34 - Inércia;
"Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito." Lucas 23:46
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O ser humano consegue suportar a dor até um certo nível - Passando disso, o estado de inércia se torna um refúgio, uma oportunidade de permitir que tudo adormeça, que o corpo padeça e que a alma chore e sangre até não sobrar nada além da escuridão sufocante e desesperadora... e mediante a este que o suicídio é uma das oportunidades que torna-se um desejo sombrio para aqueles que anseiam para não sentir nada.
O não sentir é uma benção na vida daqueles que sofreram mais do que podem contar.
Passaram-se três dias desde o ocorrido, desde a notícia que culminou, destruiu o futuro e fez a chuva tornar-se sangue na vida deste que permaneceu com vida, vendo-o seu amor ter a dele completamente arrancada sem dó - As horas não era notado, o mundo pareceu não existir e o corpo ainda com as vestes daquela noite, estava esticado na cama; os olhos escuros encarando o nada, toda a dor foi transformada em silêncio.
Jeon nunca desejou tanto estar morto.
Em certos momentos podia-se ver lágrimas escorrendo pela face petrificada, o peito subia e descia tão devagar que por uma fração mínima de segundo, Taehyung pensou que ele estava morto.
A polícia havia mandado uma intimação para que o policial compareça a delegacia para um breve depoimento sobre a infelicidade que levou para sempre Park Jimin - Kim continuava observando, não dormia, afastava o sono com bebidas diversas, depois de dois dias inteiros, tomou a liberdade de colocar Jungkook no soro para ao menos mantê-lo hidratado; tentou chamá-lo, conquanto, não fora correspondido e isso tem o deixado em uma agonia infernal e maldita.
Taehyung estava acomodado na cadeira de frente para cama, os olhos encarando o corpo inerte do Jeon - As roupas escuras parecia sugar toda luminosidade e calor que vinha de uma manhã totalmente abafada, o copo continha vodka e a garrafa se encontrava vazia... o cheiro do cigarro se juntava com a fragrância amadeirada e doce.
Jungkook se sentou na cama num ágil movimento, retirou a agulha que fora introduzida em sua veia, o olhar sombrio não enxergava Taehyung, não enxergava nada à sua frente porque nada era importante.
Tudo perdera completamente o sentido.
- Jungkook. - Taehyung tenta novamente chamá-lo, por estar a tantas horas em silêncio, sua voz estava grave, rouca e arrastada, como se fosse um modulador.
Não houve respostas, Jeon saiu da cama, rumando para saída que não conhecia, porém, seu corpo agia sozinho, os reflexos musculares o fez seguir.
- Jungkook. - Tentou de novo, indo atrás dele. - Ei. Consegue me ouvir? Por favor.
O mesmo abriu a porta, saindo para luz forte e o calor intenso do sol... seus olhos arderam, entretanto não o fez parar.
Andou quase três quilômetros, não sentindo o corpo suar e o cansaço doer cada músculo que o constitui - Chegou a delegacia, assustando alguns ali que tentaram desesperante entrar em contato, ligando e mandando milhares de mensagens. O delegado não protestou quando o viu indo para a sala de interrogatório, deu ordem aos policiais mais próximos e entrou na sala, fechando a porta, encarando a figura paralisada na cadeira, olhando para nada.
O garoto estava em transe e Lorenzo notou, pedindo num gesto para que fosse chamar uma ambulância - Não conhecia Jungkook, mas conhecia a dor dele pois sentiu a mesma anos antes quando perdeu a esposa para um câncer severo no estômago.
- Oficial Jeon. Sabe onde está? - Notou um menear de cabeça tão suave, quase imperceptível. - Sabe que dia é hoje? - Negou mudo. - Sabe quem sou ? - Assentiu.
Lorenzo não faria o depoimento, Jungkook não está apto para tal e seria antiético tentar obter resposta de alguém que foi tão vítima quanto o falecido modelo fotográfico.
A mídia precisou ser contida, jornais exibiram o assassinato, sites explanaram tudo que foi possível a respeito.
- Jungkook, há uma equipe médica aqui para cuidar de você. - Avisou em tom ameno para não assustá-lo.
Os olhos castanhos encontraram os acinzentados do delegado, a dor queimava ali... não por fogo, mas algo frio, como gelo, como chama prateada líquida e mortal.
