16 - Vazio;

Você não pode ser algo que não é

Seja você mesmo, por si mesmo,

Walk - Avenged Sevenfold

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Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro. Freud frisou num ímpeto de evidenciar o quanto o ser humano é capaz de lutar pela própria vida, mesmo que precise queimar sua alma e a luz que a habita para todo o sempre.

Viver mediante ao vazio, requer uma força além do natural, além do comum, algo que transpassa o universo, as constelações e planetas. Toda alma emana luz, frágeis e incandescentes que no primeiro abalo, apaga como uma pequena chama vinda de uma vela gasta, Kim teve a sua apagada pelo vento cortante ainda que jovem, conseguiu recuperar uma fagulha entretanto foi engolida por um mar frígido e tempestuoso, onde ainda permanece, não importa os dias, os meses ou o ano.

Não se pode acender uma vela molhada. Não existe fogo que possa reerguer um pavio curto e úmido pela maldade humana.

Não existe esperança para alguém que não acredita. Não há um deus em que se possa acreditar. Quando o único que o conhece, comanda o inferno e os demônios que lá existem. Lúcifer abrange sua repulsa pela criação de Deus; ele sabia do quão vergonhoso seriam as criaturas inferiores, desde o primeiro criado, Samael sentiu em sua cerne a maldade que se bem engatilhada, causaria um belo estrago.

E assim tentou, e assim obteve êxito. — A partir disto, o ser humano permaneceu apaixonado pelo caos, se deleitando com o sofrimento alheio e rindo do sangue que escorre como se fossem fogos de artifício sendo lançados numa noite escura.

Tão belo. Tão doentio e tão viciante.

Taehyung admirava os vidros sendo retirados dos ferimentos, seu quarto foi recebido pela luz solar, quente e receptiva, trazendo calor a um ambiente tão frio e sem vida. Conforme a pinça firme pelos dedos longos e pálidos retiravam os estilhaços, o homem sentia o sangue escarlate dar vivência a uma pele porcelana. — A água corrente e fresca lavou os ferimentos, agindo no automático, Kim limpou cada ferida com algodão e antisséptico, enfaixou a palma e encarou seu repleto no espelho oval acima da pia de pedra negra.

Cada um vive naquilo com que se identifica. Taehyung não se identifica com nada, e ali está, fitando sua beleza, paralisado com o quanto sua aparência era destrutiva, era psicótica e assassina. — A corda arrebenta no lado mais fraco. A fraqueza é apenas um meio inescrupuloso de acarretar uma situação inóspita. Enquanto a água forte do chuveiro lavava cada centímetro de seu corpo, Kim franziu o cenho pela dor e mal estar, efeitos da bebida que ingeriu, das emoções o enforcando e do pavor que escorreu por seus olhos ao ter uma leve alucinação de sua filha.

Estava sozinho.

Sua existência era levada pelo vento, direções opostas que o deixariam no mesmo lugar, que teria o mesmo destino. Viveu tanto, ceifou tantas vidas e no que isso resultou? O que lhe trouxe? Absolutamente nada.

Nada além do vazio, do nada, do fim e do renascimento de pensamentos suicidas e depressão em seu ápice. Apenas isso.

O chão polido era marcada de pegadas molhadas, o moreno segurava a toalha em volta do quadril estreito, abriu as portas do armário tirando as roupas que vestiria, a cada movimentar suas costas se comprimia, os músculos se moviam, era glorioso. Havia olheiras ao redor de seus olhos castanhos, os lábios perderam sua cor, nesta manhã, ao despertar no chão encolhido, sujo de sangue e fedendo a bebida cara, o homem constatou que hoje seria um dia de merda.

Os cordões da calça foram puxadas, a regata preta e larga permitia um rápido vislumbre da cobra negra tatuada em suas costas, calçando um par de tênis de corrida, Kim saiu de sua cobertura, desceu os lances de escadas e não tardou para correr. — O horário era desconhecido, pela luminosidade forte que fazia seus olhos queimarem e o desconforto se intensificar, devia ser pouco mais de seis e meia da manhã.

Os pulmões clamavam por ar, suor cobria seu pescoço, encharca o tecido leve da regada escura, alguns fios de seus cabelos grudaram na testa; Taehyung correu mais depressa, ultrapassando as pessoas, ignorando tudo ao redor. Apenas ele existia.

Apenas ele importava e o que se foda.

A corrida diminuiu para uma caminhada, Kim ofegava em busca de ar, a garganta seca exigia água gelada, portanto, comprou uma garrafinha na loja de conveniência que acabara de abrir suas portas, bebeu até a metade e se sentou num banco de madeira, que jaziam de frente para o parque central.

Demorou para a respiração voltar ao seu ritmo normal, Taehyung deslizou os dedos pelos cabelos umidos, a visão sensível pela ressaca notou uma silhueta distinta, correndo tranquilamente.

Era Jimin.

Entre ir atrás e ficar, Kim escolheu ficar, não estava com cabeça para saciar sua mente doentia, apenas queria ficar sozinho. Se odiar sem interrupções. — Nem sempre temos o que queremos, um xingamento mudo se findou em seus lábios assim que percebeu Park vindo ao seu encontro, o suor brilhava em sua pele, o ofegar era sensual, tão erótico.

Imaginou como seu caralho ficaria entre os lábios carnudos e macios do menor.

— Não fazia ideia de que gostava de correr pela manhã. — O ouviu dizer.

— Raramente o faço.

Jimin se sentou ao seu lado, bebeu, soltou o ar antes de inspirar novamente, secando um pouco do suor que escorria por seu rosto.

