09 - O Jantar;

"Andava de noite numa estrada. Estava cansado e doente. Fiquei olhando para o outro lado do fiorde; o sol estava se pondo; as nuvens estavam vermelhas como sangue, senti como se um grito passasse pela natureza. Pensei ter ouvido um grito. Eu pintei essa imagem. Pintei as nuvens como sangue real. As cores estavam gritando." Edvard Murch, seu quadro "O Grito".

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O jantar foi marcado dias depois do encontro repentino entre Taehyung e Jungkook, o moreno demorou cerca de três dias para finalmente mandar uma mensagem ao policial, até porque, precisava criar um ótimo contexto, uma bela cena para esse suposto jantar de agradecimento; para Kim, isso era uma oportunidade que não podia ser descartada, será ótimo conhecer melhor o casal, fazer com que ambos obtenham confiança o suficiente para que os próximos passos aconteçam de modo perfeito.

Taehyung se olhou no espelho, afivelado o cinto, o tronco estava exposto, a camisa social branca estava bem passada em cima da cama junto ao blazer, os cabelos estavam úmidos pelo recém banho, o aroma forte exalava pelo quarto do homem; deverá estar no apartamento do casal as oito da noite, estava bem adiantado, portanto não teve pressa para se vestir.

A mulher que mantinha em seu domínio pareceu ter enlouquecido após a morte do terceiro filho, o luto e a situação em que vivia, a perturbou de uma maneira tão desumana, que simplesmente enlouqueceu; Taehyung a olhava pela câmera enquanto abotoava a camisa, Amber por dias seguidos ficava na mesma posição, sentada na cadeira e olhando para a janela, os lumes apagados e inexpressivos, suas vestes ainda eram as mesmas do dia em que dera à luz.

Kim sorriu quando entrou no quarto dias depois de matar o bebê, como um demônio faminto, inalou o desespero alheio, o medo que cobria a pele suja e pálida da mulher, os gritos eram deleitosos, devido a isso, o moreno tomou a liberdade de não matá-la, pois ela era especial, como uma obra de Edvard Munch que tomou vida e mostra com graça todos os sentimentos depressivos que o pintor norueguês marcou em suas criações.

E Taehyung é um grande colecionador de arte.

Já bem vestido, o relógio foi posto em seu pulso direito, Kim sorriu ladino, pegou os pertences necessários e saiu do quarto, o vinho se encontrava em cima do balcão de mármore preto polido, escolheu perfeitamente para ocasião, as chaves do carro já estavam no bolso da calça social, portanto, pegou a garrafa e saiu do apartamento, caminhou pelo único corredor limpo e desceu poucos lances de escada, antes de prosseguir, sorriu novamente antes de voltar um andar, precisava ver se seu bichinho ainda estava vivo.

James se encontrava ainda amarrado, suspenso e como o moreno previra, estava apagado, a porta foi fechada devagar, Taehyung deixou o vinho no sofá velho e se aproximou do homem, o sangue seco lhe manchava a pele, a feição estava pálida, contendo umidade devido ao suor, era uma visão e tanto. Uma pintura belíssima.

— Hora de acordar bichinho. — A voz grossa do moreno despertou James.

O próprio, mesmo exausto sentiu o corpo congelar e tremer só com a voz de Kim, e fita-lo lhe trazia memórias sobre a dor, do dia em que simplesmente perdeu a consciência sem ao menos se dar conta e despertar já amarrado em um apartamento abandonado e sujo de poeira.

A ansiedade era imensa, pois não saber quando será seu último suspiro é apavorante, James beirava a loucura e a paranoia sempre que Taehyung aparecia de modo triunfal, caminhando com superioridade, com o olhar digno de um rei poderoso e impiedoso. É desconcertante o quanto o homem poderia exalar tantas sensações de maneiras diferentes.

— Estou cansado. — James sussurra, pigarreando em seguida. A fome e a sede lhe tiravam da realidade dolorosa constantemente.

— É notável. Infelizmente, teremos que deixar nosso momento particular para outra noite. Tenho um jantar importante, o que acha das minhas roupas? Estou bonito? — A voz mesmo carregada de sarcasmo, possuía rigidez, autoridade e comando. James não o conhecia, entretanto sentia em seus ossos que uma palavra errada poderia lhe causar dores que nem o próprio Diabo conseguiria causar com tanta eficiência e destreza. — Não se preocupe, James, me elogiar não vai lhe matar, mas a falta dela talvez. — Ameaçou ainda sorridente.

