27 - Lúcifer;

"Sinta a depressão como se nunca tivesse sentido um golpe só." SLIDE - Chase Atlantic

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Rasgos alaranjados junto ao dourado rasgavam o céu escuro, O moreno admirou a arte da natureza como quem admira a arte. A cor lembrava-lhe labaredas, um fogo incandescente que consome tudo até virar cinzas. Kim voltou ao quarto, fechando a porta de vidro da sacada, impedindo o ar gélido da manhã de adentrar o cômodo aquecido.

Sua cama é grande o suficiente para acomodar confortavelmente o casal que dormia tranquilamente; ele por sua vez não dormiu, após o sexo ardente, deixou que os dois dormissem, enquanto ele, velava o sono alheio e pensava freneticamente sobre tudo ao mesmo tempo, sua mente gritava, causava um zumbido infernal em seus ouvidos.

Vestindo uma bermuda junto a camisa, o moreno saiu do quarto, caminhou pelo corredor até chegar às escadas, descendo sem pressa, uma figura chamou-lhe a atenção, o homem de olhar felino estava absorto, encarando um ponto fixo, mas sem vê-lo, a garrafa que jazia ao seu lado estava quase vazia, ao que parece, ele também não dormiu.

Taehyung rumou até a cozinha, precisava de um café extremamente forte e amargo para manter-se desperto; a noite anterior foi regada a informações que ele não pensou que viria à tona tão rápido.

Servindo duas xícaras de café, este foi de encontro ao outro que estava do mesmo jeito que a minutos atrás, aproximando-se lentamente, o dono da menção estendeu a xícara transparente a visita, que piscou algumas vezes antes de olhá-lo.

— Parece ter tido uma noite difícil. — Comentou. — Beba, vai aliviar a ressaca.

— Obrigado. — Agradeceu rouco.

Yoongi tomou um gole pequeno, sentindo o amargor em sua língua quase dormente, franzindo o cenho, continuou a beber, Taehyung se sentou em outra extremidade do sofá, mantendo distância, a xícara entre os dedos longos, o olhar um pouco distante.

A manhã finalmente surgiu por completo, podia-se ouvir o cantar dos pássaros, as folhas verdes das árvores sendo balançadas pelo vento cortante, a vista era deslumbrante, trazia paz a quem melhor apreciava lugares afastados da cidade. Min terminou seu café, levantou-se um pouco atordoado, suspirou com pesar, estava cansado, não fisicamente mas mentalmente; sem dizer nada a Taehyung, este saiu, queria estar no quarto antes de Hoseok acordar.

Umedecendo os lábios, Kim procurou apaziguar o desespero que cresceu em seu peito durante a madrugada, permanecendo até agora, tomando seu fôlego, sugando sua alma como um maldito demônio faminto.

A despeito das horas em que se perdeu em dois corpos suados, nos gemidos contidos e roucos, Taehyung a anos não se sentia acuado, fazia tempo desde que desfrutou de um sentimento tão humano, tão comum; entretanto, odiava, reputava sentir com tanta intensidade ao pouco de sentir-se enlouquecer, a instabilidade que isso trás, poderia causar danos irreversíveis em seus planos futuros.

Por um milésimo de segundo, Taehyung cogitou a hipótese de não matar Park Jimin.

Enquanto o fodia devagar, atento a cada gemido, a cada sentada, ele pensou em não matá-lo. Era a primeira vez que se via confuso com uma decisão que lhe era tão normal, tão comum. — O ser humano tem suas falhas. Não importa quem, ou o que você é.

Sempre estará sujeito a uma crise existencial, a um surto de humanidade, sendo um monstro ou não. Você é o que é e não há um meio coerente de ser diferente, de mudar.

Seu desejo profano tinha nome e sobrenome, e para tê-lo, teria que se livrar do loiro, de olhar doce e rosto angelical, de um agir profano, lascivo e quente como o inferno.

Taehyung não percebeu o quão disperso estava até notar o delegado junto ao marido.

— Bom Dia. — Saudou.

— Bom Dia, não queríamos te incomodar, parecia um pouco fora de órbita. — O perito diz num sorriso contido.

— Imagina.

— Posso usar sua cozinha? Com certeza os outros vão acordar então, melhor fazer o café da manhã.

— A vontade. Irei lhe ajudar.

— Obrigado.

