05 - Investigação Criminal;

"Não existem fatos, apenas interpretações" Friedrich Nietzsche.

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A visão do amor muita das vezes é regada a sensações genuínas, tornando-o um sentimento de bom grado, e muito bem acolhido por quem o sente.

Para Nietzsche, o amor nada mais é do que uma insidiosa armadilha do egoísmo; que termina por saciar o seu desejo de conquista, abrindo caminho para outras formas de dominação.

O egoísta aspira ser o único alvo dos sentimentos da pessoa amada, além dele, há diversos outros filósofos, poetas e escritores que vêem o amor como uma doença, uma praga sem cura, fadado a levar tudo, e quando é mencionado "tudo", significa que sua vida será como uma montanha-russa, as vezes em cima, e na maioria dos casos embaixo, beirando quase ao núcleo da Terra.

Jeon Jungkook sempre fora um garoto seguro de si, traçou todos os seus objetivos ainda jovem, e por uma sorte do destino, conseguiu cada uma delas: Ser policial investigativo, ter uma ótima estabilidade financeira para ajudar os pais; e também, viver um grande amor.

No auge de seus vinte e cinco anos, passou a ser conhecido como prodigy policeman; claramente fazia jus a tal atributo. Era feliz, porém após mudar-se sentiu uma escuridão pairando próximo de si, como se buscasse encontrar qualquer brecha para se findar em sua vida, engolir todas as cores, destruindo qualquer luz que tanto lutou para se manter acesa.

A parte ruim de ter vivido praticamente uma vida perfeita, uma vida no qual o sol jamais parou de brilhar, onde tudo é colorido e radiante... É que a tempestade torna-se nada além de um mero pesadelo, algo fantasioso.

Jeon despertou às quatro da manhã em ponto, sentiu seu corpo pesar sobre o colchão macio, ao seu lado, Jimin ainda dormia, os cabelos loiros um tanto emaranhado, o edredom cobria-o até o quadril, portanto seu tronco estava exposto, a pele alva, o abdômen trincado e lindo de se admirar; Park Jimin é surreal, fazendo o moreno, muitas vezes, acreditar que ele és uma ilusão, que ele está beirando a loucura, uma insanidade bela, que o leva a sensações genuínas e fervente, viciante e sem reservas de que teria um fim; e Jungkook se apaixonava perdidamente por seu companheiro todos os dias como se fosse a primeira vez.

Sem vontade alguma, levantou-se devagar, para não acordar o loiro, seus pés tocaram o piso gelado, causando arrepios e choques por seu corpo ainda quente.

O mesmo tomou um banho quente, sem pressa, o corpo musculoso, dono de uma beleza absurdamente incomum, as admirações eram extremas: desde sua aparência, até o quão perfeito és em tudo que faz.

Em algumas vezes Jungkook foi comparado a Apolo; pois o deus grego incorpora tudo o que ele aparentemente é... A grandeza, a pureza e a prudência; a luz metafórica, que inspira o coração da mesma forma que o Sol ilumina o mundo. E mesmo sendo tudo, Jungkook tinha seus defeitos, obviamente, até porque, não há ser humano perfeito. Nunca houve e jamais haverá.

Após o banho, Jungkook fez sua higiene matinal, o tronco ainda úmido pelo recém banho, era possível ver gotas mornas escorrendo por seu pescoço, caminhando rumo ao abdômen definido, outros pela cintura fina; os fios negros foram secos e penteados de modo formal, deixando a testa exposta, lhe dando uma feição um tanto intensa e intimidadora; suas roupas estavam em fácil acesso, o próprio se secou e vestiu-se mesmo no escuro, sempre era assim, e em todas as vezes Jimin reclamava por ele fazer tal coisa.

A gravata foi ajeitada, a camisa social branca bem passada, junto ao paletó negro; o restante de suas coisas foram deixadas no aparador que ficava no corredor de seu quarto, portanto, saiu apenas de meias, com os sapatos sociais caros e polidos nas mãos.