— Está bonito. — Respondeu sem vontade alguma.

— Obrigado. Se nos conhecêssemos em outra circunstâncias, claramente eu seria um modelo perfeito não e? — Alfinetou, não se importou com a falta de resposta, pelo contrário, levou o silêncio alheio como uma confirmação não verbal pelo comentário. — Bom, estou atrasado, nos vemos amanhã sem falta, James. — Kim deu leves tapinhas no rosto ferido do homem e saiu, levando o vinho consigo.

A noite estava úmida devido a chuva durante o dia, Taehyung adentrou o veículo, fazendo o retorno para dar algumas voltas para pensar melhor, nada poderia sair errado nesse jantar. O jogo era difícil, repleto de níveis e obstáculos, porém, como o criador, concluiria todos sem problema algum, pois o prêmio era belo, delicioso, algo único que merece toda a admiração possível, acima de tudo, merece alguém que saiba o quão raro és, e o quão bem cuidado será.

Algumas ruas depois o veículo parou ao lado do prédio em que Jungkook e Jimin moram, Taehyung ajeitou o blazer antes de sair, adentrou o edifício, não antes de ser parado pelo porteiro que precisava avisar o casal sobre sua chegada, não tardou para ser liberado e ir em direção ao elevador.

As portas de metal foram abertas no andar do casal, Kim foi rumo a porta exata, visto que já esteve ali semanas antes; tocou a campainha e esperou, ouviu o movimentar no interior do apartamento, em instantes ouviu a maçaneta sendo girada e a porta se abrir, dando a visão de Jeon com um sorriso contido.

— Boa noite! — Kim saudou de modo gentil e galanteador.

— Boa noite, seja bem vindo, por favor entre. — Diz rápido, o que denunciou rápido o quão nervoso estava diante a presença do maior.

— Com licença.

O ambiente não estava diferente da primeira vez que veio, Taehyung notou o cheiro delicioso vir da cozinha, o quanto a sala estava bem aquecida, o fogo baixo crepitava na lareira, as luzes acesas, tudo perfeitamente arrumado, com toques que só um casal e capaz de depositar para que fique do gosto de ambos e que traga boas lembranças. — Jimin apareceu animado.

— Seja bem vindo Taehyung.

— Obrigado. Trouxe para vocês. — Diz entregando a garrafa de vinho tinto meio seco Turning Leaf Pinot Noir.

— Uau! Parece perfeito. Obrigado, fique a vontade, o jantar está quase pronto.

Kim foi em direção a pequena sala, as cortinas estavam abertas, o moreno observou as diversas luzes de cores diferentes, o quanto a noite parecia vazia e cheia de intenções das quais não fazia questão de saber, pois em sextas-feiras o clima para muitos era despojado, cada um curtia o descanso a sua maneira, viajando, ou indo em um bom restaurante, qualquer coisa que pudesse apaziguar a semana corrida e exaustiva.

— Aceita uma bebida? — Jeon pergunta, chamando a atenção do maior.

— Sim, por favor. — Responde um tom aveludado.

Alguns livros estavam postos na estante de madeira branca, Taehyung a fim de não parecer estranho, decidiu dar uma olhadas nos exemplares que ali havia, em sua grande parte, eram romances clichês, postos em ordem alfabética, muitos dali lhe fez lembrar de sua falecido esposa, pois a mulher era tão apaixonado por arte e literatura da mesma forma que Taehyung era. — sem perceber, seus dedos longos pegaram que não era conhecedor da história em si, mas conhecia o escritor russo Liev Tolstói.

— Jimin gosta muito deste livro. — Jeon comenta, entregando-lhe um copo de vidro contendo uma dose de whisky.

— Presumo que ele seja adepto ao romance, certo? — Retruca sorrindo.

— Sim, dentre nós dois, creio que ele seja o mais romântico.

— Não se considera romântico, senhor Jeon? — Retruca, num timbre sereno e curioso.

— Visto que Jimin me atura, creio que consigo me virar com essa questão. — Brincou.