As oito e meia todos estavam diante a mesa farta, Seokjin fizera o que cada um comia durante as manhãs, enquanto contava histórias a Taehyung que ouvia com atenção, Namjoon em um momento e outro acrescentava algo, e assim seguiu. — Hoseok não falara com Yoongi pelo que o moreno notou, mas permaneciam um ao lado do outro, Jimin estava encostado no namorado, o rosto cheio corado, a camisa maior do que ele cobria seu corpo que era um tremendo pecado.

— Parece que só eu e o Joonie dormimos bem. O que houve com vocês quatro? — Jin pergunta, olhando como uma águia para os amigos.

— Noite em claro. — Foi o que Yoongi murmurou, a voz grossa ecoou como um sussurro.

— Percebi, bebeu a noite toda pelo visto. Pinguço. — Acusou-o num timbre carinhoso e debochado.

— Deixe-o Jin. — Hoseok intervém baixo.

— Que clima ruim. Pelo amor...

— Amor, deixe-os em paz. — Namjoon o corta, depositando um selar na bochecha do marido.

— Fiquem à vontade para usar o que quiserem da casa. Piscina, jacuzzi, academia e o que mais precisarem. Preciso cuidar de alguns assuntos importantes, passarei o dia todo fora. — Taehyung avisa.

— Obrigado. É muita gentileza sua. — Seokjin como sempre toma a frente antes dos outros.

Jeon olhou-o rápido, Jimin no entanto, manteve-se alheio ao restante.

Em seu quarto, o moreno tomou um banho rápido, criando alguma estratégia, algo que fosse impedir os outros de encontrar algo que levasse até ele; saindo do anexo segurando a toalha em volta do quadril, deparou-se com Jimin sentado em sua cama, o olhar um pouco perdido, o corpo levemente acuado. — Taehyung permaneceu distante, ignorando o fato de estar de toalha.

— Está tudo bem? — Perguntou sereno.

— Sim. Só estou com medo, Taehyung. — Sua cerne estava envolto em algo sombrio, frio e inquieto. — sinto que algo de muito ruim vai acontecer. — Consta, por fim.

— Não fique assim loirinho. Creio que seja apenas algum mal entendido, aquelas escutas não devem ser perigosas, ou quem as colocou lá, talvez nem funcione direito. — Retruca singelo.

— Tem razão. — As orbes castanhas encararam o moreno, não era um olhar brilhante que costumava ver, mas um opaco, repleto de sombras e medo. — vou ficar com meu namorado e nossos amigos.

— Se sentirá melhor com eles. — Afirmou o mais velho.

Jimin sorriu pequeno, saiu da cama e logo saiu do quarto, deixando Taehyung sozinho. Vestindo-se rápido, Kim optou por cores escuras, o jeans preto justo marcava suas coxas grossas, a camisa de manga longa e gola alta, era o único que era cinza, o par de coturnos foi posto, e por fim, este colocou o sobretudo preto pesado, para proteger-se do frio.

Seu intuito de sair não tinha nada a ver com assuntos importantes, apenas não queria permanecer na mansão, passar horas cercado por policiais não era lá muito prudente, portanto, após pegar os pertences necessários, Taehyung saiu do quarto, o cheiro gostoso, intercalando entre o amadeirado e doce o seguia.

No andar inferior encontrou todos acomodados na sala, o clima era pesado e não era todos que percebia.

— Estou de saída. Qualquer coisa, podem me ligar. — Avisou, um gesto tão puramente humano e comum que lhe causou certo enjôo.

— Para onde vai? — Jeon quem pergunta, o olhar cheio de questionamentos e desconfiança.

— Tenho uma reunião daqui a uma hora e meia com os representantes da minha empresa em Seul. — Respondeu pleno.

— Tome cuidado. Não sabemos quem deixou aquele equipamento em meu apartamento.

— Pode deixar. Até mais tarde.

Um por um acenou uma despedida rápida, Jimin permaneceu encostado no parceiro, os outros numa conversa que só diz respeito a eles mesmo e Kim não fez questão de saber.

Taehyung saiu da mansão rumo a garagem onde os veículos permaneciam, tanto os dele, quanto os das visitas; a despeito dos últimos acontecimentos, o moreno respirou fundo para não voltar a matar todos eles. — Adentrando o carro, este saiu devagar, manobrando para sair da propriedade o mais rápido possível, através da enorme parede de vidro, ele pode notar a figura do loiro, olhando para o veículo de cor rubra até sumir entre as árvores.