O café estava sendo passado na cafeteira, o cheiro delicioso adentrava seus pulmões, dissipando a sonolência que insistia em permanecer, pesando seus olhos; com calma Jungkook verificou sua Glock.40, mantendo-a descarregada, era quase como um ritual, sempre ao chegar, retirava o carregador e mantinha a arma indefesa dentro no coldre que era posto no cabideiro, fazia-o em sinal de respeito, tanto por seu trabalho, quanto por seu namorado que logo será seu marido.

O pedido ainda não foi feito, entretanto, Jungkook espera uma oportunidade onde possa preparar tudo de maneira adequada para tal pedido.

O moreno serviu-se de café e sentou-se na cadeira, os lumes fixos em um ponto cego, repassando novamente seus dias anteriores mentalmente; ter conhecido seu suposto vizinho o incomodou, ao mesmo tempo que sentiu familiaridade no homem, também sentiu estranhezas, como se o ar houvesse se tornado rarefeito, a gravidade pesando em seu corpo, tornando impossível um mínimo movimentar.

Taehyung lhe pareceu intenso, fechado, carregado como nuvens escuras em um dia tempestuoso, todavia, não negou o fato dele ser intrigante, diferente, quanto mais o homem se fazia presente, mais Jungkook sentia sua vida inabalável se abalar.

— Kookie? — Uma voz manhosa e sonolenta veio do corredor.

Jeon despertou-se de seu torpor ao ver Jimin coçando os olhos, vestindo sua camisa, as pernas nuas, o deixando ainda mais lindo.

— Oi amor, está muito cedo, volte para cama. — O mais velho pediu com carinho.

Jimin caminhou ignorando-o, se sentou sob as coxas grossas de seu namorado e encostou a cabeça na curvatura do pescoço alheio, sentindo o cheiro delicioso de cedro e menta, mesclado a café; Jeon sorriu apertando-o contra si, como quem quem nina uma criança.

— Pare de perambular pela casa como um fantasma, Jungkook. — O loiro repreende quase adormecendo. — Não ligo que me acorde, amor.

— Eu sei. — Confirma baixo, o timbre rouco e arrastado causando no loiro um conforto absoluto, levando-o a ronronar como um gato e se encolher nos braços fortes de Jeon. — Ainda sim prezo por seu descanso bebê.

Um selar foi depositado nos cabelos macios e cheirosos do loiro; a xícara de porcelana foi abandonada, Jungkook segurou Jimin com mais firmeza e ficou de pé com ele nos braços, levando-o de volta para o quarto.

O relógio digital marcava dez minutos para as cinco, Jungkook pegou as chaves do carro junto a outros pertences e saiu trancando a porta em seguida, seguindo pelo corredor até o elevador, o botão foi pressionado, os números subiam até seu andar, com um suspiro, adentrou e pressionou novamente o botão, dessa vez para o subsolo.

[...]

As ruas estavam pouco movimentada, devido ao horário, Jeon dirigiu seu SUV tranquilamente, Moonlight preenchiam o veículo, a sonata melancólica de Beethoven causava no moreno certa nostalgia, Jeon apreciava a arte em seus diversos aspectos, a julgar por sua aparência, ninguém pensaria sobre seus gostos um tanto cultos e formais.

O departamento não era tão longe, aos poucos o céu noturno foi clareando, pequenos feixes num tom azul claro manchava toda a escuridão; não tardou para que Jungkook estacionasse na mesma vaga desde que pediu transferência.

Tal pedido trouxe inúmeros questionamentos, o delegado de Busan ficou inconformado e chateado pelo pedido que jamais pensou em ouvir de Jeon, entretanto compreendia.

Todavia, o amor e a dedicação que o homem tinha por seu companheiro era visível aos olhos de quem queria ver, e diante tal olhar, era fácil perceber que Jungkook seguiria Jimin para onde quer que fosse. Iria até a lua por ele. Viajaria por todo o espaço se assim o fizesse ter o loiro consigo.

A reunião começou no horário exato em que fora combinado, Jungkook se ajeitou na cadeira de encosto alto, o delegado que o próprio possuía apenas vínculo profissional, organizava os papéis enquanto cada um que foi chamado, ocupava seu lugar.

Morgan Parker ainda está desaparecida, e com ela, temos referência de que outras jovens desapareceram da mesma maneira, em um espaço de tempo considerável.