Kim sorriu mas não expandiu o assunto, preferiu observar o rosto lindo do policial, que mesmo sério, era jovial, infantil, lhe fazia lembrar de quando era mais novo. Jungkook despertava-lhe fascínio a cada vez que seus lumes encontravam com os do menor.

— Vamos jantar? — Park Jimin anuncia, chamando a atenção dos dois que pareciam esperar por isso para que a tensão evaporasse dali.

— Parece ter bom gosto para vinhos Taehyung. — O loiro, ao experimentar.

— Visitei muitas vinícolas ao longo dos anos.

O vinho de tom rubi claro, possuía olfativa de cerejas e amoras maduras, com delicadas nuances florais e de especiarias; o gosto era leve, fresco, com taninos macios e doçura sutil. Kim soube que cerejas combinavam com Jeon, o tom vermelho combinava com o homem, nisto, Taehyung imaginou o quanto aquela pele alva ficaria linda toda marcada.

— Com o que trabalha? — Jimin pergunta, visto que da relação, ele é o mais comunicativo. Jeon gosta de observar da mesma maneira que Jimin gosta de se comunicar, combinação perfeita, Taehyung imaginou contendo o sorriso malicioso.

— Eu era dono de algumas empresas em Seul.

— O que aconteceu?

— Nada, apenas estava farto de tudo aquilo, permaneço o dono, mas quem dirige tudo para mim são os antigos sócios do meu pai. — De fato, era verdade, fazia anos que não visitou o que tanto suou para construir, fazia reuniões por vídeo chamada, ordenava de longe, e tudo andava bem o suficiente para sua presença não ser exigida pessoalmente.

— Isto é incrível. É um homem de negócios como bem imaginei. — O loiro admite sem pudor.

O jantar estava divino, além de modelo bem requisitado, Jimin possuía uma habilidade impressionante na cozinha, o peixe estava grelhado junto a legumes regados no azeite na medida perfeita, o molho agridoce deu um toque final que Taehyung apreciou tão bem que conseguia descrever todo tempero usado.

Com o prosseguir da conversa paralela, Jeon sentiu conforto o suficiente para falar uma coisa ou outra, seus olhos escuros avaliava Taehyung, procurando algo que não sabia bem o que era, e quando abriu a porta para recebê-lo, percebeu tão rápido quanto o acender de luz, que o moreno não usava mais a aliança; depois disso, não admitiria em voz alta no quão elegante Kim era, o cheiro amadeirado fez o menor corar e quase gaguejar, a última vez que esteve dessa forma, foi quando Jimin lhe foi apresentado através de seus amigos que deixou em Seul.

Jeon desde jovem era observador, com sentidos aguçados, usava isso a seu favor em casos que lhe eram entregues, e para proteger seu amor, ficava em alerta vinte e quatro horas. Não iria querer que o que aconteceu anos antes, pudesse acontecer de novo; convidar Kim pareceu ter sido rápido demais, visto que era só um vizinho que lhe emprestou o isqueiro e lhe desejou boas vindas.

— Kookie? — A voz doce de seu namorado chegou em seus ouvidos.

— Sim?

— Seu celular está tocando meu bem.

— Desculpe, irei atender no quarto, volto daqui alguns minutos.

O moreno observou Jeon se levantar rápido e sumir no corredor estreito, a observação não era feita só pelo policial, Taehyung dava atenção às histórias do loiro, mas também estava atento a cada olhar, respirar e movimentar de Jungkook.

— Espero que sejamos bons amigos Taehyung, é complicado vir para um país onde tudo é diferente... Fora que eu e Jungkook-ah não conhecemos absolutamente ninguém. Deixamos tudo em Seul, as vezes sinto que exijo demais dele. — O tom de voz mudou drasticamente. Jimin sentia-se cansado e preocupado, temia que Jeon não se sentisse bem, que sua carreira pudesse afetar a do namorado.

— Ele parece o amar incondicionalmente Jimin, e se aceitou de bom grado vir para cá, então não está exigindo nada. Caso continue a se sentir assim, pergunte a ele. Acho que todo relacionamento com bom diálogo tende a durar mais. — A sinceridade fingida escorria pelas palavras bem ditas, no sorriso lindo e nos lábios avermelhados.

— Tem toda razão.

Jeon voltou à mesa, pedindo novas desculpas e sorriu para o namorado antes de se voltar para a visita diante de si.