— Você está bem?

— Porque não estaria? — Retrucou áspero.

Park pensou um pouco, encarou a feição alheia e constatou que não, Kim não estava bem e seria bom não incomodá-lo.

— Nada. Vou indo.

O loiro se levantou para ir, mas seu pulso foi agarrado pela mão alheia.

— Não é preciso. Fique. Tome um café comigo.

O mesmo tremeu, a voz tão forte, tão presente e sombria fez seu coração bater rápido e o frio se instalar em seu estômago.

— Certeza?

— Absoluta. — Sorriu. — Não moro longe, caso prefira uma cafeteira não vejo problemas.

Não era bem o que queria, na verdade Taehyung queria mesmo ficar sozinho, porém há forças maiores do que si mesmo, e a cujar pelos olhos do loiro, viu ali algo nefasto; Jimin era um homem que não se pode dizer não, e se disser aprenda a lidar com as consequências. — O loiro, ainda que pudesse ser visto uma aura angelical acima de seus belos cabelos loiros, não escondia que o que era sujo e proibido era gostoso.

E Kim Taehyung era esse fruto que ele queria saborear dolorosamente, não só ele, como Jeon Jungkook também queria, ansiava.

Caminhando ao lado do mais velho, Jimin mandou uma rápida mensagem para o namorado, avisando que tomaria café com Taehyung, apesar do duplo sentido, seu namorado saberia e compreenderia o que pudesse acontecer durante o café.

Não é traição se ambos estão cientes da atração e compartilham ela, ambos só não sabiam que o homem por quem apreciam tal desejo impuro soubesse sobre.

Durante a ida a mansão mais próxima, Jimin ficou em silêncio, Kim encarava a cidade pensando no que faria e no quanto teria que se segurar para não matá-lo, entretanto suas vontades são outras então essa poderia esperar. — Não tardou para que chegassem no condomínio residencial luxuosa, o loiro ficou boquiaberto, não imaginava que o moreno possuía um patrimônio como aquele, o mesmo desceu e deixou que quem o convidou pagasse a corrida, até porque como um bom homem gentil, impediu que pagasse.

— Fique à vontade. — Disse Taehyung indo direto à cozinha.

O café estava sendo passado na cafeteira, o moreno pegou o que iria precisar na geladeira, o loiro ainda olhava tudo com fascinação, a camisa branca levemente transparente, deu a visão ainda que pouco, de seu tronco e abdômen, definidos na medida certa. Park Jimin era uma visão ainda mais deslumbrante, era lindo no sentido mais literal da palavra, diante a tal analogia, Kim sorriu ao perceber que seus desejos eram ainda mais gostosos pelo loiro, já que ele morreria em breve.

— Adoce se quiser, prefiro café amargo. — Comenta ao entregar uma xícara transparente fumegante com líquido negro.

— Obrigado. Sua casa é incrível.

— Ficará ainda mais impressionado com as outras, esta é mais simples.

— Você precisa rever o conceito, senhor Kim. — Retruca com um sorriso travesso.

Taehyung fizera alguns waffles, decorou com chantilly e morangos frescos, servindo sem receio seu convidado. O café foi silencioso, o moreno notava sem pudor o gemido que o loiro dera ao sentir o gosto doce da fruta junto ao chantilly, os lábios fartos e vermelhos era quase um crime de tão lindos.

Ignorando a dor de cabeça, o olhar suavizou, sua cadeira era próxima a do loiro e por isso, não pensou ao deslizar os dedos pela coxa alheia apertando um pouco acima do joelho.

— O que está fazendo? — Perguntou ainda que não soasse como repreensão e sim como um pedido silencioso e perigoso.

— Sabe o que estou fazendo.

Deslizando o indicador pelo chantilly, Taehyung levou aos lábios gordinhos entreabertos, forçando a entrada, ainda que acanhado, não recusou, pelo contrário, chupou o dedo alheio com erotismo, lambendo com tanta vontade que fez o homem mais velho grunhir; a ação era única e bem calculada, ele queria, sabia disso, então, porque não aproveitar? Pensou antes de afastar um pouco a cadeira e puxar o menor para seu colo, ambas pernas pendendo de cada lado das coxas alheias.

As mãos enormes apertaram a cintura, a bunda do menor se movendo em seu pau semi ereto. — Havia suor, havia tesão acumulado.

O gosto do pecado estava na boca do loiro implorando para que o pecador apreciasse o gosto como jamais experimentara.

— Não imagina o quanto eu ansiava por você.

Taehyung o apertou mais contra si, mordendo a área sensível do pescoço, deslizando a língua até o queixo rumo aos lábios onde o doce era um néctar dos deuses.

— Então mate sua vontade, pequeno. — Murmurou contra os lábios daquele homem que não era seu, mas que desejava ser.

Sem palavras apenas ações, Park Jimin beijou Kim Taehyung com toda a vontade que sua carne gritava e o sangue pulsava em todo seu ser. O ósculo não foi calmo e sim bruto, desesperado.

O proibido nunca fora tão convidativo.

Sentindo o pecado na língua molhada e macia do loiro, Taehyung entendeu o motivo de Eva ter sucumbido às investidas do diabo. — Porque tudo que não se podia para ter era ainda mais desejável do que aquilo que não podia.

Park Jimin era a maçã gostosa que satanás ofereceu junto com o primeiro ato hediondo cometido pelo ser humano.

Delicioso.

Quente.

Delirante como droga.

Jimin era isso.

Ele era o fruto.

E Taehyung nunca sentira tanta fome.

:)

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