As fotos das vítimas foram exibidas, as idades eram semelhantes, entretanto a aparência era diferente. Visto que não havia sequer pistas, o caso se mantinha parado, tão parado que chegava a frustração.

— No total são quase dez jovens desaparecidas nos últimos seis meses, algumas testemunhas foram ouvidas, mas infelizmente não obtivemos nada de novo. — Enfatiza, exasperado.

— O que o senhor quer que façamos senhor? Não encontramos nada em câmeras aos arredores dos locais onde essas mulheres desapareceram, amigos e outras pessoas não viram ninguém suspeito. Como podemos investigar algo? — Questiona um policial no qual o moreno não sabia o nome.

Uma pausa foi estabelecido, o delegado suspirou exausto, ajeitando a gravata, Jungkook é um bom observador, e concluiu que o homem estava sendo pressionado, estava ansioso, nervoso e frustrado por seu trabalho não render frutos; é compreensível, casos como esse tem todo tipo de atenção, e quando não surge algo novo, tudo tende a ficar pior, quase a beira de um colapso.

— Senhor Jeon? — O delegado o chama como quem implora por ajuda.

— O que você tem a dizer sobre? — Pergunta após ter a atenção alheia sobre si.

— Não posso dar respostas no momento senhor, ao menos não por agora... Peço que me dê todos esses arquivos, há algo que não se encaixa. — Supõe sério.

— O que não se encaixa? — Questiona.

— Disse que tanto as testemunhas, quanto as câmeras não capturaram absolutamente nada, nem mesmo o trajeto das vítimas... Me pergunto o motivo, porém, tenho certeza de que, quem quer que tenha as pego, é inteligente o suficiente para adulterar filmagens e o que lhe for benéfico para ocultar seu trabalho e sua imagem. — Afirma com convicção.

Todos ali permaneceram quietos, uns o admiravam em silêncio, já outros, o odiavam pelo simples fato de ter oportunidades com o delegado, sendo que não havia nem um mês que havia chego ao departamento.

— Certo, lhe será entregue tudo o que conseguimos, Jeon. Espero que possa encontrar algo importante, os malditos jornalistas estão me infernizando por respostas assim como a promotoria... O restante, peço que falem novamente com familiares e amigos das vítimas, talvez haja algo que tenhamos deixado passar. — Ordenou autoritário.

Com tudo já dito, David dispensou todos, Jungkook ajeitou seu paletó ao fixar de pé, saiu da sala rumo a sua, a manhã cinzenta já se fixara; de sua sala era possível ver a avenida, e prédios cada vez maiores.

Seu espaço de trabalho não era tão diferente da sala que tinha em Busan, o escritório era pequeno, mas tendo apenas o necessário, Jeon se sentou na imensa cadeira de couro negro, o notebook ainda estava fechado, tudo extremamente organizado, o moreno não era fã de decorações que pudessem deixar algo de sua vida particular explícita, entretanto seus lumes se mantiveram no único porta-retrato de vidro que havia sobre a mesa, Jimin sorria agarrado em Jungkook, ambos haviam viajado para Tóquio, uma das melhores viagens que havia feito com o amor de sua vida.

A imagem que transmite é completamente oposta a imagem que tem quando sai do trabalho, aprendeu muito com a vida ao ponto de separar tudo como se organizasse livros em ordem alfabética ou cronológica em uma estante.

Cada arquivo foi deixado em sua mesa, junto a um copo descartável de café fresco, Jungkook retirou seu paletó, colocando-o sob o encosto da cadeira, afrouxou a gravata, arregaçando as mangas da camisa social branca, o conforto de estabelecia assim; seu namorado costuma elogiá-lo de modo malicioso ao vê-lo formal, com o coldre de couro frouxo junto as armas, francamente, Jungkook era irresistível não importa o que usasse, seria admirado da mesma forma.