- Onde ele está? - Perguntou, e sua voz era amarga, rude, machucada e sombria.
- No necrotério.
Lorenzo não ousou impedir quando Jungkook saiu pela porta, ignorando os médicos e qualquer um que o chamava.
O frio do ambiente causou tremor, o segundo sinal diferente que demonstrou em dias além de sua própria voz - Procurou Jimin nas gavetas até achá-lo, o corpo estava nu, os lábios roxos e a pele óssea; Jungkook sentiu a dor intensa levando-o a cair exausto de joelhos, a mão agarrada à destra fria.
- J-Jimin - ssi. - Gaguejou pelo frio que se instalava em seus ossos, congelando o cansaço, forçando o corpo a apagar.
- Preciso avisá-los. Preciso ligar para seus pais. Ligar para todos. - Falava sozinho, as lágrimas quentes escorriam pela face gelada e pálida. - Seus pais me ajudaram a escolher a aliança. Uma que combinaria com você. Jin hyung deixou as chaves da casa onde teríamos nossa lua de mel. - A voz não era ouvida por ele mesmo, os lábios se moviam, parecendo não emitir som algum.
Pondo-se de pé com dificuldade, Jeon olhou para o corpo antes de empurrar a mesa para dentro do armário e fechar a porta - Saiu do necrotério e logo estava fora da delegacia; tateando os bolsos não encontrou o celular, muito menos a chave do carro e do apartamento, ainda sim, seguiu a pé para o prédio. A cada passo, a cada parada, Taehyung observava, tentando encontrar uma forma de fazer Jungkook despertar daquele estado catatônico.
De frente para a porta do apartamento, Jungkook esperou o funcionário trazer a chave reserva - Seu coração parecia bater em seus ouvidos, o medo estava ali junto a negação do que aconteceu; o zelador não fez perguntas ao ver o estado deplorável do policial, apenas entregou-lhe a chave saindo em silêncio.
Respirar tornou-se ainda mais difícil, conseguia sentir o cheiro doce do loiro e todas as lembranças invadiam sua mente, como um filme sem som... pegando o telefone se sentou no sofá e discou o número dos pais de Jimin que atenderam no segundo toque.
Engolindo a acidez, deu a notícia, o choro compulsivo voltou ao ouvir o grito de dor de sua sogra e o desespero de seu sogro, por diversas vezes pediu perdão, o moreno não percebeu que estava novamente de joelhos, se curvando em dor e agonia quando a ligação ficou muda; soluçando, ligou para Namjoon e a notícia o atingia como diversos tiros, falar sobre fazia-o sangrar em decadência perpétua e silenciosa.
Quando a ligação ficou muda, Jeon não ouviu quando seu melhor amigo avisou que iriam pegar o primeiro voo e pediu para que aguentasse firme que logo chegariam.
Cambaleando ficou de pé, os lumes escuros olhando tudo ao redor e o ódio o tomou ali. Jungkook começou a destruir tudo, quebrando tudo que via pela frente a medida que as lágrimas escorriam pela face retorcida em luto e lamúria - Livros foram rasgados, decorações quebradas, a mesa se partiu pelo soco desferido, o cansaço não o fez ceder, apenas deu-lhe mais força para quebrar cada centímetro do apartamento.
Kim abriu a porta no segundo em que ouviu algo pesado se chocar contra a parede, entrando e vendo a destruição, encontrou-o parado como um soldado em meio a uma guerra, suor escorrendo pelo rosto e colo, o ofegar intenso e olhar perdido... em sua mão jazia uma garrafa de uísque, Taehyung notou ser o que ele havia o presenteado.
- Jungkook. - chamou baixo, pisando nos destroços, tentando se aproximar.
Ele não ouvia nada, seus sentidos estavam entorpecidos pelo estado catatônico, o susto do mais velho fez ser notável, Jungkook correu até o único cômodo que não destruiu.
O quarto que compartilhava com Jimin.
Jogando a garrafa no chão, abriu as portas do guarda roupa, separando roupas, acessórios e sapatos. O corpo agia de forma robótica, pois não era movido pela consciência e sim pelo trauma.
- Ele não gosta dessa cor. - Murmurou sozinho, rasgando a camisa e pegando outra, dobrando tudo, para ser colocado numa bolsa.
Seguiu para o banheiro, separando os produtos que o loiro usava diariamente, peças íntimas e meias limpas - A necessaire também foi colocada na bolsa.
