.
Segurando com o indicador e polegar, observou a delicadeza, a joia linda que tanto escolheu com amor — sorriu, limpando a única lágrima que escorreu, seus olhos já estavam inchados pelo choro excessivo, estava cansado de ser a vítima fragilizada.
Aquilo nunca lhe coube.
Guardando de volta, olhou para porta ainda fechada, por agora não tinha planos, mas faria, enquanto isso, odiou quando seu corpo ansioso pelo que ele já conhecia, então tirou as roupas e vestiu um roupão, saindo do quarto a fim de procurar Taehyung.
Ainda que o despertar tenha vindo, a confusão ainda o torna inerte, psicologicamente ele ainda era motivo pelo trauma, não obtém consciência exata do que fazia. Na sala, a lareira estava acesa, de costas para si estava Taehyung, majestoso em seu terno negro como a escuridão de uma noite sem estrelas e lua, aproximando-se, notou o mais velho bebendo, perdido em suas memorias, em sua condenação particular.
De frente para ele, Jungkook o analisou, quis sair daquela camada e exigir saber quem matou Jimin, no entanto não podia, precisava organizar-se para quando o fizer ter certeza.
Começaria voltando a investigação, descobriria quem matou e o faria sofrer.
Jungkook mataria o assassino do seu namorado.
Kim ergueu o rosto ao notá-lo parado de frente para si, sem dizer uma palavra não impediu o mais novo de desatar o nó do roupão e expor o corpo nu — não impediu quando este montou em seu colo e o beijou.
Duas almas sofrendo em seus próprios mares.
Enquanto Jungkook sofria pelas ações de outrem, pela perda de Jimin.
Taehyung sofria e se amaldiçoava por ser aquele quem o fez.
As roupas foram tiradas e largadas pelo chão, Taehyung quis parar mas sentia tanto desespero quanto o menor e por isso não fez cerimônia quando o invadiu, quando o gemido de um veio embargado e o dele veio grave, denunciando aquele calor doloroso.
Naquele momento o destino traçou novas linhas.
Todas a favor de Jeon Jungkook.
O ajudariam a vingar-se, a trazer justiça a Park Jimin.
Só precisava permanecer vivo.
Tendo Taehyung sobre seu corpo, investindo para dentro dele,aquele prazer maligno escorreu por sua pele, mantendo-o na inércia prazerosa, o deixando delirando por alguns minutos — seu parceiro não estava diferente.
Dois opostos que usavam o sexo para abafar tudo que sentiam, mas um era só vitima.
E outro apenas se aproveitava daquilo ainda que sentisse culpa, não sabia como parar.
Taehyung sabia que Jungkook havia despertado.
E ele temeu por sua vida pela primeira vez.
Porque aquele homem ofegante o encarava, e naquela imensidão escura de suas íris.
Jungkook prometeu carnificina.
Prometeu arrancar a alma do autor de sua dor com as mãos e devorar como um maldito espírito obsessor.
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