— Meu amigo tende a ser inoportuno às vezes.

— Jin parece sentir quando estamos ocupados. — O loiro brincou.

— Agradeço pelo convite, o jantar estava divino. — Taehyung já estava farto de ficar ali, sua mente gritava, tornando difícil pensar em algo decente para dizer ou um assunto para manter.

— Não quer ficar mais um pouco? — Jeon pergunta.

— Está tarde, estou dirigindo e tenho alguns projetos para avaliar. — Mentiu.

Prestes a ir, o moreno se despediu, prometendo um outro jantar que dessa vez será por sua devida conta, Jimin pareceu ansioso e animado e Jeon mesmo que contido, sentiu-se da mesma forma; Taehyung saiu do apartamento, ao ouvir a porta se fechar suspirou de alívio, apertou o botão chamando o elevador.

O sorriso que lhe enfeitava o rosto era ardiloso, sádico e maldito, parece que novamente tinha algo para bolar que pudesse trazer a intimidade que achou que não precisaria impor agora.

Durante a conversa, Kim notou que mesmo Jimin tendo a aparência de um anjo, por detrás dos olhos era um demônio, sedento, e principalmente, era manipulador, não disfarçou o interesse que sentiu pelo maior, interessante como as coisas se revelam para aqueles que observam bem. Park Jimin possuía gostos peculiares, e Jeon era o homem que não dizia não, temia sim o desconhecido mas aceitava só para agradar o loiro, Taehyung gostou de compreender só por observar. Portanto, os próximos passos podem levá-lo a um patamar repleto de luxúria, prazer, e calor, ou poderá conduzi-lo por fim, a morte do loirinho que também lhe trará prazer constante, tão quente como as chamas vindas das profundezas do inferno.

Haviam mistérios naquele sorriso, porém, aquele olhar escondia um lago profundo de pecados.

Estava cedo, não era nem meia noite, Taehyung estava farto dos pensamentos inúteis que lhe tomavam a mente, sentado no sofá, com o copo em mãos já quase vazia se encontrava apoiado na coxa direita, o blazer foi deixado no encosto da cadeira assim que adentrou seu apartamento, os primeiros botões da camisa foi aberto, deixando uma parte de seu peito a mostra, o próprio não fizera questão em acender luzes ou velas, nem mesmo se preocupou em ouvir alguma música que pudesse acalmar seus demônios famintos e sedentos por sangue.

Kim queria um pouco de sossego, precisava para pensar melhor, pois pensamentos desenfreados lhe desencadeia uma agonia infernal, uma ansiedade que o fazia querer arrancar a pele com as mãos, gritar de dor e gargalhar ao mesmo tempo. Maldito seja. Maldito seja o prisão na qual foi posta sem ter cometido crime algum, não se lembrava de quando a felicidade foi duradoura, não se lembrava de absolutamente nada.

Tudo pareceu ter sido moldado para lhe torturar, noites a fio, acordou suado, desesperado, ouvindo a voz de sua mulher ou o sorriso infantil de sua filha; uma tortura tão bem criada que o ódio estava tão afiado quanto uma faca. Quanto mais isso lhe acontecia, mais descontava em quem tinha a infelicidade de entrar em seu caminho.

Terminando sua bebida, Kim se levantou saindo rápido, desceu as escadas arregaçando as mangas da camisa social até os cotovelos, adentrou o apartamento como um demônio, James chorou ao vê-lo, implorou para Deus protegê-lo da ira do Diabo.

— Desculpe James. Deus não está aqui e jamais estará. Sua reza é em vão e a dor é sua punição. — Taehyung debocha sorrindo, a voz grossa e arrastada parece distorcida, como se fossem inúmeras vozes, soando na mesma frequência e na mesma hora.

Era como se Kim Taehyung fosse de fato a cópia fiel de Satanás. Se realmente for, significa que a Terra é seu novo inferno e que o céu não é mais o limite.

Que Deus além de ser a junção de paz e redenção. Passou a ser a esperança desesperadora e almejada por aqueles que sofrem nas mãos do moreno.

E como ele mesmo disse.

Deus não está aqui. Jamais esteve.

Jamais estará.

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Frase de livro mencionada:

O Diabo é meu Príncipe (VParkMin)

:)

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