- Jeon. Olhe para mim. - Tentou de novo.
Taehyung não era notado, tampouco ouvido e isso causou algo em seu interior que fez o impossível para não deixar ficar.
- Seu perfume. Tinha comprado mais porque vi que estava acabando. - Sussurrava, andando de um lado a outro.
Quando tudo estava pronto, a bolsa foi posta no corredor pequeno, numa batida de coração, começou a destruir... arrancou as cortinas, rasgando-as com as mãos, sua força fez Taehyung tremer dos pés a cabeça, previu tudo, menos a reação do policial.
A penteadeira foi jogada contra o armário, perfumes quebrados, espelhos jogados contra a janela que se partiu pelo impacto, assustando vizinhos que pensaram seriamente em chamar a polícia. O dossel de madeira da cama foi arrancado, sendo arremessado no banheiro, atingindo o espelho acima da pia - Kim tentou segurá-lo, entretanto, Jungkook acertou seu rosto com um gancho de direita.
Sangue escorria pelos braços e dedos, pingando no chão... soco atingiu a porta, seu punho atravessou a madeira fina, Taehyung afastou-se para não ser atingido.
Jungkook estava transtornado.
Completamente fora de si.
Não havia homem algum que o seguraria.
Pois Jungkook era uma bomba. Era um lobo que perdera seu grande amor em prol da loucura daquele que buscava despertá-lo.
Seus amigos conheciam essa parte sem consciência de Jeon... o ajudaram a conter a fúria e Jimin foi a base para fazer o demônio de seu interior adormecer.
Mas agora ele voltou.
Com ainda mais ódio queimando frio nos olhos escuros que eram tão doces e cheios de vida.
Arrancando as roupas seguiu para o chuveiro, deixando a água fria lavar o sangue que manchou a água de vermelho e foi levada pelo ralo - Trocando de roupa, pegou a mochila e saiu, os cabelos escuros pingando e a feição abatida e sem vida.
Taehyung permaneceu parado, fitando tudo e odiando por seus planos não terem seguido como queria.
Na delegacia, Lorenzo foi chamado seguindo com mais quatro policiais até o necrotério, parados na porta a cena foi ainda mais dolorosa. Jungkook sorria em meio ao choro, contando uma história e vestindo o corpo com as roupas que estavam bem dobradas, a morte pairava ali em um cheiro doce de laranjeiras e rosas - Lorenzo chorou, dispensando os outros.
- Lembra quando fomos à praia? - Perguntou. - Você caiu na areia tentando correr atrás de mim, fiquei em pânico e voltei. Você fingiu tudo e me derrubou na água. - A voz não passava de um sussurro. - O beijei e a sua boca tinha gosto de mar. Naquele dia eu vi que passaria minha vida toda com você. Que o faria feliz.
Os fios loiros foram penteados com carinho, as roupas escuras cobriram o corpo frio - A maquiagem deu cor à palidez e roxo dos lábios fartos.
- Todos estão vindo. O levaremos de volta e você ficará em Busan. Eu te amo, tá bom? Amo como tudo foi, Jimin-ssi.
Eu te amo tanto que dói.
Lorenzo saiu, limpando as lágrimas, pedindo que tentem entrar em contato com algum amigo íntimo para vir o mais rápido possível. Jungkook fungou, beijando os lábios sem vida, secando as lágrimas que pingaram no rosto eternizado pela morte - O ferimento da bala foi costurado, os dedos trêmulos deslizaram pela região.
A música que fizera para cantar em seu casamento fez Jeon despertar pouco, apenas para cantar, mesmo ciente de que Jimin não ouviria e mais iria.
O verão já se espalhou no ar
A brisa já está soprando
A última onda de frio está indo embora
Os dias estavam ficando cada vez mais longos
Mas os meus dias ainda continuavam e continuavam e continuavam
Eu me molhei no banho de Sol e olhei para o céu à noite
Foi uma noite bem solitária
Num piscar de olhos
A escuridão sumiu
Florescendo sob a luz do Sol
Memórias comigo e você
Todas essas luzes são coloridas por você
Todos esses momentos são preciosos devido a você
Quatro estações se passaram com você
Quatro aromas foram deixados por sua causa
Todas as razões pelas quais eu posso rir
Todas as razões pelas quais eu canto essa música
Grato por estar ao seu lado agora
Vou tentar brilhar mais do que agora
Será que isso vai desaparecer?
