Capítulo 5: Fragmentado.



  Henrique levou o filho, pelo braço, para fora do quarto, soltando-o no balcão da cozinha, ofegante. Não sabia o que dizer, muito menos como proceder diante da situação impensada.

— Você não tinha saído? — O pai indagou atônito.

— Não tá me vendo aqui? Voltei. — rebateu.

— Olha... — Henrique gesticulou nervosamente.

— Não precisa explicar nada! — Pedro rechaçou.

— Preciso te explicar... — a voz tremeu.

— Explicar o quê? Está claro! — interrompeu, olhando para o quarto — Fernanda e você tem um caso há muito tempo, não sou surdo! — tentava agrupar as palavras. — Por isso ela não gosta de mim, não é?

— Não sei... — estava atordoado. — Só quero que você entenda...

Pedro desviou do pai e invadiu o quarto.

— Pedro, venha aqui! — tentou, em vão, impedir o filho de entrar.

— Então é por isso que eu não posso sequer me aproximar da Amanda? — explodiu com fúria.

— Você entendeu tudo errado, garoto! — ela revirou os olhos.

— É por conta do caso de vocês?

— Não seja burro! — bradou.

— Não subestime a minha inteligência! — Pedro retrucou no mesmo tom.

— E desde quando você é inteligente? — ela rebateu crispando os lábios.

— Sou muito mais do que imagina! Agora, responde a minha pergunta! — elevou ainda mais o tom de voz.

— Para com isso, Pedro! — interrompeu o pai.

— Respondendo a tua pergunta... Não. — a mulher gritou. — Não quero um tipinho feito você, com ela.

— Fernanda! — bradou Henrique indignado.

— E o que seria tipinho para você? — os lábios do garoto estavam trêmulos.

— Pedro, chega!

— Não! Quero saber o que essa daí pensa sobre mim!

— Essa daí não, seu moleque abusado! — Aproximou-se rapidamente e apontou o dedo na cara do adolescente, que empurrou o braço da mulher com a costa da mão.

— Eu moleque? A única moleca que vejo aqui, é você!

— Henrique! — Mirou no primo, pedindo auxilio com os olhos.

O pai puxou o filho, girando-o em direção à porta.

— Essa mulher fala mal de mim pra Amanda! — firmou os pés no chão contra a força que o pai aplicava. — Não só para ela, mas para as mães dos meus amigos. E o senhor fica do lado dela? — questionou indignado.

— Não estou do lado de ninguém, só não quero que você a agrida! — rechaçou, o segurando pelos braços. — Vamos conversar aqui na sala.

— Falo a verdade! — contrapôs a mulher, avançando. — Falo porque não quero a minha filha na companhia desse marginal!

— Fernanda, chega! — protestou o homem.

— E na companhia dos alunos de bem! — bradava como uma metralhadora desgovernada. — Um dissimulado que só engana meninas burras e carentes. — Proferia com desprezo.

— Você tá chamando sua filha de burra e carente? — Pedro perguntou.

A mulher avançou sob os dois e gritou:

— Não! Jamais! Ela é muito inteligente para se interessar por um "merdinha", feito você!

Um tremor avassalador tomou conta do corpo do garoto.

— Fico pensando como as idiotas caem nesse seu papinho chulo, e que prazer você vê nisso? — disparou estreitando os olhos.

— Talvez o mesmo que você sinta quando vem se oferecer às escondidas para o meu pai! — Pedro objetou com veemência.

Fernanda avançou, arranhando-o no braço, mas fora contida por Henrique, que a segurou por trás, afastando-a.

— Seu drogadinho de merda! Me solta, Henrique! — esbravejou esperneando.

— Para com isso! — pediu o primo.

— Traficante! Lixo!

— O que cê tá dizendo? — o homem a girou com força, e a encarou firmemente.

A mulher encarou Henrique com um sorriso debochado, contudo percebeu que havia falado demais.

— Você não sabe de muita coisa. — continuou ela.

— Do que eu não sei? — A olhava raivosamente.

— Vá até a escola e descubra! Verifique o que ele faz por lá! — instigou com ódio.

— Cala a boca! — gritou o adolescente.

— Constate com os próprios olhos o que esse fumador de maconha faz!

— Chega! — gritou Henrique com firmeza. — Acabou aqui, Fernanda!

— Não vou me calar pra ele!

— Não só para ele, como também para mim! Não quero mais ouvir, não quero mais nada! Chega, deu!

Ela, relaxando os músculos, o observou.

— Deu? — uniu as sobrancelhas, receosa.

— Já chega! Tô cansado dessa situação bizarra! — confessou, engolindo a raiva.

A mulher moveu-se rapidamente nervosa.