Seus planos por hora devem permanecer ocultos, enquanto os outros estiverem por perto, cada ação, cada gesto e palavra será analisado sem receio algum, Taehyung pode ver que cada um ali protegeria Jeon e Jimin com suas vidas se for necessário. — Portanto, ele terá de ser meticuloso, cuidadoso para que seus próximos passos sejam os mais sorrateiros possível.

Não tardou para que visse os prédios imensos e o tráfego intenso da cidade... Seus pensamentos se remetem ao casal repetidamente, o ódio que percorria suas veias o fazia querer torturar e destruir alguém de dentro para fora, odiava quando tudo saia de seu controle, detestava tal.

Conduzindo o veículo até o edifício costumeiro, Kim parou no caminho, comprou alguns maços de cigarros, e continuou o percurso. — Ainda que estivesse cedo, o moreno decidiu caminhar um pouco, podia ir para casa depois, tinha literalmente todo o tempo do mundo para se depreciar, se drogar até que sua mente estivesse entorpecida o suficiente para não permitir-lhe lembrar do que tanto lhe fere.

O sol surgiu brando, aquecendo as folhas verdes no alto das árvores, o lago enorme que se estendia pelo parque; algumas pessoas faziam seus exercícios matinais, outras apenas se sentavam e observavam um pouco da natureza e o ar que já não estava tão frigido assim.

Taehyung deixou seu carro em qualquer lugar e caminhou, os cabelos negros sendo acariciados pelo vento, o rosto um pouco pálido pelas noites em claro, entretanto, sua beleza era perpétua; próximo a uns dos muitos bebedouros espalhados pelo local absurdamente amplo, Kim avistou um banco de madeira branca, onde se sentou e retirou um maço do bolso do casaco, retirou o lacre, pegando um cigarro deixando entre indicador e médio, o isqueiro já em sua mão direita, acendeu a nicotina, tragando a fumaça, sentindo seu interior aquietar um pouco.

Ser o rei do caos e da dor infinda, tem seus altos e baixos, fatores que ao ver dele, eram bons e satisfatórios. Conforme fumaça e soltava a fumaça para o dia pouco ensolarado, seus olhos encararam as nuvens acinzentadas que prometiam uma chuva rápida, conciliar o moral e o imoral tem sido seu ardil, detestava fingir ser quem não é, repudiava se manter no personagem para que nada saia errado, ainda sim, as coisas fugiam de seu controle.

Kim Taehyung compreendia a ira de Lúcifer melhor do que ninguém, afinal, o celestial caído fora injustiçado, assim como ele fora, ver em primeira mão o quanto o ser humano era cruel e impiedoso não era para qualquer pessoa. Lembrar dos anos em que já tinha seu futuro cravado na carne, lhe causava dor, não uma dor que o faria chorar ou se depreciar, está dor era diferente, lhe dava uma espécie de nostalgia, uma sensação de bons tempos. Era doentio e psicótico, no entanto, ele não se importava. Nada importa.

Nada além de seus objetivos.

Jeon Jungkook é um homem centrado, habilidoso em tudo que fazia, mas ele tinha um ponto fraco, e este, tem nome e sobrenome. — Para ter o policial inteiramente para si, para moldá-lo a seu bel prazer, terá de ser através da dor insuportável da perda. Tê-lo estava mais perto do que nunca, a ansiedade tomava-o por inteiro, seus demônios clamavam seu nome, se arrastavam por sua alma, agarrando-a, louvando seu maldito nome numa submissão profana, num amor longe de ser puro, era um amor demônio, satânico, que não condiz com nada bom e genuíno.

Terminando o cigarro, jogou a guimba no lixo, retornou por onde havia vindo, estava cansado de estar ali. Kim estava farto da vida.

Entre um passo e outro o homem paralisou, o olhar fixo numa mulher junto a uma garotinha pequena, seu sangue congelou nas veias, o coração bateu com mais violência contra o peito. A visão lhe foi tão bonita que seus olhos facilmente vislumbraram algo impossível, uma cena surreal.

A mulher parecia com Yuna, a garotinha se assemelhava a sua falecida filha apenas devido aos cabelos longos e negros presos com um lacinho vermelho, as roupas infantis pesada para espantar o frio, a mulher sorria pegando-a nos braços, depositando um beijo nas bochechas gordinhas e coradas.

— Yuna. — Sussurrou, o nome lhe doeu como se fosse um nome santo na língua do diabo.