As horas foram passando e passando, a manhã havia ido tão rápido quanto a tarde, o sol já se punha no horizonte, a pequena sala estava iluminada pela luz alaranjada, Jungkook estava focado o suficiente para só notar quando precisou acender a luz, cada arquivo fazia-o anotar mentalmente e em post-its coloridos pontos cruciais; nenhuma delas tinham conexões, todas eram únicas, levando o moreno a crer que o assassino, ou assassina agia aleatoriamente, não era ingênuo ao ponto de acreditar que estavam vivas, entretanto torcia para que ao menos uma esteja, a que sumiu recentemente.

Próximo das nove da noite, Jimin ligou para se certificar de que estava tudo bem com Jungkook, pelas horas a fio, o moreno deixou claro que chegaria tarde e que provavelmente o loiro estaria dormindo, com a ligação encerrada, Jeon deu uma pausa para comer algo, estava a horas sem comer e até isso não notara.

Havia um restaurante há uma quadra da delegacia, portanto, Jungkook decidiu caminhar até lá, o ar noturno estava fresco, tocando sua pele quente e apaziguando a tensão e o cansaço por todo seu corpo.

O cheiro delicioso de queijo derretido junto a carne mal passada invadiu seus sentidos, fazendo-o quase grunhir faminto; o próprio ocupou uma mesa próximo a enorme parede de vidro, podendo ali, observar as pessoas indo e vindo, rumo a direções que jamais saberia e tampouco se importa.

Após ser atendido, Jungkook apreciava o gosto fresco do suco de laranja natural, em seu celular as pesquisas continuavam, não ignorou o fato do frio se instalar por seu estômago ao se deparar novamente com o pub que havia ido com Jimin, aparentemente o lugar onde a vítima havia desaparecido.

Ser policial investigativo era complicado, se encarregar das vidas ou do fim delas era triste e deprimente, não era uma profissão para qualquer um; nos primeiros meses Jungkook sentiu dificuldade, também um pouco traumatizado diante a cenas de crimes que até hoje tem pesadelos, a crueldade humana era posta diante de si como arte em museu, claramente de uma maneira dolorosa e traumatizante...

A vida era como uma via expressa, levando a direções distintas, traçando linhas impossíveis de serem alteradas; a dor é um sentimento inevitável, e dependendo de situações, o final feliz é praticamente inexistente.

Jamais o ser humano será capaz de lidar com a morte sem sentir o peso que ela trás. Portanto, Jungkook procurou seguir à risca o que tanto seu pai ensinou.

O jantar lhe foi entregue, a comida o fazia sentir-se vivo, a cada gosto a satisfação e a normalidade se instalava dentro e fora de si.

Enquanto comia, Jeon facilmente deixou sua mente e espírito vagar pela reflexão que tanto fala sobre si mesmo, mas que nunca teve coragem suficiente para dizê-las em voz alta.

a carne cobre os ossos

e colocam uma mente

ali dentro e

algumas vezes uma alma,

e as mulheres quebram

vasos contra as paredes

e os homem bebem

demais

e ninguém encontra o

par ideal

mas seguem na

procura

rastejando para dentro e para fora

dos leitos.

a carne cobre

os ossos e a

carne busca

muito mais do que mera

carne.

de fato, não há qualquer

chance:

estamos todos presos

a um destino

singular.

ninguém nunca encontra

o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam

os ferros-velhos se completam

os hospícios se completam

as sepulturas se completam

nada mais

se completa.

( Sozinho com todo mundo - Charlie Bukowski)

Assim como o próprio poeta, Jungkook também lamenta a solidão que o rodeia constantemente, enquanto Charlie relata o quanto o amor entre as pessoas nada mais é que algo carnal e infrutífera, que é algo fadado a desejos carnais, quase beirando ao inútil; Jeon Jungkook não pensa da mesma maneira, obviamente vive um caso raro de amor puro e genuíno, e jamais abriria mão, pois algo tão raro quanto artefatos históricos, merecem ser cuidado e apreciado com total devoção.

Bukowski também refere-se o amor a lixeiras e ferros-velhos onde os objetos inúteis são reunidos. Em seguida, recorda que entre os seres humanos, apenas os loucos e os mortos estão próximos, "nada mais se completa".

Ou seja, todos aqueles que estão vivos e supostamente sãos, cumprem o mesmo destino: estar "sozinho com todo o mundo".

E ele nunca esteve tão certo.

:)

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