— Que situação? A que ele nos colocou? — o medo a assolou.

— A que nós nos colocamos! Não quero mais isso! Acabou. Somos adultos e isso está indo longe demais! — Henrique queria parecer lógico.

— Você está querendo terminar por causa disso? — apontou para Pedro.

— Não tenho mais paciência! Não somos mais adolescentes!

— Você não pode fazer isso comigo por causa desse... — gesticulou enlouquecida.

— Avalie bem o que vai dizer, porque pode ser a última coisa que vai conseguir falar! — ele interrompeu bruscamente.

O rosto de Fernanda pareceu murchar.

— Não faz isso comigo... Vamos conversar! — a voz estremeceu.

— Perdemos o respeito! — ainda a segurava com força pelos braços.

— Não... É sério! Você não pode estar falando isso! — balançava a cabeça e tremia. — Não vamos apagar uma história por causa dessa situação! Por causa dele. — Apontou trêmula.

— Ele é meu filho! — voltou ao tom usual.

Os dois se olharam em silêncio por poucos segundos.

— Não aceito! Olha o que você fez! — empurrou o primo, foi até Pedro e o segurou pelos braços, completamente fora de si.

— O show acabou, Fernanda! — Henrique a puxou com mais violência e praticamente a atirou para fora da casa.

— Não faz isso comigo, não faz!

— Depois a gente conversa. — continuou agressivamente, levando-a até o portão.

— Por favor! — suplicou.

— Depois te ligo! A gente se fala... — seu coração explodia no peito.

— Não! — gritou enlouquecida.

— Agora vai embora! — clamou. — Por favor!

Ela continuou parada o observando, descrente. Chorou compulsivamente e saiu da propriedade, parando na calçada. Tinha consciência de que não deveria ter falado aquilo. Entretanto, o ódio que sentia pelo garoto era colossal. Nem mesmo o amor doentio que sentia por Henrique conseguia lhe devolver o controle.

Enxugou as lágrimas e caminhou atônita para o carro que deixara na esquina.

Pedro foi até a porta do quarto do pai e apanhou o celular do chão, que tocou novamente. Recusou a chamada de Tainá, quis gritar e socar a parede. Passou as mãos na cabeça tentando digerir a situação que acabara de presenciar, girou em torno de si mesmo e avançou para a porta engasgado.

— Tenho que ir! — falou ao ser interrompido pelo pai.

— Precisamos conversar. — o segurou pelo braço.

— Tenho compromisso. — Olhou para a mão do pai.

Houve então uma troca de olhares incomum. Algo invisível e implacável os prendeu no silêncio. A amistosa relação entre pai e filho, que mais pareciam irmãos, fora marcada com um corte profundo que, possivelmente, não se regeneraria.

— O que ela disse é verdade? — a dúvida fora injetada.

Pedro olhou dentro dos olhos do pai. As grossas lentes embaçadas com o ritmo descompassado da respiração.

— Acredite no que quiser. Não vou ficar me defendendo das acusações daquela doida. — riu nervoso.

— Eu quero acreditar em você, Pedro! — assentiu apertando o braço do filho.

— O que o senhor quer que eu fale? Que eu diga que não? — deu de ombros.

— A verdade. — o pai disse em tom mais ameno.

— Acredite no que quiser. Agora, por favor, solta o meu braço!

O pai afrouxou os dedos devagar. Cada dedo solto representava um largo espaço que se moldava entre os dois. A confiança fora rompida, dilacerada naquele exato momento.

Pedro foi de costas até a porta. Não sabia o que sentia, já que sempre questionou a distância entre ele e Fernanda. Sempre houve uma resposta... Só não fora revelada. Soltou a respiração pesada, girou o corpo e saiu porta afora.

Ainda avistou a mulher, já dentro do carro do outro lado da rua, no final da esquina, e praticamente correu até o ponto de táxi mais próximo, entrando quase que tropeçando no primeiro veículo.

Nada via pela janela do carro, nada pensava além da cena que vivera no quarto. Se Fernanda tinha um caso com o seu pai, por que nunca permitiu a sua aproximação com Amanda? A seu ver, tornaria tudo mais fácil, estreitaria a relação entre todos. Desde criança era repelido por ela. Fazia questão de lhe dar beliscões, empurrões, depois afirmava que estava brincando. Se ele era filho do homem que ela amava, como podia sentir tanto ódio e por quê? Respostas não surgiam e a raiva que se espalhava o fazia tremer. Queria socar algo, machucar alguém, gritar, beber algo forte ou até mesmo provar a cocaína que tanto comentavam. O objetivo era sanar o mal-estar que o assolava. Se deu conta de que não conseguia informar ao motorista o destino final. Seria uma boa companhia para a namorada?


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