Será que é um sonho?
Me revirando na cama
Eu caio no sono novamente
Isso vai poder durar para sempre?
Com as emoções em meu coração angustiado
Eu tento me consolar
E afundar na noite, até que meus olhos se fechem
Em uma noite bem solitária
Sem eu perceber, as nuvens escuras se espalham
Gravado sob um raio de luz
Está o calor deixado por você e eu
Todas as luzes foram coloridas por você
Todos os meus tempos se tornam perfeitos
Quatro estações, mais uma vez
E tudo fica mais colorido, mais uma vez
Todas as razões pelas quais eu sorrio
Todas as razões pelas quais eu posso cantar essa música
Grato por estar ao seu lado agora
Vou tentar brilhar mais forte
Em uma noite estrelada
Espero que o meu você durma bem
Luz roxa brilhante
Grato por estar ao seu lado agora
Em uma noite estrelada
Espero que meu você durma bem
Luz roxa brilhante
Sou grato por estar ao seu lado
- Eu escrevi para você. - Chorou. - My You foi por você, por nosso amor. Por nossa história. Por tudo que vivemos e viveríamos. Jimin volta para mim. Por favor! VOLTA. POR FAVOR! JIMIN NÃO ME DEIXE...
A explosão aconteceu de novo, Jungkook gritou e seu grito pode ser ouvido por toda delegacia e um pouco fora dela - Lorenzo não permitiu que fossem até lá, todos ali sentiram a dor do colega de trabalho e quem entendia o sofrimento chorou junto.
Ouviram o canto doloroso, e o aperto queimou em todos os corações aflitos.
Por horas ficou ali. Sentado no chão frio, sentindo o ar gélido penetrar em seus ossos e permanecer ali, congelando suas emoções, endurecendo tudo de bom que havia. Apagando tudo de sua mente.
Apagou sua existência.
Deletou seu amor.
Bloqueou tudo sobre Park Jimin.
Os olhos encaravam o nada.
E assim ficou.
E assim será.
[...]
A noite se findou. Jungkook saiu da delegacia, andando como um fantasma. Descendo dos veículos, Namjoon correu, abraçando Jungkook que iria cair de novo e foi sustentado pelo abraço familiar.
Hoseok gritou nos braços de Yoongi.
Seokjin abraçava os amigos, o rosto já inchado pelas lágrimas.
- Jungkook. - Namjoon clama em desespero. - Meu garoto. Meu menino.
Jeon gritou de novo.
O mundo tremeu.
A chuva começou forte.
Trovões soaram no céu escuro.
Os cinco não se moveram quando os pais de Park se aproximaram de Jeon e Namjoon.
- Jeon. - A voz suave de sua sogra o fez olhar pra ela.
- Sora me perdoa. - Se curvou, tocando a testa no concreto molhado. - Me perdoe. Por favor.
- Meu querido. - A mais velha se pôs de joelhos, puxando o moreno para seu colo. - Jungkook.
- Faz parar. Faz a dor passar. - Implorou.
- Me matem. Me matem. Eu quero ele de volta. Eu quero ficar com ele. - Falava. - Namjoon me mate. Tire essa dor de mim. Por Favor.
Kim foi abraçado por Jin.
O mundo chorou pela perda do anjo.
E aqueles que ficaram sentiram o impacto de sua perda.
Parte da alma de Jungkook faleceu.
Longe da vista de todos, Taehyung apertava o cabo do guarda chuva.
Seu choro era de ódio e culpa... sentir isso o fazia querer fazer a chuva se tornar sangue.
Deus chorou junto a seus filhos, pela perda de outro.
O Diabo sorriu, orgulhoso pelas ações de seu discípulo.
Jeon não previu quando Jin injetou o sedativo em seu braço, sua sogra o ninava até que apagasse. Namjoon o pegou no colo para colocá-lo no carro.
Quando o dia começou.
Tudo foi preparado para levar o corpo para Coreia do Sul.
Park seria enterrado em Busan.
Levando de vez toda a humanidade de Jungkook.
Decretando de vez a condenação de Kim Taehyung.
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Referências: Cem Chances de Ruth Oliveira, My You - Jeon Jungkook (Jungkook - BTS)
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