Retomando o caminho após o susto breve, Kim não fez questão de ver mais daquela cena, simplesmente passou pelas duas e seguiu até o carro, e desta vez, não parou em lugar algum, foi direto para casa.

Ainda lhe haja diferença entre o psicopata e o sociopata, também há certa familiaridade, visto que semelhante atrai semelhante, Kim se via apenas como um homem dono de si e de tudo que toca; o dinheiro que tem era infinito, poderia usar como quem quisesse, e ter quem quisesse, era trabalhoso, mas teria.

Jungkook era seu semelhante em aspectos muito pequenos, a inteligência que rege um, é o mesmo que rege o outro, a diferença é óbvia, todavia, Taehyung se pegava pensando: já que todo ser humano é um psicopata em potencial, Jeon seria um excelente se o manusear bem. Se levá-lo devagar por tal caminho tenebroso.

Entre um copo de bebida e outro, Kim apreciou o silêncio na cobertura, a melodia que estava baixa, quase como um sussurro diante a uma tempestade de inverno, ali, ele passou horas e horas, enfiado num estava quase catatônico, onde mal percebeu o tempo passar.

O despertar foi no minuto em que o relógio romano soou às seis da tarde, o copo que ainda continha whisky estava em sua mão a tanto tempo que o gelo se dissolveu por completo e a bebida ficou quente, o moreno havia simplesmente se entregado a um torpor, um sono que somente desligou sua mente e corpo, mantendo-o paralisado e de olhos abertos.

Todo o local foi tomado pela penumbra, a luz do abajur foi ligada, Taehyung grunhiu pela tensão em seus músculos ao movê-los depressa; o celular que estava no bolso do casaco foi pego, pelo ecrã, havia uma única mensagem, Jimin perguntando se estava tudo bem e se demoraria a voltar, não responderia, visto que estaria lá em poucos minutos.

Entrando no cômodo diferente do costumeiro, Kim acendeu a luz, revelando armamentos de diversos tipos e tamanhos, munições diversas nas gavetas transparentes dentre outros objetos de defesa; pegando uma maleta grande e pesada, depositou-a na mesa de ferro, abrindo-a, o fuzil SVLK-14 Sumrak foi pego, desmontado e colocado com cuidado com apenas uma bala, usaria em breve então melhor estar preparado o quanto antes... Fechando a maleta, Taehyung saiu do quarto, atravessou a cobertura pegando a chave do carro e a carteira, trancou a porta e seguiu, descendo escada pro escada até chegar no saguão, onde pode avistar seu carro intocado no meio fio, abriu o porta balas e colocou seu brinquedinho.

Não era sempre que usava armas como aquela, mas a ocasião é especial o suficiente para inaugurar o fuzil que comprou a um certo tempo. — O retorno não foi demorado, a estrada estava tranquilo, então chegou rápido, as luzes da casa estavam acesas, seu carro foi posto no mesmo lugar, num rápido olhar para ver se nada estava fora do lugar, Taehyung fechou a porta da garagem e adentrou a mansão retirando o sobretudo e dobrando-o no braço.

Sentiu um cheiro gostoso o receber, distinguiu outros aromas conforme caminhava até a cozinha, encontrando Jeon de costas para si, atarefado junto ao seu amigo que não recorda bem o nome, os outros estavam em algum lugar da mansão que ele não se preocupou em procurar, não havia nada suspeito ali.

Ao menos nessa não há, pensou contendo o riso.

Deixaria que Jeon aproveitasse o máximo que podia da felicidade, pois a dor viria reivindicá-lo quando menos esperar.

E não restará nada além daquele que estará pronto para segurá-lo e confortá-lo.

Conquistá-lo sem temor algum.

Da mesma forma que o moreno sofreu, Jeon sofrerá.

E será nesses momentos que Taehyung sentirá a fome maldita ser aplacada, sugará toda a infelicidade do policial.

Até se sentir satisfeito.

O que no pensamento maldito do homem, irá demorar.

Jeon é único então não se vê cansaço de ter tão preciosidade junto consigo.

O jogo era simples.

O final é incerto, um difícil, onde apenas um jogador será o vencedor.

Agora. Qual deles será?

Enquanto questiona, Jeon virou-se vendo-o parado, encostado no arco que divide a cozinha da adega, ele sorriu para Taehyung, tão meigo e inocente, e lindo... Jeon é lindo em todas as nuances.

Diante a constatação, Taehyung não percebeu.

Ele não percebeu que sorria para o policial de modo puro e genuíno.

:)

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